Autores como Doise (1982) e Camino (1996) têm elaborado uma abordagem societal que tem por objetivo analisar as relações intergrupais que colocam o caráter endogrupal não em termos de motivações psicológicas, mas como resultado da dinâmica própria das relações de poder entre os grupos. Deste modo, o preconceito é determinado como uma forma de relação intergrupal constituída em torno das relações de poder entre grupos, criando representações ideológicas que fundamentam a expressão de atitudes negativas e depreciativas, bem como a expressão de comportamentos hostis e discriminatórios em relação aos integrantes de grupos minoritários (Camino & Pereira, 2000; Lacerda & cols., 2002).
Visto o que foi apresentado, o que pode estar ocorrendo é que diante de um conjunto de leis que impedem a discriminação, os grupos dominantes desenvolvam formas ideológicas que preservam as práticas discriminatórias, agora, não mais de forma aberta, mas de maneira mais encoberta.
Na modernidade os sujeitos tinham ancorado o sentido de existência à realidade e almejavam que suas vidas tivessem um caráter mais significativo. De maneira oposta, na atualidade eles são superficiais, divertidos, fonte de liberdade permanente e consumidores incansáveis de bens e serviços que consideram ser elemento crucial para atribuir valor à sua própria pessoa.
A partir desses aspectos adquiridos na pós-modernidade, ou seja, ao perderem sua base de sustentação simbólica e por estarem inseridos em uma sociedade fragmentadora dos afetos e dos laços sociais, os indivíduos pós- modernos se apegam ao consumo como uma espécie de ancoragem identitária em uma tentativa de substituir os aspectos amorosos que deveriam emanar das relações com os demais sujeitos. Pode-se afirmar que o consumo é um espaço de investigação complexo, que abrange diversas atividades, atores e conjunto de bens e serviços que não se limitam apenas aos realizados sob a forma de mercadorias.
os seus bens pessoais. Percebe-se que para esses sujeitos, mesmo com a barreira do crime, o ato de consumir ainda é uma condição fundamental para existirem nessa sociedade.
A fala e o medo determinam as estratégias cotidianas de proteção e reação dos indivíduos que impedem os movimentos dos sujeitos e limitam seu meio de interações. Entretanto, o consumo precisa se multiplicar para que seus indivíduos continuem em evidência como consumidores “bons”, ou seja, aqueles que possuem condições suficientes para se manter no mercado adquirindo cada vez mais produtos.
Neste conflito, onde o medo aponta para o cuidado no uso dos bens pessoais, principalmente nas ruas, e o consumo tende na direção oposta em que o consumidor precisa consumir, as pessoas criam estratégias para driblar esse paradoxo.
Isto está evidente em alguns discursos, em que os sujeitos afirmam que ao usarem seus objetos nas ruas, eles utilizam suas roupas como alternativa para camuflarem a posse de seus bens. Na maioria dos relatos, o objeto a ser protegido é o celular, item altamente visado para furto/roubo.
S1: Ah, celular eu ando com ele sempre dentro da calça. Se eu tô andando no Centro...porque eu ando de metrô, trem, ônibus, então eu ando sempre escondido.
S5: Dependendo do objeto a primeira coisa, esconder na roupa. Tipo, eu já andei com celular preso no sutiã e já andei com o celular preso na calça.
S15: E uso sempre o celular entocado, quando eu tô de calça eu entoco na calça o celular. [...]Então eu entoco o celular na calça e se eles pedirem a bolsa eu dou a bolsa e o celular fica. Ou entoco na calça ou entoco no peito.
Outro aspecto importante que se pode identificar nas narrativas dos sujeitos é que as joias e os artigos de ouro têm uma importância maior, tanto pelo valor econômico que possuem quanto pelo valor sentimental e, por esse motivo, precisam de um maior cuidado, o que significa não usá-los nas ruas. Eles identificam, nos lugares fechados e nas festas, ambientes ideais para o uso desses objetos de valor, indicando que em ambientes diferentes destes: “É muito raro. Assim, às vezes pra um casamento eu vou lá e boto o meu cordãozinho de ouro e tal, mas fora isso, muito difícil” (S.5).
Quando carregados de afeto, esses objetos funcionam como evocadores de memória. São bens que possuem uma representatividade para a pessoa que as
guarda, podendo ser de outras pessoas, mas com fortes laços para quem as mantém. O que se observa não é um apego material, mas simbólico, de lugares de memória dentro das famílias, fazendo parte da identidade de seus membros que têm o costume de guardar tais peças.
Desta maneira, usar esses objetos afetivos nas ruas, em ambientes propícios aos roubos, é arriscar perder parte da memória que está atribuída ao bem que representa alguma parte da sua vida. Eles estão ligados a um universo de suportes de memória e acabam sendo fortalecedoras de vínculos entre as pessoas e o passado, presente e futuro.
Os sujeitos destacados não utilizam alguns objetos de ouro em seu dia a dia porque possuem valor além do financeiro. Para dois dos entrevistados, o colar pertencia à mãe e, atualmente, não é usado por medo de que seja roubado. Já para o terceiro sujeito, o pingente representa um momento especial em sua vida e deve ser utilizado em ambientes que representem uma maior segurança, como uma festa de casamento.
S14: Um pingente de ouro que eu ganhei de presente de formatura do meu marido. Eu não uso. Na rua não. Eu uso assim, em casamento.
S26: Cordão de ouro, alguma coisa de ouro. Hoje eu não uso mais, tá guardado. Até porque um é de valor afetivo, é da minha mãe.
S30: Um cordão da minha mãe que já faleceu, que tem um valor sentimental.
O valor financeiro dos bens também é considerado como um limitador de uso.
Para o consumo de determinados bens, o indivíduo experimentou um processo de compra que incluiu aspectos culturais, sociais e psicológicos para atingir o consumo pleno e adquirir o objeto que mais lhe agrada conferindo o status correspondente.
S1: Mas por exemplo, se eu vou em um shopping ou em uma festa eu uso um cordãozinho um pouco mais carinho, um brinquinho.
S5: Objetos assim tipo joia. É muito raro. Assim, às vezes pra um casamento eu vou lá e boto o meu cordãozinho de ouro e tal, mas fora isso, muito difícil.
S10: Talvez joias. Um cordão de ouro. Não saio com cordão de ouro...só tenho 1, mas dependendo do lugar eu nem boto. Só vou com...um lugar que eu saiba que vai ser tranquilo.
3.6.1 Objetos sem valor
Apesar de restringirem o uso de alguns bens, o consumo ainda fica evidente quando os sujeitos afirmam que existem objetos que usam livremente. Geralmente são de pouco valor ou que não agradam muito, mas são utilizados em qualquer circunstância, sem medo, corroborando com Bauman ao fato do consumo manter essa sociedade ativa, ou seja, mesmo sendo bens que não têm significância para os sujeitos o consumo deles ainda é feito.
S1: Brinquinho, esses anéis que eu uso que não tem valor nenhum. É, brinco e anel.
S14: Bijuteria. Bijuteria eu uso.
S20: Tenho. Tenho. As coisas que eu não gosto muito, ou seja, cordão de prata, bolsas que não tem valor.
S30: Ah, sim. Bijuteria...rsrs. Biju eu uso um monte. Sem problema.
A partir dos relatos dos entrevistados percebe-se que o uso de bens pessoais nas ruas da cidade do Rio de Janeiro se tornou um problema para o cidadão. O ambiente de risco percebido por eles é causador de barreiras quando o assunto é o uso de bens pessoais nas ruas.
Durante as entrevistas, os sujeitos relatam que bijuterias que não chamam a atenção ou que não brilham muito têm seu uso irrestrito nas ruas. Outros acreditam que um celular antigo, que já perdeu suas funções possa ser usado sem nenhum problema. Apesar das joias não serem citadas nessa categoria, a aliança é mencionada por três entrevistados como uso livre. Entretanto, um deles afirma que não deixa de usar sua aliança mesmo sabendo do risco que corre.
O que se percebe é que os entrevistados se privam de utilizar objetos bons e que lhes agradam mais por temer o risco que eles possam causar. O fato de alguns objetos chamarem a atenção dos assaltantes é um elemento limitador do uso no cotidiano desse grupo.
3.6.2 Celular do ladrão
Como em uma tentativa de reestabelecer a ordem em seus cotidianos e poderem usar seus objetos de maneira adequada aos seus estilos de vida, os sujeitos ameaçados pela insegurança da cidade desenvolvem reações de proteção
que incluem diversas formas, entre elas o uso de celulares antigos como uma forma de não deixar de lado a utilização do bem e em contrapartida não expor seus aparelhos modernos e caros nos ambientes hostis.
Os sujeitos relatam que colocam o chip no celular mais antigo quando estão prestes a ir para um ambiente com uma concentração elevada de pessoas, evitando perder informações importantes armazenadas no aparelho usado no dia a dia.
Essa prática afirma o processo de retroalimentação provocado pelo assaltante. Quando um objeto é muito visado para roubo, como por exemplo um celular de marca que possui um alto valor financeiro, ele automaticamente atribui valor às marcas da moda e mais consumidas e diminui o valor de outras marcas da mesma categoria de produtos. Isso se comprova na prática dos sujeitos quando afirmam trocarem de celular em determinadas situações ou utilizarem um com baixo valor.
Outro aspecto identificado é que o fato de possuírem outro celular para ocasiões de risco está atribuído às informações armazenadas no aparelho. Eles não querem perder suas informações, contatos, fotos, aplicativos de banco e vídeos por duas razões: uma por questão de praticidade, ou seja, não precisar ir ao banco, por exemplo, para resolver questões relacionadas à instituição e a outra está atribuída à memória já mencionada. Perder as mídias de seus telefones quer dizer perder momentos especiais e isso não podem estar à mercê de ladrões.
S5: Ou então, na hora que vai pra um festival desse, leva o celular mais velhinho. Tipo, você trocou de celular então você bota o chip no mais velhinho e vai com ele, entendeu?! Acho que é isso.
S10: Eu fui assaltado no Rock in Rio. A última vez que a gente foi eu fui com um celular que eu usava sempre, mas algumas vezes eu já troquei de celular, botei um celular aqui...eu sempre tenho um celular de reserva...que é um antigão e que eu só troco o chip.
S22: Algumas vezes, quando eu senti mais medo, que foi na época que eu fui assaltada eu andava com dois celulares dentro da bolsa, um de menor valor se algum assaltante pedisse eu entregava e outro meu escondido.