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A violência nas cidades

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 67-79)

São caracterizadas, com estereótipo, as favelas e periferias como os grandes cenários de violência urbana, pelos veículos de comunicação, por se encontrarem quase que exclusivamente pobres. Ramos e Paiva (2007) destacam que um fator que pode estar relacionado a isso seria o de a grande maioria dos jornalistas serem moradores de bairros de classe média, o que faria com que tivessem pouca ou nenhuma experiência como moradores nestas áreas, e, como conseqüências não teriam sensibilidade diante do sofrimento dos moradores. Além disso, a grande maioria de jornalistas é composta de pessoas brancas.

A cobertura muda quando muda o nível social dos envolvidos. Ramos e Paiva (2007) citam as palavras do diretor de um grande jornal do Rio de Janeiro afirmando jocosamente que matéria grande em favela longe, só acima de 12 morros, mas caso seja na favela da Rocinha (não somente pelo seu tamanho, mas por sua localização, em área nobre da cidade) se dá muita importância. Outro caso notório de disputa entre a mídia foi o caso de Suzana Von Richthofen, que, caso tivesse sido cometido por uma pessoa pobre, mereceria no máximo uma pequena nota. E aí se questiona a serviço de quem a mídia estaria.

O mesmo autor ainda enfatiza que o termo em questão, primeiramente, interroga o crime comum, mas o centro de sua atenção não é o “estatuto legal das práticas consideradas”, e sim a “força nelas incrustadas”, que é decodificada como responsável pela quebra “da normalidade” dos hábitos cotidianos, ou seja, do caráter não-problemático dessas rotinas em todas as feições: cognitivo, instrumental e moral. Daí, segundo o mesmo, a violência urbana não poder ser simplesmente observada como sinônimo de crime comum nem de violência em geral.

Silva (2004) realça o reconhecimento da violência urbana como uma forma de vida materializada como uma ordem social, não se tratando apenas do crime comum violento, no qual a força é simplesmente um meio de alcance de interesses, podendo ser substituída por alternativas. Também não se trata de uma simples interpretação de desvios de conduta da parte dos criminosos. O conceito é uma categoria de senso comum, coletivamente edificado, para dar conta do fato de que faz parte do dia-a-dia um intricado de práticas do qual a força é o componente aglutinador responsável por sua articulação e concernente permanência ao longo do tempo.

Silva (2004) realça que o cerne da questão das representações da violência urbana é apreender e anunciar uma ordem social, mais do que um conjunto de condutas isoladas, ou seja, as intimidações à integridade física e patrimonial percebidas provêm de um complexo orgânico de práticas, e não de ações individuais.

Ianni (2004) indica uma relação direta entre globalização, urbanização e violência urbana, pelo vulto que a cidade vem adquirindo em sua diversidade e desigualdade, acomodações e tensões, hierarquias e contradições, modos de ser e estilos de vida, multiplicam-se também a fragmentação, o conflito e a violência. O autor adverte ser possível afirmar a cidade como o lugar por primazia da violência, já que é nela que ocorrem a maior

parte das fragmentações, desigualdades e alienações, fermentando agressões e destruições, atingindo pessoas, coisas, idéias, sentimentos, atividades e ilusões. Nela, realça, a qualquer momento, alguém, alguma idéia ou símbolo, pode ser atingido, mutilado, deformado, arruinado, já que é na cidade, no jogo do poder, que se concentram as mais importantes forças sociais.

Num mundo em que as cidades costuram-se umas às outras, ligadas numa rede de circulação de empresas, mercadorias, pessoas e idéias, os problemas, tensões e conflitos, diferenças e desigualdade também se entrelaçam, fazendo do mundo uma cidade, sendo a mesma uma síntese literal e metafórica da sociedade.

Nas grandes cidades tudo está protegido, vigiado e encarcerado, de tal modo, que todos têm a certeza e o deslumbramento da segurança e da insegurança. O mundo vai se tornando uma fábrica de violência, daí Ianni (2004) aviva que a cólera da violência tem algo a ver com o aniquilamento do “outro”, “diferente”, “estranho”, com o que busca a limpeza da sociedade, o exorcismo de dilemas difíceis a sublimação da contradição embutida nas formas de sociabilidade e nos jogos das forças sociais.

O autor também explicita que a crescente “cultura da violência”- produção em série da cultura de massa, recheada de catástrofe, pânico e ruína- é assim caracterizada:

A pretexto de retratar e exorcizar a violência que impregna a fábrica da sociedade, exacerba e leva ao paroxismo todas as formas e gradações de violência, já que essa produção é também lucrativa, além de “despolitizar” multidões, influenciando mentes e corações ( IANNI, 2004, p 178).

Quem fomenta esta cultura constantemente, segundo o autor supracitado, é a indústria cultural, entendida como um setor econômico, financeiro, tecnológico e cultural, em que se designam vultosos capitais em empresas, corporações, e conglomerados nacionais e internacionais, ou seja, por todo mundo, levando a persistência e ao desenvolvimento da cultura da violência, terrorismo, catástrofe (p. 179).

A TV e o cinema têm um papel fundamental nesta fábrica já que são capazes de, com a incorporação de tecnologias, produzirem sentimentos, dor, violência, terrorismo, desastres, etc. Promovem assim a desordem e a criação de uma fantasia que pode levar à fuga dos terrores (reais ou imaginários), trazendo finais felizes ou podem também normalizar o que é insuportável, fazendo com que cada vez mais as pessoas se acostumem àquilo que é retratado (p. 182).

Ianni (2004, p.208) considera a íntima relação da violência com as desigualdades sociais, assim como observa que a maneira como as aglomerações humanas se apropriam, delimitam e molduram o espaço será a forma como têm acesso aos meios de produção e inserção na economia.

Sodré (2006) complementa Ianni enfatizando a violência como uma linha estrutural do caráter de arranjo social que foi plantada num país terceiro-mundista, sustentando a relação de implantação de um capitalismo periférico no Brasil, tendo como sustentáculo de seu existir e de sua manutenção a violência, que obviamente ocorrerá em todos os planos. Para tanto, o autor diferencia o termo em dois aspectos: violência invisível ou estado de violência e violência visível ou anômica.

A primeira se caracteriza por ser freqüentemente ignorada, por tratar-se do poder instituído, dos órgãos burocráticos, do Estado:

É uma condição contínua, uma condição estrutural, irrebatível, de violência, que deriva de um efeito de inércia que é ao mesmo tempo social e psicológico sobre os indivíduos e é imposto por uma ordem cosmopolita, que é a ordem do Estado, com seus aparelhos e as suas articulações políticas (MUNIZ SODRÉ, 2006, p35).

A segunda é anômica, e entendida como ruptura pela força desordenada:

É essa violência que dá lugar a delinqüência, à marginalidade, aos muitos ilegalismos, que são, possivelmente, coibidos pelo poder do Estado. É nesse campo

que se inscrevem os crimes de morte, os assaltos, massacres e outras variantes (MUNIZ SODRÉ, 2006, p.35-6).

Então, o autor pondera que, desta forma, a inserção da violência na experiência dos países pobres, se torna racionalmente inteligível quando se observa o “estado de violência”

como um delineio estrutural do estilo de arranjo social propagada nesses países. Daí o mesmo conclui que se passou a tratar a violência apenas como sendo o ato, quando se deseja nomear ações de coerção socialmente legitimados, e nunca sendo o estado de violência. Em seus estudos sobre imprensa e informação de violência, destaca que é uma prática lingüística geral, por parte dos dirigentes e da mídia quando se trata de ações do poder público usando de seus aparelhos, empregarem o termo força, violência será a reação do outro, por exemplo, dos camelôs.

Logo, pode-se entender que será na cidade que essas tensões se acumularão e multiplicarão, pois ali se localizará tanto instituições públicas, privadas, quanto indivíduos, ricos, pobres, etc. Nela, um modo de vida, de existir, de construir, de ser e fazer nascerá, morrerá, ampliará ou diminuirá.

Sodré (2006) enfatiza que se assiste a uma emergência da crueldade nessa “violência anômica”, pois afirma que a crueldade é o descomedimento animalesco da violência, o identificador de que esta violência já perdeu seu desígnio histórico, já que visava a edificação de outra ordem, de uma subversão, de um prêmio qualquer (p.40).

Bezerra Júnior (2006) comenta sobre a vida nas metrópoles brasileiras e discute o cenário de horror infligido pelo modo de produção periférico capitalista aqui imposto e a busca desenfreada pelo consumo, pelo sucesso material, afirmando que:

É neste quadro que a violência encontra oxigênio para se expandir. Quando a ideologia do individualismo e a cultura do consumo se mesclam num cenário no qual a política e os valores associados à ação coletiva, ao bem comum e à transformação social estão esvaziados e sem força no imaginário social, a violência aparece como um recurso para o qual um número cada vez maior de indivíduos se

volta, no intuito de se apropriar de algum modo de tudo aquilo que lhe é oferecido e negado ao mesmo tempo (BEZERRA JÚNIOR, 2006, p. 48-9)

O autor vai além (p.49), afirmando que essa violência, sobretudo a urbana, mais que passar a existir como conseqüência da pobreza econômica, é seqüela também de uma exclusão propriamente simbólica, da falta de significado infligido a uma existência, e ao valor abrasador, quase exclusivo, conferido à posse e exposição de certos ícones materiais como forma de aquisição de prestígio social. Os principais meios de divulgação desta “ordem” são os meio de comunicação, sobretudo aqueles que usam imagens. É uma inclusão excludente, ou seja, a sociedade esta incluída no imaginário do consumo e do individualismo, porém excluída das probabilidades de atingir o que este imaginário estimula a fazer.

Até aqui pode parecer tendencioso se falar apenas da violência urbana entre os pobres e não comentar os crescentes atos de violência entre as classes mais ricas, cujo centro são as disputas veladas ou abertas por bens. A vida nas cidades se caracteriza, segundo o autor por uma:

Crepuscularização dos valores tradicionais e pelo surgimento do valor econômico como central, os pais são cada vez mais percebidos como provedores de bens, mais do que como exemplos de vida, ou suporte de ideais. Quando por alguma razão, falham na tarefa de fornecer os bens a que os filhos julgam ter “direito”, tornam-se facilmente – com freqüência cada vez maior – alvos de violência (BEZERRA JÚNIOR, 2006, p.50, grifo do autor).

Um tópico que se destaca na vida urbana é o significado do termo vencedor, já que se vive numa cultura em que se afiança e estimula a concorrência a qualquer preço, nada é fronteira para quem quer vencer, nem mesmo a morte. Daí não ser muito complicado observar a crescente quantidade de jovens em situação de pobreza sentirem-se atraídos para o tráfico de drogas, mesmo que isso represente sua sentença de morte (p.50). Há algo mais que dinheiro aí envolvido, e sim algo simbólico, a posição que passam a ostentar, logo, passam a ser visíveis

socialmente. Além disso, se nota também o fascínio que essa modalidade de vida tem exercido entre as classes mais abastadas, com crimes, relacionamentos, tráfico, etc.

A lógica econômica invade todos os espaços da vida em sociedade e Bezerra Júnior (2006) faz importante e salutar observação:

A lógica econômica invade todos os espaços sociais, inclusive aquelas áreas da vida tradicionalmente imunes a ela, como o campo religioso. Com o surgimento das chamadas religiões da prosperidade, até o reino dos céus teve sua importância diminuída, ficando a vida materialmente próspera como objetivo e testemunho de uma prática espiritual bem-sucedida (BEZERRA JÚNIOR 2006, p.57).

Assim, a descrença, incerteza, precariedade, imprevisibilidade criam a atmosfera da ascensão do mercado no cotidiano. O curioso é que de forma paradoxal a mesma sociedade que incentiva a independência, autonomia e individualismo, não fez de seus membros seres libertos, pois concomitante à ascendência do mercado, há a preponderância dos diversos tipos de assistência. A liberdade está em adquirir os produtos e serviços oferecidos. Nesse aspecto, Fridman (2004) também destaca que fundamentalistas armados, exércitos de narcotraficantes, quadrilhas de bandidos de classe média, legiões de seguranças particulares, que protegem a propriedade de pessoas ricas e celebridades, bandos e comandos de adolescentes e jovens miseráveis na distribuição de drogas, promiscuidade na relação com as forças de repressão e o crime, são componentes da vida contemporânea em muitos lugares, e ainda enfatiza que:

Os condomínios fechados cercados por seguranças e monitorados por sistemas de televisão, exemplo universal de concepção arquitetônica de como viver nas grandes cidades, evidenciam a incorporação da violência nas mais variadas dimensões da vida cotidiana. As pessoas ricas e abonadas da sociedade sentem-se, assim, protegidas do “caos” da vida das ruas, das pessoas pobres e dos bandidos. As cercas, as cancelas e os limites militarizados dos condomínios reforçam as fronteiras sociais pelo elogio à privatização da vida. Não é incomum a presença de escolas, clubes, cursos de línguas, academias de ginástica, consultórios médicos, lanchonetes e lojas nos condomínios; é uma vida à parte, uma vida em permanente estado de sítio. Moradores e moradoras desses condomínios orgulhosamente proclamam “que não precisam mais ir a lugar nenhum” além dos domínios “comunitários”

(FRIDMAN, 2004, pp.17-8).

(Fig.2: Lançamento imobiliário em Teresópolis, Arquivo pessoal/ Fevereiro de 2009)

O lançamento acima (fig.2) é em um bairro de classe média em Teresópolis, região serrana do estado do Rio de Janeiro (anúncio abaixo na fig. 3), distando pouco mais de uma hora da capital. Caso este empreendimento fosse lançado na cidade do Rio teria como localização Barra da Tijuca ou Recreio dos Bandeirantes com uma diferença, lazer apareceria com destaque menor em detrimento a segurança.

(Fig. 3 Anúncio do lançamento imobiliário na cidade de Teresópolis, Arquivo pessoal/Fevereiro de 2009)

(Fig. 4. Grades de proteção em Copacabana, com portão duplo, na zona sul carioca, arquivo pessoal/Março de 2009)

Acima (fig. 4), um condomínio em Ipanema, sem tantas opções de lazer como em Teresópolis, mas cercado, visando a proteção da vida e dos bens patrimoniais.

É a insegurança atingindo todos os níveis da vida humana, indo da questão do emprego, da moradia, até de sua própria sobrevivência. Aprofundam-se quando os laços de ligação com o outro são tomados de culpa e pela sensação de fracasso numa sociedade altamente dinâmica. Fridman (2004) enfatiza a preocupação de muitos teóricos entre eles Eric Hobsbawn, de enfraquecimento do Estado e da proteção social e a extrema privatização da vida cotidiana. A conseqüência é a autodefesa e o aprisionamento dos condomínios de luxo, na ilusão do conforto e segurança. Medo, insegurança, vulnerabilidade e rotinização de símbolos de segurança, para aqueles que podem pagar.

Na análise da violência urbana, como aponta Zaluar (1994), é crescente o número de jovens envolvidos com a criminalidade urbana e legitima que nos estados brasileiros a violência tem um caráter urbano. O medo fantasioso, baseado em experiências no real, povoa

as principais cidades brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo. Um fato observado pela autora é o crescimento, sobretudo entre os mais pobres, das religiões protestantes pentecostais, baseadas na conversão e na crença de destruição do diabo através de rituais de exorcismo aos que as procuram. Outro fator importante é o crescente pagamento de serviços de segurança a grupos organizados não legalizados, chamados de milícias.

Abranches (1994) além de abarcar a violência urbana como forma de comportamento social de transgressão a uma ordem, podendo levar a danos ao patrimônio ou à pessoa (práticas que, previstas no Código Penal, caracterizam-se como ações criminosas), também considera outros casos, como os arrastões, saques, brigas de turmas, uso de armas (em geral

“brancas”), os “carecas de subúrbio”, pichações e similares como atos de violência urbana.

Pondera também uma interseção com o tráfico de drogas e dos “clãs” de banditismo urbanos como importantes agentes. Prossegue enfocando que o termo em questão está associado às contradições sociais e surge e se avoluma na medida proporcional da complexidade e do crescimento das cidades. Aponta que as conseqüências são graves, pois a multidão produz mais solidão, anonimato, insegurança e insensibilidade. Abre espaço também para o espetáculo através de uma mídia que retira da obscuridade, atribuindo fama a bandidos, transgressores, revoltados e outros tipos exóticos, sem deixar de mencionar seu poder de alienação e anomia.

Outro importante momento da análise do autor supracitado é seu destaque à relativização do crime, percebendo uma descaracterização do crime em seu cerne, e o mesmo recebendo alcunhas eufêmicas de elogios à bandidagem. Obviamente não se está aqui abrandando a barbárie da sociedade, com a violência policial, grupos de extermínio, corrupção das elites e clientelismo político. Nesse conjunto, o envolvimento dos pobres se dá em muito pela vulnerabilidade social, cultural e econômica à qual estão submetidos, e daí muitos se aproveitam dessas carências em benefício próprio.

Por fim, Abranches (1994) aponta que a violência não deve ser estudada por apenas uma e sim por várias dimensões. Para tanto define duas macro dimensões: a social e a moral.

Na primeira, se localizam as instituições (aquelas que podem conferir as condições que estimulariam a violência) e num plano micro, as comunidades, importantíssimas no ensino das regras e normas de convivência, que podem ser alteradas de acordo com os valores produzidos, inserindo a violência, a honestidade, o crime de forma distorcida, ficando claro que a ausência da família na formação dos filhos compromete seu desempenho educacional e moral. No segundo item, a macro dimensão moral, se apresenta em dois planos, o primeiro (macro) composto de regras gerais, compartilhadas de consenso moral de convivência social e o outro (micro), que destaca os relacionamentos em pequena escala de pequenos grupos, ligados por experiências semelhantes em ambientes de anomia (ausência ou rompimento de normas sociais) e alienação (para Marx o assalariamento o produz, para Manheim é o consumismo), provocando em uns indivíduos experiências com a marginalidade e em outros, experiências com a honestidade. De forma direta, existem três conseqüências da alienação: a anomia, a perda de referências (falta de sentido das coisas, na comunidade e de si mesmo) e o sentimento de impotência.

Diante de todo este quadro surge, uma sociedade em que as regras morais se dissolvem e onde cada vez, mais parece diminuir o número de adeptos destas regras, já que sem elas não há cooperação, e sem cooperação, torna-se doente. Na verdade há uma crise moral, onde se observa uma competição desregrada, em que se busca levar vantagem em tudo, um processo de desmoralização na/da sociedade.

É nas cidades que se acentuam esses problemas, como principais espelhos das sociedades. Uma vida de medo e a sensação de insegurança, soltos pelas ruas, atingindo a todos. A ameaça, o que é estranho, está se incorporando no dia-a-dia. Pires (1985) afirma que a violência urbana não tem como causa única a pobreza e a miséria, mas seria “filha” do

falido “milagre” econômico. A população menos protegida em muitos lugares começa então a fazer justiça com as suas próprias mãos, linchando os condenados. Na música, essa realidade foi retratada em “Milagres/Miséria”, composição de Cazuza / Roberto Frejat / Denise Barroso / Arnaldo Antunes / Paulo Miklos:

Milagres/Miséria

Nossas armas estão na rua/É um milagre/Elas não matam ninguém A fome está em toda parte/Mas a gente come/Levando a vida na arte Miséria é miséria em qualquer canto

Riquezas são diferentes/Índio mulato preto branco Miséria é miséria em qualquer canto

Todos sabem usar os dentes/Riquezas são diferentes

Ninguém sabe falar esperanto/Miséria é miséria em qualquer canto Riquezas são diferentes/Miséria é miséria em qualquer canto A morte não causa mais espanto

O sol não causa mais espanto/Miséria é miséria em qualquer canto Riquezas são diferentes/Cores raças castas crenças

Riquezas são diferentes/As crianças brincam Com a violência/Nesse cinema sem tela

Que passa na cidade/Que tempo mais vagabundo Esse agora/Que escolheram pra gente viver?

(http://letras.terra.com.br/adriana-calcanhotto/87095/, 03/04/2009)

Indefeso, o morador da metrópole passou a alimentar uma poderosa indústria de segurança, atividade esta que vive da exploração do medo das pessoas. O público atendido, contudo, é somente aquele que pode pagar pelos “produtos”. A auto-segregação torna-se comum em bairros ricos, nas principais metrópoles brasileiras. Não obstante todo este aparato de segurança, os arrastões em condomínios de luxo, os seqüestros e as violentas mortes permanecem acontecendo. Pires (1985) destaca:

O resultado é a selvageria individual, a agressividade. A evolução técnica e o progresso industrial vão aumentando o número de bens produzidos e sofisticando a produção, nem todos poderão ter acesso a esses bens, tampouco conseguirão escalar os degraus sociais e econômicos para alcançá-los. A distribuição desigual da riqueza nas grandes cidades e a divisão injusta de oportunidades de acesso a ela vão provocar forte desorganização da personalidade, levando a progressão do crime, do suicídio, da corrupção, da loucura, enfim, nas grandes metrópoles (PIRES, 1985, p.19).

Souza (2008) corrobora, apontando que a expansão econômica e o “progresso”

tecnológico levam a escassez e a insegurança e aos riscos nas grandes cidades. As massas desempregadas, o aumento da pobreza, a ilegalidade de atividades, fomentam a violência urbana, pois os mais pobres vivem em espaços segregados, em maiores condições de vulnerabilidade, expostos a certos produtos da modernidade.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 67-79)