prático que interliga um sujeito social a um objeto social, capaz de atuar na construção do significado socialmente construído tanto deste (objeto) quanto daquele (sujeito) (p. 51).
A TRS se caracteriza por ser um conceito flexível e adaptável possibilitando o uso por diversos campos como a saúde, economia, administração, entre outros. A frouxidão deixada pelo psicólogo social ao criar a sua teoria, produziu caminhos para essas áreas, como também permitiu que outros teóricos estudassem a TRS elaborassem a partir dela outros conceitos que apenas complementam os estudos nessa área. Neste aspecto afirma Rateau et. al (2012), “A TRS é uma teoria versátil e adaptável, uma teoria psicossocial do senso comum e, finalmente, uma teoria que suscitou a elaboração de metodologias diversas”. (p. 12)
Uma função organizadora: é o núcleo central que determina a natureza dos elos, unindo entre si os elementos da representação. Neste sentido, o núcleo é o elemento unificador e estabilizador da representação (p.31)
Vale destacar que a centralidade dos elementos não é determinada apenas por parâmetros quantitativos. Não é a presença recorrente de um elemento que estabelece a centralidade, e sim o fato dele proporcionar significado à representação social.
Os elementos periféricos “constituem o essencial do conteúdo da representação: seus componentes mais acessíveis, mais vivos e mais concretos.”
(ABRIC 2000, p.31). Os elementos periféricos se caracterizam por possuírem aspectos móveis e de evolução da representação. Ele possui três funções primordiais:
- Função de concretização: os elementos da periferia formam uma conexão entre o núcleo central e a situação real onde a representação é criada ou colocada em funcionamento;
- Função de regulação: os elementos periféricos têm uma atribuição importante na adaptação da representação às mudanças do contexto social, em outras palavras, as novas informações ou modificações do meio social podem ser incorporadas na periferia da representação;
- Função de defesa: os componentes da periferia protegem o núcleo central de possíveis modificações de uma representação. É nesse sistema que as contradições aparecem e são toleradas.
Esse duplo sistema, afirma Abric (2000):
Permite compreender uma das características básicas das representações, que pode parecer contraditória: elas são, simultaneamente, estáveis e móveis, rígidas e flexíveis. Estáveis e rígidas posto que determinadas por um núcleo central profundamente ancorado no sistema de valores partilhado pelos membros de grupo; móveis e flexíveis, posto que alimentando-se das experiências individuais, elas integram os dados do vivido e da situação específica, integram a evolução das relações e das práticas sociais nas quais se inserem os indivíduos ou os grupos.
Outro desdobramento da grande teoria de Moscovici se deu com Willem Doise que ao construir a Abordagem Societal procurava associar a RS com um pensamento mais sociológico. O propósito dessa abordagem era ligar o individual ao coletivo, de procurar a articulação de explicações de cunho individual com explicações de cunho societal, “evidenciando que os processos de que os indivíduos dispõem para funcionar em sociedade são orientados por dinâmicas sociais
(interacionais, posicionais ou de valores e de crenças gerais)” (ALMEIDA, 2009 p.719).
O caminho de experimentos de Doise já mostrava uma trajetória oposta aos métodos experimentais tradicionais. Ele acreditava que experimentos quando baseados nas técnicas tradicionais, ou seja, que não havia interação com as dinâmicas sociais, possuíam uma predisposição a despertar uma representação empobrecida da realidade da sociedade.
A abordagem proposta por Doise aponta quatro estágios de análise nos estudos de RS. O primeiro tem como prioridade os processos intraindividuais à medida que analisa de que maneira os sujeitos constituem suas experiências com o meio ambiente. O segundo foca nos processos interindividuais e situacionais, buscando a partir dos processos de interação os princípios explicativos básicos das dinâmicas sociais. O terceiro centra-se nos processos intergrupais, analisa as diversas posições que os indivíduos adotam nas relações sociais e investiga como essas posições regulam os processos do primeiro e do segundo estágios. O quarto e último estágio, o societal, refere-se aos sistemas de crenças e representações assumindo o pressuposto de que as criações culturais e ideológicas, características de certos grupos sociais, dão significados aos comportamentos dos sujeitos e estabelecem diferenciações sociais.
Sobre a análise, proposta por Doise, baseada nos quatro estágios, Almeida (2009) explica:
A proposta de análise das RS [...] pauta-se na noção de RS como princípios geradores de tomadas de posição, ligados às inserções sociais específicas, organizando os processos simbólicos que interferem nas relações sociais (p. 724)
A teoria de Willem Doise, baseada em uma abordagem psicossocial, afirma um redimensionamento do que se percebe por experimentação em Psicologia Social.
[...] ele estima que com a abordagem experimental na TRS se pode ultrapassar as críticas do “vazio experimental”, já que tal abordagem supõe que a introdução das RS na situação experimental assegura que o sujeito reaja a uma realidade representada, isto é, a uma realidade apropriada e ressignificada pelos a priori, pelos sistemas de pensamento pré-existentes e pelos sistemas interpretativos. (ALMEIDA 2009, p.733)
Outra investigação empírica se deu a partir dos postulados iniciais de Moscovici. Desta vez, Denise Jodelet deu um enfoque processual aos estudos das
Representações Sociais. Esta perspectiva se define por considerar que para alcançar o conhecimento das representações sociais deve-se partir de uma abordagem hermenêutica, compreendendo o sujeito como gerador de sentido e enfatizando na análise dos significados e da linguagem.
Vale destacar duas vias de acesso ao conhecimento proporcionada por este enfoque: uma está ligada aos métodos de coleta e análise qualitativa de dados e a outra um combinado de múltiplas técnicas e teorias que garantam a confiabilidade nas interpretações. O que se busca com as diferentes técnicas usadas em um único estudo é um maior aprofundamento e ampliação do objeto de estudo.
Sobre o uso caleidoscópio de técnicas, diz Flick (2009):
Temos que perguntar como proceder para obter um verdadeiro caleidoscópio a partir de múltiplos enfoques, e um retrato do objeto sob um estudo que realmente inclua diferentes perspectivas. Esta meta se pode obter quando combinamos perspectivas e métodos que buscam dois aspectos centrais e diferentes das representações sociais: o conhecimento (subjetivo e social) dos quais consistem e as atividades através das quais elas são produzidas, aplicadas e difundidas. (p.7)
Segundo Banchs (1998), algumas características são inerentes a essa abordagem, pois ela permite um enfoque qualitativo, hermenêutico e focado na diversidade e nos fatores significantes da atividade representativa, possibilita um uso mais amplo e frequente de referências teóricas advindas da filosofia, sociologia e linguística e proporciona um interesse focado sobre um objeto de estudo e suas ligações sócio-histórica e culturais específicas.