2.4 Arthur Ramos: o inconsciente folclórico
2.4.2 O inconsciente folclórico de Arthur Ramos
Arthur Ramos Pereira nasceu em Pilar, no Estado de Alagoas, no dia 7 de julho de 1903. Em 1920, foi para Salvador, Bahia, estudar na Faculdade de Medicina, tendo concluído o curso em 1926. Nesse ano, cumprindo os rituais do curso, defende a tese intitulada O primitivo e a loucura, quando apresenta os fundamentos da metodologia que orientará suas pesquisas ao longo da vida. Permaneceu na Bahia até 1933, indo estabelecer-se no Rio de Janeiro, onde contou com o apoio de colegas como Afrânio Peixoto e Juliano Moreira.
Inicialmente, ocupou-se da organização do setor de Higiene Mental e Ortofrenia da Secretaria de Educação do Distrito Federal, da organização da Universidade do Distrito Federal, em 1935, com o curso de “Introdução à Psicologia Social”; em seguida, em 1940, instituiu a cadeira de Antropologia na Escola de Filosofia da Universidade do Brasil. Por fim, dedicou-se à organização do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO, vindo a falecer em Paris, em 1949, no exercício do cargo.
Deve ser registrado que Ramos se destacou por ser um homem de ação, organizando congresso de cultura africana na Bahia, defendendo colegas perseguidos e presos pela ditadura do Estado Novo, organizando e participando de campanhas nacionais e internacionais contra a discriminação racial.
Coerente com a sua trajetória pessoal, durante o curto tempo de sua vida, apenas quarenta e seis anos, realizou um trabalho intelectual produtivo, tornando-se exemplo de homem de pensamento e de ação. Essa dimensão, enquanto fundamento ético, expressa compromisso com a construção do Brasil como nação moderna, preocupada, naquele período, com a definição de projetos de desenvolvimento e com o ritmo de implementação das reformas sociais. No entendimento de Ramos, a solução do “dilema brasileiro” pressupunha a reconciliação da nação com o seu povo, implicando, como condição, o reconhecimento de que os grupos de excluídos, como o negro, o índio e os novos grupos de migrantes europeus, possuíam uma cultura que lhes permitia contribuir para a formação do espírito nacional.
Considerando a cultura e o homem brasileiros, bem como a problemática da formação de uma ciência autônoma fora dos marcos da herança colonial, Ramos produziu um pensamento original comprometido com a solução dos problemas nacionais. Nesses termos, construiu uma teoria acerca da formação do psiquismo humano, que, antes de ser individual e refletir a biografia individual, resulta da experiência histórica do grupo de pertencimento do indivíduo e das experiências contemporâneas, no contato com outros grupos, indivíduos e instituições. Nesse modelo, o psiquismo é organizado a partir de dois eixos: um correspondente aos conteúdos ancestrais do grupo do indivíduo, que se vincula ao tempo histórico, enquanto o outro, ao espaço e ao contexto atual de interação dos grupos e indivíduos. Sua expressão seria atualizada e regulada por uma instância mediadora de natureza cultural e de formação mais contemporânea. A essa dimensão socioantropólgica do psiquismo, associa-se o reconhecimento da sua função de mediação na articulação com o corpo. Esse liame ou fundamento é complementado pelo princípio da contextualização que, para Ramos, assumia uma dimensão ética e política, e é indicativo de que o novo tipo de conhecimento a ser produzido deveria romper com a tradição científica de assimilar as formulações das ciências sociais e humanas, construídas sob o espírito do colonialismo europeu, baseado na imagem do adulto branco, dólico e civilizado.
Com esse espírito, sua tese de doutorado em medicina, Primitivo e loucura (1926), apresenta, como tema principal, o conceito de Inconsciente Folclórico, destinado a fundamentar a constituição de uma Psiquiatria Folclórica – seu projeto mais significativo no período. Teve como referência o diagnóstico de crise da psiquiatria, atribuindo como razão
fundamental a influência da psicologia intelectualista. Considerava que a alternativa estaria tanto no acesso à etnografia dos povos primitivos, disponibilizada pelos estudos etnológicos e folclóricos, quanto através da reestruturação da Psicologia.
O pensamento de Arthur Ramos foi influenciado pelo de Karl Jaspers (1883-1969), que considerava a psiquiatria não como uma ciência, mas como um conjunto de conhecimentos, dependente da psicologia e susceptível às contínuas mudanças das escolas.
Naquele momento, estava a psiquiatria submetida à influência de uma psicologia intelectualista, resumida à pesquisa e ao estudo da percepção, e que, para Ramos, deveria ser substituída por uma forma de compreensão do indivíduo, sob a ótica da psicologia dinâmica e dos princípios da Gestalt.
Com isso, analisou o trabalho de Eugenio Tanzi (1856-1934), um psiquiatra da escola italiana que estudou a paranoia pelo viés social, aproximando a Psiquiatria da Etnologia, da Arqueologia, do Folclore e da Psicologia para afirmar que há uma relação analógica entre o primitivo e o paranoico. Estudou e citou o trabalho do psiquiatra alemão Eugen Bleuler (1857-1939), médico que também trabalhou a aproximação da psicanálise com a psiquiatria, com o qual Gustav Jung trabalhou diretamente e que, em 1924, estudou a demência precoce, para a qual propôs o nome de esquizofrenia.
Tanzi elaborou também a hipótese de que o delírio do paranoico não é mais que a reprodução, mais ou menos fiel, de fórmulas que caracterizam normalmente o selvagem (RAMOS, 1926).
Tais hipóteses tiveram como base a teoria de Theodor Meynert de que as ideias delirantes preexistem como elemento inconsciente, inibidas pelas funções mentais superiores, e de que havia o controle da cultura sobre o material inconsciente, sugerindo que o reaparecimento do “velho” ocorre ou por inibição ou por defeito da função moderadora da cultura.
Arthur Ramos examinou também as contribuições da Antropologia, das teorias do inconsciente de Freud, Jung, Meynert, Kretschmer para a confirmação do seu conceito de inconsciente folclórico. Entre todos os seus estudos, foram os trabalhos de Eugenio Tanzi que mais o sensibilizaram. Esse autor desenvolve uma analogia entre a semiologia da paranoia e os traços descritos pelos relatos etnográficos da história dos selvagens de épocas remotas e encontrou fortes semelhanças. Afirma essa analogia entre a paranoia e os indivíduos contemporâneos, das populações semianalfabetas que habitam as periferias e os cortiços das cidades.
Arthur Ramos vai propor o conceito de inconsciente folclórico, como resultante da redução do conceito de inconsciente ancestral – que ganha dimensão longitudinal e opera em função do tempo, sendo o responsável pela dimensão arcaica do psiquismo – e do inconsciente interpsíquico, que responde pela interação do indivíduo com o meio (RAMOS, 1926).
Esse conceito, ao mesmo tempo em que consolidava a perspectiva teórica e metodológica de Ramos naquela fase, foi ilustrativo da forma como ocorre o movimento de difusão internacional da psicanálise. Se ele utiliza o conceito de inconsciente, conceito básico do campo psicanalítico, o exame das suas obras posteriores revela que assimila uma concepção que o aproxima das formulações de Adler e Jung, concebendo uma libido dessexualizada e reconhecendo o condicionamento do mito psicanalítico pela forma como se organiza a sociedade. Esse entendimento o fez considerar a psicanálise como a psicologia do seu tempo, diferenciando-se das outras escolas de psicologia dinâmica, por seu antidogmatismo e flexibilidade, e apostando na capacidade desse campo de se recompor com as suas dissidências, mediante a reelaboração do conceito de libido.
O aspecto fundamental da proposta metodológica de Ramos consiste em procurar aproximar o método histórico-cultural do exame do psiquismo humano. A sua hipótese é a de que a constituição da cultura e a formação do psiquismo estão associadas no tempo e no espaço e que o estudo da cultura necessita ter o homem como aspecto central, porém concebido no sentido grupo=>indivíduo, e não no sentido inverso. Afirma o seu conceito de inconsciente folclórico com base no entendimento de que o psiquismo individual existe assentado na dimensão coletiva do psiquismo.
Segundo a antropóloga Luitgardes de Barros, em seu trabalho Arthur Ramos e as Dinâmicas Sociais (2001, p.337), Ramos considera “[...] a transição que ocorre no sistema de crenças das camadas pobres e negras do Brasil”.
Essa problemática da relação do particular e do universal como componentes do processo de individuação e presentes em diferentes níveis da sociedade brasileira no período, apareceu também em artigo publicado no primeiro número da Revista Médica da Bahia, de junho de 1933, da qual Ramos era redator:
O defeito essencial de todos os problemas brasileiros é a falta de continuidade.
Nessas bruscas soluções que se estabelecem, fazemos em regra tábula rasa de tudo o que anteriormente se veio conquistando com árduo e tenaz esforço. Há um falso sentido de individualismo que sacrifica a obra de conjunto, de série de continuidade, a um ideal instável de realização personalíssima, que não constrói, mas antes se torna um fator dispersivo de atividade improfícua. [...]. O cientista brasileiro é ainda uma espécie de sibarita intelectual fechado ao que lhe passa ao redor, no tempo e no
espaço, surdo à contribuição que ele considera humilde e inapreciável, do pequeno estudioso distante avesso a um sentimento de comunidade, de cooperação, no seu sentido mais largo sem o qual a ciência não sobreviverá (RAMOS, 1933).
Essa constatação serve para ilustrar que os dilemas enfrentados pela nação no sentido de superar obstáculos teriam analogia com as questões que enfrentam os indivíduos, no sentido de ampliar-se o grau de liberdade nas disposições internas, bem como de inserir-se em círculos mais amplos, capazes de assegurarem maior grau de autonomia. Percebe-se, nesses elementos, a indicação da fecundidade da hipótese de trabalho de Ramos e do seu conceito de inconsciente folclórico como instrumento original para captar a dinâmica da cultura brasileira, em sua dimensão coletiva e individual.
Ramos reconhece que, em relação à busca de autonomia do indivíduo, o inconsciente folclórico transforma o processo de individuação num movimento lento, com resultados que se dissolvem no ar. No momento da expressão do seu conteúdo, o indivíduo não se pertence, pois é tomado pelo seu dinamismo e volta a identificar-se com a espécie, sendo conduzido pelo coletivo. A mentalidade pré-lógica convive com a mentalidade lógica, nos atos da vida cotidiana, na maneira de pensar e agir, nos costumes, nas instituições populares, nos contos, nos provérbios, entre outras manifestações (RAMOS, 2001, cap. IX). Apoiando-se na experiência da diáspora africana, afirma que, para os africanos escravizados, o produto do inconsciente folclórico foi a válvula de comunicação com a civilização branca: os negros aproveitaram-se das instituições aqui encontradas e canalizaram seu inconsciente ancestral, nos autos europeus, nas festas, no carnaval, na praça (RAMOS,1935).
Assim, estabelece que, para o entendimento do espírito humano, a Psicologia Individual devia estar associada à Psicologia Coletiva e Étnica.
No que se refere às relações do inconsciente folclórico com o corpo, Arthur Ramos valoriza a mediação das emoções, desenvolvendo essa tese no trabalho O conceito de totalidade e a noção de arcaico em Patologia Mental (RAMOS, 1934). Nesse texto, a questão do sentido, que ele já havia restabelecido no campo das psicoses, foi recuperada na noção de organismo humano, construída a partir do critério da totalidade. Essa síntese era possível mediante a contribuição dos neovitalistas alemães, da patologia constitucional, das pesquisas sobre hereditariedade e constituição, da patologia cromossomal, assim como do campo da psicopatologia e da psicologia, com a reflexologia soviética, o behaviorismo americano, o personalismo de Stern, a Gestalt dos formalistas e a psicanálise.
O corpo está aí envolvido em uma relação biunívoca com a personalidade, o que coloca em pauta a questão do sentido. Nesses termos, o psiquismo não se localiza apenas no
cérebro, mas se dissemina por todo o corpo: nos genes, na maquinaria celular e nos órgãos.
Por outro lado, os ritmos fisiológicos (cardíaco, respiratório, digestivo) contribuem para a formação da personalidade. É a vida vegetativa que, por seu vínculo com a afetividade, dirige a personalidade.
Sob o viés do conceito de inconsciente folclórico, a Psicologia da Afetividade foi vista, por ele, como mais importante que a psicologia abstrata para a investigação da vida anímica.
Por fim, Arthur Ramos considera que a psicologia social, para não se limitar a uma psicologia social descritiva superficial, devia tomar o inconsciente folclórico como objeto e efetuar a análise das categorias pré-lógicas de um ciclo de cultura. Tratava-se de um campo onde se encontravam as metodologias da antropologia cultural, da psicanálise e da Gestalt que, pela mobilidade, conduzirão, possivelmente, à unificação dos diversos critérios metodológicos da sociologia (RAMOS, 1935).
O Inconsciente Folclórico apresenta-se, portanto, como conceito teórico que articula dois campos de conhecimento para examinar o homem brasileiro e a realidade do Brasil:
primeiro, o Culturalismo, introduzido no Brasil através das contribuições das escolas de Levy Brhul e de Franz Boas; depois, a Psicanálise e outras escolas de psicologia dinâmica, que permitem pensar o momento e as perspectivas da sociedade brasileira, cujo passado colonial reunira, em situações muito diversas, brancos, negros e índios, a que foram ajuntados, mais contemporaneamente, outros grupos de brancos e asiáticos.
Ao tempo em que se reconhecem as definições de inconsciente de Freud e de Lacan como universais, também se deve atribuir o valor do conceito ao Inconsciente Folclórico de Arthur Ramos. Por um lado, porque não houve outro teórico brasileiro que tenha proposto algum estudo significativo sobre o conceito e, por outro, porque, sob a luz de várias outras teorias sociais, o conceito de Ramos é significativo àquelas disciplinas que interagem com a psicologia, a psiquiatria, a psicanálise, a etnologia, a arqueologia, a sociologia e a história, entre outras. Tal fato coloca o seu exame exaustivo no plano de uma verdadeira cartografia do saber de sua época.
No entanto, a questão principal que norteia este trabalho é indagar sobre as possibilidades e a pertinência do Inconsciente Folclórico, quando comparado ao campo da psicanálise. Em outras palavras: a que história remetem as experiências e as inflexões que a doutrina psicanalítica vem apresentando no âmbito do espaço e tempo que o seu próprio corpo de adeptos representa? Em que medida tais reflexões podem subsidiar estudos e questões que
se colocam entre a subjetividade e a sociedade? É possível pensar, no plano teórico, sobre a existência de um inconsciente pós-colonial?
2.5 Rubim de Pinho: por uma a psicopatologia histórica e transcultural
Os estudos sobre a história da psiquiatria no Brasil consideram que Rubim de Pinho foi o representante mais ilustre na contemporaneidade da Escola Brasileira de Psiquiatria.
Rubim de Pinho nasceu em 1922, em Manaus, Amazonas, embora a família seja natural de Salvador/Bahia e faleceu em Salvador em 1996 (SABACK, 2002).
Veio para Salvador aos dezesseis anos, ingressando na Faculdade de Medicina aos dezoito. Começou sua atividade profissional como neurologista do antigo INSS, exercendo a atividade durante dez anos, tendo nessa fase publicado vários estudos sobre a epilepsia. Sua aproximação com a Psiquiatria data de 1947, quando trabalhou em vários hospitais de Salvador, colaborando com profissionais e professores da Universidade, em especial com Nelson Pires, Luís Cerqueira, George Alakija e Gabriel Nery.
Foi professor e mestre de várias gerações, ensinando semiologia neurológica e psiquiátrica, na cadeira de Propedêutica Médica, em seguida na clínica pediátrica, com o prof.
Hosannah de Oliveira, amigo e colaborador de Arthur Ramos. Foi Docente Livre em 1955, ocupando vários cargos na administração, tendo sido vice-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, em 1985. Desenvolveu atividades como dirigente de várias associações médicas: Associação Baiana de Medicina, Conselho Regional de Medicina, Associação Psiquiátrica da Bahia, Associação Brasileira de Psiquiatria (fundador e primeiro presidente). Foi membro do Committee to Review the Abuse of Psychiatric, instituído pela Associação Mundial de Psiquiatria (SABACK, 2002). Ao mesmo tempo, Rubim manteve, na Bahia, ligações estreitas com o universo da cultura afro-brasileira, sendo admitido como Ogã de Oxalá, do Axé Opô Afonjá, na época de Mãe Senhora, fato significativo para a realização dos trabalhos de campo sobre Psiquiatria Transcultural (Depoimento pessoal concedido pela Ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, do Axé Opô Afonjá, em novembro de 2000).
Quanto à vida intelectual, dedicou-se a vários temas: Psiquiatria Forense, Neurologia, Epidemiologia e, em 1965, quando assume a cátedra de Psiquiatria, voltou-se para a Psiquiatria Transcultural – tema que lhe permitiu projetar-se internacionalmente. Esse era um momento de intensificação do processo de modernização tardia do Nordeste, caracterizado
pelo intenso crescimento da população, à custa, em um primeiro momento, da migração interna e pela formação de classes sociais, e que se faz acompanhar da concentração de renda, gerando o aumento de miséria e o surgimento de novos estigmas e segregação racial, atingindo a maioria da população negra e mestiça.
Suas pesquisas transculturais dirigiram-se para temas como o candomblé, o misticismo, o tratamento religioso das doenças mentais, o cultural no campo dos delírios e da depressão, entre outros, mas sempre focalizando o sistema diagnóstico e tratamentos existentes nos diferentes grupos da população. Organizou, em 1968, em Salvador, um congresso internacional de Psiquiatria Transcultural e, em 1979, assumiu a condição de Expert Advisory Panel on Traditional Medicine, pela Organização Mundial de Saúde (SABACK, 2002).
Rubim retomou a pesquisa da Psiquiatria Folclórica, que havia sido objeto de Ramos em 1926, ampliando-lhe a definição e concebendo-a como o conhecimento dos quadros psicopatológicos e dos tratamentos modulados a partir da cultura e por conteúdos definidos quer pela tradição popular com que mantém diálogo, quer pela prática clínica (PINHO, 1966).
Tratando o tema em uma perspectiva histórica, reconhece serem as terapias popular e regional, notadamente a dos indígenas, integradas, desde os primórdios, aos primeiros manuais de saúde elaborados por biólogos e naturalistas. Edson Carneiro, que reforça a interpretação otimista de Rubim, põe em evidência o multiculturalismo no Brasil, demonstrando que, até o século XIX, havia uma interação entre o popular e o nacional.
A revisão da história da medicina permitiu ainda o reconhecimento do esboço de uma psicologia dos tipos nacionais, pelo viés das lentes do colonizador e pela enumeração de traços de conduta e estados de espírito dos grupos étnicos, com categorias referentes às relações de dominação colonial, com elementos de nosografia de base científica e com os estigmas herdados. Foram catalogados estereótipos, estigmas e descrições de estados emocionais, como a melancolia e a tristeza, atribuídas como características do humor dos portugueses, o canibalismo e a fraqueza sexual dos machos indígenas, a voluptuosidade da mulher indígena, o medo dos castigos dos senhores, o suicídio de escravos por enforcamento, o alcoolismo pela introdução da aguardente, e certas formas de psicose, como licantropia, psicose sintomática e surtos epidêmicos (PINHO, 1966).
As fontes populares de psicopatologia adquirem um novo colorido na Bahia, resultando numa rede elaborada de conceitos que traduziam a experiência dos africanos e seus descendentes na diáspora baiana, com o tráfico, a escravidão e o colonialismo, compondo uma narrativa de rupturas e resistências no andamento das vivências cotidianas. O trabalho de
Rubim, de um lado, promoveu o reconhecimento desses saberes como sistemas de diagnóstico no meio acadêmico e, ao mesmo tempo, concorreu para a colaboração entre antropólogos, psiquiatras e psicólogos (entrevista pessoal concedido pelo antropólogo, professor emérito da UFBA e Obá do Ilê Axé Opô Afonjá, Vivaldo da Costa Lima, em março de 2002).
Apoiando-se na sua condição de Ogã de Oxalá do Ilê Axé Opô Afonjá, examinou algumas dessas categorias, a partir de depoimentos de membros ilustres como o Sr. Alberico dos Santos, Obá do também Ilê Axé Opô Afonjá, que tem o título honorífico de Cancanfo, termo iorubano traduzido para o português como “senhor das guerras”. Procurou demonstrar a existência de uma vertente comunitária de matriz africana capaz de construir um sistema nosográfico de natureza híbrida, com teoria psicopatológica elaborada ou reelaborada nos marcos das experiências da diáspora dos afro-brasileiros, situando-a, não apenas como um dado cultural, mas como uma etnociência com a qual a cultura ilustre universitária deveria estabelecer um diálogo permanente.
Nessa perspectiva, uma das categorias29 que foram examinadas foi o Banzo – conceito recorrente e consagrado no campo das ciências sociais, quando se examina a experiência dos africanos na diáspora, e agora enriquecido pela perspectiva psicossocial e pela elaboração do pensamento afro-brasileiro. Filologicamente, o Banzo seria ligado ao quimbundo mbanza, que corresponde à aldeia, e assim significaria a “saudade da aldeia” e, por extensão, do lar. No Vocabulário, de Bluteau, por exemplo, a palavra “banzar” aparece como a ação de ‘pasmar com pena’, e “banzeiro” seria algo ‘inquieto, mal seguro’. Em 1933, Gilberto Freire descreve, nas páginas finais de Casa Grande & Senzala, a fenomenologia do Banzo no cotidiano da vida de escravos recém-chegados no Brasil:
Não foi de todo alegria a vida dos negros. Houve os que se suicidaram comendo terra, enforcando-se, envenenando-se com ervas e potagens dos mandingueiros. O banzo, a saudade da África, deu cabo de muitos. Houve os que de tão banzeiros ficaram lesos, idiotas. Não morreram mais ficarampenando. E sem achar gosto na vida normal, entregando-se a excesso, abusando da aguardente, da maconha.
(FREIRE, 1933, p. 514).
Quanto às consequências, esse sentimento é descrito como capaz de conduzir o indivíduo à dizimação pela inanição e fastio, tornando-os apáticos e idiotas. Essa nostalgia consta também em literatura e é privilegiada no poema “Navios negreiros”, de Castro Alves.
No campo psiquiátrico, a descrição do Banzo foi feita sob o ponto de vista psicogênico e considerada como equivalente ao ressentimento, devido à saudade da pátria ou ao
29 Rubim de Pinho também descreve a caruara, o calundu.