Ilona Becskeházy
Diretora Executiva da Fundação LEMANN
As escolas de pedagogia, de licenciatura de psicologia sabem muito bem educar a classe média, agora não estamos conseguindo educar o aluno de classes sociais mais baixas. Esse estudante de baixa renda tem mais dificuldades. A escola e os professores, na maioria das vezes, são a única fonte de conhecimento deles. Este é um dos desafios que temos que vencer no Brasil.
A Legislação brasileira é brilhante, moderna, atual e a base de tudo, mas infelizmente não cumprimos a lei. Os resultados do SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) no Brasil são algo assustador, o retrato do caos. O Brasil investe em torno de R$ 40 milhões em educação, mas investe mal. O nível de ade- quação é na média menor do que 10%. Como é que nós colocamos os sistemas estaduais, municipais e federal para funcionar e menos de 10% dos alunos aprendem o que deveriam? A boa notícia é que só temos espaço para melhorar porque pior que isso é muito difícil. Ver por essa vertente mostra que já estamos olhando para uma perspectiva positiva.
Outros países competem pelos empregos que queremos ter. Se queremos crescer economicamente, ter ascensão econômica e desenvolvimento precisamos de uma educação de qualidade. Os outros países estão com- petindo com os nossos empregos. Olhem a Coréia! O país pulou do 7o lugar no último PISA (Programa Inter- nacional de Avaliação de Alunos, no qual participam mais de 40 países) para o 2o, em três anos. Eles estão que- rendo os nossos empregos. Precisamos parar para pensar e tomar decisões pragmáticas. Nós estamos no fundo do poço com um problema muito grave. Em geral, as primeiras soluções são de grande impacto e muito simples e eu vou provar para vocês, porque temos uma experiência positiva num projeto nosso.
Então, não é ideológico, temos países capitalistas, socialistas, no meio do caminho e todos estão preocu- pados. Esqueçam a ideologia, porque não é este o problema. Quem gosta de povo ignorante é político corrupto, não é elite, esqueçam isso. Não tem elite com uma teoria conspiratória querendo acabar com a educação do povo brasileiro. Não tem nada disso. Para a elite interessa sim, lógico, desenvolver o país. Quem gosta de ignorante, repito, é político corrupto, quem quer manipular a massa, mas isso não é elite.
Olhem bem a diferença, acho importante. O Brasil está em último, enfim, ganhou uma posição porque o México conseguiu ficar atrás, no exame do PISA. O legal do PISA é que a cada ano – a avaliação é feita a cada três -- existem mais países se juntando, então se forma um observatório de qualidade importantíssimo para poder ver o que está se fazendo e identificar o que nós podíamos fazer também para melhorar a qualidade do ensino.
Por que o Brasil está numa posição tão atrasada em relação a educação? Primeiro o investimento per capita é baixo. Gastamos mais com ensino superior do que com o básico. Porque o sistema de gestão das secre- tarias, das escolas é antiquado. A maioria dos diretores de escolas pelo Brasil afora, exceto São Paulo, é escolhido pelo político local. Como é que vocês querem que a escola funcione se o político aponta o diretor, e até mesmo os professores são indicados muitas vezes? Fica muito difícil. A clientela, ou seja, os alunos não têm condição.
Para os pequenininhos – de 1a a 4a séries – fica ainda mais difícil. Os pais de alunos, não têm noção do que é educação de qualidade, em alguns casos nem tiveram a oportunidade de freqüentar a escola. Como é que vão cobrar? Basicamente, o que identificamos depois de meio milhão de vezes são estes três problemas.
O investimento é baixo, como já falei. Compare com outros países, como Chile e Argentina. Gastamos menor per capita, do que nossos vizinhos, menores e mais pobres do que nós. Olhem o que gastamos de ensino superior! Nós subsidiamos a educação da classe média em detrimento do investimento do aluno pobre. O ensino público é gratuito, nós doamos o dinheiro e educação de alta qualidade para a classe média, enquanto não temos dinheiro para colocar os alunos pobres na escola, com material didático dentro da sala de aula, o que precisa para educar. É uma opção política que fizemos há muito tempo e que não queremos sair dela.
Outra coisa, o sistema, todo processo de educação é ineficaz e ineficiente. Como é que temos essa quan- tidade de distorções nas séries? Isso aqui é o grito da má qualidade. O aluno não pode ter 3, 4, 5 anos de distor- ção, isto acaba, mina qualquer processo educativo. Só para ilustrar o que eu disse em relação aos pais: estimamos que apenas 6% dos pais dos alunos no ensino básico tenham ensino superior. Provavelmente os filhos deles estão estudando em escolas particulares, em escolas boas.
Então os pais dos alunos com os quais os senhores se relacionam, não conseguem fazer o mesmo que um aluno de classe média faz. Ele ajuda em casa nas tarefas, a responsabilidade é 100% da escola, é muito peso, é um fardo que tem que ser carregado ou o Brasil não vai se desenvolver.
Eu só fiz um resumo aqui de tudo o que falei, para mostrar para vocês a estratégia da nossa Fundação.
Escolhemos três linhas de trabalho: a gestão da aprendizagem, a gestão administrativa e o controle social. O que a Fundação Lemann faz? Na gestão de aprendizagem fizemos a opção de apoiar os diretores de escolas públicas.
Nós temos hoje, tanto no treinamento, na formação de novos líderes, o estímulo e a variação de desempenho dos alunos e seu uso qualificado. Nós temos dois “produtos”, digamos assim: o curso Gestão para o Sucesso Escolar, que já está em sua 2a edição, e o Formação do Gestor Escolar.
O Gestão para o Sucesso Escolar é um curso à distância para diretores de escolas públicas. O Forma- ção do Gestor Escolar é um curso presencial, espécie de um MBA em gestão escolar. É um curso totalmente inovador para formar um gerente, digamos assim, de escola. Como gerenciar pessoas, como auto-gerenciar o desenvolvimento pessoal. Temos atualmente duas turmas em Fortaleza e pretendemos expandir para o resto do Brasil para aqueles diretores de escolas públicas que quiserem se desenvolver.
Na parte de gestão administrativa temos uma parceria com o CONSED (Conselho Nacional de Secretá- rio de Educação) eles estão fazendo uma série de estudos sobre a gestão administrativa das secretarias estaduais, que é o organismo que se reflete nas secretarias municipais, e nós estamos atuando como patrocinadores.
O controle social é fundamental hoje no Brasil. Tenho conversado com bastante gente, sociedade brasi- leira, formadores de opinião, a tal da elite. Não dá. O Brasil terá que melhorar a qualidade do seu ensino. Então, está começando a haver uma preocupação generalizada com relação a isto. Na Fundação Lemann nós estamos fazendo alguns estudos de caso sobre a gestão da escola pública. São nossos parceiros escolas renomadas, como a Fundação Getulio Vargas (FGV), daqui de São Paulo, e o Ibmec. Também criamos um prêmio para jornalistas:
o Prêmio IGE de Jornalismo. Essa iniciativa tem um site que reúne vários materiais sobre Educação. O objetivo é disponibilizar uma ferramenta para que estes profissionais informem-se mais sobre o tema antes de escrever suas matérias. Dessa forma poderão ajudar a sociedade a promover o desenvolvimento da qualidade de ensino.
O endereço do site para quem quiser acessar é: www.premioigedejornalismo.org.br.
O que é, então, a gestão de processo escolar? É a tal da boa notícia que eu vim trazer aqui. Com muita simplicidade conseguimos um excelente resultado no ano letivo. Qual era a hipótese que tínhamos? Se ajudar- mos o diretor a ser um melhor gestor, teremos impacto no rendimento dos alunos, que é o que o professor aca- bou de dizer aqui: Não há escolas se não para o rendimento dos alunos. Não pode haver! Inclusive eu quero fazer um parênteses. Nos Estados Unidos há uma lei há 4 ou 5 anos chamada “Nenhuma criança deixada para trás”.
A base dessa legislação é uma legislação federal dos estados. Quando essa lei foi enfim outorgada foi a maior gritaria, a maior choradeira. Todo mundo chiou e o pessoal da educação também, mas é o seguinte: as escolas que têm os maiores desafios, os alunos mais pobres e os piores indicadores recebem dinheiro extra durante uns 3 ou 4 anos. Se elas não melhorem, são fechadas. A escola não pode existir se não for para educar os alunos.
O curso Gestão para o Sucesso Escolar dura 9 meses com 320 horas de atividades. Então o que fizemos neste projeto? Tínhamos essa premissa, se ajudarmos o diretor em um ano letivo teremos o resultado. O curso é feito à distância, e estimula o cursista a assumir um papel de gestor pedagógico, de ser o maestro da suas escola.
Eu sei que é difícil ser maestro de uma equipe que muda todo ano. Para minimizar este problema, toda vez que fazemos esse curso assinamos com as secretarias um termo de compromisso, que garante que o diretor e a equipe permaneçam no mínimo aquele ano inteiro na escola. Fomos visitar algumas escolas na Argentina com os dire-
tores premiados na 1a edição do GSE e descobrimos que lá as equipes ficam 20 anos nas escolas. A escola é da comunidade. Sabe por quê? Porque todo mundo está envolvido. Mudar todo ano a equipe vai contra a qualidade de ensino. Como é que se dirige uma escola sem saber o que seus alunos sabem ou não sabem? É impossível. A avaliação não é para punir, mas para crescer!
Parceiro Ideal
Não é em toda secretaria que a gente consegue fazer esse projeto. Tem que ter vontade política, reconhe- cer a importância da gestão, valorizar o diretor e já tem que estar realizando a avaliação dos alunos ou passar a investir nisso, senão não dá para fazer o projeto. Bom, tínhamos a hipótese de que iríamos ter impacto no desempenho dos alunos, com o curso a distância temos controle total da participação dos bolsistas: quem en- trou e não entrou na ferramenta, quanto tempo ficou etc. Então sabemos do rendimento exato, de quem está realmente engajado. No final fazemos uma avaliação para saber qual foi o impacto do projeto na escola.
O que foi que conseguimos na 1a edição em São Paulo e Santa Catarina? Em São Paulo atuamos no in- terior do estado, escolas municipais, e em Santa Catarina fizemos uma parceria com a secretaria estadual. Eram 100 mil alunos, um ano letivo e na média a prova de compreensão de texto melhorou. Ao final da primeira edição do GSE, nas escolas de São Paulo e Santa Catarina, a nota média em língua portuguesa dos alunos de 4a série aumentou 18%. Foram avaliados pelo Gestão, no fim e no início do ano letivo,16.739 que aumentaram as notas de 24,2 para 28,6, em um total de 40 pontos. Nas 8as séries o ganho foi de 13%, com a média atingindo 29.7 pontos. Foram provas aplicadas com todo rigor técnico, com aplicadores externos, pré-testes, passou-se por todas as etapas, todos os check lists de técnica. Queríamos saber se estava correto o que estávamos fazendo.
Então a boa notícia é que, não demos um tostão para as escolas, apenas mobilização.
Vou mostrar para vocês rapidamente o currículo. Não tem mágica, é algo simples, é o básico e muito tra- balho. Então vou contar para vocês o segredo: primeiro ponto mobilização da equipe escolar e da comunidade.
O curso foi projetado de uma forma muito leve, os textos são muito interessantes, todo mundo que participou gostou muito, as pessoas para quem mostramos o conteúdo do curso, ficaram muito interessadas.
Então, a primeira coisa, parte-se dos indicadores daquela escola, internos e externos. Toda escola tem os dados do seu senso mínimo e no caso dessas turmas de secretaria municipal de avaliação externa tem o boletim da escola. Uma coisa que me assusta muito quando eu vejo avaliações externas, é que elas custam uma fortuna, elas são feitas e a escola não recebe o seu boletim e quando recebe, o diretor tem acesso, mas não divide com a equipe. Para que serve uma avaliação se não for para melhorar? E a equipe tem que ter conhecimento da avalia- ção, senão não consegue fazer o seu plano de trabalho e definir metas com base nos indicadores, além das áreas de atuação prioritárias. Foi o que essas escolas fizeram. Óbvio que o problema delas, em muitos casos, era de que os alunos não sabiam ler nem escrever direito. É sempre o mesmo problema. No fundo do poço que estamos, o aluno está saindo da 8a série sem saber escrever direito. Esquece a 4a. Então todas as escolas trabalhavam com a direção de fazer com que os seus alunos lessem mais, basicamente.
Utilizaram os indicadores para estabelecer o plano de ação da escola, identificaram fatores facilitadores para mudança e pontos críticos a serem combatidos. Na ferramenta tem uma série de textos dos autores mais atuais, uma biblioteca eletrônica, e quando você quer aprofundar o conhecimento naquele tema específico, está tudo lá na biblioteca, é só puxar e imprimir.
Propor ações de desenvolvimento das habilidades refletidas nas comunidades, depois esses outros mó- dulos, qualidade da escola, tempo, espaço físico, tinha escola de todo tipo, super-arrumada, bagunçada, suja etc. O espaço da escola pedagógica tem que aderir, é lógico que as coisas acontecem na sala de aula, mas aquele ambiente agradável para o aluno faz toda a diferença. Inclusive nós demos um presente, um livro registrado pelo CEDAC para todos os diretores, que é brilhante mesmo, não sei se vocês já viram, é um livro que é o manual do diretor. O CEDAC que fez, é um manual, como deixar sua escola mais bonita, qual a participação de todos.
É obvio que é obrigação do estado dar o básico, mas aquela caprichada extra, cabe a equipe da escola.
Desenvolvimento da comunidade do trabalho voluntário, construção de parcerias
Meu tempo está acabando, mas deixa eu fazer um comentário pessoal sobre o desenvolvimento de tra- balho voluntário. Eu concordo com a palestra anterior, na qual o Professor da USP disse que todo mundo se mete, todo mundo tem coisas para dizer na escola. Isso é um pouco demais realmente. Virou moda... amigos na escola todo muito quer dar palpite na escola. Não dá e cabe ao diretor pegar o que é bom e agradecer, mas dizer não obrigada ao que não é bom para a escola. É importante trabalhar com a comunidade, é importante trabalhar com o voluntário, mas é para agregar, para dividir. Já temos problema demais.
E construção de parceria com soluções simples. Por exemplo, uma das escolas que, passaram pelo curso na primeira edição, o que eles perceberam? Que nossos alunos não conhecem todos os tipos de leitura, não co- nhecem...
[pausa na gravação]
...enfim, com aquilo a escola conseguiu que os alunos, numa escola municipal de 1a a 4a série, tivessem acesso ao jornal, que era o tipo de texto que eles não estavam acostumados a trabalhar. Parceria é isso, enquanto se agrega para escola e não é tão difícil de conseguir.
Aprofundar o conhecimento sobre a avaliação, reflexão e aperfeiçoamento das ações implementadas e planejar um bom futuro.
Rapidamente não fizemos algumas modificações para a 2a edição. Esse é o impacto que a gente teve até agora. A 1a edição mais ou menos 100 mil alunos e a 2a um pouquinho mais de 140 mil nos estados do Ceará e Tocantins... Estamos nestes estados, abrangendo muitos municípios e isso só é possível pela maravilha que é a educação à distância. A educação à distância principalmente nos níveis das crianças pequenas, ela não substitui obviamente a presencial, mas para esse nível de uma pós-graduação, de um curso de aperfeiçoamento, fizemos esta opção clara, porque não queríamos tirar ninguém de dentro da escola. O diretor acessa o curso no seu am- biente de trabalho, sem tem que se ausentar, não perde tempo com o deslocamento, não tem diária, não tem nada, é um curso para fazer funcionar!
Obrigada.