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Administração Escolar: Desafios do Cotidiano

Democratizar não significa garantir que cada uma faça o que quiser, mas que todos (professores, alunos, pais) tenham os seus direitos garantidos, e possam também cumprir os seus deveres para consigo mesmo e para com a sociedade. Também não é necessário que haja planejadores de tarefas que serão executadas por outros, mas deve haver momentos em que todos planejam as atividades que serão co-responsabilizadas. A administração escolar deixa de ser atividade-meio para ser atividade-fim, porque ela se inicia e termina na e para a sala de aula. Alguns pontos serão destacados como fundamentais a uma administração escolar democrática, democratizadora, com- prometida com a transformação da sociedade, porém capaz de trabalhar com a realidade, mesmo que adversa.

A administração escolar exige preparo

Já foram explicitadas as exigências legais quanto ao preparo do administrador escolar. O que se quer ressaltar aqui é que os que vão se incumbir da tarefa de administrar a escola precisam de uma sólida formação para realmente estarem gabaritados ao enfrentamento dos problemas cotidianos, sem perder de vista a visão educacional maior. O comando geral exige liderança junto aos colegas professores, compreensão dos objetivos gerais e específicos da escola, do projeto pedagógico, capacidade para prever e solucionar problemas, conheci- mento de finanças públicas e domínio da legislação pertinente. Há os que atribuem as habilidades de governân- cia aos que nasceram para isso, como também aqueles que acreditam nos dons especiais, no carisma. Preferimos a linha do preparo, acreditando ser possível aos que desejam se dedicar à governância que se qualifiquem para isso, aproveitando, é claro, suas preferências e habilidades pessoais. A falta de preparação técnica do administrador educacional pode prejudicar seriamente sua função política e comprometer os interesses e aspirações dos professores, es- tudantes e funcionários (SANDER, 1984). Portanto, estudos de psicologia, especialmente psicologia infantil e da adolescência, possibilitando o conhecimento do alunado, estudos de sociologia, buscando entender a sociedade com vistas à comunidade escolar, visão conceitual das disciplinas ministradas nos mais diversos cursos e séries da escola, entendendo assim todo o currículo, condições para análises estatísticas, são imprescindíveis aos adminis- tradores escolares. Além de uma visão ampliada da educação e do ensino é necessária uma visão organizacional aguçada, pois a escola é um sub-sistema do sistema escolar, que, por sua vez é um sub-sistema do sistema edu- cacional e assim sucessivamente. Nesse contexto surgem as relações verticais e horizontais que complexificam a unidade escolar. Disso resulta a necessidade de uma sólida formação profissional inicial, que se completará com uma profícua formação continuada, que incorporará as inovações e o desenvolvimento tecnológico. Portanto, afirmamos que o administrador escolar é um professor devidamente preparado, instrumentado, ou seja, qua- lificado para a administração escolar, quer para a direção da unidade, quer para a coordenação pedagógica ou supervisão.

É necessário ter o foco na tarefa

Em que sociedade se atua? Onde se quer chegar? O que é necessário fazer, comprar, modificar? Onde é necessária uma atuação mais forte? Com que e com quem se pode contar? São, entre inúmeras outras, questões que devem preocupar o administrador escolar. Muito se tem falado do excesso burocrático que sobrecarrega a escola e seus administradores. Muito embora os levantamentos, os questionários devam ser respondidos por serem necessários à compra de materiais, às análises estatísticas, que são importantes, os administradores devem, de forma criativa e inteligente munirem-se desses dados de forma que estejam sempre à mão em banco de dados facilmente con- sultados. A secretaria da escola deve se utilizar dos recursos da informática para isso. A administração da escola deve estar preocupada com sua tarefa principal: as crianças precisam aprender, e é isso que a escola vai fazer. As escolas não existem para ser administradas ou inspecionadas, mas para que os alunos aprendam (SILVA JUNIOR, 1990). Hoje, por força de lei, as escolas precisam fazer o seu projeto pedagógico, ou sua proposta pedagógica.

Podemos afirmar que há muitas escolas que elaboram seu projeto, sua proposta com base nas diretrizes e nos parâmetros curriculares nacionais sem contextualizá-los à comunidade local e regional. E, às vezes somente um pequeno grupo participa da elaboração. E, muitas vezes, essas propostas ou projetos ficam guardados, não sendo sequer manuseados. Colocar em prática, reformulando sempre que necessário, é tarefa que os coordenadores, diretores, vice-diretores devem ter como prioridade. Os Conselhos de Escola, nos quais se representam os pro- fessores, os funcionários, os alunos e os pais, precisam ser acionados de forma a terem uma efetiva participação.

Criados por lei, são mecanismos que ainda não se firmaram. É preciso que a escola encontre meios para que eles funcionem porque são, indubitavelmente excelentes canais pelos quais pode florescer uma visão democrática de

educação escolar. Não devem ser vistos com desconfiança, nem como forma de desrespensabilização dos que dirigem a escola. Devem opinar, decidir sobre o que lhes diz respeito, funcionando como linha auxiliar segura da administração da escola, como viabilizadores de uma administração democrática. Mecanismos devem ser buscados para uma melhor institucionalização desses conselhos, a exemplo do que se já conseguiu nas univer- sidades públicas, onde a administração está baseada nos conselhos departamentais e congregações. Não se pode generalizar a apatia das massas, lembrando que participação é algo inerente ao ser humano, podendo ser melhor trabalhada pelos administradores escolares, de tal forma que se transforme em um poderoso meio de organização da sociedade civil em benefício de todos.

É preciso conhecer bem o campo de atuação

Desde os tempos de Maquiavel já se aprendeu que o Príncipe deve conhecer bem o seu território. Com as devidas ressalvas e adaptações aqui deve-se considerar que o administrador escolar é um pedagogo ( o que conduz à educação), é um chefe ( tem em seu encargo o pessoal, recursos físicos, materiais e financeiros) e sobre- tudo é um político, cuidando de estratégias e relações, além de autoridade educacional, representando o Estado, confere certificação etc.

Muito se tem falado na gestão democrática da escola pública, e, especialmente em suas manifestações:

desconcentração, descentralização, delegação, co-gestão, auto-gestão. Ser pedagogo na administração da escola é um pouco de tudo isso: ao mesmo tempo em que é capaz de delegar, de descentralizar decisões, é necessário também não perder o ponto, ou seja, sem desconfianças, é necessário estar “por dentro” de tudo, não perdendo o foco do trabalho. Processos há na escola nos quais deve predominar a posição dos professores, outros a dos pais e da comunidade, outros dos alunos, outros ainda dos funcionários e serviçais e, assim por diante. Importante considerar que a escola existe em função dos alunos, e é em prol desta causa maior que todo o projeto pedagó- gico deve ser elaborado e executado. Mas, os professores, os docentes, estes são os que mais especificamente se encarregam da tarefa educativa, e, precisam como tais ser considerados. Os administradores precisam ser capazes de estabelecer linhas modais que permitam essas nuanças, sem perder de vista os aspectos legais e institucionais, pois a democracia é o governo das leis (BOBBIO, 2000). Assim, a administração escolar não apenas cria condi- ções, mas tem sua mão forte empenhada no processo do ensino.

Como chefe o administrador, principalmente o diretor, tem responsabilidades sobre o pessoal: pessoas, suas vidas funcionais, seus direitos estatutários (trabalhistas), envolvendo suas promoções, matéria sobre a qual deve haver impecabilidade. Membros do corpo docente ou funcional insatisfeitos por motivos de procrastina- ções de seus direitos se tornam ácidos, o que dificulta o trabalho pedagógico. Além disso, considere-se que o magistério e o funcionalismo público não podem suportar prejuízos causados no seu próprio local de trabalho.

Esforços devem ser feitos no sentido de se plenizar o atendimento aos seus direitos, não se esquecendo os ad- ministradores de que também fazem parte dessa carreira. Aspecto importante que não pode ser olvidado é a atualização constante tanto dos administradores como dos docentes, como fator de motivação para o trabalho.

Os administradores tem nas suas mãos os recursos físicos: prédios, instalações e equipamentos que precisam ser cuidados de forma inteligente, procurando-se entender os seus mecanismos, montando acervos de suas plantas e manuais, instruindo os servidores que deles cuidam para a preservação e manutenção necessárias. Muito em- bora os recursos financeiros repassados às unidades escolares ainda não sejam os suficientes, não se pode negar o avanço das últimas décadas, que pode ser considerado como prenúncio de uma futura autonomia financeira da escola. Urge que os administradores deles encarregados prestem-se diligentes, exatos e conhecedores de noções necessárias ao bom uso do erário público em benefício da educação.

O administrador escolar é um político. Muito embora sejam os partidos políticos o locus da democracia (BORGES, 2002), e, portanto, o ideal seria que todo o cidadão fizesse parte de um partido, não é da política partidária que se trata aqui. Evoca-se a função política do administrador escolar: as estratégias que a equipe diretiva da escola precisa se ocupar para conseguir os objetivos propostos, a interação com a comunidade local e com a sociedade para propiciar um processo educativo transformador sem perder de vista o perfil local e as possibilidades de atuação. Assim os administradores escolares deverão ser profissionais da articulação entre a escola e a sociedade, estabelecendo a teia de comunicação tanto no plano vertical como no plano horizontal:

autoridades superiores e forças da comunidade; autoridades educacionais, da saúde, da segurança, da justiça, sindicais, eclesiais, entidades esportivas, meio ambiente... Ressalte-se também o relacionamento necessário entre os administradores escolares com as autoridades políticas e institucionais formalmente estabelecidas, o chamado mundo político: prefeito, vereadores, deputados que atuam na região da escola, independentemente de questões partidárias ou posições ideológicas. O sentido político da função também é perceptível pelas opções pedagógicas junto ao corpo docente, bem como junto aos alunos no tocante ao desenvolvimento da cidadania na escola.

Assim, a atuação dos administradores das escolas as tornam diferenciadas junto à população e às autoridades educacionais.

A administração escolar é um processo de mediações

Os administradores escolares trabalham com pessoas, estabelecendo relações, organizando esquemas de trabalho interativo, envolvem comunidades em prol da escola. Nesse embate exercem um papel moderador, aceitando posições divergentes para evitar antagonismos inviabilizadores da ação educativa. Nesse desiderato também exercem sua influência, modificando posições de outrem, aparando arestas, deixando indeléveis marcas de suas atuações. Podem ser criativos, necessitam de uma visão cosmopolita, precisam saber ousar, munem-se de intencionalidade e estabelecem objetivos a curto, médio e longo prazos. Buscam auxilio nas teorias e também se alicerçam na prática do cotidiano. Tomam decisões em decorrência de apelações para garantir a saúde da orga- nização escolar. Administram decisões originárias dos escalões superiores, adaptando-as à realidade escolar. Tomam decisões criadoras, personalizando suas gestões nas unidades. Às vezes precisam tomar decisões inusitadas para solucionar problemas inesperados (GRIFFTHS, 1971). Quer seja estabelecendo consensos, quer seja trabalhando as contradições, a administração escolar define-se como processo de mediação, intencional e deliberado (SAN- DER, 1984).

Resta salientar que muitas vezes a escola acaba por legitimar as diferenças sociais, reproduzindo a injus- tiça, a dominação e o sofrimento das classes trabalhadoras e das minorias em favor do capital e dos dominan- tes. É de se esperar que a mediação seja feita no sentido inverso, e, para isto os administradores precisam ter consciência aguçada e tenacidade política para agir no sentido de inverter tendências muitas vezes manifestas nas atitudes administrativas: recursos precisam ser disponibilizados ou conseguidos, comportamentos precisam ser modificados. A mudança de atitudes quer seja de membros da equipe como de professores, funcionários, dos alunos e pais não é tarefa fácil. Inclusão dos excluídos, oferecimento de oportunidades aos portadores de necessidades especiais, abertura da escola à comunidade, abolição de preconceitos, são excelentes discursos que encontram muita resistência na prática. O certo é que não se pode, em pleno séc. XXI conviver com tais anta- gonismos dentro do ambiente escolar que se pressupõe educativo. Os educadores precisam aceitar este desafio, sanando os prejuízos de milênios.

Não se pode laborar o erro da ingenuidade, mas não há como continuar a maldizer a chuva como faz a rã dentro da água. É necessário que os administradores escolares assumam a competência que os educadores tem, de trabalhar em prol da transformação social, muito embora conscientes de que trata-se de uma busca per- sistente e a longo prazo. Na teoria e na prática a administração pode ser um momento fundamental no processo de transformação social (PARO, 1996).

Finalizando este pequeno texto, considere-se que os administradores escolares, além do preparo tecno-políti- co-pedagógico, necessitam de lições aprendidas em leituras outras que não as específicas. Bom lembrar o que escreveu Italo Calvino para as conferências americanas, que não chegou a proferir, nos rascunhos coletados por sua viúva, intitulados Seis propostas para o próximo milênio, que aqui aproveitamos: Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade e Consistência (BORGES, 2005), como marcas de uma escola que serve ao povo brasileiro no sentido de uma sociedade mais justa e democrática.

BIBLIOGRAFIA:

ANDERSON, P. – in Neoliberalismo, qualidade total e educação, Petrópolis, RJ, 1995, pág. 117/118.

BOBBIO, N. – O futuro da Democracia, Trad. De Marco Aurélio Nogueira, São Paulo, Paz e Terra, 2000.

BORGES, Z. P. – Política e Educação: análise de uma perspectiva partidária, Campinas-SP, FAEP/UNICAMP/

Hortograff, 2002.

____________ - Seis propostas de Italo Calvino para o Séc. XXI adaptadas à administração da educação, texto de apoio, digitado, Campinas/SP, 2005.

DROR, Y. – A capacidade para governar: informe ao Clube de Roma, trad. Carolina Andrade, São Paulo, FUNDAP, 1999.

GRIFFTHS, D. E. – Teoria da Administração Escolar, trad. José Augusto Dias, São Paulo, Ed. Nacional, 1971.

MENDONÇA, E. F. – A Regra e o Jogo: democracia e patrimonialismo na educação brasileira, Campinas-SP, FE/UNICAMP/Vieira, 2000.

PARO, V. – Administração escolar: introdução crítica, São Paulo, Cortez, 1996.

SANDER, B. – Consenso e Conflito: perspectivas analíticas na pedagogia e na administração da educação, São Paulo, Pioneira, 1984.

SILVA JÚNIOR, C. A. – A escola pública como local de trabalho, São Paulo, Cortez: Autores Associados, 1990.