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CAPÍTULO 3 MOBON: MOVIMENTO DA BOA NOVA

3.3 A Boa Nova no Mato Grosso 197

A partir de um encontro entre Dom Máximo Biennès, bispo de Cáceres-MT e Dom José Eugênio Corrêa, bispo de Caratinga-MG, durante a Assembleia Geral da CNBB, em 1971, o bispo de Cáceres veio a Caratinga para conhecer de perto o trabalho da Boa Nova.

Ao participar de um curso para lideranças e visitar algumas comunidades da Diocese de Caratinga, Dom Máximo se entusiasmou com o que viu do trabalho dos leigos. Já a partir daquele ano buscou formas para introduzir o trabalho da Boa Nova na Diocese de Cáceres seguindo a mesma dinâmica de Caratinga. Ele contou com a ajuda de duas missionárias leigas: Marta Maria da Silva e, posteriormente, Eliane Soares Nascimento198. Marta Maria foi responsável por organizar e dirigir os primeiros cursos na Diocese de Cáceres, em 1972.

Elas mostram como a dinâmica da Boa Nova fazia com que novas comunidades fossem formadas a partir das iniciativas de reflexão da Palavra de Deus:

196 Os cursos de formação como Pré Boa Nova e Boa Nova, em geral, levam em conta o plano diocesano de pastoral de cada diocese na qual estão sendo trabalhados. É uma forma de reforçar a Igreja local, não há uma concorrência com ela, como se verifica na dinâmica de outros movimentos.

197 Recente publicação traz um retrato da Boa Nova no Mato Grosso. Cf. SILVA, Marta Maria, Boa Nova enraizada no chão da vida: o MOBON no Estado do Mato Grosso. In: SILVA (Org.). Fermento, 2019. p.

79-92.

198 Marta Maria da Silva fazia parte de uma Comunidade de Consagradas à Missão na Igreja (CCMI), um grupo de missionárias leigas iniciado pelo Pe. Geraldo Silva no final da década de 60, em Vargem Grande, distrito de Alto Jequitibá-MG. Em 1970 o grupo se transferiu para a Diocese de Cáceres-MT. Em meados dos anos 80 o grupo se desfez, mas algumas delas perseveraram no apoio, incentivo e dinamização dos trabalhos da Boa Nova. Cf. ARAÚJO, O Movimento, p. 158-160; Eliane começou a fazer parte do grupo de Missionárias quando este já estava na Diocese de Cáceres. Elas mesmas, em um livro que traça a biografia de Dom Máximo Biennès, relatam o trabalho realizado na Diocese e o testemunho de alguns leigos que abraçaram a dinâmica da Boa Nova, a partir do encantamento com a Palavra de Deus. Cf. SILVA, Marta Maria; NASCIMENTO, Eliane Soares. Dom Máximo Biennès: Bispo Missionário. São Paulo: TOR, 2004. p. 199-214.

Era muito comum: quando os Grupos de Reflexão do Evangelho distavam muito da capela da CEB (Comunidade Eclesial de Base) e ficava muito difícil a participação de mãe com crianças e idosos, a comunidade se juntava aos interessados e organizavam mais um núcleo com catequese infantil: prezinho, preparação para Primeira Eucaristia, pelo menos dois grupos de reflexão do Evangelho, uma equipe de liturgia para fazer as celebrações e o culto dominical. Assim, existindo já a comunidade, iam convidar o padre para celebrar a primeira Missa e presidir a eleição da coordenação. Isso é alegria demais para o coração!199.

Nota-se a ação evangelizadora dos leigos na criação da comunidade e, ao mesmo tempo, a comunhão eclesial, ao chamar o padre para presidir à eleição da coordenação após a missa. Havia o exercício da fraternidade em atitudes solidárias entre os membros da comunidade com o apoio mútuo, de uma comunidade com a outra, em questões de festas dos padroeiros ou de apoio à liturgia e catequese enfraquecidas. E no apoio às famílias com dificuldades por meio de mutirão de trabalhadores: “Era muito comum quando uma família sofria uma tribulação que comprometesse a produção de seu plantio, a comunidade se reunir e ajudar o irmão, capinando ou colhendo a sua roça”200. O trabalho ganha um ritmo ainda maior e se firma na continuidade com a presença missionária de João Resende, ininterruptamente, a partir de 1977201. Todos os anos, ele saía de Minas Gerais para o Mato Grosso, geralmente acompanhado por outros leigos da Diocese de Caratinga, tanto para os trabalhos na Diocese de Cáceres quanto na região de Alta Floresta, Diocese de Sinop-MT202.

Nestas vindas – que se estendem até os dias de hoje –, o missionário ministra cursos de aprofundamento, promove encontros de lideranças, reúne coordenadores de grupos de reflexão, oferece encontros para casais, faz treinamento de plenaristas para o repasse dos cursinhos de base – enfim, toda a pastoral paroquial é revitalizada. Com efeito, é visível o aumento do fervor e do entusiasmo após as passagens do João Resende203.

199 SILVA; NASCIMENTO, Dom Máximo, p. 206.

200 Ibid., p. 206.

201 Cf. ARAÚJO, O Movimento, p. 159.

202 Além da atuação do João Resende, as missionárias leigas ajudaram a dar continuidade no trabalho.

Ele vinha uma vez por ano para a dinamização dos cursos. A organização cotidiana, em Cáceres-MT, contava com o apoio de Marta, Eliane e Edite Bárbara de Oliveira, em Alta Floresta com o trabalho de Creuza Ferreira Carvalho e Aldenir Nunes de Almeida. Sobre estas últimas, um relato merece destaque: “O sucesso da introdução do Movimento da Boa Nova em toda a área de Alta Floresta e mesmo em cidades vizinhas deve muito, muito mesmo, ao zelo e à grande sensibilidade dessas mulheres. Com efeito elas se tornaram – como gosta de dizer o Pe. Geraldo Silva – a ‘mola impulsora’ de todo o trabalho pastoral empreendido na vasta região confiada aos missionários sacramentinos.” Ibid., p. 160.

203 Ibid., p. 167. O que se diz sobre essa atuação do João Resende em Alta Floresta se aplica à Diocese de Cáceres-MT. Lembrando ainda que ele atua em outros municípios vizinhos a Alta Floresta: Itaúba, Colíder, Carlinda e Terra Nova do Norte.

Em Cáceres, deu-se início ao que veio a ser chamado de “Revisão”, o encontro das lideranças para o aprofundamento anual no qual se estudava o curso de Semana Santa do ano anterior e o curso do Natal do ano corrente204. O nome “Revisão” nasceu da prática de se fazer uma avaliação dos avanços e limites dos trabalhos realizados durante o ano, por parte da liderança das comunidades, em um ambiente marcado pela alegria e partilha205. Além deste encontro, aconteciam cursos de “Pré Boa Nova”, “Boa Nova” para a formação de novas lideranças. Os cursos aconteciam, em geral, em dois centros: na sede da Diocese, em Cáceres e numa casa de cursos criada na cidade de Rio Branco-MT, que ficou conhecida como “Casa do MOBON”, por trabalhar os cursos da Boa Nova do Evangelho206. Dom Máximo acena para a importância desta dinâmica de multiplicação dos cursos nas comunidades:

Duas vezes por ano, para o tempo do Natal e da Páscoa, os mais comprometidos vão dois a dois visitar uma comunidade vizinha e, durante três dias, reúnem o povo e o animam com palestras, reflexões, cantos e celebrações. [...] A Boa Nova transforma as pessoas e aperfeiçoa as comunidades.207

A dinâmica de evangelização do MOBON no Mato Grosso se destacava pelo florescimento de comunidades comprometidas com o trabalho em conjunto a serviço da vida para todos. Ultrapassavam-se os limites da esfera religiosa alargando-se para o espaço coletivo e social no que dizia respeito às dificuldades como: grandes distâncias, falta de transporte, questões de saúde pública, educação, etc. Criou-se um ambiente favorável no qual as lutas se articulavam de forma ecumênica nas bases. Houve uma aproximação com a Equipe de Direitos Humanos na Diocese de Cáceres-MT e a partir de 1995, o envolvimento na luta pela terra, através do Movimento dos Sem Terra – MST208. As lideranças da Boa

204 Dom Máximo cita a importância de João Resende, que residia em Dom Cavati-MG e das missionárias leigas consagradas Marta Maria da Silva e Eliane Soares Nascimento, que residiam em Rio Branco-MT, para o trabalho da Boa Nova. BIENNÈS, Uma Igreja, p. 156.

205 Cf. SILVA; NASCIMENTO, Dom Máximo, p. 207-208.

206 Dom Máximo foi o responsável por levantar recursos para a aquisição do terreno e para a compra do material para a construção deste centro de formação que, funcionava na Zona Rural, para favorecer o recolhimento e para que os participantes participassem em tempo integral dos encontros. Ele mesmo relata: “O Centro de Formação do Setor do Rio Branco foi iniciado rapidamente e logo concluído. A Boa Nova continua evangelizando e dinamizando várias paróquias da Diocese de São Luiz de Cáceres.” BIENNÈS, Uma Igreja, p.

353.

207 Ibid., p.156.

208 “Por volta de 1995, o Movimento dos Trabalhadores sem Terra chegou à Diocese de Cáceres.

Muitos dos presidentes de sindicatos rurais eram líderes das CEBs. Conhecedores que eram da situação da maioria dos lavradores – terras pequenas demais para o sustento da família e sem título de propriedade, a falta de incentivo agrícola, um grande número que trabalhava como bóia-fria nos canaviais das cooperativas de

Nova, por sua experiência adquirida através de sua atuação nos cursos, na coordenação das comunidades e por seu engajamento nas associações e sindicatos dos trabalhadores rurais, logo se tornaram lideranças dentro dos acampamentos, posteriormente lideranças do MST:

Nas inúmeras ocupações que foram feitas, esses líderes de comunidade sempre assumiram funções e a própria organização dos Sem Terra comentava a eficácia da colaboração desses homens e mulheres, seus esforços para evitar o confronto e agressões físicas. E ali, também queriam a Bíblia por baliza. Na rotina imprevista do dia a dia sempre tinham tempo para, em particular ler a Palavra de Deus e para a oração. No primeiro assentamento, depois de uns quatro meses, contavam 40 Grupos de Reflexão do Evangelho que pediam assistência da Igreja e queriam organizar-se como Igreja209.

Infelizmente, alguns se embrenharam tanto na luta da terra que se afastaram da caminhada eclesial. Mas, a maioria da liderança tornara-se um verdadeiro fermento do Evangelho em meio à luta pela Terra. Na região do Mato Grosso, aonde havia presença de lideranças do MOBON, revela-se como região em que as negociações de luta pela terra ocorreram de forma mais pacífica. Um testemunho de Carlos Mesters atesta este fermento do Evangelho por meio da dinâmica do MOBON abraçada pelos leigos em suas lutas sociais:

Sabe quantos grupos ele [MOBON] tem no Brasil? Em torno de quinze mil, espalhados pelo Mato Grosso, Minas Gerais, Rondônia. Quando teve o movimento dos grupos dos Sem Terra em direção a Brasília anos atrás210, quando a marcha parava à noite, os grupos do MOBON que vieram do Mato Grosso se reuniam e faziam o círculo bíblico. Diziam:

Sem a Palavra de Deus não vai!”. É o João Resende, sobretudo, um dos grandes animadores do Movimento da Boa Nova. É um movimento que vem do interior de Minas. E Minas trabalha em silêncio! “Quando Minas fica agitada, o Brasil está em perigo”, dizia um político. Vale à pena aprofundar um pouquinho isso. Minas é o Estado que tem o maior número de prefeitos e vereadores do PT. Acho que o MOBON tem muita influência nisto, graças a Deus! Eles têm encontros sobre Fé e Política, todo ano. Este é o MOBON211.

Outro destaque próprio deste trabalho do MOBON na Diocese de Cáceres é a Festa do Evangelho que era celebrada uma vez por ano. Uma celebração ampliada que reunia os

álcool, - debateram várias vezes sobre as perspectivas que poderiam abrir ao lavrador do Movimento e, com o apoio de alguns padres, assumiram a luta.” SILVA; NASCIMENTO, Dom Máximo, p. 211.

209 Ibid., p. 211-212.

210 Refere-se à primeira Marcha do MST a Brasília, em 1997.

211 PORTAL DAS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE. A leitura bíblica nas CEBs. Entrevista com Carlos Mesters. 21 set. 2016. Disponível em <http://portaldascebs.org.br/2016/09/21/a-leitura-biblica-nas- cebs/#_ftn48>. Acesso em: 05 set. 2019.

grupos de reflexão. Houve época que acontecia uma festa em Cáceres e outra em Rio Branco. Cada ano havia um símbolo que dava a tônica da reflexão. Os símbolos nasciam do estudo feito durante as “Revisões” ou de um elemento da natureza por ocasião da realização da Festa como: o Ipê florindo na seca, a resistência da rama de abóbora, a florada do pé de manga, etc212. O uso da linguagem simbólica, como veremos adiante, além de ser recorrente no trabalho do João Resende, revela-se como uma força de penetração da Palavra de Deus na vida do povo.

Os trabalhos da Boa Nova marcaram profundamente sua presença na Diocese através da formação de lideranças comprometidas com o serviço de evangelização e a sua base era a Palavra de Deus lida e refletida nos grupos de reflexão. Isso foi notado pelo Cardeal Hugo Baggio em julho de 1981, ao dirigir-se a Dom Máximo sobre a ação dos leigos em sua Diocese:

Uma palavra também de apoio e incentivo ao laicato dessa Igreja Particular que adquire sempre mais consciência de ser Igreja e com ela se compromete na obra evangelizadora de Jesus Cristo. É de se ressaltar, sobretudo, o trabalho desenvolvido pelos ‘cursos de animação rural’ que, como V. Exa. Mesmo refere no relatório, atrai de todas as partes do interior da Diocese, mesmo à custa de sacrifícios enormes, devido às distâncias e às carências de meios de comunicação. [...] E como não sublinhar também o meritório trabalho desenvolvido pelos diversos movimentos de apostolado leigo, através de seus encontros e escolas de formação, preparando leigos conscientes e comprometidos, para uma atuação mais eficaz nas realidades do mundo dos homens...”213.

Por um período de 10 anos (1981 a 1990) essa dinâmica de evangelização foi desenvolvida também em Vilhena, no Estado de Rondônia. O incentivo veio da parte dos Padres José Herval Ferreira e Sebastião Batista Viana, ambos missionários sacramentinos de Nossa Senhora que assumiram a paróquia de Vilhena neste período214. A base inicial para os

212 Eis um breve relato de Marta e Eliane: “Anualmente, havia a festa do Evangelho: uma grande celebração dos grupos de reflexão do Evangelho nas comunidades. Chegavam de todos os recantos a pé, a cavalo, de caminhonete, caminhão ou ônibus, cada grupo vinha com suas faixas, cartazes, cantos... E Dom Máximo acolhia a todos. Presidia uma Missa muito festiva, linda. Por isso, ele disse, ao passar o cajado da Diocese para seu sucessor: “diocese é povo!” SILVA; NASCIMENTO, Dom Máximo, p. 212-213.

213 Ibid., p. 214.

214 Há um registro, em forma de crônicas, da missão desenvolvida pelos missionários sacramentinos em Vilhena-MT, neste período. Nelas expressam o motivo pelo qual assumem o método e a espiritualidade do Movimento da Boa Nova: “ele vale para a organização paroquial. Vale para a formação de lideranças comunitárias, quer rurais, quer urbanas. Vale como conteúdo para os MCS, a saber, vale para produzir algo que, refletido nos grupos, deverá ser lançado no ar par o bem de todos. É a semeadura da Boa Nova do Reino de Deus. é a Palavra circulando pelas ruas e casas através da mídia. O método da Boa Nova tem a vantagem de não entrar em choque com o plano de pastoral das dioceses, pois não se trata de movimento superestruturado ao ponto de prejudicar as várias pastorais diocesanas.” Cf. FERREIRA, José Herval. Crônicas Missionárias:

Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora em Rondônia. Belo Horizonte: O Lutador, 2020, p. 327.

primeiros cursos de base e para a formação dos grupos de reflexão se deu com a colaboração de vários leigos vindos de Minas Gerais, sobretudo da paróquia de Mutum-MG, onde estes padres trabalharam por vários anos. A dinâmica de evangelização, em grandes linhas, era a mesma: cursos de base, formação de grupos de reflexão e plenários, cursos de formação para lideranças leigas, leigos a serviço da evangelização de outros leigos, empenho para o crescimento da vida eclesial e desdobramentos para engajamento social em associações e sindicatos.

Leigo entende leigo. Leigo anima leigo. Já estamos percebendo o surgimento de vocações leigas em nossas comunidades. Vários já descobriram sua vocação de batizados. O exemplo do Camilo já começa a despertar outros para a missão. Missão dentro da Igreja, missão fora da Igreja, a saber, nos movimentos populares e outras organizações sociais.

Quando o padre fala nisso, fica nisso mesmo. Quando o leigo engajado fala, aí vai logo arrastando outros. “As palavras movem, os esemplos arrastam”. Leigo entende leigo215.

A dinâmica do trabalho exerce uma forte influência na formação das lideranças da paróquia. Trata-se de uma formação continuada, acessível e com força de penetração na vida do povo. O encontro com a Palavra de Deus vai se convertendo em um espelho diante da realidade. Nele se evidencia a distância entre o projeto de Deus para o seu povo e a realidade vivida nas comunidades. Este contato com Palavra de Deus, a sintonia com a caminhada da Igreja e com a realidade do povo vai aos poucos, despertando para um maior engajamento na dimensão sociopolítica. A fé vai se desdobrando em ações sociais para responder aos desafios da vida.