(cortiços ou favelas), pois amedrontavam aqueles que por perto deveriam passar. Essa postura foi muito comum em diversos lugares como Nova Iorque e Rio de Janeiro. (PALEN, 1975).
importante destacar isso, pois não se pode obter um conhecimento melhor da cidade, suas representações, seus signos, suas formas, seus processos sem utilizar a informação das diversas áreas de conhecimento como a geografia, a história, a sociologia, etc. Logo, é nas cidades que de forma mais contundente, as diferenças, os medos, as relações entre grupos despontarão e é na paisagem que se constituirão. Assim observa Lucrécia D’Aléssio Ferrara em Ver a Cidade (1988):
Ruas, avenidas, praças, monumentos, edificações configuram-se como uma realidade sígnica que informa seu próprio objeto: o contexto urbano. Nele se aglutinam, num único conjunto, várias outras linguagens: a urbanização, a arquitetura, o desenho industrial dos equipamentos, a publicidade, a programação visual, a tecnologia decorrente do processo de industrialização, os veículos de comunicação de massa. Entretanto, o elemento que aciona esse contexto é o usuário, e o uso é a sua fala, sua linguagem. A transformação da cidade é a história do uso urbano como significado da cidade. Sua vitalidade nos ensina o que o usuário pensa, deseja, despreza, revela suas escolhas, tendências e prazeres (FERRARA 1988, p.04).
As cidades vão constituindo, ao longo de sua história, diferentes tipos de espaços, de acordo com as atividades predominantes. Daí, de acordo com o tipo de zoneamento (restrições ao uso do solo), nasce áreas de uso residencial, industrial, comercial, etc. De acordo com o crescimento e a complexidade que esta cidade vai possuindo as diferenciações internas das atividades também acompanham o ritmo.
O exame da paisagem urbana faz atentar para o caso de que não se está exposto ou preparando um quadro, e sim organizando uma construção cujo alvo é apreender o caráter pelo qual ela se lança, assim como seu conteúdo e substância a partir de afinidades reais. Isso nos leva a ponderar dois movimentos: aquele que analisa a paisagem geográfica a partir do apreço ao sítio urbano, e o que remaneja os elementos da paisagem. Deste modo, a paisagem não se presta como uma simples imagem, nem a cidade como mera localização. [...] a paisagem urbana é a expressão da “ordem” e do “caos”, manifestação formal do processo de
produção do espaço urbano, colocando-se no nível do aparente e do imediato (CARLOS, 1994).
E isso porque a paisagem não somente é fruto da história, mas reporta à história, à concepção que o homem tem e teve do residir, do trabalhar, do alimentar-se, enfim, do viver.
Então, a paisagem ao mesmo tempo em que reproduz vários momentos passados em suas formas, é moldada na produção de novas formas por novos atores sociais.
A paisagem é então a feição, a materialização, a dimensão física sob a qual um modelo de desenvolvimento econômico se descortina, ou seja, é fruto do trabalho humano. E essa mistura pode ser mais bem observada nos grandes centros urbanos. Ali, as ruas, a arquitetura, a densidade de ocupação mostrarão o que as forças produtivas ali fizeram.
As grandes cidades possuem seu centro, o que corresponde em muitas das vezes o lugar de seu nascedouro. Estes centros tendem a se expandir e formar modernas áreas de negócios, mas conhecida por CDB – Central Business District (SOUZA, 2005). Essa região, contudo não dará conta de atender as demandas dos bens de consumo mais sofisticados, com isso, devido ao crescimento da cidade e a localização das classes de renda mais elevada em diversos outros pontos, nascem importantes subcentros de comércio e serviços. Assim, os moradores já não mais precisam se deslocar ao CDB para adquirirem os produtos de que necessitam.
Esse contexto urbano está sendo destacado neste item, pois foi exatamente isso que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro desde os anos 1960, que data Copacabana como evidência de importante subcentro (SOUZA, 2005). E assim como houve incremento de um comércio de luxo, houve crescimento da pobreza nas circunvizinhanças, dependente de pequenos trabalhos ali oferecidos às classes abastadas ou a rede de serviços e comércio.
A partir dos anos 1980, outro símbolo começa a se proliferar como monumento do setor terciário, o Shopping Center. Diferente do modelo anterior, mais aberto aos transeuntes,
terá como destaque a preocupação com a segurança. Sua importância, devido ao crescente clima de insegurança nas grandes cidades brasileiras, tem levado os tradicionais subcentros e até mesmo o CDB ao declínio (CARLOS, 1994; SOUZA, 2005).
É muito comum ao CDB estar cercado de uma área de comércio de baixo padrão (obsolenscência ou deteriorada), onde circulará uma população de igual padrão. A lógica de um subcentro é atender às características socioeconômicas da população residente no entorno, fazendo assim existir um subcentro “exclusivo” ao lugar. A mesma idéia é a dos Shoppings, que se adaptam ao contexto no qual estão inseridos, chamados de shopping popular.
Com os espaços residenciais, há também uma diferenciação socioeconômica. No Brasil, a renda é um importante fator, mas não o único. O fator étnico também se destaca, e muito, quando se observa que a maioria da população favelada e pobre é afro descendente.
Outro fator diz respeito ao ambiente natural de um lugar, ou seja, se o lugar adquire valor devido à sua beleza cênica, por exemplo, praias, montanhas, parques, etc.
Diferenças econômicas, de poder, de status etc. entre diversos grupos sociais se refletem no espaço, determinando ou, pelo menos, influenciando decisivamente onde os membros de cada grupo podem viver. Essas diferenças econômicas, de poder e de prestígio são função de várias coisas, potencialmente: em uma sociedade capitalista moderna, são função, principalmente, da classe social do indivíduo, a qual tem a ver com a posição que ele ocupa no mundo da produção ( SOUZA, 2005, p.67, grifos do autor).
A segregação da moradia nas cidades não é algo novo. Desde a antiguidade, os grupos que eram considerados excluídos por sua pobreza, etnia ou outro fator, tinham reservadas para suas moradias as piores áreas (SOUZA, 2005). O autor destaca que o capitalismo moderno mudará a grandeza e o padrão desta segregação, pois trará o afastamento crescente entre o local de trabalho e o de moradia, e os locais de moradia dos proletários, tenderão a se distanciar daqueles reservados à moradia dos industriais, e de certo modo também dos pequenos burgueses, a classe média.
No Brasil, diversamente, a segregação afeta uma enorme parcela, não raro a maioria da população de uma cidade, a qual mora em favelas, em loteamentos de periferia ou em cortiços. Não se trata, nessa situação, da segregação de um grupo específico, por razões fortemente étnicas ou culturais, embora a correlação entre pobreza e etnicidade seja, conforme já se disse, forte; o que se tem é uma situação na qual os pobres são induzidos, por seu baixo poder aquisitivo, a residirem em locais afastados do CDB e das eventuais amenidades naturais e/ou desprezados pelos moradores mais abastados. Nesses locais, não é apenas a carência de infra-estrutura, a contrastar com os bairros privilegiados da classe média e das elites, que é evidente;
a estigmatização das pessoas em função do local de moradia (periferias, cortiços e, principalmente, favelas) é muito forte (SOUZA, 2005, p. 69, grifo do autor).
A segregação não significa exclusão total, já que as parcelas de pobres participam relativamente da cidade, votando, trabalhando formal ou informalmente. Contudo, é muito difícil afirmar que suas moradias sejam escolhidas e não forçadas, já que muito tempo perdido na rede de transportes, pressão de traficantes, falta de escolas e hospitais, não devem ser coisas que envolvam graus de satisfação dos usuários na localidade. Além disso, o medo de ser hostilizado, ou da solidão na mudança de lugar cooperam na permanência. Um fenômeno presente é a auto-segregação, esta composta pelas elites, no desejo de apartar da cidade, ou de parte dela. Daí nasce a Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, ou Alphaville em São Paulo. Neste caso, a cidade com o trânsito, a poluição, a violência, são assustadores e a pobreza ameaçadora.
A auto-segregação se iguala a segregação, pois da mesma forma, não é resultado de uma escolha, e sim de fuga dos problemas. Entretanto diferencia-se por duas razões: a primeira, de não olhar para o lugar de onde veio com nostalgia e a segunda, como categoria de nata dirigente se não é responsável é co-responsável pela degradação da qualidade de vida na cidade (SOUZA, 2005). Abaixo (Fig.1), mapa da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, representando a área central de negócios (CDB) e o entorno (SOUZA, 2005):
(Figura 1: Organização espacial da região metropolitana do Rio de Janeiro, SOUZA, M. L., 2005, ABC do Desenvolvimento Urbano, p.77)
Então, a paisagem urbana, como aponta Berque (2000), devido a sua complexidade é um problema ontológico, técnico, político, ético, etc., muito profundo, contudo convidativo a quem se interessar em conhecê-la.
Em cidades como o Rio de Janeiro, ainda deve ser observado que em seu centro não existe um estilo próprio de arquitetura e organização e sim uma mistura de estilos, como resultado de influência européia e norte-americana (GEORGE, 1983).
Embora as grandes cidades sejam centros de inovação e sediarem instituições importantes, as mesmas possuem muitos problemas. Conhecer uma grande cidade na atualidade, como o Rio de Janeiro com a sua região metropolitana, é encontrá-la num seleto grupo chamado de megacidades (grupo de cidades com população acima de 10 milhões de habitantes), metrópoles que possuem em suas paisagens características semelhantes, tais como: taxa de emprego cada vez menor; aumento progressivo do déficit de moradia,
incapacidade de assistência médica e hospitalar, principalmente às populações mais carentes;
recrudescimento dos bolsões de pobreza e criminalidade; avanço de ações predatórias que atuam no meio urbano (COELHO, 1995).