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A influência da modernidade

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 56-62)

Segundo Gomes (2005), três foram os elementos fundamentais do nascedouro da modernidade: caráter de ruptura, imposição do novo e a pretensão de alcançar a totalidade. Ou seja, para ser moderno, aquilo que existia antes passou a ter e ser uma referência negativa.

Pode também substituir coisas do passado defasadas ou que no presente não se justifique mais, ou seja, o “novo” é o que é legítimo.

A Modernidade traz consigo as bases da sociedade ocidental em todas as esferas da mesma. A Modernidade também é resultado do acúmulo e organização das idéias do mundo greco-romano e da teologia judaico-cristã. Associada a ela a ciência moderna em sua gênese, representará uma maneira nova de ver e pensar o mundo. Fritjof Capra (1999) explicita quer até antes de 1500 a visão de mundo era diferente, caracterizada pela vida em comunidade e dominada ideologicamente pela Igreja Católica.

Tomás de Aquino fez um sistemático arranjo com os estudos de Aristóteles, combinando um conjunto de teologia e ética cristãs, válidas durante toda a Idade Média.

A natureza da ciência medieval era muito diferente daquela da ciência contemporânea. Baseava-se na razão e na fé, e sua principal finalidade era compreender o significado das coisas e não exercer a predição ou controle. Os cientistas medievais, investigando os desígnios subjacentes nos vários fenômenos

naturais, consideravam do mais alto significado as questões referentes a Deus, à alma humana e à ética (CAPRA, 1999, p.49).

Então, as contribuições do pensamento científico começaram a estruturar uma nova visão de mundo, pois durante o século XV e XVI a antiga visão de um mundo vivo e espiritual foi sendo substituída pela noção de um mundo como uma máquina, devido às mudanças na física e na astronomia (CAPRA, 1999, p.49). Os arranjos foram se tornando complexos, na medida em que elementos da religião iam ganhando um corpo científico, na identificação do que era ser mau ou bom, daquilo que seria santo ou profano, etc.

Ainda Capra menciona que a física passou a ser então a base de todas as ciências, pois se o mundo realmente fosse uma máquina, a melhor maneira de entender seria recorrer à mecânica newtoniana- cartesiana (CAPRA, 1999, p. 63). Esses elementos forneceram os pilares da modernidade, de “ordem” assim comentada por Bauman (1998):

De fato, pode-se definir a modernidade como a época, ou o estilo de vida, em que a colocação em ordem depende do desmantelamento da ordem “tradicional”

herdada e recebida; em que “ser” significa um novo começo permanente (BAUMAN, 1998, p.20, grifo do autor).

Para o autor acima citado, seriam três as bases da modernidade: beleza, limpeza e ordem. A partir delas a sociedade moderna se edificaria.

Assim como “cultura” ou “civilização”, modernidade é mais ou menos beleza (“essa coisa inútil que esperamos ser valorizada pela civilização”), limpeza (“a sujeira de qualquer espécie parece-nos incompatível com a civilização”) e ordem (“Ordem é uma espécie de compulsão á repetição que, quando um regulamento foi definitivamente estabelecido, decide quando, onde e como uma coisa deve ser feita, de modo que em toda circunstância semelhante não haja hesitação ou indecisão”). A beleza (isto é, tudo o que dá o sublime prazer da harmonia e perfeição da forma), a pureza e a ordem são ganhos que não devem ser desprezados e que, certamente, se abandonados, irão provocar indignação, resistência e lamentação. Mas tampouco devem ser obtidos sem o pagamento de um alto preço. Nada predispõe

“naturalmente” os seres humanos a procurar ou preservar a beleza, conservar-se limpo e observar a rotina chamada ordem. (Se eles parecem, aqui, e ali, apresentar tal “instinto”, deve ser uma inclinação criada e adquirida, ensinada, o sinal mais

certo de uma civilização em atividade). Os seres humanos precisam ser obrigados a respeitar e apreciar a harmonia, a limpeza e a ordem. Sua liberdade de agir sobre seus próprios impulsos deve ser preparada. A coerção é dolorosa: a defesa contra o sofrimento gera seus próprios sofrimentos (BAUMAN, 1998, p.08).

No excesso de ordem, nasce a escassez de liberdade, e dela emanará a luta pela liberdade individual para a procura do prazer, algo tão presente na sociedade ocidental e cada vez mais acentuado. É muito interessante observar isso: liberdade e segurança andam juntas, e é alarmante pensar os prazeres sem as mesmas. A felicidade em tê-las é a de poder usufruir o que as mesmas dispõem (de poder possuir o que se quiser ter), valores esses que passam a ter uma importância econômica e assim por dizer, do peso cada vez mais crescente que o prazer foi adquirindo nas sociedades ocidentais.

A modernidade empreendeu reformas urbanas em muitas cidades. A limpeza urbana (pureza, higiene) da pobreza nas áreas centrais, o alargamento de ruas, a organização das atividades econômicas e seu lugar na cidade, enfim, a paisagem urbana, sobretudo nas áreas centrais, entrando em um sistema “lógico” de organização. Contudo, isso não significou que as diretrizes escolhidas foram as melhores, pois é evidente que este modelo seguiu uma complexa trama de interesses, no tempo e entre diversos grupos.

É salutar então, observar que a modernidade propõe uma solução estética para o mundo, e tem ojeriza aquilo que lhe é contrário. Beleza, limpeza e ordem serão ideais a serem perseguidos, pagando um alto preço por sua implementação. Basta lembrar-se da “solução final alemã”, como uma solução estética, um texto a ser escrito, a eliminação daquilo que não combinava com os ideais castos da idéia de pureza.

Torna-se claro, então, observar que por uma série de constructos de senso comum de suas perspectivas de realidade da vida diária, por elementos construídos no tempo, pelo discurso científico, um ambiente natural e sócio-cultural, é pré-selecionado e pré-interpretado, levando um indivíduo, um grupamento, uma sociedade, ao condicionamento “nenhum de nós

pode construir o mundo das significações e sentidos a partir do nada: cada um ingressa num mundo ‘pré-fabricado’” (BAUMAN, 1998, p.16). Sobre isto, pois, é extremamente singular refletir, porque muito daquilo que se vê como “natural” nas sociedades modernas, na realidade, não o é. Contudo, foi construído e condicionou os indivíduos. Como exemplo, a ciência como uma verdade quase que absoluta ou a pobreza, se tornando invisível nos grandes centros urbanos por ser “natural”.

Se a “sujeita” é um elemento que desafia o propósito dos esforços de organização, e a sujeita automática, autolocomotora, e autocondutora é um elemento que desafia a própria possibilidade de esforços eficientes, então o estranho é a verdadeira síntese desta última. Não é de surpreender que as pessoas do lugar, em toda a parte e em todos os tempos, em seus frenéticos esforços de separar, confinar, exilar ou destruir os estranhos, comparassem o significado de sua ação a rotinas higiênicas; combateram os “estranhos”, convencidos de que protegiam a saúde contra os portadores de doença (BAUMAN, 1998, p.19).

O mesmo autor destaca que “só a sociedade moderna pensou em si mesma como uma atividade de ‘cultura’ ou da ‘civilização’ e agiu sobre esse autoconhecimento” (BAUMAN, 1998, p 07, grifo do autor). Ser ocidental, portanto, não é ser “bom” ou “mau”, e sim possuir determinadas características que se distinguem dos demais grupos, quer seja por sua organização social, religião, ou através das idéias e conhecimento científico desenvolvido.

Na modernidade a vida é celebrada e constituída como um valor, a ser levada de forma cabal a todos, ela deve ser preservada, e a morte, como algo digno, (dependendo de como aconteça, como nas guerras), e de certa forma, como algo a ser vencido. O homem e seus feitos são valorizados, o bem comum, a vida em sociedade.

O que se esta objetivando mostrar é que a construção da modernidade (mundo newtoniano-cartesiano aliado a teologia judaico-cristã) constituiu um modelo ideológico na confecção das idéias que permeiam o ocidente através do tempo, e por assim dizer, da violência urbana, já que antes de qualquer coisa ela é uma idéia, muitas das vezes justificada no discurso religioso. Muito do que está na negação da violência urbana (busca da ordem, da

pureza e beleza), na verdade encontra-se na ideologia da modernidade, complementada através do discurso religioso, da idéia de mal, de bem, de pecado, etc. Glaken (1980) destaca a importância para a ideologia do ocidente as contribuições da teologia judaico-cristã, como a idéia de que o homem ocupa uma posição na Terra (comparada a de Deus no universo), como um ser controlador e modificador do desenvolvimento. As ações pecaminosas são a punidas com poderosas e violentas catástrofes naturais. A natureza subjugada ao homem é a mesma que o castiga de acordo com os desígnios divinos. Ao mesmo tempo é dever do homem dominar a natureza, cercando-a, apropriando-se dela. Aqui fica claro que isso se tornou uma busca incessante do ocidente, o controle da natureza.

Portanto muitos dos fundamentos da teologia judaico-cristã foram aproveitados para a formação da idéia de homem, natureza e sociedade, no mundo moderno. Mundo este que se reinventou, e cada vez mais rápido, principalmente após a revolução industrial, que aperfeiçoou a metáfora do mundo como máquina. Seres humanos serão selecionados, principalmente de acordo com seus rendimentos, e uma gigantesca massa de população perigosa (-excluídos do modo de produção)- nascerá e multiplicar-se-á, principalmente nas metrópoles.

Inkeles e Smith (1974) destacam que a modernidade nas cidades não é resultado de uma experiência urbana isolada, mas sim dos contatos mantidos com a escola, com os meios de comunicação e com as fábricas, encontrados nas cidades.

Ianni (2000) afirma que a grande cidade é o laboratório da modernidade e da pós- modernidade, o lugar aonde se desenvolvem suas bases, como o mercado, o dinheiro, o direito a política, a individualização, a racionalização, as artes, a ciência, a arquitetura, urbanismo, o privado, o público, a multidão, a massa, o cidadão, a cidadania, o solitário e a solidão, o suicida, etc. Salienta que a cidade moderna é um refugo e evasão, trabalho e alienação, diversidade e desigualdade, comunidade e sociedade, modernidade e pós-modernidade.

Um mundo desregulamentado e privatizado ganha corpo na pos-modernidade, que traz a tona o consumismo como a sua marca. A privatização de tudo, a ausência do Estado nas políticas públicas, na pós-modernidade, tudo é relativizado, como o bem comum, a vida e a morte, tornando-se banais.

Harvey (2006) aponta que a arquitetura é um dos meios nos quais se melhor observa as diferenças entre a modernidade e a pós-modernidade. Na primeira os planejamentos deveriam ser em planos urbanos de larga escala, de alcance metropolitano, sendo tecnologicamente racionais. Na segunda, se cultiva um tecido urbano como algo necessariamente fragmentado um “palimpsesto” de formas superpostas, uma metrópole é comandada em pedaços, valorizando suas especificidades, gerando espaços personalizados

“sob medida” para as necessidades específicas de determinados grupos. Foi importante tecer alguns comentários sobre as diferenças entre ambas, para que uma metrópole, sobretudo num país em desenvolvimento como o Brasil, em especial o Rio de Janeiro, se observem essas marcas, modernas e pós-modernas.

Verifica-se, sobretudo, que os pós-modernistas se afastam de modo radical das concepções modernistas sobre como considerar o espaço. Enquanto os modernistas vêem o espaço como algo a ser moldado para propósitos sociais e, portanto, sempre subserviente à construção de um projeto social, os pós-modernistas o vêem como coisa independente e autônoma a ser moldada segundo objetivos e princípios estéticos que não têm necessariamente nenhuma relação com algum objetivo social abrangente, salvo, talvez, a consecução da intemporalidade e da beleza “desinteressada” como fins em si mesmas (HARVEY, 2006, p.69).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 56-62)