CAPÍTULO 3 MOBON: MOVIMENTO DA BOA NOVA
3.7 Perfil do leigo do MOBON
Os leigos e leigas desta fase continuam a ser as pessoas das comunidades do interior e das periferias das cidades. Pais e mães de família, agricultores, pequenos sitiantes, pequenos comerciantes, professores, assalariados, donas de casa, empregadas domésticas, trabalhadores da construção civil, etc. Pessoas que se reúnem semanalmente nos grupos de reflexão, mensalmente nos plenários, que sustentam o culto dominical, a catequese, e a liturgia das missas mensais ou dominicais, segundo as possibilidades de cada lugar. Pessoas que ocupam cargos de coordenação de comunidade, grupos e pastorais. Pessoas que
238 Para ilustrar, uma conclusão de Fabrício Oliveira sobre os plenários: “As reflexões e os debates eram estratégias de levar os leigos a falar em público, expondo a sua forma de pensar e participando mais ativamente da vida religiosa. Seria uma forma de ‘forçar o leigo’ a falar, pois a ‘participação ativa é indispensável’. As pessoas discutiam os temas nos grupos e depois suas opiniões em plenário. Nesse caso, os grupos se esforçavam para dar as melhores respostas e defender com afinco seus pontos de vista. È uma atividade que promove o desenvolvimento de argumentos e poder de convencimento, prática fundamental no campo político.” OLIVEIRA, Religião, p. 96-97.
participam dos cursos de preparação para a Semana Santa e para o Natal e os multiplicam nas comunidades da sua paróquia ou em intercâmbio com paróquias vizinhas.
A atuação dos leigos, por sinal, sempre foi um diferencial no trabalho do MOBON. A valorização dessas pessoas, o desenvolvimento de sua autoestima e a forte espiritualidade, faziam com que gente muito simples fosse capaz de desenvolver, com segurança e desenvoltura, cursos de até uma semana. Os leigos faziam isso muito bem e as reuniões consistiam muito mais em conversas do que palestras, criando, naturalmente, uma consciência crítica entre os participantes239.
Porém, se na fase anterior o perfil do leigo envolvido na dinâmica de evangelização MOBON é marcado pelo engajamento nas questões da vida de comunidade e animado com a missão de anunciar a Palavra de Deus como fruto de sua vocação batismal, temos agora um avanço na compreensão da sua missão e vocação profética. Além da dimensão do anúncio, é fortalecida a compreensão da denúncia daquilo que se opõe ao projeto de Deus e a necessidade de buscar os meios ou as ferramentas sociais que possam ajudar a transformar a situação. É neste sentido que vemos os leigos, atingidos pelo trabalho do Mobon, assumindo a luta da organização sindical, criando e organizando associações de moradores e de pequenos produtores, por fim engajando-se em partidos políticos e assumindo cargos eletivos. Leigos e leigas que passam a seguir de perto a caminhada da Igreja do Brasil, que começam a ter acesso a seus documentos, conhecendo as prioridades de seus principais documentos. O que em geral acontece pela participação nos cursos e encontros e através dos subsídios produzidos pelo MOBON, em linguagem acessível ao povo das comunidades.
Assim, a partir da dimensão comunitária e eclesial alarga-se para a dimensão sociopolítica na busca de “participar da construção de uma sociedade justa e fraterna” (CNBB, 1987, p. 9)240.
São leigos e leigas que, além da participação na vida de comunidade, na coordenação das pastorais, como sujeito eclesial, começam a ocupar funções e quadros de direção nas associações, nos sindicatos e nos partidos, como sujeito social. Importa destacar que é um só e mesmo sujeito que atua na Igreja e na sociedade. Não se perde, nem se anula o sujeito eclesial em função do social, antes, animado e sustentado pela fé, de forma consciente e
239 ANDRADE, Perspectiva sociopolítica. In: SILVA, Fermento, p. 109.
240 Objetivo Geral das Diretrizes da CNBB, 1987-1990. Fabrício Oliveira confirma esta abertura à dimensão social: “O Mobon assumia como missão uma ‘promoção total do homem’, ampliando os horizontes para além da ênfase na formação religiosa dos leigos. O empenho na organização dos grupos produtores é apresentado e legitimado como uma consequência da fé, justificativas próprias de um habitus militante do Mobon. A organização dos leigos é vista como uma forma de ajudá-los a resolverem seus problemas no campo, fazendo-os acreditar neles próprios como agentes capazes de resolverem seus problemas.” OLIVEIRA, Religião, p. 128.
livre, descobre-se vocacionado a buscar meios de transformar a realidade. Adquire-se a convicção de que Deus age na história e no seu agir conta com a participação ativa de seus filhos e filhas. Como chamou os Patriarcas, os profetas, os discípulos, chama hoje, homens e mulheres de fé para colaborar em sua ação salvadora no mundo.
Este engajamento social não deixa de gerar certos desencontros entre a liderança e os membros da comunidade, nem mesmo das lideranças entre si, sobretudo no que diz respeito à questão política. O nível de consciência varia de pessoa a pessoa, não raro interesses particulares desviam a atenção dos interesses comunitários, surgem opiniões divergentes e os consequentes desencontros. Não raro, os que se engajaram mais diretamente nas questões sociais, são criticados pela comunidade por estarem muito envolvidos na luta e já não conseguirem cumprir todos os compromissos da comunidade. Por outro lado, são criticados nos meios sociais e políticos por serem muito devotados à comunidade e não darem conta de cumprir toda a agenda social. Além disso, essa participação ativa fazia com que as questões sociopolíticas se fizessem presentes nas reuniões dos grupos de reflexão e plenário fazendo com que alguns, ainda não conscientes desse compromisso se afastassem.
Destaca-se a figura de leigos e leigas que acompanham de perto a caminhada das CEBs, que participam dos encontros paroquiais, diocesanos e regionais das CEBs e até mesmo dos Intereclesiais, alargando sua visão de Igreja e descobrindo-se parte de uma força maior de transformação. Animando-se na sua luta cotidiana ao compartilhar a vida, os desafios, a fé e a esperança com tantos outros em situações semelhantes.
Depois de um primeiro despertar dos leigos para uma ação ativa na comunidade ainda na linha apologética, passou-se para um trabalho efetivo de formação de comunidade através da reflexão da Palavra em grupos de reflexão buscando a conversão. Neste terceiro momento vimos o desdobrar da fé para a dimensão sociopolítica e um engajamento consciente de leigos como sujeitos na Igreja e na sociedade. Cabe a tarefa de ver os desdobramentos desta dinâmica sob o influxo do “inverno eclesial” que teve reflexos tardios na Diocese de Caratinga e que perspectivas se abrem com a “primavera” do pontificado de Francisco. Sem perder de vista o contexto social vivido na atualidade, procuramos captar a força de resistência desta dinâmica diante das forças que lhe são contrárias nestas duas primeiras décadas do novo milênio.