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Perfil dos leigos da “Turma da Boa Nova”

CAPÍTULO 2 DO MAPE AO MOBON

2.7 Perfil dos leigos da “Turma da Boa Nova”

um cultivo da espiritualidade que prepararia para um engajamento social sólido e alimentado por esta espiritualidade. Essa demora em abraçar as questões do engajamento na luta política foi criticada e em alguns lugares chegaram a rejeitar o trabalho evangelizador:

Na década de 1970 já começaram a nos criticar. E críticas fortes. Diziam que nosso trabalho ensinava a rezar, mas não levava para a realidade social.

[...] Fomos dispensados da Diocese de São Mateus, em Ecoporanga, Pinheiros e Montanha. O clero de São Mateus estava empenhado na questão social e nos atrasados. [...] Os padres portugueses de Teófilo Otoni estavam empenhados na questão social e também se manifestaram a respeito do atraso do nosso Movimento de Evangelização ligado quase que só à espiritualidade. Até em nossas Assembleias Diocesanas de Caratinga fomos criticados por estamos ligados à espiritualidade e ausentes da questão social159.

Mas qual era, em síntese, o perfil do leigo nesta segunda fase do MAPE no qual os Pioneiros do Evangelho, por trabalharem os cursos intitulados Pré Boa Nova e Boa Nova, passaram a ser chamados de “Turma da Boa Nova”?

disposição e disponibilidade incríveis para anúncio do evangelho em terras distantes, deixando por um tempo, família e ocupações, mas alegres por estar anunciando Jesus Cristo e contribuindo para o crescimento do Reino.

São pessoas com espírito de liberdade. Com iniciativa para buscar outros cursos de seus interesses dentro e fora da paróquia. Liberdade de organizar reuniões nas comunidades e que apostam na formação de novas lideranças, a ponto de ajudar a cobrir os gastos materiais para que outros participem dos cursos162. Em síntese, sujeitos da formação e animação das comunidades, bem como da evangelização, de forma consciente e responsável, como membros de uma Igreja viva que se reconhece, não tanto pelas edificações, mas, sobretudo pela participação do povo, pela vida em comunidade.

A reflexão da Palavra nos grupos de reflexão, a fidelidade ao culto dominical e a participação mensal na Eucaristia, pelo incentivo e pela consciência gerada através dos cursos de formação, se convertem em verdadeiro dinamismo missionário de leigos evangelizando outros leigos. Como podemos ver neste testemunho do Dom José Eugênio Corrêa, na época bispo de Caratinga-MG:

a experiência vem demonstrando que os leigos têm muito mais facilidade de comunicação e entrosamento entre eles mesmos. É melhor evangelizar os leigos pelos leigos. E é assim que despertamos a consciência dos leigos e as dinamizamos, para exercerem o seu papel de “sal da terra” e “luz do mundo163.

Apesar da resistência inicial, esse modelo participativo que compõe a dinâmica dos cursos começa a superar parte do autoritarismo reinante nas comunidades. Algumas decisões passam a ser partilhadas. O exercício constante de reflexão da Bíblia e em torno de perguntas que levam a uma tomada de posição, favorece uma caminhada eclesial e social consciente e responsável. O que ainda esbarrava em certo clericalismo. A tomada de consciência por parte dos leigos levava ao surgimento de críticas sobre a postura de padres que não valorizavam a presença e o trabalho dos leigos nas comunidades. “Nos começos dos debates, muitos apelavam para as falhas dos padres, dos Bispos etc. E aos poucos os debates se voltaram para nossas falhas pessoais. O que deveríamos fazer e não fazemos etc.”164.

A dimensão missionária fazia crescer uma ousadia a partir daquilo que se acreditava.

Vislumbrava-se o trabalho bíblico de formação de comunidade como algo de Deus, como um apelo da vida cristã oriundo do próprio batismo. Por isso, os próprios leigos iam

162 Cf. KERANDEL; DEL CANTO, Evangelización y Promoción, p. 71-72.

163 CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Comunidades, p. 193.

164 COSTA, Bodas, p. 55.

espalhando cursos para outras comunidades, e o próprio material dos cursos, utilizados nos grupos de reflexão, chegavam a outras dioceses, mesmo avessas ou resistentes ao trabalho de evangelização165.

Surge uma nova força no meio das comunidades, um ardor missionário presente nos leigos, a partir de baixo, que vai abrindo novos caminhos, rompendo as fronteiras geográficas e as resistências ao novo modelo de Igreja. Em seu conjunto, esta dinâmica de evangelização revelava-se frutuosa e com força de penetração. Na avaliação dos trabalhos de missão no Amazonas, em 1978, verificou-se que se tratava de “uma palavra simples, de gente simples, para pessoas simples”166. Ao tratar desta dinâmica de trabalho em Eugenópolis-MG, assim se reportam: “...os humildes são instrumentos privilegiados do Espírito; o campesino é capaz de ser, ele mesmo, agente de transformação deste ambiente”167.

Nesta fase, embora os leigos sejam os principais incentivadores dos grupos de reflexão da Bíblia e se dediquem, com forte empenho, na formação de comunidades, não há conhecimento de uma participação da Diocese de Caratinga-MG nos Encontros Intereclesiais de CEB´s168. O trabalho missionário crescia e fazia crescer a Igreja por onde passava, mas qual fermento na massa, fazia crescer sem aparecer. Isto fazia parte deste perfil do leigo atuante nesta dinâmica de evangelização.

Se num primeiro momento o MAPE colocou a Bíblia nas mãos do leigo e o levou a encontrar as respostas da fé, num segundo momento, como fruto do Concílio, a Turma da Boa Nova conduziu à formação de comunidades e à leitura da Bíblia em pequenos grupos, despertando um jeito participativo de ser Igreja. A Boa Nova leva o grupo de missionários leigos à denominação de MOBON: Movimento da Boa Nova do qual passamos nos ocupar neste momento.

165 “No trabalho de mestrado, constatei que pequenos livros de cursos do Mobon circulavam por paróquias da Arquidiocese de Mariana e comunidades eram organizadas sem consentimento do Arcebispo Dom Oscar de Oliveira, que se mostrava avesso ao aggiornamento católico.” OLIVEIRA, Religião, p. 73.

166 OLIVEIRA, Raul Motta. Missões no Amazonas. Diretrizes, Caratinga, n. 323-324, p. 1, set.1978.

167 “...los humildes son instrumentos privilegiados del Espíritu; el campesino es capaz de ser, él mismo, agente de transformación de su ambiente.” KERANDEL; DEL CANTO, Evangelización y Promoción, p. 76-77.

168 O primeiro foi em janeiro de 1975, o segundo em julho de 1976, ambos em Vitória no Espírito Santo e o terceiro em julho de 1978, em João Pessoa, na Paraíba.