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A marca solidária nos cursos de Semana Santa

CAPÍTULO 5 CHAVES ECLESIAIS DE CODINA E O MOBON

5.3 O MOBON em chave solidária

5.3.1 A marca solidária nos cursos de Semana Santa

Neste período, um subsídio intitulado: A Páscoa da Igreja (CSS 1980), além de trazer uma notícia da Conferência de Puebla (1979), organiza a reflexão em torno dos eixos:

“Comunhão”, “Libertação” e “Participação” que eram temas presentes nas Conclusões daquela Conferência. Nele se explicita que a Igreja não pode apenas falar “para” o povo, mas deve falar “a partir da situação do povo” e que os cristãos devem estar atentos às necessidades do povo para transformá-las (CSS 1980 p. 8). Não se trata apenas ajudar as pessoas a resistirem às dificuldades, mas de encontrar meios para mudarem a situação. Um ensaio de maior atuação dos leigos, através de uma presença ativa no meio social. Há um destaque para as CEBs que deviam ser vistas, não como “ilhas” dentro da Paróquia, mas como expressão da Igreja em todos os seus recantos. “Elas são a Igreja agindo a partir do povo e não para o povo” (CSS 1980 p.17).

Nesta terceira fase do MOBON (de 1979 a 2000) ocorre uma crescente aproximação dos conteúdos trabalhados nos cursos e encontros com a caminhada da Igreja do Brasil, sintonizando-se com as propostas da CNBB. Esta sintonia é fruto de um longo processo. A iniciativa da Campanha da Fraternidade (CF) no Brasil datava de 1964 e os cursos de Preparação para a Semana Santa do MOBON tiveram seu início dez anos depois, em 1974.

Somente em 1981, os subsídios para a formação de lideranças começaram a fazer referências diretas aos temas da CF. O acento na formação de lideranças e na organização das comunidades, por meio dos cursos do MOBON, parece ter contribuído para a constituição de uma base de fé sólida para o desenvolvimento de seu compromisso social em chave eclesiológica solidária. Talvez não houvesse clareza sobre qual o caminho a seguir.

40 Cf. CODINA, A eclesiologia de Aparecida. In: AMERÍNDIA (Org.). V Conferência de Aparecida:

Renascer de uma esperança. São Paulo: Paulinas, 2008. p. 104.

41 Como visto na primeira parte desta pesquisa trata-se de dois momentos fortes de formação a cada ano. Cf. Parte I - 2.5.1 Cursos de base, p. 68.

Era contínua a formação do povo junto às comunidades42. Em 1982, seguindo de perto o tema da CF, proposto pela CNBB: “Educação e Fraternidade”, o MOBON abordou o assunto: “Para quê Educação?”. Com uma temática de teor social, o subsídio revelava os desafios da educação no país, se dedicava a explicitar o trabalho educativo feito pelo próprio MOBON: “Na medida em que a educação comunitária vai tornando o pessoal mais ativo, mais consciente, vai se ampliando mais a descoberta de Deus. Aí vamos sentindo um Deus mais comprometido com os homens e com o mundo” (CSS 1982 p. 18). Enseja que o trabalho de conscientização tenha que levar a um compromisso, a uma ação concreta sobre a realidade. E questiona: “Nossas equipes de reflexão são equipes de ação? Que tipo de ação?”

(CSS 1982 p. 26). A partir de 1995 o conteúdo destes cursos passa a ser o tema escolhido pela CNBB para a CF de cada ano e isto continua até os dias atuais 43.

É perceptível o crescimento na linha de uma visão crítica da realidade, da compreensão da injustiça social que, posteriormente, levará a um desdobrar da reflexão em ações concretas de engajamento para transformar a realidade. Na preparação para a Semana Santa de 1983, motivou-se o estudo dos Dez Mandamentos. O subsídio de estudo apresentava cada um dos mandamentos a partir do livro do Êxodo, seguido de uma contextualização da situação da época e de uma explicitação do seu sentido para o hoje da comunidade, com um olhar crítico diante da situação social44:

Deus viu no clamor de seu povo várias angústias. Em cada angústia descobriu uma causa. Para cada causa Ele contrapõe um mandamento tentando arrancar o mal pela raiz. [...] Por isso, refletir sobre os mandamentos é se conscientizar destas situações de mal e trabalhar para que elas desapareçam. Este trabalho é feito a partir da organização do próprio povo. De baixo para cima. Por isso Deus organiza um povo. Ele quer que seu povo faça uma mudança total desta situação de mal. (Ex 2,24-

42 Neste período figuram temas catequéticos como: O Pai Nosso (CSS 1981); Os Dez Mandamentos (CSS 1983); A Caminhada das Comunidades (CSS 1991); e Nova Evangelização (CSS 1992). Mas sobressaem com mais força os temas bíblicos: Povo Sofredor (CSS 1984), um estudo sobre o livro de Isaías; Reconstrução do povo (CSS 1985), um estudo sobre o livro de Rute; A caminhada de Jesus (CSS 1986); Profeta Elias (CSS 1987); Um estudo do livro de Ester: A força do restolho (CSS 1988); Profeta Amós (CSS 1989); Profeta Oséias (CSS 1990); Um estudo dos Livros de Macabeus: Fé Resistente (CSS 1993) e Abraão e Sara em parábolas (CSS 1994), no qual cada fase importante da vida de Abraão é refletida a partir de uma parábola. Retomaremos a questão do uso de parábolas ou comparações mais adiante ao tratar do uso da linguagem simbólica.

43 Talvez a distância dos centros de decisões eclesiais, pois o MOBON se situa em uma pequena cidade da Zona da Mata Mineira, o foco muito centrado na realidade local tenha dificultado essa visão mais ampla que poderia ter levado, já em 1982, a assumir a CF como eixo dos cursos de Preparação para a Semana Santa.

44 Chama atenção a ênfase dada ao tema da libertação presente no refrão de um cântico feito para animar esse estudo: “Os mandamentos do Senhor têm um sentido, de libertar o homem que está oprimido.”

(CSS 1983, p.28). Em outro cântico aparece o convite a despertar o povo para enxergar o Faraó, hoje:

“Mandamentos são leis que libertam, Deus insiste em ouvirmos sua voz. Ele quer que teu povo desperta. Faraó está no meio de nós” (CSS 1983 p. 31).

25 – 6,5-6). Deus não quer que apenas belisquemos por cima (CSS 1983 p. 2).

Aparecem sinais de uma fé que desperta o dinamismo missionário do povo, por meio de ações que começam em seu meio: “de baixo para cima” para que aconteça a mudança social, ali vista como “situação de mal”. E isso devia ser abraçado com força. Na expressão popular utilizada não bastava “beliscar” a situação por cima. No ano seguinte, a reflexão dá um passo adiante na compreensão dos sofrimentos do povo, à luz da Palavra de Deus. Faz-se um estudo do livro do Segundo Isaías (Is 40-55) com a intenção de ajudar o povo das comunidades a tomar consciência de sua realidade e da sua missão de buscar a justiça. Este estudo evidencia que a Igreja procura, através da CEBs, alimentar a resistência de seu povo e buscar a libertação:

A reflexão da caminhada do povo sofredor na Bíblia, nos ajuda a fazer uma olhada nos sofrimentos de hoje. O faraó e o Nabucodonosor continuam.

Mas no meio de tantos sofrimentos vamos descobrindo uma Esperança:

que é a força de resistência do povo sofredor. Ela é a grande força que dá aos sofrimentos um caminho de libertação (CSS 1984 p. 6).

E ainda:

Revela também a sintonia com a CF e a ênfase no protagonismo do povo:

“Somente a luta do povo sofredor é que vai realizar o lema da Campanha da Fraternidade deste ano – “Para que todos tenham vida”. Só haverá vida em abundância quando o povo sofredor acreditar em si. Comprometer-se com Deus na vida. E ir até as últimas consequências deste compromisso”

(CSS 1984 p. 24).

Faz-se ainda uma retomada dos Intereclesiais das CEBs enfatizando a ligação da Igreja com a organização do povo em função de buscar respostas aos seus problemas (cf.

CSS 1984, p. 26). Isto é reforçado pelo refrão de um único cântico que acompanha o assunto estudado neste subsídio: “Não pode ó gente, ó (não), a Igreja s’acomodar” (sic) (CSS 1984 p. 31).

Na primeira parte desta pesquisa nota-se que a partir de 1985 há um maior engajamento na vida social, em sindicatos e associações e que se desdobra, por sua vez, em um maior envolvimento na vida política. Lideranças de comunidade, motivadas pela fé e pela caminhada da Igreja passam a participar diretamente na política, filiando-se a partidos políticos e assumindo cargos e encargos políticos a nível municipal e regional45. A

45 Cf. Parte I. - 3.4. Engajamento sociopolítico: resposta aos desafios da vida, p. 100.

caminhada do trabalho de formação começa a produzir seus frutos de solidariedade, nesta busca da justiça social, em função de melhorias para a vida do povo nas comunidades. Neste ano, faz-se um estudo do livro de Rute com o tema: “Reconstrução do povo” (CSS 1985).

Abordam-se os caminhos de reconstrução que não chegaram à raiz dos problemas:

Zorobabel (cf. Esd 3,1-13); Esdras (cf. Esd 9-10) e Neemias (cf. Ne 5,1-19), depois o projeto de Rute (cf. Rt 1-4) que, apelando para o cumprimento da Lei, garante terra, pão e futuro para o povo. Salientam-se as dificuldades enfrentadas e os diferentes modelos de Igreja46 presentes na sociedade apontando para uma Igreja comprometida, solidária, que assume sua presença junto ao povo sofrido:

Entre nós a fome é uma triste verdade. Existe entre nós uma migração mal motivada. A exploração está aí. A sede de acúmulo cresce cada dia. A terra é cada vez mais objeto de negócio. Será que a nossa fé e nossos trabalhos de comunidade podem desconhecer essa situação? E mesmo conhecendo essa situação qual é a nossa posição? Estamos indo na raiz do problema?

Acreditamos que as organizações de base terão condições para transformar essa situação? Há muita gente da Igreja que está empenhada em transformar essa situação. Mas, infelizmente, ainda há uns tipos de Igreja que não estão ainda na raiz. É o tipo da Igreja marca caju ou abacate. Às vezes fica mesmo por fora. Outras vezes faz que entra, mas não entra na raiz dos problemas (CSS 1985 p. 5).

Os cursos realizados com este subsídio despertam para olhar a situação em busca das causas da exploração. E ao mesmo tempo aponta o compromisso de ligar a fé com a realidade vivida, na busca de fortalecer as organizações de base para uma transformação social. Verifica-se a busca por uma Igreja comprometida com o povo, próxima de sua realidade, atenta a seus clamores. Isto coloca o MOBON em maior sintonia com a Igreja do Brasil. As linhas desse compromisso da Igreja com seu povo vão se aprofundando, a cada ano, por meio dos cursos de Preparação para a Semana Santa. Em 1986 o subsídio tratava da

“Caminhada de Jesus” (cf. CSS 1986), acenava para o lugar social que Jesus ocupava junto de seu povo e para os conflitos que Ele enfrentava. E, fazendo uma passagem da Bíblia para a vida, lançava uma luz sobre a realidade vivida pelas comunidades, que ajudava a ler os conflitos enfrentados, por seus seguidores, na atualidade (cf. CSS 1987). Os anos seguintes

46 Na última parte do estudo faz-se uma explanação de três modelos de Igreja utilizando-se de uma analogia com as frutas: caju, abacate e laranja. Na analogia, a semente corresponde à igreja e a massa ao povo.

Neste caso, o modelo eclesial “Caju” expressa a Igreja desligada da vida do povo, distante da realidade do povo; “Abacate” indica a Igreja que, aparentemente, está junto com povo, mas não se mistura com ele. Já o modelo eclesial “Laranja” representa a Igreja em forma de pequenas comunidades, inserida na vida, nas lutas e na realidade vivida pelo povo. Em síntese: cada fruta expressa um modelo eclesial e a um nível de compromisso da Igreja com o povo (cf. CSS 1985). Mais adiante será tratada a questão do uso da linguagem simbólica.

foram marcados por figuras fortes da Bíblia como Ester47 e os profetas48, a resistência dos Macabeus (cf. CSS 1993) e a caminhada das comunidades à luz do ministério de Jesus em sua vida pública (cf. CSS 1991). Há um forte apelo para o cultivo de uma espiritualidade enraizada na vida. Chama a atenção que estes subsídios, embora não chegassem a nomeá-lo explicitamente, traziam reflexos do método indutivo Ver-Julgar-Agir49.

A partir de 1995, conforme proposta da CNBB, a cada ano, para todo o Brasil, o tema da Campanha da Fraternidade passa a ser o conteúdo de estudo dos cursos de Preparação para a Semana Santa. Foi um passo importante para maior sintonia e comunhão com a Igreja do Brasil. O material produzido para estudo e reflexão com as lideranças não era um simples resumo dos Textos Base das Campanhas da Fraternidade. A partir deles, fazia-se uma assimilação criativa e engajada, em uma linguagem acessível ao povo das comunidades. Criativa, porque enriquecida com imagens e comparações próximas da vida do povo; engajada, porque apresentava pistas de ação para o enfrentamento das dificuldades presentes na realidade da vida do povo: “Fazer a Páscoa dentro da proposta da CF 95 é mais do que fazer uma análise da realidade, ou simplesmente lamentar a situação, é buscar atitudes, alternativas capazes de desmascarar e desmontar esta sociedade geradora dos mais variados rostos de excluídos (DSD 178)” (CCF 1995 p. 4).

Em sintonia com a Igreja do Brasil, os cursos promovidos pelo MOBON passaram a trabalhar conteúdos do Ensino Social da Igreja. Em uma imagem, faziam o “sangue”, ou seja o pensamento da Igreja, circular em meio às comunidades e por isso se tornava força e fonte de muitas iniciativas concretas a serviço da vida. O método indutivo “Ver, Julgar e Agir”

usado nas CFs e seguido nos subsídios do MOBON para a formação de lideranças, amparava um constante despertar da consciência crítica à luz da Palavra de Deus e apontava para perspectivas de ação solidária nas comunidades. Percorrido o caminho dos cursos de Preparação para a Semana Santa, resta vislumbrar o caminho feito através dos cursos de preparação para o Natal que, posteriormente se convertem em cursos do Mês da Bíblia.

47 Cf. “A força do restolho” (CSS 1988).

48 Três estudos são dedicados aos profetas, quase que seguidamente: Cf. O profeta Elias (CSS 1987);

O profeta Amós (CSS 1989); Profeta Oséias (CSS 1990).

49 Recente artigo relata a importância deste método criado por Joseph Cardijn, fundador da Ação Católica, no contexto da recepção do Vaticano II na América Latina por meio de Medellín. Cf. BRIGHENTI, Agenor. Medellín: a Igreja no tempo e no lugar certo. In: Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, v. 78, n.

309, p. 42-64, jan./abr. 2018. Cito p. 56-57.