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Violências, o estado e o medo

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 79-90)

O resultado é a selvageria individual, a agressividade. A evolução técnica e o progresso industrial vão aumentando o número de bens produzidos e sofisticando a produção, nem todos poderão ter acesso a esses bens, tampouco conseguirão escalar os degraus sociais e econômicos para alcançá-los. A distribuição desigual da riqueza nas grandes cidades e a divisão injusta de oportunidades de acesso a ela vão provocar forte desorganização da personalidade, levando a progressão do crime, do suicídio, da corrupção, da loucura, enfim, nas grandes metrópoles (PIRES, 1985, p.19).

Souza (2008) corrobora, apontando que a expansão econômica e o “progresso”

tecnológico levam a escassez e a insegurança e aos riscos nas grandes cidades. As massas desempregadas, o aumento da pobreza, a ilegalidade de atividades, fomentam a violência urbana, pois os mais pobres vivem em espaços segregados, em maiores condições de vulnerabilidade, expostos a certos produtos da modernidade.

inconsistentes ou completamente inexistentes, e as teorias baseadas na causa ambiental da criminalidade se tornaram dominantes. Apesar da natureza inconsistente destas teorias, Lombroso foi muito influente na Europa (e também no Brasil) entre criminologistas e juristas. Entre seus livros estão: L'Uomo Delinquente (1876; "O Homem Criminoso") e Le Crime, Causes et Remèdes (1899; O Crime, Suas Causas e Soluções) (SABBATINI, 1997).

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Outro estudo muito importante foi feito por Durkheim, considerando os fatores naturais como determinantes na questão do suicídio (DURKHEIM). Foi influenciado pelo determinismo presente na ciência da época, que pregava a determinação do meio ambiente sobre o caráter do ser humano.

Com o desenvolvimento dos estudos na área de genética, um criterioso estudo foi feito na atualidade, mostrando que membros do sexo masculino (como comprovam estatísticas criminais em todo o mundo - adolescentes e adultos jovens - são responsáveis pela maioria dos assassinatos, lesões corporais graves ou casos de violência sexual) seria o principal fator de risco para a violência, mas isso não significa que as mulheres sejam menos agressivas, já que se os homens tendem a violência física direta, nas mulheres a agressão dissimulada, gerando intrigas pressões psicológica.

A pesquisa (SABBATINI 1997) tem mostrado nos casos de criminosos violentos crônicos, uma predisposição cerebral, ou seja, na região frontal, mais exatamente no córtex pré-frontal e no sistema límbico:

Essas áreas estão ligadas ao surgimento, decodificação e controle das emoções. Efeitos inibidores sobre partes do sistema límbico, principalmente o hipotálamo e a amígdala, de onde vêm os impulsos agressivos, são atribuídos a áreas do córtex pré-frontal. Esse pressuposto é base da “hipótese do cérebro frontal”, segundo a qual as raízes psicobiológicas do comportamento anti-social podem ser compreendidas como um “defeito” na regulação do córtex e do sistema límbico.

Vários estudos apóiam essa interpretação. O pesquisador Jordan Grafman e seus colegas do Instituto Nacional de Saúde em Bethesda, Estados Unidos, examinaram veteranos da guerra do Vietnã que sofreram ferimentos na região do córtex pré-frontal: os ex-soldados tinham clara tendência à agressividade. É preciso considerar, porém, que esses ex-combatentes viveram situações traumáticas durante o conflito, o que provavelmente também influi no funcionamento psíquico. No entanto, pacientes adultos com lesões frontais que não viveram experiências especialmente perturbadoras também costumam se comportar de forma inadequada e impulsiva, apresentando sintomas de distúrbio de personalidade anti-social. Em

ambos os casos, porém, não houve nenhum indício direto de violência física fora do comum (LÜCK, Monika; STRÜBER, Daniel; ROTH, Gerhard, 2006, p.39-40).

Assim, parece de tendência determinista este trabalho, mas a conclusão a qual os pesquisadores chegaram é extremamente interessante:

Concluímos que o comportamento violento nunca pode ser atribuído a uma única causa – tendência inata, patologia, ambiente desfavorável ou experiências dolorosas. É preciso considerar a combinação de fatores de risco que se reforçam e se influenciam mutuamente. Essa descoberta traz também uma boa notícia:

aparentemente, uma única variável que reforce a tendência à violência pode ser compensada por outros mecanismos positivos (LÜCK, Monika; STRÜBER, Daniel;

ROTH, Gerhard, 2006, p. 40).

Os autores observam que o comportamento violento não é resultado de uma única fonte e sim de um conjunto de variáveis. Daí, as correlações do termo com outras áreas de conhecimento estar obtendo importância, pois vem adquirindo importância e também projeção na sociedade, na política e na religião.

Como foi citado anteriormente, o cristianismo relacionou o termo “violência” a forças espirituais do mal, dominantes na Terra. A figura do demônio, assim descrita por Mariz (1997), é relacionada ao mal e suas ações pelo mundo dominam os discursos e influenciam segmentos das sociedades. Isso porque a imagem dos demônios é relacionada à oposição dos desejos divinos para o homem. O diabo é apontado como responsável pela vida errada, pelas diversas faltas, como roubo, uso de droga, prostituição, etc. Aqueles que cometem crimes considerados bárbaros só o fizeram por estarem possuídos pelo mal, pois é Satanás quem leva ao roubo ou a quaisquer outros crimes, além de ser o responsável por doenças, conflitos, desempregos, alcoolismo, etc. Essas igrejas, em sua maioria, se localizam em lugares carentes (sobretudo as pentecostais e neo-pentecostais, as que mais se utilizam deste discurso (Assembléia de Deus, Deus é Amor, Internacional da Graça de Deus, Universal do Reino de Deus, e muitas outras) – igrejas cristãs que surgiram a partir dos anos 1960, rompendo com a

tradição das igrejas cristãs tradicionais denominadas de históricas (Batista, Presbiteriana, Congregacional, Metodista, principalmente), pregando cultos mais avivados e um batismo no Espírito Santo, com línguas “estranhas”, etc.

Para o cristianismo, o mundo vive em uma guerra espiritual entre Deus e o diabo, entre o bem e mal. O consumo de prazeres pode ser resultado de um pacto com o maligno, algo de que muitas pessoas da mídia já foram acusadas. Diferentemente estão aqueles que, após passarem por algumas etapas de purificação espiritual de descarrego, tornaram-se prósperos, podendo aí usufruir dos prazeres ora criticados (MARIZ, 1997).

No discurso pentecostal e neo-pentecostal se observa muito pouco, por parte das lideranças, o estímulo a uma visão mais critica dos fiéis aos graves problemas sociais e suas responsabilidades como cidadãos. A maior participação é católica, com as pastorais em diversas áreas e das igrejas históricas com participação mais modesta, na área social e de envolvimento comunitário. Isso se deve às suas concepções e suas origens estarem ligadas à modernidade e à ciência.

Com o desenvolvimento da ciência moderna, uma revisão sobre o tema foi feita.

Nessa revisão, a estrutura da sociedade, a maneira como se organizava e os valores que defendia foram essenciais na configuração da questão do mal e da violência. O Estado é um importante agente dessa configuração, Pois, passa a autenticar alguns instrumentos e tipos de violência como legítimos, em nome da ordem social estabelecida e do progresso. Logo, os violentados pelas ações do Estado não são enquadrados como vítimas de violência cometida pelo mesmo, já que o poder corroborado deste tem o direito de interferir, usando dos mecanismos legais, impostos por ele mesmo.

E ainda inclui no “resumo” a monopolização da formulação legal e do uso legítimo da força pela autoridade central e a organização de um funcionalismo orientado racionalmente, cujo exercício de funções administrativas e executivas (de tom coercitivo, coativo e persuasivo) é dependente da autoridade central, despersonalizada ou burocrática (DREIFUSS, 1993, p.11).

O autor supracitado analisa que um Estado correlacionado com a elite burguesa, que se organiza com uma burocracia, faz uso da força legalmente estabelecida por ele mesmo, com um conjunto de regras ordenadas, é conhecido apenas no ocidente e a cidade é o resultado e o resumo de práticas, idéias e etc., sendo em sua origem um agrupamento defensivo, ponto em que a “força” se organiza e se institucionaliza. Lugar em que se circula, transporta, estuda, etc. (DREIFUSS, 1993).

Quando o controle da violência social começa a fugir das mãos do Estado, o mesmo é acusado de ineficiente. O resultado dessa suposta falta de eficiência é a aplicação de dispositivos de segurança, defesa própria e contratação de segurança privada (BATISTA, 1994). Fridman (2004) destaca:

Em entrevista recente, o historiador Eric Hobsbawn, ao ser perguntado sobre seus temores em relação ao futuro, apontou a perda da capacidade do Estado de estabelecer a ordem nas fronteiras nacionais e controlar a violência privada.

Evidentemente, Hobsbawn não estava defendendo regimes de força, apenas advertia que o enfraquecimento do Estado (com seu monopólio da violência) era ameaça à vida democrática. (FRIDMAN, 2004, pp.17-8).

Portanto, é grave o processo de enfraquecimento do Estado, na medida em que se observa a contratação de exércitos particulares por parte das classes ricas, a classe média apoiando a militarização da vida e os grandes setores excluídos também desenvolvendo as suas formas de violência. É a redução da globalização à lógica puramente econômica andando num diapasão diferente da política, impedindo as ações coletivas e a formação das redes de solidariedade.

Insegurança e vulnerabilidade terão proveito econômico de setores da sociedade para vender, a quem puder comprar valores simbólicos, como segurança em lugar privativo e encontro com a natureza. Assim como segurança particular e serviços bem próximos para

evitar a circulação pela cidade, e também estarão à venda seguros e proteção para carros e residências.

É a celebração das desigualdades, insegurança, desordem, em oposição à ordem proposta pela modernidade e sua concepção de mundo. Essa gradativa falta permite o incremento de idéias que vão tomando corpo, como a da concorrência exacerbada e a qualquer preço, e o oposto, o fracasso.

Gravemente, a política adoece, no grau em que as ações do Estado são minimizadas e clamores de pureza, segurança e ordem interferem no individualismo e na privatização da vida, quando aqueles que são “estranhos” invadem essa sociedade. Nesse processo, uma das

“soluções” encontradas tem sido a criminalização da pobreza.

Este debate é salutar, pois o Estado moderno é a instituição que controla uma porção do espaço, seus bens e pessoas. O poder político emana da centralidade territorial através da submissão e do controle do espaço físico, material, concreto (CASTRO, 2005). Quando se chega a questionar sobre o exercício dessa função do Estado, é porque outros agentes têm se apropriado deste uso. Explicitando: quando a criminalidade e a marginalidade dominam um território sobre o qual o Estado deveria exercer seu poder e função, significa de forma muito clara a perda ou ausência do controle.

A conseqüência deste desalento é o que já nasce com terrível alcunha, o inominável: o medo. Não o medo das bruxas, nem o de fantasiosos seres do folclore, mas de um mal sem hora ou momento de acontecer, que, sem pedir passagem ou autorização, invade as almas e os corações humanos.

A morte anda pelas ruas, gerando medo de andar na cidade, medo de sair de casa, medo de viver na cidade. Medo dos estranhos, medo do pobre.

O medo é caracterizado por Bauman (2008) em duas vertentes. A primeira, a do medo em primeiro grau, aquele instintivo, semelhante às reações de animais à presença imediata de

algo que ameace pôr a vida em risco, e que gera duas reações: fuga e agressão. A segunda vertente é a do medo em segundo grau, entendido como uma estrutura mental estável, o sentimento de ser suscetível ao perigo, a sensação de insegurança e vulnerabilidade. A insegurança de um mundo cheio de perigos que podem se abater sobre quaisquer pessoas com algum ou nenhum aviso e a vulnerabilidade de saber que, no caso do suposto perigo concretizar-se, haverá pouca ou nenhuma chance de fugir ou de se defender com sucesso, em função da falta de confiança nas defesas disponíveis, mais que no perigo em si mesmo.

Existem, segundo Bauman (2008), três tipos de perigos dos quais se tem medo: o primeiro, que se refere às ameaças ao corpo e às propriedades. O segundo é de natureza mais geral e ameaça a durabilidade da ordem social, da confiança nela, da qual depende a segurança do sustento, a sobrevivência. E, finalmente, o terceiro tipo, que se refere àquele que ameaça o lugar da pessoa no mundo, à ameaça de perda da posição social, da identidade, à imunidade à degradação e à exclusão.

O Estado, por exemplo, tendo encontrado sua raison d’etre e seu direito à obediência dos cidadãos na promessa de protegê-los das ameaças á existência, porém não mais capaz de cumpri-la (particularmente a promessa de defesa contra os perigos do segundo e terceiro tipos) – nem de reafirmá-la responsavelmente em vista da rápida globalização e dos mercados crescentemente extraterritoriais -, é obrigado a mudar a ênfase da “proteção contra o medo” dos perigos á segurança pessoal. O Estado então “rebaixa” a luta contra os medos para o domínio da “política de vida”, dirigida e administrada individualmente, e ao mesmo tempo em que adquire o suprimento de armas de combate no mercado de consumo (BAUMAN, 2008, p. 10- 11).

Na atualidade, o medo pode aparecer de qualquer parte: da mídia, das ruas escuras, das próprias casas, do meio de transporte, de pessoas que conhecidas ou não, de algo que se ingere, de algo que o corpo entre em contato, de aves, de vacas loucas, da natureza e um que ainda não tem nome, mas age na natureza e na humanidade, tem destruídos lares, empregos e corpos com desastres. É a calamidade que se abate nas bolsas de valores, nos barris de petróleo, companhias que desaparecem com tudo que as envolviam, empregos antes sólidos

evaporam e um terrorismo que faz jatos caírem e uma busca cada vez maior por segurança tomam conta do mundo, das cidades e dos lares.

É mais que uma sensação a de que a violência e o medo estão por toda a parte, desde os exemplos dados anteriormente, aos outros a seguir, como o de um pequeno furto que ocorra, um assalto a um banco, ou o número de pessoas vítimas de estupro, certamente são atos criminosos, porém problemas distintos. Contudo, a sensação produzida é a de que a violência está generalizada e sem controle. Porém, não se está aqui querendo reduzir as ações violentas a apenas uma histeria, porém anelando por uma análise mais criteriosa, pois os exemplos dados anteriormente, de fato, mostram crimes, mas exigem diferentes graus de

“organização” dos grupos.

Por se destacar no atual cenário, a violência urbana nas metrópoles e, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro, obtém especificidades de acordo com a geografia da cidade e a direção da urbanização do modelo de desenvolvimento adotado. Estes fatores são importantes na medida em que a topografia e o meio natural em que a cidade se desenvolveu propiciaram diferentes formas de ocupação e uso do solo urbano, associado a um modelo de desenvolvimento de um capitalismo periférico, gerando tremendas diferenças sociais.

Bauman (2008) afirma que a atual sociedade produz um dispositivo de tornar a vida com medo algo tolerável. Porém, pior que isso é o sentimento de impotência como o impacto mais assustador do medo e as vertentes violentas que o circundam.

Todos estes problemas se agravam nas cidades, principalmente nas localizadas em países de capitalismo periférico, em que a economia é muito mais suscetível ao terror global, tendo em si mesmas e em seu entorno uma extensa massa de excluídos, pois são cenários de fortes diferenças sociais, como a acentuada pobreza e a elevada concentração de renda (RODRIGUES, 1996). Este é um campo fértil para o crescimento do crime organizado.

Não se pode deixar de observar a ação e o funcionamento do principal meio de repressão do Estado, a polícia, instituição com crescente crise moral e de autoridade (não somente ela) e da justiça, gerando uma incapacidade no controle social e no cumprimento de suas atribuições, gerando a impunidade e a corrupção. O resultado final é a criminalização da própria polícia (SILVA, 1994). O autor continua explicitando que, na verdade, há uma incapacidade generalizada de atuação do conjunto de agências do Estado, a desmoralização e ineficiência da polícia é uma parte da crise política que afeta todo o Estado e sua relação com a sociedade. A crise institucional abre espaço para o crime organizado, que, crescente, evidencia a perda do controle estatal da violência. Mas, a isso ainda se deve acrescentar que o Estado brasileiro sempre agiu com ineficiência e incapacidade na extensão dos benefícios materiais da cidadania a toda a população.

De fato, é no contexto de um processo de deslegitimação, o qual reduz a já secularmente fraca capacidade operacional do Estado, que se organiza o exército privado da violência. Mas no Brasil urbano grande parte da violência ilegítima é patrocinada pelos criminosos comuns, que a adotam como regra básica e rotineira de atuação. Isto significa dizer que é preciso entender o processo de organização da criminalidade como parte da organização social da violência possibilitada pela perda de seu monopólio pelo Estado (SILVA, 1994, p. 162-163).

Do jogo do bicho ao carnaval, do crime organizado ao narcotráfico, as práticas de violência foram se fortalecendo. E a pobreza urbana se relacionando com estas diversas facções, numa relação conflituosa, pela falta do poder estatal de controle e repressão e por parte dos grupos paralelos com dominação, opressão e “justiça” local (CAVALCANTI, 1997). Nesta relação, as vítimas e a culpa sempre caíram na pobreza. Basta rever a questão de higienização das cidades, razão pela qual os miseráveis habitantes das cidades eram os culpados pelas doenças que se espalhavam e não as péssimas condições de vida e de saneamento. A solução encontrada era a expulsão dos pobres das áreas centrais das cidades, numa impactante maquiagem moderna de embelezamento das cidades em suas áreas centrais.

A pobreza continuou a ser responsabilizada, na atualidade, por ser pobre. Ser miserável passou a ser sinônimo de marginalidade e criminalidade, ou seja, as maiores vítimas da violência urbana e de tantas outras, na verdade, passaram a ser algozes.

Porém, a vinculação, aceita como truísmo entre pobreza e criminalidade que é um dos pressupostos mais arraigados de toda população brasileira, não está permitindo atitudes mais eficazes diante do novo fenômeno da criminalidade do Brasil urbano, vinculado a uma atividade empresarial organizada do crime. Se antes esse determinismo aparecia nas concepções religiosas do crime, em que a vontade das divindades centrais ou de entidades espirituais periféricas é que decida a ação criminosa da pessoa, hoje esta concepção rarefeita cede lugar ao determinismo sociológico que considera a pobreza o meio social ideal ou o “meio de cultura” (no sentido bacteriológico) para o aparecimento do criminoso. Ao mesmo tempo, o retrato psicopatológico do criminoso, nos moldes do tipo lombrosiano do criminoso nato, parece ceder lugar também a uma nova conceituação social deste criminoso que “não tem jeito”, nato na pobreza destituída de moralidade e reincidente no crime através de uma carreira de violências, prisões etc. (ZALUAR, 1993, p.11).

Associado a isso se vive numa cultura hedonista, em que valores individuais negativos e as maneiras mostradas de como ascender socialmente fazem-nos confundir o lícito com o ilícito, o moral e o amoral. A manifestação dessa guerra se dá principalmente entre a juventude pobre e negra. Nessa guerra, todos os lados estarão dentro de prisões: os ricos em seus condomínios e casas cercados de segurança, os pobres trabalhadores, nas mãos da segurança e terror das bocas de fumo ou de grupos de extermínio, e os bandidos pobres, nas prisões, em função de seu envolvimento com as organizações criminosas. Em segundo plano, é uma guerra por propósitos nascidos na individualidade da busca desenfreada de prazeres, de matar, de dominar, etc. O poder e a riqueza são ostentados com o estilo de vida dos ricos e famosos (ZALUAR, 1993).

Apesar disso, é imprescindível enfocar que a ênfase em muitos discursos é a captura, prisão e/ou morte dos criminosos, que, desta forma, livraria a sociedade de um mal. E exatamente desta forma, a classe dominante acredita estar se livrando de uma violência originalmente provocada por ela mesma (BOFF, 1996).

4 A CIDADE DO RIO DE JANEIRO: NATUREZA, PAISAGEM E REPRESENTAÇÕES DO MEDO DA VIOLÊNCIA

A natureza exuberante da cidade do Rio de Janeiro, ainda hoje, fascina tanto moradores, quanto aqueles que a visitam. Contudo, essa beleza natural gerou e ainda gera mais do que encanto cênico, também marca de forma forte e diferenciada quais tipos de classes sociais habitam determinadas porções do espaço carioca.

Os bairros da zona sul, da Barra da Tijuca e seu entorno, ambos cercados por praias, são áreas em que se concentram significativas parcelas de classes média e alta. Não obstante, bem próximo dali, estão aqueles que, em situação econômica inferior dependem dos mais abastados para se tornarem prestadores de serviços, vendedores de drogas, subempregados, etc.

Este cenário também tem um teor ideológico, pois, em diferentes momentos e contextos, os pobres foram acusados de serem portadores do mal, no passado pelas doenças, no presente como portadores de violência urbana.

A diferença na constituição desta paisagem é bem visível e se tocam no solo urbano carioca. Ricos e pobres no embate do direito de viver na cidade dia a dia se encontram.

Entretanto, este direito à cidade não ocorre de forma equilibrada, e as maiores vítimas são os pobres, já que formam o grupo mais numeroso, assim como o mais desassistido do Estado e do acesso a melhores condições de vida.

Uma questão crucial também é a criminalidade urbana violenta e o tráfico de drogas como fenômenos acentuados pela ausência do Estado, sobretudo nas áreas mais carentes, assim como do modelo de desenvolvimento capitalista adotado, essencialmente excludente.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 79-90)