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A violência e os modos de consumir

No documento Rio de Janeiro 2019 (páginas 83-86)

Há um entendimento no Brasil atual de que a criminalidade violenta, principalmente nas grandes capitais, está entre um dos maiores desafios a ser combatido para o estabelecimento democrático no país.

Segundo Silvia Ramos (2012), após a ditadura, durante a década de 1980, o problema da violência urbana no Brasil começa a se acentuar: acontecimentos da criminalidade urbana tornam-se mais graves – isto se agrava mais de 1990 e nos anos 2000 – e, desta maneira, o crime comum e os presos comuns estão mais evidentes na vida das cidades.

Não é desconhecido que o Estado e principalmente a cidade do Rio de Janeiro enfrentam uma grave crise na segurança pública. Os dados fornecidos pelo ISP/RJ são assombrosos e apenas refletem em números a sensação de insegurança sentida pelos cidadãos fluminenses. Em um levantamento rápido no site da instituição é possível perceber que na seção “crimes contra o patrimônio4” os números apresentados são elevados e por mais que haja uma queda em alguns crimes não se pode considerar como um dado otimista, já que o número total de crimes expõe a cidade a um estado de alerta.

O que se repara nas tabelas a seguir fornecidas pelo instituto é que em 2017 houve uma pequena queda nos números de roubos de rua. De 2013 a 2017, a taxa de roubo de carga cresceu 192%. E os registros de roubo de veículos, apresentam um crescimento desde 2012, atingindo seu maior nível em 2017.

4 Estão expostos nesta seção os delitos de roubo de rua, roubo de veículo, roubo de carga e roubo a residência. Entretanto, por essa pesquisa não possuir nenhuma relação com os delitos cometidos em residências, optou-se por não apresentar os dados.

Gráfico 7 - Roubos de rua

Fonte: Instituto de Segurança Pública, 2018.

Gráfico 8 - Roubos de carga

Fonte: Instituto de Segurança Pública, 2018.

Gráfico 9 - Roubos de veículos

Fonte: Instituto de Segurança Pública, 2018.

Por consequência, não é por acaso que o medo e a insegurança afligem a população da cidade. Os espaços urbanos estão sendo dominados pelo risco e os sujeitos cada vez mais se sentem acuados em utilizar um espaço que é seu de direito.

Neste sentido vale lembrar da liberdade “adquirida” pelos sujeitos e apontada por Bauman em diversos estudos. Em seu livro, “Comunidade: a busca por segurança no mundo atual”, o sociólogo afirma que há um grande dilema atribuído entre a segurança e a liberdade. Para ele, esses dois atributos não encontram um equilíbrio exato na balança e, como resultado, um tende para cima enquanto o outro para baixo. Liberdade e segurança nunca estão na mesma proporção e, portanto, não se pode ter ambas ao mesmo tempo e na quantidade que os sujeitos desejam.

Isso ocorre a partir do paradoxo estabelecido no conceito comunidade, que ao mesmo tempo emana uma sensação boa de se ter com quem criar vínculos, elementos fundamentais para os indivíduos que se encontram imersos em um mundo impessoal onde possam permanecerem tranquilos e confiantes. Por outro lado, limita uma das maiores conquistas dessa época: a liberdade individual.

Exercer a liberdade em tempos pós-modernos em espaços cada vez mais hostis está se tornando uma tarefa árdua. Roberto Damatta (1997) explica que para que se possa “ver” e “sentir” o espaço é necessário situar-se. Não se pode compreender como o espaço é percebido sem entender a sociedade com suas redes de relações sociais e valores. Isso quer dizer que o espaço não é estabelecido como uma perspectiva social independente e individualizada, ele está sempre mesclado com outros valores que auxiliam a orientação geral.

Damatta (1997) afirma que para os brasileiros a orientação é feita em um espaço impregnado socialmente. Ele aponta que,

Nas cidades brasileiras, a demarcação espacial (e social) se faz sempre no sentido de uma gradação ou hierarquia entre centro e periferia, dentro e fora. Para verificar isso, basta conferir a expressão brasileira "centro da cidade", e também a conotação altamente negativa do espaço sub-urbano - suburbano -, novamente em contraste com os Estados Unidos. Se não fosse muita ousadia, poder-se-ia sugerir que a ausência de uma ocupação sistemática dos morros e elevações pelos segmentos dominantes teria alguma relação com essa obsessão pelo "centro". Pois como seria possível montar a equação brasileira centro = dentro = superioridade social, se o morro isola e pode apontar para a periferia e para a individualização? (p.21)

Ainda nesse caminho, Mitscherlich (1970) aponta que a maneira como é moldado o ambiente que nos cerca é uma demonstração do que somos

internamente. Assim, para que o cidadão possa entender as condições do espaço em que vive, ele deve observar de que maneira o ambiente está tomado pelos aspectos sociais e isso inclui a violência instaurada no espaço em questão. O que se pode compreender neste aspecto é que para que o cidadão do Rio de Janeiro possa utilizar seus bens pessoais nas ruas ele deve perceber o espaço, as dinâmicas sociais que orientam determinadas ações e agir de maneira conectada com as experiências vividas e o ambiente na qual está inserido.

Como bem diz Caldeira (2000):

O medo e a fala do crime não apenas produzem certos tipos de interpretações e explicações, habitualmente simplistas e estereotipadas, como também organizam a paisagem urbana e o espaço público, moldando o cenário para as interações sociais que adquirem novo sentido numa cidade que progressivamente vai se cercando de muros. (p.27)

A violência na cidade do Rio de Janeiro é vista como um obstáculo de ordem social que se agravou no momento que o crime se instaurou como crime organizado.

Os grupos criminosos que se instauraram nas comunidades cariocas criaram regras paralelas em contraponto ao Estado e que delimitam espaços que são coordenados pelo tráfico de entorpecentes. A partir do tráfico, outras modalidades de infrações surgem na sociedade e alcançam o cidadão, como roubos à mão armada, roubos de carga, de veículos dentre os mais diversos tipos de delitos. Desta maneira, percebe- se que a violência está ligada a alguns fatores como a desigualdade social e econômica, à distribuição de renda desigual, à vasta disponibilidade de armas e drogas, à falta de programas sociais de inclusão e à cultura de violência.

A vida cotidiana e a cidade se modificaram devido ao crime e ao medo, e isso repercute nas conversas diárias, em que o crime se revelou como tema central. O ambiente hostil que se instaurou na cidade já é percebido por sua população que considera todos os lugares perigosos, não conseguindo indicar um ponto específico.

No documento Rio de Janeiro 2019 (páginas 83-86)