CAPÍTULO 5 CHAVES ECLESIAIS DE CODINA E O MOBON
5.2 O MAPE em chave moderna
uma presença e ação do Espírito no meio dos pobres, dos humildes, uma ação a partir de baixo, em pequenas localidades, nas capelinhas de paróquias do interior, a partir da periferia.
Pessoas que adquiriam convicção e firmeza de fé quase inabaláveis. Embora a ação fosse apologética e marcada por confrontos com os protestantes, os cristãos envolvidos no trabalho do MAPE, tinham a certeza de estar com a verdade da Igreja, fundamentada na Bíblia e da qual se sentiam guardiães e divulgadores. O clima eclesial dominante era a sensação de uma Igreja viva, corajosa e contagiante. Era preciso sair em sua defesa no mundo e não ceder aos ataques por parte de outras igrejas. Nascia assim o ideal de converterem-se em bons soldados de Cristo: Bonus miles Christi, dispostos a defender a Igreja. Essa perspectiva se sustenta até o momento em que começam a aparecer as influências e transformações advindas do Concílio Vaticano II que instaura um novo tempo na Igreja. Pode-se dizer que o MAPE dá um passo adiante e passa ao que Codina nomeia como uma eclesiologia em chave moderna.
enraizado na Escritura, que por motivos históricos e políticos, havia sido postergado desde o século 11”19.
Na sua segunda fase, o MAPE (1966-1978), não sem resistências, incompreensões e dificuldades, abre-se a uma nova forma de presença e atuação na Igreja20. Essa nova fase é marcada por um anseio de renovação vindo com os novos ares do Concílio Vaticano II.
Cabe aqui tentar captar essa mudança, sobretudo através dos materiais produzidos, onde pode-se verificar a eclesiologia que lhe está subjacente. Nesta busca, insere-se a gênese histórico-narrativa do que, aos poucos, vai constituindo-se a dinâmica de ação evangelizadora do MOBON.
Na nota explicativa que abre o livreto “Anúncio da Boa Nova” (ABN 1968)21, fica claro o anseio de despojar-se do homem velho e revestir-se do homem novo22 que foi o caminho feito pelos santos. E, ao sinalizar que ser cristão é “renovar a face da terra”, “pôr Cristo em nossa vida”, “morrer ao pecado”, “ressuscitar com Cristo” (ABN 1968 p. 1), manifestam o aspecto pessoal da adesão à fé, por meio da vida em comunidade:
O cristão renovado (e o legítimo cristão renova-se todos os dias), se abrirá para a revitalização das cerimônias litúrgicas, das formas de devoção, da oração pessoal, da prece comunitária, do culto público, da meditação e leitura espiritual. Revitalizar é o termo. Dar vida de novo. Fugir da rotina.
Da estagnação. Dar sentido ao que se faz. Ou achar o sentido do que se fez.
Ou deixar de fazer o que diante da ótica da Igreja, deixou de ter sentido (ABN 1968 p. 1).
As expressões utilizadas sinalizam não só a insistência na necessidade de renovação, bem como indicam a existência de certa dificuldade ou resistência para a implantação deste novo estilo de vida cristã. “Achar um sentido novo do que se fez” ou “deixar de fazer o que deixou de ter sentido”, parece indicativo de uma forma para superar as resistências contrárias às mudanças. Vale ressaltar que não se tratava de uma espécie de movimento vanguardista que se insurgia ou que era apresentado ao povo como um levante das bases.
Veja o cuidado na mesma nota introdutória supracitada: “Não é intuito destas lições insurgir-se (sic) contra qualquer determinação das autoridades competentes” (ABN 1968 p.
19 CODINA, Seguir Jesus hoje, p. 77.
20 Cf. Parte I - 2.1 A superação da apologética, p. 53.
21 Este livreto é composto de três planos de estudo: 1. Somos a família de Deus (p. 2-16); 2. O Pai nos espera (p. 17-34) e 3. A Boa Nova do Evangelho (p. 35-49). Possivelmente reúna conteúdos de cursos de formação já trabalhados nas comunidades, compilados com a finalidade de servir de material para as equipes de reflexão.
22 Embora não faça a citação explícita, demonstra ser uma referência ao texto de Ef 4,22-24.
1)23. Outro destaque é o seu caráter fortemente comunitário, que ganha ênfase neste contexto em chave moderna:
As lições fazem parte de um plano global. Sozinhas ou insuladas, podem dar ocasião a mal-entendidos. São um roteiro que, escrito, é apenas um corpo. A alma é-lhe infundida nos cursos e encontros, para os quais o desenho desse corpo é um convite e não deixa de ser uma recordação para os que deles já participaram (ABN 1968 p. 1).
A visão de Deus passa agora por uma nova perspectiva, apresenta-se um Deus próximo, numa relação de filiação, de amizade. Deus aparece como aquele que faz uma proposta e aguarda da parte dos seus, uma resposta. Um Deus que quer formar comunidade e que quer estar com o seu povo. Neste sentido é que é apresentada a relação de Deus com Abraão. Ele aparece como um espelho da relação de Deus com todo ser humano. Uma relação de proximidade que busca vencer o individualismo entre as pessoas, bem como o individualismo da fé. Uma relação de amor e de reciprocidade:
Deus quer entrar em contato conosco. Quer mais ainda, quer fazer uma Aliança com o seu povo. Esta aliança é resultado do amor de Deus. Deus sendo amor, não busca a si isoladamente. Amor não é busca de nós mesmos. Quem ama acha sua felicidade, fazendo a felicidade do outro.
“Ser feliz, é fazer feliz alguém”. É o que Deus faz (ABN 1968 p. 3).
Evidenciam-se os traços que expressam a relação do amor de Deus para com o seu povo e o apelo a corresponder a esse amor na relação com os semelhantes. Para isso, é preciso vencer o individualismo e reforçar a dimensão comunitária da fé. O que é confirmado ao trabalhar a resposta do cristão à proposta de Deus. A ênfase recai sobre a
“aceitação do Evangelho”, que corresponde a um outro jeito de viver, que não se reduz a trazer o “nome” de cristão, mas implica um testemunho de vida. “Religião não é moda para salvar as aparências”, não é para “comprar a salvação”. A ênfase é outra, indica que
“Cristianismo é vida” e a resposta ao chamado de Deus deve ser de modo “livre e consciente” (ABN 1968 p. 5). Nesta fase, os cursos e encontros de formação evidenciam a importância do testemunho cristão e indicam uma nova forma de viver a fé; nisto consiste a
“resposta” a Deus, que é dada pela vivência cotidiana e não apenas em alguns momentos da vida, como por ocasião da recepção dos sacramentos. Busca retomar o sentido que deve ter a missa, a oração, a reza do terço e a catequese. Já não era suficiente saber ou ter decorado as
23 Todo material produzido a partir desta segunda fase apresenta a chancela “Imprima-se”
(Imprimatur) por parte do Ordinário local. Esta é uma característica da constante busca de aproximação e sintonia com a Igreja local presente em toda a trajetória da dinâmica do MOBON.
verdades da fé, era preciso cultivar a amizade com Deus. A partir desta amizade brotaria um jeito novo de viver e conviver na família e na comunidade.
Nos cursos e encontros realizados com as lideranças, bem como nos subsídios preparados para a sua multiplicação nas comunidades, destacam-se: a importância dada à Palavra de Deus e o incentivo para o desenvolvimento da vida em comunidade.
a. A importância da Palavra de Deus.
O anúncio da Palavra é que desperta a fé. Mantém-se uma espécie de identificação destes “Pioneiros do Evangelho” como sendo “apóstolos” de Jesus, mas agora ressalta a importância que estes davam ao “Ministério da Palavra”, cita o catecumenato cristão e indica que Cristo só “instituiu” os sacramentos após ter evangelizado. Decorre daí o fato de que a evangelização torna-se condição prévia para a recepção dos sacramentos, sobretudo o sacramento do Batismo. Era aceno da preocupação assumida em Medellín de buscar superar uma “sacramentalização com pouca ênfase na prévia evangelização” (DM 6,1)24. A partir desta consciência começam a surgir maiores exigências nas preparações para o batismo, principalmente a participação nos grupos de reflexão e na vida litúrgica da comunidade:
cultos dominicais e missa mensal. Há uma ênfase na dimensão missionária por meio de leigos que se tornam multiplicadores de cursos nas comunidades. Urgia despertar o sentido do que significava ser cristão. Aos poucos, superou-se a perspectiva apologética e insistiu-se na formação e organização de comunidades.
A importância da Palavra era justificada pela Encarnação de Cristo, pela qual a Palavra se fez carne. Procurava-se demonstrar que se tratava de uma Palavra viva, quando lida e refletida em comunidade. A Escritura Sagrada, lida em comunidade, em atitude de fé, permitia um encontro com a pessoa de Jesus, daí a necessidade e o empenho para a organização dos grupos de reflexão da Bíblia. Esse encontro com a Palavra levava à conversão: “Mas se isto não se der, então correremos o risco de termos (sic) uma religião de casca, de tradição, interesseira.” (ABN 1968 p. 7). O Antigo Testamento é destacado como o tempo da espera do Messias e o Novo Testamento como tempo da chegada do que era esperado. Depois seguem dicas para anúncio da Palavra: “O anúncio da Palavra de Deus deve ser antes fruto de uma experiência vivida. [...] A nossa presença deve ser o testemunho de quem passou para a vida a Palavra.” Importa não serem apenas “repetidores da Palavra de
24 Uma das perguntas para a discussão em grupo no curso da “Boa Nova do Evangelho” era: “Toda pessoa pode ser batizada?” No plenário, cada grupo defendia a sua resposta. A catequese que se almejava a partir desta pergunta é que o batismo era para os “convertidos”. Ou seja, sem uma vivência cristã na comunidade, sem um mínimo de caminhada de evangelização da parte dos pais e padrinhos, não se devia batizar a criança.
Deus” (ABN 1968 p. 10). Revela-se aqui uma nova forma de presença do evangelizador em contraposição ao modelo apologético. Evidencia-se uma nova postura em relação ao primeiro momento dos “Pioneiros do Evangelho”, conforme destacado na fase anterior.
Trata-se de testemunhar a Palavra. Enfatiza a conversão, a mudança de vida, o deixar-se ser
“atingido” pela Palavra para poder revelar a sua “eficácia” e este anúncio devia partir da realidade vivida. “Isto se dá quando eu não reflito só para os outros, mas, juntamente com os outros” (ABN 1968 p. 11).
O acento dado ao refletir “com” os outros indica a busca de uma participação efetiva de todos os envolvidos no processo de evangelização. Os participantes dos cursos de evangelização passam a ser vistos não como simples “receptores”, mas como interlocutores nos encontros e cursos de formação bíblica. Era uma forma de promover a ação evangelizadora dos leigos nas comunidades, já de uma forma testemunhal. Posteriormente esta reflexão da Palavra “com” os outros será a tônica da dinâmica de ação evangelizadora do MOBON.
Na sequência, ao trabalhar os elementos que favorecem ao conhecimento das Escrituras, apontam-se três pontos chave: a personalidade dos escritores; o contexto; e os gêneros literários. Explicita que a Palavra cria a “família de Deus” que é a comunidade, o que faz do povo uma “Igreja Peregrina”. O primeiro “plano de estudo” é finalizado com um reforço para as “Associações ou Encontros de Equipes” que é o início do que veio a ser os grupos de reflexão da Bíblia25. Nota-se uma sincera preocupação em formar as pessoas para a missão e em promover o trabalho missionário nas comunidades. Eis algumas dicas apresentadas para as lideranças:
Para anunciar com base a Palavra de Deus, devemos refleti-la em nossa vida. Vivê-la primeiro. Precisamos saber o que vamos dizer. Ter convicção do que dizemos. Nunca falar sem antes preparar-nos. Tendo bem claro o que vamos dizer, transmitiremos muito, em pouco tempo. Quando se dá o contrário, alonga, cansa, espanta os ouvintes e não se transmite nada.
Pregar sem reflexão é uma traição ao Evangelho. É falta de honestidade.
Falta de respeito à Palavra e aos ouvintes (ABN 1971 p. 69).
Revela-se um zelo pela promoção do ouvinte ou participante do curso que é repassado nas comunidades. “É preciso levar o ouvinte a descobrir por ele mesmo. Levá-lo a
25 Em um pequeno subsídio de preparação para a Semana Santa de 1974: O Cálice e o Círio (CSS 1974) encontra-se um “Plano da reunião de Equipe” que é uma instrução para o funcionamento da reflexão da Bíblia em família. Além do esquema da reunião sugere que haja uma reunião por semana e um plenário depois de três reuniões. O livro era usado para o estudo de formação da liderança em forma de curso nas comunidades e funcionava como subsídio das reuniões de reflexão em família, que depois se convertem em grupos de reflexão da Bíblia.
refletir e encontrar a solução de seus problemas. Não podemos solucionar os problemas dos outros. Cada um é que (sic) deve encontrar, pela reflexão, as soluções para os seus casos. O que podemos fazer é ajudá-lo.” (ABN 1971 p. 70). Revela o cuidado para que haja um efetivo envolvimento da parte de quem coordena o curso e da parte de quem dele participa.
Isso é reforçado, de outro modo, no tocante às orientações para o repasse dos cursos. Elas aparecem mescladas em meio aos conteúdos estudados com a liderança:
Temos que despreocupar-nos com o que temos para transmitir. Ver o que o outro gosta. O ponto de partida para o papo é muito importante. [...] Então o caso é provocar o outro neste sentido. Fazê-lo falar de suas coisas.
Mostrar-nos sinceramente interessados. Depois, então, esse que foi ouvido gostará de ouvir. Você o cativou pela amizade. Ele agora vai longe com você (ABN 1971 p. 75).
Para além da transmissão de um conteúdo de fé, o acento recaía no encontro entre pessoas de fé, em função de um mútuo crescimento. Uma interação entre quem coordenava o encontro e quem dele participava, num clima de confiança e amizade, na partilha do conhecimento da Palavra de Deus e das experiências de vida em comunidade. Neste sentido, havia o esforço para que as mudanças surgidas a partir do Concílio Vaticano II chegassem de forma compreensível e clara às comunidades. Novamente a necessidade de uma participação efetiva das pessoas. O dirigente é incentivado a aprender, a escutar os outros.
Não deve colocar-se na posição de quem vai ensinar. Ouvir o outro é o ponto de partida para o anúncio (cf. Lc 24,17). Na linguagem de hoje, importava que a pessoa se descobrisse como “sujeito”, que se emancipasse e agisse a partir de sua própria consciência, vontade e liberdade, deixando-se guiar pela Palavra de Deus, respondendo à Sua proposta de amor com sua vida e seu testemunho de fé cristã, em comunidade.
Em outro subsídio: “O Reino entre nós” (REN 1971)26, chama a atenção a constante citação dos textos do Concílio Vaticano II. Por meio de uma linguagem acessível, apresenta as linhas básicas do ser Igreja a partir do Concílio. “A Igreja se renovou em função de Deus e do mundo. Sua missão é descobrir o sentido da fé do povo de Deus. Este sentido será encontrado na fidelidade a Cristo e na sensibilidade perante o mundo de hoje” (REN 1971, p. 64-65). Procura-se de fato, ajudar o povo das comunidades a dar passos e abraçar o novo modelo eclesial. Os cursos de formação de lideranças e os cursos que estas lideranças
26 Este subsídio traz o conteúdo de um dos principais cursos de evangelização do MOBON: “A Boa Nova do Evangelho” que passando por várias adaptações continua até os dias atuais, apresenta ainda o conteúdo de outro curso muito destacado após o Concílio Vaticano II: “O Evangelho na vida”.
multiplicavam nas comunidades favoreciam para que as propostas e a nova visão de Igreja do Concílio Vaticano II pudessem penetrar no meio das comunidades.
Um trabalho de evangelização que avançava através das periferias e a partir de baixo, a partir dos pobres e sofridos, alimentando a sua esperança na Palavra de Deus por meio do testemunho. Neste sentido alertava para a missão do coordenador de comunidade: “o coordenador não pode dar as coisas prontas. Deve despertar iniciativas nos membros da comunidade” (REN 1971, p. 34). Esta é uma tônica que acompanha a dinâmica de ação evangelizadora do MOBON. Por isso, optou-se aqui por usar o termo “lideranças” que indica tanto os dirigentes dos cursos quanto seus participantes. Pois, todos são chamados a atuarem ativamente na vida de comunidade e testemunharem o Evangelho no dia a dia.
b. O desenvolvimento da vida em comunidade.
Nesta fase, uma das preocupações centrais é com o desenvolvimento da vida em comunidade, em sintonia com seus desafios imediatos. Por isso, se destaca o incentivo à alfabetização, o cuidado com a saúde, a construção de fossas e o uso da água filtrada para vencer o problema da verminose. Incentiva a diversão como um elemento importante para a saúde humana. Destaca-se que “Deus quer salvar o homem todo” e que “nosso corpo é valorizado por nosso Criador” (CSS 1975 p. 44). Já sinaliza os indícios da busca de interligar a reflexão da Palavra com os desafios concretos da vida e de envolver as pessoas na promoção do crescimento da vida em comunidade, melhorando as condições para a vida em família.
No material para os cursos de formação da liderança e utilizados para os encontros nas comunidades, por ocasião da Semana Santa27, se destacam como temas principais: a liturgia, visando maior compreensão dos mistérios celebrados28; a preocupação com a convivência comunitária e com a vida religiosa em família como Igreja doméstica29; e o sentido da Páscoa na Igreja30. Na introdução do subsídio de preparação para a Semana Santa de 1980, “A Páscoa da Igreja” há uma referência explícita à Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em Puebla, ocorrida em 1979 e a sinalização que este encontro dos bispos latino-americanos estabelecia os rumos por onde a Igreja devia caminhar. Cristo é apresentado como fonte de comunhão, de participação e de libertação.
Mas ao tratar dos meios de libertação cita apenas a liturgia e a catequese. O horizonte de
27 Cf. Parte I – 3.2.1 Os subsídios de preparação para a Semana Santa, p. 89.
28 Cf. O Cálice e o Círio (CSS 1974) e Leitura da vida (CSS 1976).
29 Cf. Comunicar para Crescer (CSS 1975), O desvio da vida (CSS 1977) e Igreja doméstica (CSS 1978).
30 Cf. Fazer a Páscoa (CSS 1979) e A páscoa na Igreja (CSS 1980).
preocupação dominante era a organização da vida eclesial em comunidade. Visava uma participação efetiva do povo e maior empenho para a organização da catequese em todas as comunidades.
Os cursos de preparação para o Natal31 eram uma catequese bíblica por ocasião do Natal. Nos subsídios abundavam citações bíblicas e os temas recorrentes eram: a vida em família e em comunidade,32 a fé e o testemunho cristão33. Apresentavam o Natal como festa da Encarnação e da proximidade de Deus com seu povo34. Faziam um paralelo entre Cristo (a história do amor no mundo) e o Anticristo (a história do ódio)35. De forma semelhante aos cursos de preparação para a Semana Santa, os cursos de preparação para o Natal estavam centrados em preocupações intraeclesiais, de formação e organização da vida em comunidade. A importância dada ao estudo da Bíblia e ao cultivo da fé em comunidade propiciava um ambiente fecundo para a formação de uma liderança atuante e muito presente na vida eclesial.
Nesta segunda fase, nota-se um avanço em relação à primeira etapa desta dinâmica de formação de lideranças. Superou-se a fase apologética e apostou-se na convivência familiar, na formação de comunidades, na dimensão litúrgico-catequética, na formação de lideranças para o serviço de evangelização e na ação missionária dos leigos. O despertar para um olhar crítico sobre a realidade, sobre as situações de injustiça e opressão, bem como o desdobramento da fé em compromissos sociais seria um passo futuro, só verificado nas fases posteriores, com a abertura para a ação solidária guiada pela fé. É quando se passa da predominância da chave eclesial moderna para a chave solidária.