Prof
a. Dagmá Brandão Silva
Diretora do Centro de Aperfeiçoamento dos Profissionais de Educação
Gostaria de agradecer o convite. É sempre uma alegria encontrar esse movimento: 5.000 professores. A Secretaria da Educação do Município de São Paulo está de parabéns. Vou relatar a experiência de Belo Horizon- te, que já inclui as crianças de 6 anos desde 1994.
Desde 1994, Belo Horizonte tem uma diretriz política que constitui uma das políticas públicas de edu- cação talvez mais polêmicas e comentadas no Brasil, que é a Escola Plural. Implantamos a Escola Plural com base em algumas experiências de transgressões que já existiam na rede municipal e na tentativa de incluir e fazer uma escola para todos.
Tendo escutado muito dos pais: “No meu tempo a escola era melhor”, começamos a fazer uma reflexão sobre a procedência dessa frase. Dados apontam algumas evidências: em 1820, apenas 0,1% da população era alfabetizada. Em 1955, apenas 4 entre 10 crianças de 7 anos iam à escola. Em 1970, de cada 10 crianças que co- meçavam o primeiro ano, apenas uma chegava à 8a série sem nenhuma reprovação. Será, então, que essa escola era para todos? Era boa? Será que é essa a escola que queremos fazer?
Nesse quadro, introduzimos a Escola Plural em Belo Horizonte, com os seguintes eixos:
1. Não se pode ter um projeto de escola para todos que garanta acesso, mas também permanência e aprendiza- gem sem pensar que isso exige uma intervenção coletiva radical. Todos devem participar: comunidade, alunos, professores, funcionários, direção. É preciso trabalhar com a sensibilidade da totalidade da formação humana;
pensar na autonomia; olhar, realmente para o educando, desejar estar ali.
2. A Escola como tempo de vivência cultural: é importante ter uma escola que exige estética e ética, que respeite os saberes do educando, que perceba a identidade cultural de cada aluno.
3. Uma escola que tenha em vista uma vivência de cada idade de formação sem interrupção. Essa é a grande co- luna que sustenta a Escola Plural: cada pessoa que está dentro da escola tem um processo de construção interna, de desenvolvimento biológico, sociológico, psicológico que a escola não pode desconsiderar. Temos que formar professores que sejam capazes de lidar com idades de formação.
Então, a Escola Plural adota os ciclo de formação, que dividem os 9 anos em 3 ciclos:
• 1o ciclo: 6, 7, 8 anos – ciclo da infância
• 2o ciclo: 9, 10, 11 anos – pré-adolescência
• 3o ciclo: 12, 13, 14 anos – adolescência
A proposta é que sejam 9 anos de ensino fundamental ininterruptos, de aprendizagem contínua, sem re- tenção. A concepção de ciclo pressupõe que o aluno tem direito à formação contínua. Então, é preciso organizar uma escola de forma mais flexível, coletiva, pensando tempos e espaços.
O que significa a permanência na escola e que desafio nos traz? Antes, com a reprovação, os alunos que ficavam para trás, depois de algumas reprovações, acabavam desistindo da escola. Hoje, não há esse precedente;
aquele aluno está lá. Sabemos que garantir a permanência não pode significar empurrar o aluno ao longo de sua escolarização sem nos comprometermos com sua aprendizagem, perpetuando antigos mecanismos de exclusão.
Então, como fazer? É o grande desafio. Temos alguns pensamentos a respeito:
• É preciso criar mecanismos que garantam que os professores acompanhem os alunos ao longo de cada ciclo.
Mudanças freqüentes de professores nas turmas de cada ciclo, principalmente em todo final de ano, não contri- buem para alcançarmos nossos objetivos.
• Quebrar ciclos é quebrar séries. Assim, agora nós nos organizamos a cada ciclo: a cada 3 anos. Pensamos que é importante formar o coletivo dos ciclos. O professor que trabalha com o primeiro ciclo, que se apropria da linguagem da infância, como a criança aprende e se relaciona, e o professor que possa acompanhar esse aluno por 3 anos.
• A organização do tempo na escola para garantir que haja tempo para pesquisar, estudar, planejar, estar na regên- cia. Em princípio, temos uma proposta de dupla de professores por turma, atendimento individualizado, oficinas, seminários, horários pedagógicos de estudo acompanhado, às vezes 2 professores na sala, às vezes 2 turmas com 3 professores, enturmar, por vezes não por idade mas por conhecimentos, construir outros coletivos na escola.
A proposta curricular dessa escola deve explicitar com clareza as competências que serão trabalhadas com os alunos, ao longo do ciclo. Deve explicitar que tempo, que profissionais, que projetos, que metodologias, que avaliações deverão orientar a formação dos sujeitos. É importante pensar o currículo da escola e é importante que o coletivo defina como este deve ser: Qual o conhecimento que o aluno do 3o ciclo deve ter? O que é im- portante para o aluno do 1o ciclo? O que é essencial que o aluno do 2o ciclo conheça? Qual é a prioridade para o aluno do 3o ciclo? Qual é a metodologia mais adequada? Não importa que sejam atividades significativas ou projetos. É preciso que conheçamos, que demos sentido, que façamos a relação interessante com a vida, com os saberes, com a cultura, com a identidade.
Processos, instrumentos e registros de avaliação
A análise da avaliação deve dizer-nos que aluno é esse, qual é sua história de vida e escolar, o que ele já sabia, o que aprendeu, o que não aprendeu e por quê. Quais são suas potencialidades? Quais são suas dificuldades?
Quando se tem um tempo maior com o aluno, pode-se fazer uma avaliação que não seja por nota. Se acompanho o aluno por 3 meses, posso avaliá-lo por outras formas além da nota de prova.
A Escola Plural não propõe a promoção automática, uma vez que entende a formação como um proces- so que requer acompanhamento contínuo. A promoção automática não significa incluir, pois podemos correr o risco de não garantir o aprendizado necessário ao sujeito. A Escola Plural propõe o acompanhamento perma- nente do aluno.
E se o aluno, apesar de tudo, não aprende? A escola deve elaborar um projeto pedagógico específico de ampliação da carga horária daquele aluno ao longo do ciclo: em atividades extra ou intraturnos, em acom- panhamentos individualizados, em agrupamentos diferenciados e, em casos excepcionais, no final do ciclo. E, então, a Escola Plural pode reter o aluno no final do ciclo. Mas, é preciso que haja um projeto para o aluno que foi retido; hoje, trabalhamos mais sob a perspectiva da ampliação do tempo do aluno na escola, às vezes numa turma, dependendo da escola e dependendo da necessidade de intervenção.
Por que a Escola Plural? Porque acreditamos que a inclusão, a cidadania e a dignidade só se efetivam com paixão, com conhecimento, com curiosidade, com acolhimento. E é isso que procuramos na construção de uma escola pública onde todos aprendam.
Inclusão das crianças de 6 anos
Em 1997, a Escola Plural incorporou crianças de 6 anos na medida da disponibilidade das vagas, mas ainda priorizando crianças de 7 anos. Em 1997, atendeu 3.079 crianças de 6 anos. Em 1998, atendeu 8.142 crianças de 6 anos. Em 1999 define-se politicamente a garantia de cadastro de inclusão de crianças de 6 anos.
Nesse ano, incluímos 11.776 crianças. Atualmente, toda a rede recebe crianças de 6 anos no Ensino Funda- mental. A criança pode entrar com 5 anos e 8 meses: o Estado de Minas Gerais recebe crianças com recorte em abril.
O que significa incluir as crianças de 6 anos no Ensino Fundamental? Para nós, garantir mais tempo para formação escolar não significa ingresso precoce na escola. Significa, sobretudo, o direito a este nível de educação básica. Quando dizemos que estamos incluindo a criança de 6 anos nesse nível de educação básica, dizemos, também, que estamos estabelecendo uma lógica que para a Escola Plural e a lógica dos ciclos de idade de formação. A criança de 6 anos está mais próxima da de 7 ou 8 anos. Dentro da lógica biológica, acreditamos que a criança de 6 está mais próxima da de 7 e anos, do ponto de vista do desenvolvimento humano. Neste caso, trabalhando no primeiro ciclo as crianças de 6, 7 e 8 anos, estamos garantindo o ciclo da infância.
Construir uma prática pedagógica que respeite as crianças, uma nova relação com o conhecimento: não é uma lógica perversa, nem uma lógica que acelera ou antecipa a aprendizagem. Ao contrário, garante às nossas crianças o tempo da infância, que é o tempo de aprender regras, de brincar de roda, de esperar a vez, de ensaiar o coral, de ler histórias, de ouvir histórias, de estabelecer rotinas, de respeitar o outro, de descobrir o nome, as letras. O fato de a criança entrar aos 6 anos no Ensino Fundamental não significa que se comece a ensinar nesse mesmo momento a decifração do código lingüístico. Respeita-se o tempo da infância. Entendemos que a Escola para crianças de 6 anos é por excelência um tempo de socialização, local que cada vez mais tem se constituído como um dos poucos espaços de vivência com outras crianças.
Ensino Fundamental de 9 anos
Prof. Dra. Mitsuko Aparecida Makino Antunes
Secretária Municipal de Guarulhos
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