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A trajetória de lutas dos negros

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 57-64)

acionadas como forma de compensação. No caso do Brasil, em termos raciais, a injustiça profunda foi a escravidão. Assim, os beneficiários destas medidas reparatórias devem - obrigatoriamente - ser os negros, afro-descendentes dos que no passado foram escravizados. Não estamos assim dizendo que no Brasil apenas os negros devem ter direito a ações afirmativas. Há no Brasil outros grupos sociais injustiçados em decorrência da formação social brasileira, como as mulheres e os índios.

O argumento da justiça social possui cunho histórico e é pautado em grupos de pessoas que são sistematicamente marginalizadas (Ferez, 2012, p. 3). É um argumento que parte da premissa de que, se todos deveriam ser iguais, há uma injustiça com os grupos marginalizados. E esta marginalização tem se dado historicamente através da divisão de classes e das mais variadas formas de preconceito. Assim, é direito destes grupos que estão à margem da sociedade acessar seus bens e serviços através das ações afirmativas.

Do ponto de vista da diversidade, o argumento pauta-se na ideia de que todos os segmentos sociais devem estar representados nos setores de prestígio e poder de uma sociedade democrática. Ferez (2012) destaca que o argumento da diversidade foi criado e utilizado como justificativa para as políticas afirmativas,sobretudo nos Estados Unidos, não havendo grande incidência no contexto brasileiro.

Aqui, a justificativa mais usual para a política de ações afirmativas é a da reparação e justiça social. Não obstante, nos lembra Ferez (2012, p. 06) que estes argumentos não são excludentes, mas podem ser perfeitamente complementares entre si.

a luta da população negra contra o racismo e, assim, falaremos brevemente deste protagonismo em dois momentos históricos: durante o período colonial e no pós- abolição da escravatura.

Durante a Colônia, Sales destaca como uma primeira forma marcante de luta o afrouxamento no trabalho. Devido à demanda incessante de trabalho, os negros escravizados afrouxavam ou até mesmo recusavam o trabalho como forma de protesto, e esse afrouxamento automaticamente era percebido na produção diária. Assim, se tornou esta uma forma de fácil controle por parte dos fazendeiros já que quando se constatava a diminuição da produção, os escravizados eram castigados. Diferente do que ocorria com os quilombos, símbolo da luta coletiva dos negros escravizados neste período. Não podemos esquecer que os negros cativos eram considerados “coisas” aos olhos dos fazendeiros, e esta foi uma importante forma encontrada por eles para demonstrar a sua existência enquanto sujeito humano. Assim, demonstra Sales:

Diga-se de passagem, enquanto homem livre, já que a sua humanização emergia através de sua recusa ao trabalho, porque ao trabalhar o cativo não só produzia como também reproduzia a sua condição de escravo, e assim, a ideia da supremacia racial branca reclamada pelos escravocratas. Por isso, o escravo negro é o inimigo número um do trabalho, jamais por preguiça ou falta de condições mentais, mas pela consciência de afirmar sua humanidade e, consequentemente, negar o escravismo e o racismo. E é por isso, também, que a violência física, extra-econômica, é indispensável ao trabalho escravo, sendo aplicada de forma privada e diária. (2007, p. 52)

Uma segunda forma de resistência à escravidão e ao racismo durante a colonização foi o que Sales (2007) nomeou de “rebeldia coletiva” que, em outras palavras, foram os quilombos formados por escravos fugidos das fazendas e que, segundo Sales, “eram uma espécie de sistema sócio-político alternativo ao escravismo brasileiro” (2007, p. 56).

Segundo Sales, eram chamados quilombos toda habitação de cinco negros ou mais fugidos das fazendas. Tanto na forma de habitação quanto no número de habitantes, os quilombos eram bastante heterogêneos; aqui cabe destaque ao quilombo de Palmares, em Alagoas, formado por mais de 20 mil habitantes e o de Campo Grande, em Minas Gerais, formado por cerca de dez mil pessoas.

Os muitos quilombos formados estavam à margem do sistema escravista, e justamente por estarem à margem de tal sistema foram um instrumento fortíssimo de luta dos negros escravizados e instrumento de preocupação ao sistema central, já

que não havia um controle sobre esses quilombos, como ocorria como o método de afrouxamento do trabalho.

Demonstra ainda Sales (2007) que os quilombos não eram um núcleo fechado em si, mas exerciam uma influência política sobre aqueles que eram contrários ao sistema escravista e formaram uma verdadeira força militar com o intuito principal de garantir a sobrevivência dos habitantes, tanto que o poder central do sistema escravista mobilizou cerca de nove mil homens contra a República de Palmares. Assim, demonstra Sales:

Ou seja, a luta à margem não era e nem podia ser controlada pelo sistema escravista. Ao contrário, ela era um fato que ameaçava o centro do sistema uma vez que a periferia desse sistema tinha um poder real de eventualmente subverter-lhe a ordem. Este tipo de luta demonstrava concretamente, por um lado, uma fratura entre dois mundos: a) o dos negros e oprimidos pelo sistema escravista/racista; e b) o mundo da elite dirigente (branca) brasileira. Por outro lado, sinaliza também que no processo histórico e periferia do sistema poderia sobrepujar o centro. (2007, p. 61)

Entendemos, desta forma, que a formação de quilombos de forma articulada e organizada tornou-se o principal marco de resistência ao sistema escravocrata.

No período pós-escravismo, a escravidão formalmente foi abolida, mas o racismo não, pelo contrário, só se intensificou. Por isso, os negros seguiram resistindo. O primeiro grande ato de resistência foi a revolta dos marinheiros ou revolta da chibata, ocorrida em 1910 entre os marinheiros que se rebelaram contra o governo brasileiro por conta das condições de trabalho e castigos físicos sofridos.

Nos diz Sales que esta revolta teve uma determinante conotação racial e de luta contra a discriminação racial, já que a imensa maioria dos marinheiros eram negros.

Após isso, as manifestações da população negra podem ser verificadas através de elites negras na criação de associações de recreações e cultura. Essas associações surgiram, pois a classe média negra não tinha acesso aos ambientes recreativos da classe média branca, e essas associações foram criadas como formas de acesso ao lazer e à recreação. Tais associações criavam jornais e periódicos e, a partir da década de 20, esses períodos que tinham o intuito de publicizar os acontecimentos sociais também passaram a divulgar assuntos de natureza social e econômica e, desta forma, acabaram por se transformar em um instrumento de combate ao racismo por meio de protestos, denúncias e reivindicações. Este boom de periódicos é conhecido como "Imprensa Negra" que teve atuação principalmente no período de 1888 a 1937, principalmente no estado

de São Paulo, e possuía como assunto recorrente a luta por educação formal.

Citamos como exemplo o periódico A Voz da Raça, órgão diretamente ligado à Frente Negra Brasileira20, uma das mais importantes associações de negros existentes no Brasil.

Em 1944, outra importante entidade de luta foi a criação do TEN - Teatro Experimental do Negro - fundado por Abdias do Nascimento no Rio de Janeiro. O TEN se propunha a formar dramaturgos negros com uma leitura crítica da realidade e denunciava explicitamente o racismo no Brasil, tendo como pauta principal também a defesa prioritária da educação, além de oferecer cursos de alfabetização aos alunos. Foi por intermédio do TEN que surgiram as primeiras propostas de ações afirmativas, presentes em um manifesto intitulado por Convenção Nacional do Negro Brasileiro, datado de 1945.

Cerca de 30 anos após a criação do TEN e em meio à ditadura foi fundado o MNU - Movimento Negro Unificado. O MNU, instituído em 7 de julho de 1978 através de um ato público com a presença de diversas entidades do movimento negro trouxe uma nova militância antirracismo que fez com que muitas entidades fossem às ruas cobrar acesso e ocupação ativa nos espaços públicos. Esta fase do movimento negro, diferente da primeira fase (da criação das associações) possuía um intuito bastante explícito de denúncia às bases formadoras da sociedade brasileira e isso fez com que outras entidades, com este mesmo caráter, fossem fundadas em todo o país.

Ao final do século XX e início do XXI, o que percebemos é que as pautas do movimento negro, por luta destes, assumiram uma dimensão macro no sentido de passar a ser pauta também do governo brasileiro. Aqui novamente citamos a histórica marcha ocorrida em 1995, que pressionou o governo a discutir as questões raciais e, dentre estas, a discussão das ações afirmativas assumiu forma e intensidade. Assim, nos informa Sales (2007):

Percebe-se assim que as propostas de ações afirmativas que se consolidam na década de 1990, com o empoderamento das reivindicações dos Movimentos Negros, não são propostas de um grupo de intelectuais brancos que sempre controlaram a agenda de pesquisa e estudo no campo

20 A Frente Negra Brasileira foi a entidade negra de maior referência à época e foi construída com o intuito de ressocialização e ascensão moral dos negros brasileiros, possuía fins políticos de luta por igualdade racial e educação formal. Neste sentido, foi criado o departamento de instrução e cultural, a biblioteca escolar com cursos de alfabetização aos associados e as quatro séries primários (ensino fundamental) bem como cursos de línguas. A FNB é parte intrínseca do processo histórico de luta da população negra.

das relações raciais brasileiras ou, se se quiser, sempre tentaram impor de forma latente aos intelectuais negros o que e como eles devem pesquisar, bem como o que e como estes últimos devem divulgar as suas pesquisas científicas nesta área de estudos e pesquisas. As ações afirmativas são propostas históricas e autônomas dos Movimentos Negros, propostas estas que começam a se consolidar na segunda metade da década de noventa do século XX e a serem colocadas em prática em algumas universidades públicas no século XXI, embora o seu embrião já tivesse sido gerado em meados da década de quarenta do século XX com o intelectual e ativista Abdias do Nascimento, como foi demonstrado anteriormente (2007, p. 187)

Este pequeno resgate dos percursos de lutas da população negra no Brasil está contido neste trabalho de modo a afirmar que absolutamente todas as conquistas, que hoje são visíveis, são fruto dessas lutas e que lutar por educação e mais especificamente lutar por ações afirmativas é lutar explicitamente e radicalmente contra o racismo. Esta concepção será a nossa base de análise para os próximos capítulos.

2 Educação Profissional no Brasil: Trajetória histórica

A partir deste ponto, passaremos a analisar como se constituiu a história da educação profissional no Brasil. Traçar a trajetória da educação profissional torna-se essencial para que possamos entender a especificidade de adoção de ações afirmativas dentro deste campo educacional, a qual percorre diversas modalidades de ensino que vão desde a educação formal no Brasil - ensino médio técnico integrado à pós-graduação - até a educação e formação dos trabalhadores através de sindicatos classistas e movimentos sociais. Além disso, este é um campo educacional que possui um diálogo direto com o mundo do trabalho na perspectiva do modelo de industrialização.

Levando em consideração que a educação profissional surge especificamente para formar cidadãos aptos ao trabalho, e dadas as várias perspectivas com que este tema vem sendo tratado em diversos estudos, faz-se necessário enunciar aqui a perspectiva na qual pautamos nossa análise. Assim, entendemos o trabalho segundo a definição de Marx:

Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeças e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural, numa forma útil para sua própria vida.

Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a natureza externa a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. (MARX, 1982, p.149)

O trecho nos indica o quanto é naturalmente necessário o trabalho na vida do homem, pois é pelo trabalho que este vive e se desenvolve. E é também o trabalho específico do ser humano, pois para se extrair matéria-prima da natureza que depois será transformada em produto, é indispensável o uso da inteligência, o que não ocorre com as atividades de outros animais.

O processo de trabalho, categoria fundante em Marx, pressupõe dois principais elementos, os meios e os objetos de trabalho. O objeto de trabalho é resumidamente a terra e tudo o que é extraído da natureza. O objeto de trabalho pode também ser configurado como matéria-prima, mas como aqui escrito, pode e não necessariamente deve ser matéria-prima. Os meios de trabalho são aqueles

que intermedeiam a relação entre o trabalho e o objeto, como as propriedades físicas, mecânicas e químicas. Desse processo de trabalho resultará o seu produto, que pertence ao capitalista e que se configurará então em valor de troca que tem por função satisfazer as necessidades humanas.

Diante deste contexto e tendo ciência de que entender a dinâmica do capitalismo pressupõe entender a dinâmica assumida pela classe trabalhadora, trazemos para a análise a discussão da divisão social de trabalho em Marx no sentido de localizar elementos que tenham repercussão na dinâmica educacional.

Assim, explica Marx que:

No conjunto formado pelos valores-de-uso diferentes ou pelas mercadorias materialmente distintas, manifesta-se um conjunto correspondente dos trabalhos úteis diversos - classificáveis por ordem de gênero, espécie subespécie e variedade- a divisão social do trabalho (MARX, 1989, p.49)

E que:

Considerando apenas o trabalho, podemos chamar a separação da produção social em seus grandes ramos, agricultura, indústria etc., de divisão do trabalho em geral; a diferenciação desses grandes ramos em espécies e variedades, divisão do trabalho em particular, e a divisão do trabalho numa oficina, de divisão do trabalho individualizada, singularizada (MARX, 1989, p.402)

Nestas citações podemos observar que a divisão social do trabalho está diretamente ligada à produção de valor-de-uso e que por ser uma divisão concreta resulta nas relações sociais produtivas dos trabalhadores, relações que expressam a clara contradição antagônica das classes, pois demonstra a exploração dos trabalhadores pelos capitalistas.

Marx demonstra que a divisão social do trabalho, que está ligada diretamente às relações sociais, possui justificativa histórica. Neste sentido, vale a reflexão do quanto essas relações sociais são historicamente construídas e exemplo de tal fato é a própria divisão no trabalho por sexo, ente homens e mulheres, uma divisão pautada sob sua trajetória histórica e os rearranjos das forças produtivas.

Percebemos que, no percurso das relações de trabalho, a posição das mulheres nesses espaços operou mudanças como veremos adiante.

A mesma reflexão vale se formos pensar que esses homens e essas mulheres têm cor. Ou seja, pensar a divisão social do trabalho é também pensar as relações sociais que se expressam através de relações raciais, de gênero, de

classe, de nível hierárquico. Ter a compreensão da amplitude das relações sociais advindas da divisão social do trabalho é importante para pensarmos na particularidade da educação profissional no Brasil

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 57-64)