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A medicina popular e os conceitos de Fanon

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 118-124)

É uma noção de diversidade que transcende o modelo de afirmação da diferença, baseado nas ideias abstratas de “reconhecimento dos direitos humanos”; é a concepção de diversidade, enquanto momento de afirmação da alteridade, por meio da constituição do espaço, enquanto locus, por onde institui o seu fundamento e por onde se expressa. É, simultaneamente, a afirmação de conteúdo, mas, sobretudo, a constituição de uma nova forma, que se traduz pela exigência da renovação e da conquista do espaço, por onde a alteridade se constitui, seja no nível da subjetividade, da cultura e do poder, seja no nível local ou no do concerto internacional das nações.

Fanon falava, pois, da inauguração e da afirmação da diversidade, enquanto paradigma da decolonização.

Na contemporaneidade, o paradigma da decolonização afirma-se em diversos níveis e atividades, removendo fronteiras e renovando os espaços e o sentido do fazer e do pensar humanos, em direção a utopias diferenciadas.

diante da alternativa de reconstrução das suas vidas em um acampamento de barragem, de onde buscam retornar à condição de camponeses. Nesse contexto, a função do agente da medicina popular ganha novo relevo: cabe-lhe o papel de perceber os variados problemas que emanam do convívio cotidiano, seja os relacionados com o andamento da vida, seja os de ordem social daquele grupo, seja os da emergência de novas formas sofrimentos de difícil enquadramento nas categorias habituais.

Ao mesmo tempo, a medicina popular e o seu agente podem ser considerados como representantes de um sistema de mediação, pois estão ligados à trajetória de vida do grupo, ao sistematizarem, traduzirem, classificarem e desenvolverem diagnósticos e tratamentos, demonstrando certo dinamismo e capacidade de atualização para lidarem com os diferentes tipos de sofrimento da comunidade.

Os sistemas de sofrimentos e de doenças possuem um caráter histórico, ou seja, modificam-se no sentido da diversidade, tornando-se mais complexos, e apresentam um vínculo claro com as novas dinâmicas sociais, econômicas e políticas.

Intensificam-se as trocas de experiências com agentes de cidades vizinhas, diversifica- se a oferta de vegetais, que passam a ser comercializados em feiras, sofisticam-se a composição e a forma e o preparo dos recursos terapêuticos. Ao mesmo tempo em que se desenvolve e se amplia, o sistema terapêutico cura, reestrutura o sistema espiritual e moral, contribui para a manutenção do ethos comunitário e, no ato de cuidar, privilegia a estrutura familiar.

A comunidade modifica as suas dinâmicas tradicionais e se transforma em uma estação de fluxo contínuo de pessoas em busca de trabalho. Como resultado, o trabalho do médico popular ultrapassa as fronteiras da comunidade e institui uma rede translocal, formada por clientes de outros estados e até mesmo de outros países. Além disso, a comunidade torna- se um lugar criado e redefinido por projetos transnacionais, os quais se associam como complemento à medicina de matriz ocidental. Trata-se, portanto, de um projeto de intervenção em diferentes sentidos. A assistência oferecida, desde então, superpõe-se ao sistema tradicional e forma um novo sistema, o qual concede a esses agentes o direito genérico de exercer a função de auxiliares como agentes de saúde. Esvaziados das suas funções habituais, eles são treinados na arte da escritura, isto é, na produção de relatórios e números, tornando-se sujeitos da burocracia, cujo efeito é o surgimento da figura do mestre de fronteira. Esse sujeito passa a ser reconhecido pela comunidade como aquele que é o portador dos dois sistemas e o portador da escritura burocrática.

Esse modelo deve ser compreendido como uma tendência presente em diferentes sistemas da medicina popular hoje44. Dessa forma, o que poderia ser um espaço transcultural de integração de paradigmas distintos, torna-se um espaço de exclusão e de submissão da medicina popular ao sistema burocratizado da medicina ocidental.

Por outro lado, como assinala Fanon, a presença do médico ocidental na região introduz modificações para a vida do usuário do serviço, traduzindo-se em conflito com o paciente que não colabora, não usa corretamente a medicação e não segue as orientações do médico. Torna-se necessária, portanto, a intervenção do agente para promover no paciente aquilo que o médico não conseguiu negociar, ou seja, a modificação dos conceitos de cura e do padrão de tratamento que está sedimentado culturalmente na conduta do enfermo. O agente, pois, empresta sua autoridade para o controle do paciente. Desse modo, ele é transformado em um mediador, aquele que traduz os conteúdos para a comunidade. Esse fato é uma novidade que resulta do impacto da presença do grande empreendimento capitalista na região sobre as relações dos trabalhadores entre si e com a sua própria cultura. O poder tradicional é posto a serviço da prática médica moderna. Assim como começa, torna-se contínua e prolongada a relação ambígua entre os dois mundos que se encontram.

A questão que se coloca é: se o médico forasteiro fosse originário da região, haveria modificação substantiva nessa dinâmica?

O relato que se segue tem origem numa pesquisa realizada como parte da elaboração de um projeto de redefinição das ações da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa do governo do Estado da Bahia, cuja função era supervisionar as áreas de reforma agrária, bem como os programas de apoio técnico ao pequeno agricultor.

Esse trabalho, coordenado por um grupo técnico multidisciplinar, composto por sociólogos, antropólogos e economistas, buscava renovar as conexões das ações institucionais com os movimentos sociais, confeccionando, para isso, um termo de referência capaz de articular as ações da CAR em torno do tema “reprodução camponesa”45. O propósito era relacionar o processo de diferenciação da organização da vida e do trabalho dos pequenos e

44Por exemplo: na África, participei de um seminário na Associazione Frantz Fanon, em Cuneo, onde o Dr.

Ogabara trouxe à discussão esse tema através de projeto que desenvolve em Mali, na África e na América Latina.

45 A reprodução camponesa era entendida pelo GTM da CAR como o processo de diferenciação do campesinato do Semiárido, focalizando as transformações ocorridas no processo de produção e, particularmente, a forma de acesso à terra. Embora tema recorrente em vários estudos sobre produtores rurais, esse projeto articulava a abordagem socioeconômica a um recorte antropológico, tendo como referência as categorias marxistas de economia política como modo de produção.

médios camponeses da região com a intensificação da penetração do capitalismo nas regiões do Semiárido baiano, em particular nas áreas que foram incluídas no programa de construção das usinas hidrelétricas do governo federal.

Segundo discurso governamental, tal programa justificava-se pela necessidade de imprimir-se um impulso à industrialização do País, com a utilização do potencial hídrico nacional para a produção de energia elétrica. Uma barragem de grande porte apresenta três características comuns que se referem ao gigantismo: capital, contingente de mão de obra, isolamento. Em geral, as barragens se situam em zonas isoladas que passam a se relacionar como sistemas econômicos mais amplos. No entanto, essa definição não contempla o impacto desses projetos na desestruturação do modo de vida das populações ribeirinhas, nem tampouco revela, na dimensão de suporte, a ideologia do desenvolvimentismo.

Meu projeto era convergente com o proposto pelo grupo, pois pretendia estudar a cultura tradicional camponesa e suas formas de expressão dentro de um contexto de transformações sociais e ambientais, que utilizava a violência e a arbitrariedade no trato com a população ribeirinha e o meio ambiente, como estratégia de implantação do programa de construção das hidrelétricas. O tema versava sobre a destruição do ambiente físico e socioeconômico e as estratégias do recomeço – processos recorrentes na história da humanidade e contumaz no território brasileiro. O objetivo inicial da minha pesquisa era recolher a narrativa daqueles personagens que refletiram e sistematizaram essa experiência, procurando captar, na expressão da sua criatividade, as respostas possíveis àquela nova situação. Sendo assim, os focos passaram a ser a Medicina Popular da região e os seus agentes, os “raizeiros”46.

O importante nesse processo foi perceber que o sentimento de desterro e engano, produzido pela forma como as populações foram subestimadas pelo governo e pelas empresas, fez-se acompanhar da formação de uma vertente de solidariedade, que resultou em atos de resistência plural e diversificada, alcançando várias localidades do País. Como exemplo, destaca-se o Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB)47, que tinha por objetivo exigir que as empresas e o governo cumprissem os acordos com as famílias desalojadas, para, em seguida e simultaneamente, cuidarem das alternativas de recomeço.

46 Nomenclatura utilizada pela população local, que nomeava também a este agente como curador.

47 O MAB foi a resposta dos agricultores à forma como foi executado o deslocamento das populações de atingidos pela barragem. Sua consolidação como movimento nacional ocorre em 2001, e está presente em 17 Estados e 10 regiões do País.

3.3.1 O município de Sobradinho

Fundado em 1972, como povoado do município de Juazeiro, o atual município de Sobradinho foi projetado para servir de acampamento para abrigar a mão de obra utilizada na construção da barragem de mesmo nome. É formado por três vilas, cuja população é espacialmente segregada: a Vila Santana abriga os técnicos mais graduados; a vila São Francisco aloja os técnicos de nível médio da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF); e a Vila São Joaquim, os trabalhadores. A última serviu de campo para a pesquisa que deu início a este trabalho.

Sobradinho possui uma posição singular nesse processo de resistência, pelo fato de ter sido a primeira localidade a viver a experiência de desativação das obras da barragem, que ocorreu entre 1978 e 1980. Para os trabalhadores, o fato era visto como a continuidade do ambiente de violência, o que acentuava o “dilema do desterrado” – expressão tomada aqui no sentido de dispersão permanente das pessoas da sua terra de origem, mas que mantêm os vínculos subjetivos com suas tradições sem, no entanto, conseguirem retornar ao passado. A alternativa é um processo de interação com o novo contexto sociopolítico e ecológico, que, no caso, transitou de uma atitude inicial de resistência até a elaboração de um novo projeto alternativo: a fundação da Associação Agrícola São Joaquim.

Foi estabelecido, como informantes, um grupo de curadores da localidade, constituído por seis pessoas. De acordo com a conceituação da população local, eram assim distribuídos:

dois raizeiros/rezadores, um garrafeiro, duas parteiras. O sexto componente, apesar de se considerar raizeiro, não exercia o trabalho, pois não obteve o reconhecimento da comunidade.

Dois raizeiros, em especial, ajudaram no trabalho: Sr. Joaquim Teles e Sr. Elísio. A densidade de saber constituiu o critério de seleção. Ambos dominavam em profundidade todo o instrumental da medicina tradicional. Diferiam, no entanto, quanto ao conteúdo da experiência de vida, o que se tornou evidente nos contatos iniciais. O Sr. Elísio, por um lado, havia permanecido sem se desvincular do quadro de experiência da vida rural, numa trajetória linear de vida; o Sr. Joaquim Teles, por outro, possuía experiência de vida diversificada, tendo exercido diferentes profissões (militar, oficial de banco, trabalhador braçal, auxiliar de enfermagem, etc.) e vivido em várias cidades do País, principalmente nas da Região Nordeste.

Para a atual versão dos resultados desta pesquisa, foram utilizadas apenas as entrevistas do Sr. Joaquim, visitando o depoimento dos demais informantes de maneira complementar. Outras fontes são os depoimentos da clientela, dos membros da diretoria da

Associação Agrícola São Joaquim e, em particular, do seu presidente e meu amigo pessoal, José Balbino48, dos técnicos da CAR, dos grupos da igreja local e dos diversos profissionais de saúde, a saber: servidores do Hospital da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF), servidores do Centro de Saúde construído pela Fundação do Serviço de Saúde Pública, além dos farmacêuticos locais. No último período da pesquisa, foi localizada na região uma rede de Casas de Umbanda, cujo responsável e articulador também veio a fornecer dados importantes.

Vale ressaltar que o ato de revisitar um trabalho realizado há mais de 20 anos é como estar diante de um retrato impressionista ou memorialista, tecido em diferentes matizes, que vão desde o início do processo de decolonização dos camponeses até a consolidação de um movimento de resistência, resultante da tenacidade e da criatividade que os caracteriza, viabilizando uma experiência coletiva de enfrentamento da violência do Estado.

O saber, assim como os grupos humanos, forma-se e transforma-se com o tempo, e esse movimento de construção e reconstrução necessita, no campo do conhecimento, da renovação motivadora de novo enfoque, de novo ângulo de abordagem; daí a importância da retomada de todo o material arquivado, mediante sua confrontação com temas contemporâneos, como a questão da subjetividade, a identidade e o imaginário, que estiveram ausentes na primeira versão escrita, mas que, sob a ótica dos referenciais teóricos atuais, estão definitivamente envolvidos nessa trama, pelo jogo de interesses contraditórios que lhes fornece sentido.

Dessa forma, o reconhecimento do Semiárido e do Movimento de Atingidos pela Barragem passa pela compreensão de que ambas as categorias representam uma ruptura com a forma convencional de conceituar o tradicional regionalismo brasileiro49, que se caracterizava, entre outros fatores, pela contraposição entre o coronelato tradicional e moderno e os trabalhadores rurais.

O outro deslocamento promovido por essa releitura refere-se à questão da constituição do outro como uma alteridade. Esse tema coloca a reflexão ante os conceitos fundamentais de

48 José Balbino foi presidente da Associação Agrícola São Joaquim, e o primeiro Prefeito eleito do Município de Sobradinho. Lamentavelmente, ao retornar de Juazeiro com o resultado final do pleito eleitoral, o veículo que o conduzia sofreu um acidente, provocando sua morte no local.

49 Parte dessas considerações sobre os processos sociais e simbólicos na região do Semiárido é baseada no trabalho de Albuquerque Júnior (2001).

espaço e tempo, que serviram para desenvolver uma melhor compreensão sobre a permanência e a continuidade da posição do raizeiro no novo contexto50.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 118-124)