• Nenhum resultado encontrado

O medo na cidade do Rio de Janeiro

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 103-113)

Os tipos de medo variam no tempo e no espaço. No entanto, o que o faz nascer, uma ideologia, jamais morre e sim se modifica, de acordo com o contexto da época e/ou da necessidade de determinados grupos em manter outros sob um oculto domínio de um inominável inimigo.

É no capitalismo que os medos serão mais bem desenvolvidos nas cidades (TUAN (2005); BAUMAN (1998, 2008)) não mais pelas fábulas, mas de seres humanos infligindo mal uns contra os outros, mesmo que nem saibam do que sejam acusados. Na Europa, eram os pobres portadores do mal e das doenças.

Essas “novidades” não tardam a chegar e, na cidade do Rio, são revestidas de algo ainda mais cruel, pois já havia um grupamento humano que era desprezado na sociedade: os negros.

Era uma cidade insalubre no século XIX, e só para citar a rede de esgotos, que atendia apenas a população rica. Aos pobres (principalmente negros), as valas e habitações, precárias de tudo, eram as áreas malsãs. O fator decisivo na moradia era a proximidade do local de trabalho. As habitações pobres, principalmente os cortiços, eram descritos como: repugnante foco de pestes, pocilgas imundas, antecâmaras da morte, antro de promiscuidade, de vagabundos, ladrões e meretrizes, gente sem lei e sem ordem, que espalhavam pela população a ociosidade e a indisciplina. O meio encontrado para começar a equacionar este problema foi a vacinação, o saneamento e a construção de casas higiênicas, longe da área central e o fim dos cortiços. Essas medidas não foram tomadas por fins humanitários, mas por estas condições afetarem a formação de mercado de força de trabalho (BARBOSA, 1992).

O mesmo autor acima cita as fábricas de morte que eram as unidades manufatureiras na cidade. Não eram somente os cortiços que levavam a morte, sem diferenciação de sexo ou idade.

A propagação do medo é então uma construção induzidora e que acaba por justificar as políticas autoritárias de controle social. O século XX vê nascer uma República excludente, intolerante e truculenta, num crescente medo branco dos negros.

A alcunha de classes perigosas era uma referência aos pobres e negros na cidade, a partir da metade do século XIX, por estes grupos desafiarem as políticas de controle social no meio urbano e por serem considerados portadores de doenças. A violência no despejo e na demolição era marcante (BATISTA, 2003). Abaixo, uma demonstração dessas ações no cancioneiro popular sobre as reformas urbanas, composta por Adoniran Barbosa, chamada

Saudosa Maloca”:

Se o senhor não tá lembrado Dá licença de contar

Ali onde agora está Este "adifício arto"

Era uma casa "véia", um palacete assobradado Foi aqui seu moço

Que eu, Mato Grosso e o Joca Construimos nossa "maloca"

Mas um dia

"nóis" nem pode se "alembrá"

Veio os "home" com as ferramenta E o dono "mandô derrubá"

Peguemos todas nossas coisas E fumos pro meio da rua

"Apreciá" a demolição Que tristeza que "nóis" sentia Cada táuba que caía

Doía no coração Matogrosso quis gritar Mas em cima eu falei Os "home tá cá" razão

"nóis arranja" outro lugar Só "se conformemo"

Quando o Joca falou

Deus dá o frio conforme o "cobertô"

E hoje "nós pega" a paia Nas grama do jardim

E pra esquecer "nóis cantemos" assim:

Saudosa maloca, maloca querida

Dim dim "donde nóis passemo" os dias feliz de nossa vida Saudosa maloca, maloca querida

Dim dim "donde nóis passemo" os dias feliz de nossa vida (http://letras.terra.com.br/demonios-da-garoa/45444/)

A canção narra à ocupação de um antigo casarão, antes pertencente a uma família rica que por alguma razão abandonou a área central, ocupado em seguida por pobres, que acompanham a sua demolição como fruto da reforma urbana, comum não somente no Rio, mas em São Paulo também. Essa prática foi muito comum nas áreas centrais decadentes no fim do século XIX e início do século XX. Era preciso higienizar, tornar as cidades mais

“puras” (BATISTA (2003), BAUMAN (1998; 2008), BARBOSA (1992). Restava à população pobre a saída dos lugares privilegiados pelo capital e dirigirem-se aos subúrbios, lugares assim descritos por Lima Barreto:

Há casas, casinhas, casebres, barracões, choças, por toda parte onde se possam fincar quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas. Todo material para essas construções serve: são latas de fósforo distendidas, telhas velhas, folhas de zinco, e para as nervuras das paredes de taipa, o bambu, que não é barato. Há verdadeiros aldeamentos dessas barracas. (…) Nelas há quase sempre uma bica para todos os habitantes e nenhuma espécie de esgoto. (…)

A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, encontrando ponto de honra, brigando, (…). O estado de irritabilidade, provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora (…) motivo para explicar seu mal-estar (…). Uma diferença acidental de cor é causa para que possa se julgar superior (…).

Por esse intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.

Nem lhes facilita a morte, isto é, o acesso aos cemitérios locais (…).

Mais ou menos é assim o subúrbio, na sua pobreza e no abandono em que os poderes públicos o deixam. (…). O subúrbio é o refúgio dos infelizes (…) enfim,

todos os que perderam a sua situação normal vão se aninhar lá. (…) os trens descem cheios. (…).

Os córregos são em geral vales de lama pútrida, que, quando chegam as grandes chuvas, se transformam em torrentes, a carregar os mais nauseabundos detritos (BARRETO, 1996, p.46).

A oposição higiene/pureza x sujeira/abandono são marcantes na cidade capital da República, servindo de modelo para todo o país. Era a política de controle urbano da elite branca visando controlar as supostas insurreições dos negros e dos pobres. Os afastados subúrbios e favelas eram estratégicos. Foi contra eles que a República se voltou, pois era a referência de marginalidade, vadiagem, etc. (CHALHOUB, 1996).

A expansão da cidade seguiu três linhas: centro-zona sul, centro-zona norte (montanhas) e seguindo os trilhos da rede ferroviária os subúrbios. Com o fim da escravidão, houve grande incentivo à entrada de imigrantes, principalmente nordestinos, na cidade, que tinham como lugar de moradia as favelas e subúrbios. As encostas ocupadas pelas favelas são sempre alvo das preocupações dos discursos políticos, que na verdade encobrem uma visão estética nociva que estas áreas representam para grupos imobiliários, num discurso contínuo de risco, “risco à saúde” no passado, e, na atualidade, “risco ambiental” (repare que envolve normalmente aquelas localizadas em bairros ricos). Na verdade, a favelização está associada à contínua desproporção na demanda de habitações populares e outro fator a ser considerado é a vida solidária e comunitária desses grupos (CAMPOS, 2007). No mapa abaixo (Fig.7), a distribuição das favelas entre 1948-1950, na zona sul e na Leopoldina, acompanhando a linha férrea e a avenida Brasil.

(Fig. 7: Favelas entre 1948 e 1950 na cidade do Rio de Janeiro, ABREU, 1997)

É somente neste período que, quando a favela se expande, toca e cresce ao longo do asfalto, é oficialmente contabilizada pela prefeitura do Distrito Federal e começa a causar preocupações, já que antes nem era vista, embora existisse, mas sem representar perigos, pela sua separação da cidade (SILVA, 2005).

Campos (2007) destaca que, em 1975, a fusão da Guanabara com o estado do Rio de Janeiro provocou uma degradação sociopolítico-espacial acentuadamente na capital. Isto porque foi o autoritarismo, numa fusão da segunda economia do país com um estado com uma economia estagnada, como a do Rio de Janeiro, tendo que repartir sua arrecadação com uma área muito maior e mais pobre que a sua. A cidade foi assistindo à saída de várias empresas para outros estados, à perda da qualidade de vida de seus habitantes e às favelas incrementadas no espaço carioca. Em 1950, eram 59 favelas, em 1991 eram 537, a porcentagem de 6% atinge 18% no mesmo período! O PIB de mais de 16% do nacional caiu a menos de 11%.

Perlman (1977) buscou desconstruir a imagem que vinha se formando sobre a marginalidade dos favelados no Rio de Janeiro, pois a construção era generalizante. Contudo os anos subseqüentes mostraram um acirramento ainda maior entre as favelas e a cidade.

Nos anos 1970 e 1980, a cidade viu surgir nas favelas o comércio de drogas, embora já conhecidas antes em bairros da zona sul (tendo, nas mais caras, o consumo justificado como uso terapêutico) e, nas favelas, as mais baratas como a maconha. Nos anos 1980, a territorialização da atividade (usando a base preexistente do jogo do bicho) direcionou-se em maior potencialidade para as favelas, não apenas pelas formas de organização espacial, mas também pela inicial aceitação da comunidade, a uma atividade que associada ao jogo do bicho gerava renda interna (CAMPOS, 2007).

A exclusão no direito à terra entre outros estatutos impediu a população pobre ascender socialmente e a conseqüência disto foi a segregação espacial do solo urbano, ambas com a participação ativa do Estado.

A década de 1980, conhecida como década pedida, foi o período em que houve um acirramento entre a favela e o asfalto, acompanhando a grave crise econômica pela qual o país passava.

Nos início dos anos 1990, a situação não melhorou, até que, em 1992, os cofres da cidade quebraram, e, em 1993, as praias da cidade foram o teatro de horror com os arrastões na zona sul.

Mas, dentro da favela, a situação não é sempre estável. Se a mesma representar um ponto interessante a venda de drogas, será disputada por grupos rivais para o controle da comunidade e dos pontos de venda ali existentes. A ocasião somente sofre a intervenção do Estado quando essa situação interfere na vida dos moradores da cidade formal, exigindo uma intervenção da “ordem” estatal. A questão é grave, pois se as favelas se multiplicam obedecendo aos eixos econômicos, e o tráfico desde 1985 tem acompanhado a favela, então

na cidade do Rio o problema é estrutural (CAMPOS, 2007). São exceção as favelas que não fazem parte do tráfico, ou por estarem sob domínio das milícias (organizações compostas supostamente por militares ou ex-militares que expulsam o tráfico de drogas do lugar em troca de proteção paga da população e do comércio local), serem de baixa densidade demográfica, entre outros fatores locais. Na atualidade, a cidade do Rio tem visto um crescimento vertiginoso das milícias que se destacam com um componente de agravo a dos envolvidos com o tráfico: têm ambições políticas e têm elegido os próprios candidatos (SOUZA, 2008).

Na questão de violência, os grupos que promovem o tráfico não promovem algo muito diferente da violência atroz cometida pelo Estado nos lugares pobres, sobretudo nas favelas.

Isso porque o Estado é o principal agente dentro do contexto de exclusão econômica e social, ou seja, uma política que leve as pessoas à morte e ao sofrimento é extremamente violenta.

Esse contexto se agrava na atualidade, em que os governantes se vêem cada vez menos desobrigados de, através do Estado, aumentar sua presença na correção das desigualdades sociais.

Outra questão é a exigência cada vez maior de qualificação da mão-de-obra, situação que faz com que diminua a chance de entrada no mercado de trabalho dos trabalhadores não qualificados. A situação é dramática, pois a informalidade do mercado de trabalho tem estado cada vez mais presente entre os adultos e entre a juventude pobre é inominável: poucas opções, e as que surgem proximamente são ligadas a atividades condenadas com rigor pela sociedade. Uma política séria levaria a desmobilização de grande contingente para o tráfico, causador de uma violência urbana nunca vista na sociedade. Associadas a idéias presentes na atualidade, como a do ganho fácil, de banalização da vida e da morte, nasce uma juventude que não se importa com mais nada que não seja o agora e o rápido, não importando como venha acontecer. O espelho é construído com o que se vê a sua volta.

Qual o modelo de jovem favelado? O de desempregados ou do bandido, com muitas namoradas, respeitado, com roupas de marca?

Diante deste contexto citado, na cidade formal, legal, ou do asfalto a sensação de violência generalizada tornar-se parte do dia-a-dia, pois a favela não está mais localizada longe do asfalto e sim em qualquer parte da cidade, e como já visto bem próxima aos eixos de crescimento econômico.

Contudo, sabe-se que, se todo este contexto fosse somente ruim, se não existissem poderosas redes e pessoas poderosas envolvidas, o problema estaria sendo encaminhado de forma diferente, buscando mais soluções reais e menos imaginárias.

Culturalmente, a partir dos anos 1970, a juventude suburbana gradativamente se afasta do samba e consome a cultura dos guetos norte-americanos, com direito a violência, observada na multiplicação dos bailes “funks”, principalmente nas favelas (CAMPOS, 2007).

A cultura “marginal” transforma-se em made in Rio, para todo o Brasil.

A ação da polícia, como instituição que gera revolta e medo pela repressão de forma violenta nas áreas pobres, não é novidade, já que o modelo de polícia adotado pelas classes dominantes foi este (SOUZA, 2008; CAMPOS, 2007).

A mídia traça as ações da polícia como não violentas e sim como chegada da ordem e as ações de grupos marginais como a mais assustadora forma de violência. Não se está aqui reduzindo uma ou outra, nem avaliando a melhor ou pior, mas a leitura que se dá a isso.

Manchetes como “Império do terror”, “O seqüestro da lei”, “Império do caos” são alguns exemplos (BATISTA, 2003). A idéia é de que a barbárie está na favela também porque nela se observara antiga associação com o tráfico de drogas, logo, a “ordem” precisa ser instaurada para que não avance sobre a cidade no asfalto. A mídia então fica a serviço de um falso direcionamento ao público (BARATTA, 1994). Com isso fica fácil aceitar a remoção das favelas, a intervenção de forças militares, etc. Esse discurso, que se assumido de forma

extremista acaba por se assemelhar-se ao nazismo, utilizando o mesmo conceito de doença e dando lugar ao genocídio.

O atual discurso animaliza o mal, (bandidos das favelas são adjetivados de animais, ou nomes dados a seres inferiores na biologia- vermes etc.- e, como são “favelados”, a falação acaba por se estender à favela como um todo. Logo, exterminar o banido e os moradores indiscriminadamente, propiciará a eliminação dos focos da “doença”), que deve ser exterminado ou limpo, mas objetivando o mesmo: eliminação (BATISTA, 2003). É salutar apontar que o que está sendo discutido aqui é a extensão de um discurso a toda uma comunidade e não se defendendo a bandidagem.

Eu sustento que os moradores da favela não são econômica nem politicamente marginais, mas são explorados e reprimidos; que não são social e nem culturalmente marginais, mas são estigmatizados e excluídos de um sistema social fechado PERLMAN, 1977, p. 235).

A atualidade se caracteriza pelo “espetáculo” através dos meios de comunicação, a indústria cultural. Atividade esta que dita novas formas de se viver e novos valores, novas subjetividades, ou tudo isso com uma nova roupagem. O espetáculo é então um conjunto de subjetividades relativas, nos relatos, nas ações, nas personagens envolvidas. Essa indústria indica aquilo que é real e o que é prioridade: “o que está sendo apresentado aqui é de utilidade pública” – quem não ouve isso muitas vezes no dia? Quem não acompanha as notícias de tantos mortos em mais uma incursão da polícia no embate com marginais? Ou das “balas perdidas”? Quem diz a verdade, já que a mesma é dita como um valor relativo e pode ser

“produzida”?

Conclui-se, portanto que a violência urbana, o medo e a criminalidade não são apenas dados em si mesmos, mas também podem ser socialmente construídos, com a forte presença dos meios de comunicação, que diariamente trabalham na construção da violência urbana.

O autor do presente trabalho assistiu alguns jornais televisivos matutinos das principais emissoras de TV, na intenção de observar o que é noticiado, e ficou muito clara “a preparação para a guerra” que esses jornais fazem aos telespectadores, com mais de 50% por cento das notícias vinculadas à violência urbana. Obviamente não se está aqui buscando evidenciar que a violência noticiada não existe, porém o discurso noticioso é o de uma guerra.

A população pobre diretamente relacionada à marginalidade ainda é culpada por sua miséria, marginalidade e criminalidade (COIMBRA, 2001).

Ser pobre no Rio de Janeiro é mais que ser carente socioeconomicamente, mas espacialmente, relacionada a essa última a topografia e a natureza da cidade, determinando ou condicionando quem ocupa aonde. E a relação pobreza e miséria com a violência urbana ecoam na atualidade, ou seja, pobre são perigosos por serem pobres. Não fica difícil observar que este medo levará a auto-segregação dos ricos pela segurança e distancia dos pobres.

Vêm da mídia e das classes abastadas os discursos mais extremistas da necessidade de ordem e segurança na cidade. Meios até então não falados passam a serem desejados como alento para a paz, como as torturas, desaparecimentos, etc.

Um terror também paira nas favelas, mas não por medo de seus iguais, mas revestido de incerteza e mistério. Os grupos que as atacam, muitos deles “encapuzados” (que podem ser policiais ou bandidos), não estão na mídia pedindo ordem ou segurança, e nem avisam quando será a operação, tão somente atacam, sem se importar quem seja a vítima. No dia-a-dia não há mais o horror e o choque de corpos despedaçados em grande quantidade próximos a sua residência (SOUZA, 2001).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 103-113)