comprometido com a vida. Não existe nele nenhum fim que esteja além do compromisso com o próprio homem.
Para esse referencial, a existência ocorre em dois planos: o AYÉ, que corresponde ao mundo material e à vida de todos os seres naturais que o habitam, e o ORUM, que é o espaço sobrenatural, outro mundo e constitui uma reprodução do Ayé. É habitado pelos seres sobrenaturais e é paralelo ao mundo real, e possui um duplo espiritual, abstrato, de todas as criaturas que existem no mundo material. A separação ocorre através da massa de ar SAMMO, expirada por Orixalá e que constitui a atmosfera. O Orum é, portanto, o duplo do AYÉ e é governado por Olorum, aquele que possui orum, senhor de todos os seres espirituais, divinos e ancestrais (eguns) de todo o espaço abstrato. É também dividido em nove camadas, formando um todo; as camadas estão unidas pelo OPO ORUN. O Orum ocupa o espaço da terra e o contorna por cima e por baixo. Orum e o Ayé estão fortemente unidos pelo OPO (SANTOS, 2001).
O ar produzido por olorum dá origem a uma massa de água. Juntos vão originar a lama, que representa uma primeira matéria dotada de forma, o rochedo avermelhado e lamacento. Olorum, então, lhe sopra a vida. Essa é a primeira forma dotada de vida, que é EXU. É o primeiro nascido de elemento procriado.
Ao lado de uma concepção dinâmica e existencial, o ser humano, no pensamento afro- brasileiro, apresenta uma concepção estrutural, como todos os seres, sendo constituído por elementos simbólicos coletivos, que são representações deslocadas das entidades genitoras naturais, divinas ou ancestrais (SANTOS, 2001). Esses elementos ou entidades são representados por um conjunto de princípios vitais que comparecem como uma unidade e são permeáveis à ação dos valores históricos da comunidade que modulam o seu processo de passagem a uma nova etapa.
orientação para as decisões humanas. Permite a interação com o universo através dos sons e sustenta o corpo e a alma unidos. Mantém íntima relação com o principio do axé, por ser sede do órgão (a boca) por onde penetra os alimentos e a energia (RODRIGUÉ, 2009).
O ori é formado por duas partes: o ori odé e o ori inu. O primeiro representa a cabeça física onde estão o crânio, olhos, ouvidos, boca e nariz. Relaciona-se com a medicina por sua proximidade com Ossaim, assim como com o invento e a transformação, por sua relação com Ogun. Está sob o comando de Oxóssi. É o suporte das obrigações iniciáticas. O ori inu representa a cabeça interior – uma espécie de essência da personalidade. É ligado ao Orixá Ifá, ou seja, ao saber divino.
O Ori odé é modelado com porções da massa progenitora genérica, mas o Ori inu é único e representa uma combinação de elementos ligados às características pessoais. É esse conteúdo do Ori inu que expressa a existência individualizada. Dessa forma, adquirir um ori significa nascer e se desprender da massa progenitora.
Cada ori é modelado no Orum e sua matéria progenitora varia. Constitui o IPORI da pessoa. Ele determina o Orixá que o indivíduo deverá adorar, estabelece as suas possibilidades, escolhas, e indica as proibições e ewo, em matéria de alimentação. Indica também o tipo de trabalho que é mais conveniente, proporcionando satisfação e permitindo a cada um alcançar a prosperidade. O ipori possui um signo distintivo. Por extensão, o ipori aplica-se aos ancestrais diretos de uma pessoa e a seus elementos constitutivos imediatos, o pai ou a mãe.
A tradição sugere que todo ser criado por Orixalá, no momento de escolher seu Ori, escolhe também seu ODU, signo que ordenara o seu devir, com o qual nasce cada ser no AYÉ. Portanto, a escolha da cabeça é sempre livre. O Ori é o objeto do primeiro ato de escolha ainda no Orum, antes de o homem tornar-se corpo. Essa escolha é considerada como o ato fundante do processo existencial do homem (SANTOS, 2001). Considerando-se o contexto de incertezas que envolve esse processo inicial, existem dois tipos de Ori: o Ori Rere, que representa a boa cabeça, e o Ori Beruku, que representa a cabeça desafortunada, decorrente de um defeito de fabricação e associado a uma escolha desatenta.
O Ori é, portanto, aquele que individualiza. É o primeiro a nascer e é considerado como imortal, pois, no momento da morte do homem, o abandona e retorna para o Orum, iniciando novo ciclo. Será também o primeiro a ser venerado por um indivíduo antes mesmo do Orixá. A comunidade reserva uma importância ao Ori que parece transcender a do Orixá:
aquilo que o ori não sanciona não pode ser dado a ninguém pelos orixás, nem mesmo por
Olodumaré, que é o deus supremo iorubá. O Orixá não atenderá a nenhum pedido do homem que não tenha sido sancionado por seu Ori (RODRIGUÉ, 2009).
Dessa forma, para a tradição iorubana, o Ori torna-se o responsável pelo fracasso ou sucesso na vida. Ter um ori rere significa ter o potencial para vencer, mas não o sucesso. O sucesso na vida é uma exigência de processo iniciático, isso é, da ação da comunidade que sugere a necessidade de trabalho e a expansão para transformar o potencial do indivíduo em realização. No entanto, para o ori buruku, reconhece-se a necessidade de ter a cabeça fortalecida durante a vida com oferendas, buscando o fortalecimento ou realizando a iniciação. Nesse caso, a pessoa deve trabalhar com afinco para promover essas mudanças. É, portanto, em função da gravidade e complexidade do caso que os rituais de fortalecimento são programados.
Dessa forma, o culto e o cuidado com a cabeça devem preceder o culto com as divindades do panteão. A cabeça é tão importante no sistema que não se pode fazer nada para o santo sem que comunique a sua cabeça. A cabeça precisa ser participada do que vai acontecer com o corpo, pois é dela que emana a energia que se projeta pelo corpo (LIMA, 2010).
Outro princípio vital constituinte do homem é o Emi, que responde pela existência humana; no sentido genérico, imprime ao homem o movimento e o ânimo. O Emi é elemento original conferido por Olorum, o responsável pela dispensa das existências, é materializado pela respiração, elemento essencial que provém de uma protomatéria, o ar e massa ou elemi.
Pode ser masculino ou feminino. É considerado imortal. Após a morte física, só deixa a terra mediante a realização de um ritual chamado de axêxê. Através do Emi, afirma-se que as pessoas estão vinculadas a um todo que integra a vida e que é comum a todas as outras vidas.
O okan é um sistema pensado à luz da analogia com o coração, mas que se diferencia funcionalmente, pois se orienta para elaborar a dimensão física e espiritual do homem.
Há ainda o Ejiji, que corresponde à sombra e tem a característica da vulnerabilidade.
Cada elemento constituinte do ser humano é, dessa forma, derivado de um princípio original que lhe transmite as suas propriedades materiais e o seu significado simbólico. Essas entidades originais são progenitoras da existência genérica, elementos naturais, ancestrais divinos ou familiares, são os símbolos coletivos míticos dos quais partes individualizadas se desprendem para constituir os elementos que formam um indivíduo. Esses elementos possuem dupla existência: enquanto uma parte existe no rum, no infinito, a outra reside no indivíduo, em regiões particulares do corpo.
Qualquer ato litúrgico concebido como forma de alimentar a cabeça pode ser encarado como etapa preliminar do processo de iniciação. Para os componentes do egbé, coloca-se como “necessário cuidar do Ori, assim como é necessário cuidar do Orixá. Não se faz orixá sem antes cuidar da cabeça”.
Desse breve comentário é importante ressaltar que a sacralização, a reconstrução simbólica da pessoa, a realização de rituais específicos para esse fim, como, por exemplo, o Bori, que inicia o processo de formação da identidade da pessoa, tem por finalidade a integração do que estava fragmentado ou desconhecido e desequilibrado.