S6: E a segurança pública é claro. Porque tem aqueles que a educação não adianta mais e precisa de formas mais agressivas, vamos dizer assim, pra contornar a situação.
bens de consumo de forma “displicente” nas ruas. A maneira de agir nas fotos em que aparecem indivíduos usando o celular em meio às pessoas na rua ou correndo de maneira, como um deles diz, “desligadão”, não são aceitáveis por esses sujeitos que têm a distração como um elemento categórico quanto ao uso de objetos no Rio de Janeiro. Um dos entrevistados chega a dizer: “[...] pessoas sem noção do perigo do Rio de Janeiro e usam seus celulares na rua”.
A maneira “correta” de se usar um objeto pessoal sempre é mencionada pelos sujeitos e o que não se deve fazer também. Durante a entrevista um sujeito dá
“dicas” de como usar os seus objetos pessoais e a falta de atenção é relata como uma prática não aconselhada: “Esconder os seus pertences. Se tiver de bolsa, sempre a bolsa na frente. Sempre tomar cuidado, olhando em volta, não ficar distraído, conversando quando estiver na rua”. (S10)
A maneira de agir no cotidiano é refletida nos discursos durante toda a pesquisa. A forma que um personagem se comporta em uma imagem é imediatamente relacionada com o dia a dia dos sujeitos e isso faz com que as narrativas indiquem o que eles fariam nas situações mostradas.
A falta de liberdade em utilizar os bens enfrentada todos os dias pelos sujeitos da pesquisa mostra uma população amedrontada. Um dos sujeitos afirma que em um cenário à noite o uso de celular, como faz um dos personagens, não aconteceria:
“Essa aqui me chama atenção porque a moça parece estar correndo um pouco assustada e é uma rua à noite, então eu não usaria meu celular nessa situação”.
(S14)
Mesmo nos momentos em que as imagens não eram mostradas, os sujeitos relatavam suas experiências no dia a dia, como agiam em determinados lugares e, se tinham passado por alguma situação de risco, o que fizeram para se “protegerem”
de um outro acontecimento da mesma natureza. Um dos sujeitos afirma que passou a andar com um celular antigo depois que sofreu um assalto:
S16: Eu tenho um celular velho.
E: E você tem esse celular velho depois que você foi assaltado?
S16: Sim. É o celular que era antigo que a gente usava aí ele ficou meio obsoleto
Outra questão relevante percebida, desta vez em divergência durante as entrevistas, foi o preconceito revelado nelas de forma incisiva, enquanto na análise da foto esse assunto não foi mencionado.
Durante as entrevistas, geralmente nas narrativas que indicavam quais características os sujeitos observavam nas outras pessoas para identificarem uma situação de risco, os sujeitos reconheciam que o olhar sob o outro era preconceituoso. As expectativas de ilegalidade recaíram sobre os negros.
Como bem diz Terra (2010), “a compreensão que se tem sobre a propensão à criminalidade revela, assim, a suspeição não apenas sobre o pobre, mas principalmente sobre o negro pobre vivente em localidades periféricas”. (p.205)
Em contrapartida, mesmo sendo atribuído ao negro a figura de um assaltante e tendo as falas dos entrevistados para corroborar isso, ao observarem a foto de um homem negro portando um celular na rua, nenhum sujeito da pesquisa atribui a ele o papel de um criminoso ou algum personagem ligado ao crime.
Os diversos assuntos abordados durante a entrevista mostram que a violência permeia o cotidiano dos sujeitos, as falas apontam para uma população amedrontada com a situação da cidade, mas mais ainda com a limitação que ela impõe aos cidadãos.
O consumo nesse cenário sofre influência direta porque impõe aos cidadãos uma nova rotina, tanto nos hábitos de consumo, quando afirmam que usam peças sem valor ou com valor baixo, quanto ao uso calculado de determinados bens que possuem um alto valor financeiro ou emocional.
A representação social se estabelece como um dos caminhos para a compreensão do mundo concreto e é por essa razão que ela foi escolhida como teoria fundamental para entender um cenário que se estabelece há algum tempo na cidade do Rio de Janeiro.
Ao responderem questões sobre se já sofreram algum ato violento na cidade do Rio de Janeiro, os 70% que responderam de forma afirmativa e os 30% de maneira negativa indicam o que uma coletiva já enfrentou, revelando novos hábitos em relação ao consumo em ambientes de violência.
A reação dos indivíduos ao objeto de estudo mostra de maneira clara que o compartilhamento de informações e a troca de experiências apresentam a mesma estrutura, sugerindo que eles já possuem uma representação social sobre o assunto apresentando. Moscovici (1978) mostra que
[...] as representações sociais são conjuntos dinâmicos, seu status é o de uma produção de comportamentos e de relações com o meio ambiente, de uma ação que modifica aqueles e estas, e não de uma reprodução desses comportamentos ou dessas relações, de uma reação a um dado estímulo exterior. (p. 50)
A alteração de comportamentos também é reconhecida na apresentação das fotos para os sujeitos porque aponta o reflexo interno de uma realidade externa.
Segundo Moscovici (1978, p.17) um indivíduo “carrega em sua memória uma coleção de imagens do mundo sob seus diferentes aspectos” e, a partir disso, as cenas apresentadas do cotidiano recuperam situações já vividas, mostrando o medo que cada indivíduo sente em determinadas situações.
O comportamento relatado durante as entrevistas mostra-se impregnado de significados, os conceitos ganham cor ou se concretizam, desenvolvendo a composição do que é, para cada um dos sujeitos, a nova realidade.
Os objetos identificados são tratados como itens essenciais para os sujeitos, estimulando um estilo de vida e uma tática consumista que desconsidera qualquer outra opção alternativa. Por isso, é curioso observar as diversas maneiras encontradas pelos sujeitos para manterem o consumo mesmo ativo apesar das limitações impostas.
Eles são responsáveis por discriminarem indivíduos que não partilham dos mesmos hábitos de consumo e, por este motivo não são capazes de interpretar os mesmos princípios simbólicos. Os bens são capazes de distinguir duas categorias de consumidores simplesmente por cada grupo atribuir um valor simbólico diferente ao mesmo objeto.
Isto posto, o que para uns pode ser um bem supérfluo, de consumo fácil, para outros pode ser objeto de desejo como um artifício para chegar próximo às classes mais altas. A distinção entre grupos de uma mesma sociedade leva certos indivíduos a agravarem ainda mais a violência no Rio de Janeiro. O que se observa é que o consumo exposto de forma abrangente, como uma ferramenta para se alcançar a felicidade, faz com que os sujeitos que não podem consumir de maneira “adequada”
cometam roubos e furtos para se encaixarem ou chegarem próximo do consumo estabelecido na sociedade.
Assim, o que se pode constatar é que os cidadãos do Rio de Janeiro não conseguem se afastar do consumo e como alternativa, em meio a um cenário hostil, criam comportamentos de proteção para seus bens que vão desde a utilização de objetos que perderam a sua funcionalidade, por exemplo os celulares que eles afirmam ser “do ladrão”, até chegarem ao extremo de não utilizarem mais determinados objetos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O consumo foi tratado durante a pesquisa como elemento capaz de determinar comportamentos e caracterizar a sociedade, isto quer dizer que ele se adaptou às mudanças ocorridas com o passar dos anos sem perder sua função. A segurança proporcionada pelo consumo na sociedade de produtores foi substituída pela efemeridade da sociedade de consumidores.
Junto com essas mudanças, a ambiguidade trazida pelo termo é atribuída aos significados positivos e negativos, como o uso e a manipulação, em oposição à ideia de compra, exaustão e realização. Atualmente tem-se observado que a aquisição de um bem a partir da compra não está só ligada a necessidade de possuir aquele objeto ou serviço, e sim compreende o objetivo de atingir status social e consequentemente estabelecer distinções entre as classes.
O processo complexo que se tornou o consumo depende de inúmeras variáveis e possibilita que ele seja conectado com outros temas. Assim temos Barbosa (2006) afirmando que
[...] o consumo é ao mesmo tempo um processo social que diz respeito a múltiplas formas de provisão de bens e serviços e a diferentes formas de acesso a esses bens e serviços; um mecanismo social percebido pelas ciências sociais como produtor de sentidos e identidades, independentemente da aquisição de um bem; uma estratégia utilizada no cotidiano pelos mais diferentes grupos sociais para definir diversas situações referentes em termos de direitos, estilos de vida e identidades; e uma categoria central na definição da sociedade contemporânea. (p. 26)
Por ser um tema que dialoga com outras áreas, relacioná-lo com a violência quando o assunto envolve o Rio de Janeiro proporciona uma discussão rica de informações e elementos que mostram o consumo por outra perspectiva.
O objetivo geral do estudo foi identificar as Representações Sociais de uma parcela da população da cidade do Rio de Janeiro acerca do uso e do consumo de bens pessoais em situações de violência. A literatura utilizada mostra que o consumo na sociedade atual é peça fundamental para a economia consumista, não sendo aceitável a estagnação do fluxo de mercadorias, assim como a utilização dos mesmos produtos pelos cidadãos que a compõem.
Viver em uma cidade onde a violência é assunto diário, quer dizer ter hábitos de consumo influenciados diretamente por esse aspecto. Os índices apresentados mostram que os roubos e os furtos no Rio de Janeiro aumentam a cada ano.
Neste panorama, os sujeitos entrevistados identificam a cidade em que moram como hostil e criam a partir dessa visão mecanismos de defesa. Durante a pesquisa, o medo narrado pelos sujeitos ao usarem seus objetos nas ruas apontam para uma população amedrontada com a possibilidade de serem alvos de bandidos ao portarem os seus bens pessoais.
A hostilidade é identificada nas várias etapas da entrevista. As imagens utilizadas quando mostravam pessoas nas ruas com seus objetos pessoais, principalmente celulares, eram rapidamente reconhecidas como uma situação de perigo por estarem em locais abertos e não propícios a utilização daquele bem.
Frequentemente, os personagens das fotos eram aconselhados pelos entrevistados a não manusearem ou portarem determinados bens naquele tipo de ambiente.
Já durante as entrevistas, o que vale destacar é a posição do Rio de Janeiro quando perguntados sobre as cidades mais violentas. Na escala informada a eles, em que o número 1 era a cidade mais violenta e o número 5 a menos, o Rio de Janeiro permaneceu entre o 1 e o 2 na maioria das entrevistas. Mais da metade dos entrevistados atribuiu ao Rio a maior hostilidade que já perceberam dentre as cidades selecionadas para essa etapa.
Ainda nas entrevistas, a hostilidade é reconhecida em ambientes específicos como o centro da cidade. Para muitos, é impossível utilizar os objetos de valor pelas ruas desse bairro sendo necessário, quando inevitável, a entrada em comércios para que o uso seja reestabelecido e os indivíduos possam usar sem preocupações.
Outros não conseguem atribuir a hostilidade a um bairro ou lugar específico, eles afirmam que esse aspecto está espalhado por toda a cidade.
Essas percepções sobre o Rio de Janeiro mostram de forma clara que as experiências do crime sofridas por esses sujeitos, ou apenas observadas ao seu redor, criam mecanismos de defesa para se viver em meio aos atos violentos que persistem na cidade.
As estratégias criadas por eles vão desde manter um celular de baixo valor na bolsa apenas para ser dado ao ladrão, o que eles chamam de “celular do ladrão”, até substituir a utilização de objetos que lhes agradam por outros que não têm importância ou que eles não gostam. Mesmo com essa nova estratégia, o que parecia estar solucionado com esses novos hábitos, requer um estado permanente de alerta.
O fato dos indivíduos permanecerem nas ruas distraídos chama a atenção dos entrevistados. Todas as imagens selecionadas por eles, que apresentavam como personagem principal sujeitos distraídos, tinham no mesmo instante esse aspecto identificado por eles. O que se percebe é que nessa cidade o sujeito não tem o direito de se distrair ou não pensar na violência quando se encontra em um ambiente envolvido de hostilidade.
Os roubos aos pedestres são típicos de ambientes urbanos e conviver constantemente com esses atos, não podendo prever quando será “a sua vez” cria nos sujeitos, principalmente naqueles que já sofreram com isso, alguns estados de ansiedade intensa acompanhado de recordações dolorosas dos eventos negativos vivenciados.
Os entrevistados que identificaram a distração como um estado não aceitável no ambiente em que o personagem se encontrava, apresentam um conjunto de sinais e sintomas que se estende ao outro, no sentido deles tentarem alertar a vulnerabilidade que eles estão sujeitos por não estarem em um estado de hipervigilância.
O desejo de não reviver tal experiência é tão intenso que por diversas vezes a vigilância constante foi identificada durante a entrevista. O fato deles andarem nas ruas observando outros indivíduos com o objetivo de identificarem uma situação de risco é recurso constatado nas narrativas que comprova também, nessa situação, a hipervigilância causada pelos atos violentos.
Com base nesse cenário, é possível afirmar que o consumo está sendo afetado pela violência da cidade do Rio de Janeiro, e além disso, cada vez mais os sujeitos estão optando por frequentarem ambientes monitorados e por viverem em locais que proporcionem uma maior segurança. O aprisionamento dos cidadãos em suas próprias residências já é um fato constatado na realidade da cidade, onde cada vez mais surgem condomínios que oferecem mais serviços em suas dependências.
O consumo mais uma vez está sofrendo modificações na medida que os indivíduos deixam de utilizar seus bens nas ruas ou trocam seus gostos no momento da compra por objetos de baixo valor. Além dos fatores psicológicos, culturais e pessoais, a violência está sendo considerada como um aspecto importante para estabelecer a maneira que o consumo se constitui na sociedade em questão.
O status promovido pelo consumo agora tem ambientes específicos para se manifestarem. Se esse aspecto está ligado aos bens de alto valor e esses só podem
ser utilizados em locais que proporcionem segurança, o status só será atribuído aos sujeitos em determinados momentos.
As situações sociais descritas definiram o uso de bens pessoais no Rio de Janeiro atribuindo novos moldes ao consumo e obrigando os sujeitos a comprarem seus objetos de desejo de maneira controlada. As estratégias para se continuar consumindo são compartilhadas pelos indivíduos e a sensação de que “se é pra perder, perde um só” orienta o consumo de cidades hostis como o Rio de Janeiro.
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