Formação de Leitores no Ensino da História
Antonia Terra
Professora do Departamento de História na PUC-SP Doutora em História Social pela USP
Pesquisadora, Assessora em História do Projeto Ler e Escrever da Secretaria DOT
Sou historiadora e professora de história e, há algum tempo, venho trabalhando com algumas situações experimentais. Tornou-se muito prazeroso trabalhar com a questão de leitura e escrita no ensino de história.
Como responsável pela formação de professores de história, tenho constatado que o professor de história pode contribuir, efetivamente, para formar leitores e escritores.
Lerei alguns trechos de um texto que elaborei que, acredito, auxiliarão a clarear o tema com exemplos:
“No século XIX, com a expansão do Império Britânico na Ásia, alguns homens, com perfil entre aven- tureiros, caçadores de tesouros e cientistas, encontraram em Nínive, na remota Mesopotâmia, nas ruínas da bi- blioteca de Assurbanipal, imperador assírio que viveu entre 668 e 627 a.C., várias versões, de diferentes épocas, da epopéia de Gilgamesh, um poema escrito em tabuinhas de argila com escrita cuneiforme, e as enviaram para o Museu Britânico. Outras versões foram encontradas em ruínas de antigas cidades da Babilônia. Produzidas em outras épocas, arqueólogos encontraram também, nas ruínas de Ur, traduções da epopéia para o hitita e na terra de Canaã”.
“Quem, porém, já leu a epopéia de Gilgamesh? O que essa epopéia narra? Por que teve tanta importân- cia na Antigüidade? Por que essas tabuinhas foram tão preservadas? Quem foi Gilgamesh? Ele existiu? Por que sua história tem sido recontada por milhares de anos? E hoje, há leitores para essa epopéia? Pode ser contada nas escolas? Tem sido lida pelos jovens atuais?”
Há muitas versões, lindas, da epopéia de Gilgamesh, em linguagem para crianças pequenas e há uma versão em história em quadrinhos.
A leitura de epopéias antigas ou produções literárias modernas na escola normalmente se faz na aula de literatura. Poucas vezes são identificados textos literários em aulas específicas de história e, quando nelas se lê, o foco é a aquisição unicamente do conteúdo histórico e não, também, a apreciação efetiva da obra literária ou o prazer de ler. Todavia, criar boas situações de leitura com textos literários em aulas de história possibilita o con- tato dos alunos com conteúdos históricos, presentes em outros estilos de textos, em outras linguagens, em outras fontes, que são distintos dos tradicionais manuais didáticos, diversificando seus domínios para questionarem obras variadas do presente. A idéia é que essas obras literárias estejam no seu dia-a-dia e que, na medida em que as observamos com olhar histórico, possam contribuir para que os alunos aprendam a questionar outras obras freqüentes em seu cotidiano: filmes, TV, jornal, obras literárias em geral. Essas situações de leitura dos textos literários, com olhar histórico, possibilitam também formar leitores capazes de realizar leituras cada vez mais interpretativas, que auxiliam reciprocamente no estudo da História.
Gostaria de debater, aqui, a possibilidade de associar as situações de ensino e aprendizagem da leitura ao ensino de história, especialmente através do trabalho com textos literários. A premissa é de que ser um bom leitor significa realizar, também, leituras compreensivas, importantes tanto para uma formação histórica, quanto para lidar mais criticamente com as diferentes vivências sociais. Além disso, como os alunos aprendem história na escola através de situações de leitura (como no caso do trabalho com freqüência com o livro didático), torna- se fundamental considerar a necessidade de orientá-los na análise, compreensão, interpretação e aquisição de conhecimentos através da leitura e análise crítica de textos.
Muitas vezes, os alunos copiam textos da lousa. Mas, quando questionados, descobrimos que não com- preendem o texto copiado. Existindo a preocupação em formação o leitor-escritor, deve haver a atenção do professor para averiguar como o texto está sendo compreendido e interpretado.
Partimos da concepção de que a leitura é um meio de aprendizagem de conteúdos históricos e, portanto, aprender a ler e questionar historicamente um texto deve ser encarado como um objeto de ensino e aprendiza- gem. Entretanto, algumas vezes, os conteúdos escolares têm sido entendidos apenas como informações e concei- tos. Todavia, é necessário avaliar como grande parte das informações históricas depende do domínio da leitura e interpretação de texto. Essa dimensão de conhecimento escapa da esfera da simples informação – pertence à aprendizagem de procedimentos.
Saber ler e escrever é fundamental, mas, para que o professor de história possibilite a seus alunos o acesso ao conhecimento histórico, ele deve encarar esse conhecimento como conteúdo – procedimental -, a ser inserido no seu planejamento; e considerar a construção de estratégias e intervenções didáticas. Com isso, está contri- buindo para a formação de leitores-escritores e para que aprendam a pensar historicamente: a ler, questionar e interpretar, a identificar marcas textuais, a discernir o real do ficcional, a se preocupar com o autor e o contexto histórico da obra, a tornar relativos os valores, etc.
Essa escolha metodológica baseia-se no princípio pelo qual a disciplina de história, na escola, é entendi- da na sua especificidade, com objetivos e métodos próprios que se articulam com outros saberes, mas não perde sua autonomia na construção de suas finalidades educativas. Um trabalho com leitura e escrita associa-se, assim, a uma metodologia de trabalho com documentos, na qual se questiona quem produz, em que época produz, em que contexto produz, com quais outros contextos se relaciona, etc..
O texto literário, considerado como documento histórico, requer o reconhecimento da importância, tanto de ensinar o procedimento de leitura ativa, quanto de colocar o aluno diante de determinadas questões que revelam sua historicidade. A questão é pensar historicamente: tudo tem seu contexto, sua autoria e seus diálogos no tempo.
São diversas as possibilidades de aprendizagem de história com textos literários e delas dependem situa- ções didáticas criadas pelo professor. Por exemplo, a simples apresentação de um texto para ser lido e debatido na sala de aula amplia o repertório dos estudantes sobre obras e autores de certa época. Quanto mais diversificadas e variadas as informações sobre certo período, melhor ele pode ser caracterizado em sua especificidade e maior é a probabilidade de ser diferenciado de outras épocas, por suas características históricas.
Essa é a premissa: quanto mais informações históricas e quanto mais reflexões construídas a respeito das relações entre elas, maior a probabilidade de se diferenciar uma época da outra. Quanto mais literatura e autores são conhecidos, maior será o repertório histórico, o que possibilita conhecer melhor outras obras. Por princípio, se lê a partir daquilo que já se sabe: quanto mais se lê e mais se souber, mais profundamente é possível mergulhar na compreensão de outras obras.
O acesso ao texto possibilita, ainda, debater diferentes suportes contemporâneos que podem ser dife- rentes daqueles usados originalmente pelos autores da obra. Na questão do livro, podemos explorar a produção editorial. Tenho trabalhado muito com a idéia de que existem várias edições e é muito importante questionar não só o ator, a época em que ele escreveu a obra, mas as inúmeras edições que são produzidas, e as versões adap- tadas para as diferentes idades. Isso pode ser discutido com os alunos, porque permite avaliar a historicidade do livro dentro da sociedade contemporânea.
Há ainda outros trabalhos que podem ser feito com os alunos: confrontar o texto com outros textos, sendo esses frutos de pesquisas e análises realizadas por outros autores. Por exemplo, na epopéia de Gilgamesh:
“Existiu Gilgamesh?” Há arqueólogos e historiadores que procuram comprovar a existência desse rei da antiga Mesopotâmia. Essa é uma discussão importante, por exemplo, para distinguir o ficcional do real.
A proposta é que o professor de história aproprie-se de estratégias de procedimento que contribuam para formar leitores ativos: como é possível ler para e com os alunos? No caso de estudantes com poucos domínios de leitura, o professor de história pode ser o leitor, desenvolvendo atitudes de um bom leitor. Pode questionar o grupo, no processo de leitura: “Quem está escrevendo? Que época é essa? Que lugar é esse? Por que está aconte- cendo isso? O que vai acontecer? O que o autor está querendo dizer?”...
Sendo recorrentes nas aulas, esses procedimentos de leitura instigam os alunos no desenvolvimento do costume de fazer o mesmo diante dos textos que lêem e, assim, ajudamos a serem questionadores e a criarem hipóteses para avançar nos textos e nos estudos históricos.