• Nenhum resultado encontrado

Elementos para uma psiquiatria social e cultural

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 48-55)

Qualquer ato litúrgico concebido como forma de alimentar a cabeça pode ser encarado como etapa preliminar do processo de iniciação. Para os componentes do egbé, coloca-se como “necessário cuidar do Ori, assim como é necessário cuidar do Orixá. Não se faz orixá sem antes cuidar da cabeça”.

Desse breve comentário é importante ressaltar que a sacralização, a reconstrução simbólica da pessoa, a realização de rituais específicos para esse fim, como, por exemplo, o Bori, que inicia o processo de formação da identidade da pessoa, tem por finalidade a integração do que estava fragmentado ou desconhecido e desequilibrado.

específico, como no caso da Cidade do Salvador/Bahia/Brasil, pode-se perceber que ela se caracteriza por elos que se difundem em escala continental e intercontinental, geralmente exibindo potencial de articulação com culturas de base semelhante, no caso da América Latina, por exemplo, entre as culturas africanas e as ameríndias. Nessa perspectiva, essas culturas podem constituir-se em fonte de inspiração à formulação de ações alternativas para a problemática atual da afirmação e do desenvolvimento de regiões e grupos ante o capitalismo global e a herança colonial.

A singularidade dessa rede cultural reside, portanto, em proporcionar suporte simbólico para o resgate da iniciativa e da criatividade de populações e agentes investidos culturalmente, bem como em influenciar a elaboração de políticas multiculturais, de forma a consolidar o processo de democratização e a superação da herança colonial das sociedades na região.

Com o início do processo de modernização econômica, social e cultural da Bahia, reconhecido consensualmente, entre estudiosos e pesquisadores de diversas áreas, a partir das décadas de 40 e 50, opera-se um conjunto de transformações que irá modificar, de forma substancial, a estrutura econômica e fisionômica social local, abrindo espaço para a inauguração, no plano cultural, de novos estilos de subjetividade e de conduta.

A economia local, que vivera longa estagnação dos finais do século XIX até a década de 50 do século seguinte, baseada nas atividades de exportação (cacau) e do incipiente incremento dos setores de fumo, têxtil, metalúrgico e de serviços públicos, com a abertura da rodovia Rio-Bahia, com os investimentos da Petrobrás e sob os efeitos da política de incentivos e subsídios fiscais e financeiros, concedidos pelo governo federal através da SUDENE, assiste à implantação do Polo Petroquímico, do Centro Industrial de Aratu, da Usina Siderúrgica da Bahia, do Porto de Aratu, entre outros empreendimentos. A seguir, ainda se pôde testemunhar a ampliação e a modernização dos setores financeiro e energético, a emergência do grande comércio e, mais recentemente, a informatização do setor de serviços e negócios (BOLETIM INFORMATIVO..., 2000; 2001). No entanto, essa “revolução industrial” apresenta efeito limitado na geração de novos empregos, com consequências mais expressivas na modernização do comércio e construção residencial; em contrapartida, promove a progressiva destruição de atividades econômicas tradicionais como a indústria metalúrgica, a indústria têxtil, a produção de fumo, a atividade portuária e o setor de serviços nos moldes tradicionais, com base em atividades artesanais de base familiar.

Salvador, nesse período, experimenta uma expansão demográfica da ordem de, aproximadamente, 1.000%, evoluindo de duzentos mil habitantes, em 1940, para mais de dois

milhões e seiscentos mil habitantes, no presente. Apresenta taxas de crescimento mais expressivas no período entre 1940 e 1970, reduzindo-se, em seguida, à custa do declínio das taxas de fecundidade e da distribuição do fluxo migratório pelos municípios que compõem a sua Região Metropolitana (1990/2000). Ao mesmo tempo, ocorre o aumento da expectativa de vida ao nascer, promovendo o crescimento do número de jovens em idade ativa e da população de idosos.

No nível da estrutura social, Salvador transita de um modelo de estratificação social para experimentar a formação de classes sociais. Esse processo traduz-se, inicialmente, em certa mobilidade ascendente para pequena parcela dos afrodescendentes, que irá compor a nova classe média, e para o operariado vinculado aos setores modernos da economia. No entanto, para a maioria pobre e analfabeta, a alternativa continuava sendo a economia informal, o emprego estatal, o emprego doméstico, os pequenos negócios e serviços.

Inaugura-se o período da intensificação das desigualdades, da concentração de renda, com o subproduto da segregação socioespacial, levando à formação de bairros marcados pela ausência de equipamentos, homogeneização da pobreza e miséria existencial, da formação da marginalidade associada à criminalidade, ao tempo em que setores da classe média individualizam-se, social e espacialmente, acreditando no suposto da mobilidade social ascendente.

A alternativa da comunidade afrodescendente, ante a precariedade das condições de vida a partir da década de 70, em um primeiro momento, é tomar como sustentação o modelo originário que atravessou a escravidão e venceu a repressão republicana: a autoafirmação fundada na cultura, tendo como referência a religiosidade do Candomblé, que, desde os finais do século XIX, vem fornecendo um sistema de valores para que os afrodescendentes possam elaborar uma atitude de resistência ante um sistema que, impiedosamente, tenta colocá-los na marginalidade (BACELAR, 2001).

Paralelamente, observa-se, no Brasil, a multiplicação numérica de comunidades religiosas, em especial nas décadas de 70 e 80, que, de forma enérgica e pública, afirmam o sentimento de dignidade e o sentido da autoestima. Em 1975, um grupo de cinco Ialorixás lança uma carta aberta à Bahia, divulgada pela imprensa local, onde afirma o rompimento com todas as formas de sincretismo e se posiciona contra as tentativas de transformar a religiosidade em instrumento do turismo (CAMPOS, 2003). Sequencialmente, ainda no período assinalado, assiste-se a uma autêntica reafricanização do carnaval, com resgate dos afoxés e blocos afros, reinvenção da música “negra”, redefinição das festas populares e de largo (ciclo de festas que se estende do início do mês de dezembro ao mês de março),

renovação dos costumes dos jovens afrodescendentes (roupa, cabelo, adereços), surgimento de grupos de rock, hip-hop, reggae, teatro e ampliação dos espaços destinados à cultura afro (Pelourinho). Como uma poderosa força de atração, a herança cultural dos africanos que chegaram à Bahia permanece e pode ser observada como fundamento da identidade e do comportamento racial de jovens, de mulheres e adultos, além de se constituir em atividade econômica importante (comércio de bebida, alimento, artesanato, tecido, produto típico, e atividade vinculada ao turismo) para a composição da renda familiar.

Expressivo no contexto atual da luta da comunidade afrodescendente é o surgimento de grupos informais e/ou de base técnico-profissional, que se pautam por uma ação mais sociopolítica que cultural em sentido etnológico, entre eles: novos parlamentares em nível municipal, estadual e federal; núcleos com autodenominação específica, vinculados a associações de bairros e sindicatos; grupos de assessoria a secretarias e ministérios, como o da Cultura e o da Reparação Racial; núcleos de profissionais liberais (advogados, sociólogos, economistas, médicos e pedagogos), que, baseando-se nos modernos movimentos políticos e sociais da diáspora africana e na sua sensibilidade diante da realidade local, vêm redimensionando os valores de solidariedade e o compromisso social na luta contra a marginalização, o racismo e a exclusão social.

Convém registrar que as formas de organização e de solidariedade da comunidade afrodescendente foram diversificadas ao longo da história e vêm sendo afirmadas pela ação de lideranças mais expressivas, como, entre muitos outros, o legendário Manoel Querino, o honorável advogado Maxwel Porfírio – pai do eminente psiquiatra Dr. George Alakija –, o grande articulador Edson Carneiro e Marcos Rodrigues dos Santos, idealizador da Frente Negra, fundada na Bahia em 1932.

No entanto, apesar da necessidade de se programarem políticas sociais que priorizem o desenvolvimento e a redução das desigualdades, lastreadas por um plano de investimentos prioritário e consistente, e complementadas pela mobilização de uma rede sociocultural de solidariedade, só recentemente o governo do Estado da Bahia, tem demonstrado ainda que de forma restrita, sensibilidade para a implementação de políticas que vão ao encontro das aspirações dos grupos e comunidades da região. No entanto, o jogo político tem estimulado o controle das manifestações culturais, mediante o uso de mecanismos que dispensam tratamento privilegiado às atividades culturais que são assimiláveis pelos padrões da globalização, resultando não raro na cooptação de grupos e lideranças.

Aprofunda-se o fenômeno da exclusão social, em escala que ultrapassa as possibilidades alternativas, oferecidas pela tradicional rede sociocultural de apoio, resultante

do inusitado crescimento da desigualdade de renda e concentração da riqueza em mãos de um número reduzido de famílias, em Salvador. Segundo o Atlas da Exclusão Social no Brasil (AMORIM; POCHMANN, 2000), dos seiscentos e cinquenta e um milhões e trezentos mil domicílios recenseados, quinze mil, cento e oitenta e dois são de famílias consideradas ricas e que concentram 59,5% da renda dos ricos do Estado.

Enquanto isso, famílias vivem um cotidiano de privações, humilhações e agressões.

Jovens são impedidos de trabalhar, pela ausência de emprego ou devido à aparência física.

Cresce um sentimento de frustração e inutilidade diante dos obstáculos à realização de projetos de animação da vida. Ganha status de ideologia a noção do “não ter nada a perder”.

Estabelece-se, como rotina, o ócio improdutivo. É precária a formação educacional pública.

Editam-se novos estereótipos, associando, na mesma imagem, o pobre, o preto e o marginal.

Emerge, então, uma ideologia incapaz de gerar processos identitários positivos e que conduz indivíduos ao desenvolvimento de conduta social reativa, modelada pela raiva e aflição pessoal, possibilitando a formação de subgrupos, cujos vínculos se baseiam na condição de excluídos, fazendo do uso da violência um meio de vida. Transformam-se as escolas em área de conflitos, aumenta a família madrecêntrica. Surge o problema da infância abandonada, forma-se a população de “meninos de rua”, atualização perversa dos “Capitães da Areia”, retratados pelo escritor Jorge Amado, na década de 30.

Em nível da Saúde Mental, torna-se expressivo e verificável, nos arquivos do sistema, o aumento da incidência de neuroses, em particular, as ansiedades e a depressão entre as mulheres, e o abuso e a dependência de álcool entre os homens; mais recentemente, entre as mulheres e jovens, registra-se um aumento do uso e comercialização de drogas entre os adolescentes e meninos de rua.

Correlatamente, podem-se acompanhar pela mídia debates sobre o dilema do indivíduo portador de Transtorno Mental Crônico, os deficientes, os inválidos físicos e psíquicos, os dementes, os esquizofrênicos residuais e os portadores de doenças crônicas que, necessitando de cuidados sociais e de assistência à saúde, encontram-se ainda quase exclusivamente sob os cuidados de uma rede de assistência inadequada e insuficiente.

Por meio da conceituação desse quadro como de “Psicopatologia da Exclusão”, pretendo caracterizar não uma nova síndrome, que venha a ser reduzida à dimensão clínico- terapêutica, pois em realidade, o quadro não é de doenças, embora não as exclua, mas da dimensão alcançada pelos velhos e novos desafios que se colocam, ao longo das últimas décadas, para os homens de sensibilidade e espírito de solidariedade e, em particular, para todos os grupos subalternos. Estamos assistindo, de forma maciça, à manifestação do quadro,

não em indivíduos isolados, mas em grupos cada vez mais extensos, de processos produzidos por desigualdades sociais e econômicas e pela violenta discriminação das diferenças.

Situações como essas demandam o desenvolvimento de políticas públicas que priorizem o investimento e a ampliação dos equipamentos socais, como também um melhor aproveitamento e redirecionamento dos recursos existentes.

Em novembro de 2002, foi realizado, no General Hospital Massachussets, em Boston/Usa, um simpósio reunindo psiquiatras de vários países da Diáspora Africana, onde foi apresentada a sugestão de utilização do paradigma da resiliência, que, mais do que paradigma da patologia, foi identificado como um dos fundamentos para proporcionar mudanças necessárias na Psiquiatria e na Saúde Mental, desde que relevantes para a vida cotidiana das comunidades afrodescendentes23. Entendo que um paradigma baseado no conceito de resiliência constitui uma tentativa de compreensão das tendências das manifestações do Transtorno Mental entre os afrodescendentes, em uma perspectiva equacionar a ação dos estressores externos e da condição traumática. A utilização de recursos individuais e comunitários é o dado mais significativo para um modelo de saúde mental, deslocando a posição central dos conceitos de reatividade ou do modelo de disfuncionalidade, que domina o pensamento psiquiátrico ocidental.

Quando o paradigma e o enquadramento clínico, derivados da resiliência, são assimilados de forma operativa, há uma mudança relevante na questão que se coloca para os profissionais e o sistema de saúde: de uma primeira indagação do porquê de existir uma alta incidência de distúrbio mental, uso abusivo de substâncias psicoativas e alteração de conduta entre os afrodescendentes, é preciso passar para uma formulação mais apropriada, ou seja, por que não existem mais afrodescendentes que sofrem de transtorno mental, usam substâncias psicoativas e apresentam alteração de conduta?

A compreensão da proteção terapêutica que acompanha as crenças espirituais africanas, os rituais e cerimônias, os valores culturais, as normas sociais, os sistemas comunitário e familiar, contra a destruição provocada pela opressão e privação social e psicológica, é de capital importância para a pesquisa e intervenção clínica, que asseguram importante potencial resolutivo para os problemas mentais e físicos da saúde dos afrodescendentes no mundo inteiro.

O paradigma da resiliência é relevante para o presente e o futuro da Saúde Mental dos grupos sociais e culturais e faz parte do contexto primário onde se encontram outros fatores

23 Para maiores informações sobre o simpósio, consultar o site: www.massgeneral.org/diáspora.

etiológicos e de risco do Transtorno Mental: o racismo, a marginalização e a discriminação social.

2 HUMANISMOS E PÓS-COLONIALISMO: OS FUNDAMENTOS NACIONAIS DA ETNOPSIQUIATRIA

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 48-55)