Danilo Santos de Miranda
Sociólogo, Diretor do SESC no Estado de São Paulo e Presidente do Conselho diretor do Fórum Cultural Mundial em 2004.
Boa tarde a todos. É com honra e alegria que participo deste Congresso e na qualidade de gestor de políticas culturais e socioeducativas procurarei contribuir nas reflexões sobre Cultura e Educação, a partir de definições, conceitos, história e experiências.
Para essa exposição sobre a articulação da Educação e Cultura em ações públicas, mas não governamen- tais, como é o caso do SESC, pretendo abordar quatro aspectos que considero mais relevantes:
• O SESC como agência educativa e o contexto histórico de sua criação;
• O vínculo permanente da entidade com as transformações culturais do país;
• Educação comunitária e educação permanente – por uma sociedade educativa inspirada pela Paidéia ateniense;
• A atualidade da ação cultural como estratégia socioeducativa.
O SESC como agência educativa e o contexto histórico de sua criação
O SESC completa 60 anos de existência no próximo ano de 2006. Desde suas origens, atribuiu-se a missão de uma agência educacional não formal. Por meio do lazer socioeducativo como campo prioritário de ação, a entidade reafirmou com maior clareza o mundo dos direitos do trabalhador, ao priorizar o tempo livre como pleno de possibilidades para a formação e o desenvolvimento humano.
O final dos anos 1940 no Brasil está marcado pela re-democratização e pelo pacto dos empresários com o Estado, em vista do bem-estar social dos trabalhadores tanto da indústria, quanto do comércio.
Com o objetivo de atender às necessidades sociais mais urgentes para o desenvolvimento econômico, foi inicialmente criado um Fundo Social, que posteriormente tornou-se SESI, SESC e SENAI.
Por meio desse Fundo atendia-se os empregados de todas as categorias, em assistência social, repartindo com os Institutos de Previdência da época, a responsabilidade pela melhoria física e cultural da população.
(“ ... O objetivo do Fundo Social é promover a execução de medidas que, não só melhorem continuamente o nível de vida dos empregados, mas lhes facilitem os meios para seu aperfeiçoamento cultural e profissional...” – Trecho da
Carta da Paz Social)
Naquele momento, a assistência socioeducativa que passa a ser prestada pelas entidades “S” volta-se, pri- meiramente, aos cuidados nutricionais, à saúde da infância, à organização e às atividades domésticas femininas rentáveis, às atividades recreativas e esportivas.
As unidades do SESC não tinham a atual concepção arquitetônica e atendiam uma população muito menor do que a atual, tanto no Brasil, quanto em São Paulo.
Com esse breve panorama sobre a atuação original do SESC pretendo chamar a atenção para alguns dos aspectos mais específicos do surgimento do SESC e da conjuntura brasileira,
- primeiro – a parceria público-privado no atendimento social;
- segundo - o modelo pioneiro de uma atenção educativa, não formal, e cultural para as massas;
- terceiro – estabelecimento do lazer como tempo “oficial” de aprendizado e cultura.
Naquele momento, a própria escolarização oficial experimentava as novidades de sua expansão com a reforma educacional Francisco Campos a partir de 1930.
O esforço para uma política nacional de educação e a sistematização do ensino secundário e universitário são mudanças importantes no período.
No entanto, a reforma deixou lacunas, no que se refere ao ensino médio profissionalizante, pois privile- giou as profissões liberais pela via da formação universitária. Esse espaço acabou ocupado, em parte, pelo SENAI e pelo SENAC, a partir da criação destas entidades e seus cursos técnico profissionalizantes.
De modo geral, podemos dizer que as entidades “S” se ocuparam da formação dessa mão-de-obra jovem, do bem estar do trabalhador no lazer com atividades físicas e recreativas, e da educação nutricional para a saúde.
Mesmo tendo contribuído para formar uma cultura do trabalho e de determinadas profissões, e também para estabelecer a cultura dos direitos do trabalhador em seu tempo livre, os “S” , no entanto, só podiam atender uma parcela restrita da grande massa de trabalhadores brasileiros.
Se a reforma Francisco Campos afastou do sistema oficial de ensino a profissionalização de nível médio, ação que foi posteriormente assumida pelos empresários, o movimento da escola nova com seus ideais de ensino laico e democrático, contribuiu na transformação cultural própria ao pós-guerra, que forjava o Brasil urbano e em industrialização.
O vínculo permanente da entidade com as transformações culturais do país
Sem querer enaltecer o SESC, posso afirmar que a instituição sempre esteve afinada com as transformações sociais e culturais do país. Parte de sua cultura interna e funcional está diretamente voltada para as condições sociais e culturais de seu público. E isso não é talento, mas missão.
Para isso, o SESC sempre contou com a contribuição de um corpo técnico voltado às ciências humanas, edu- cação e serviço social, e ainda, com a colaboração/consultoria de intelectuais/especialistas como Joffre Dumaze- dier, Domenico De Masi, Edgar Morin, entre outros.
Para relembrarmos algumas das metas requeridas pelo movimento da Escola Nova na indicação de Anísio Tei- xeira
1. democratização do ensino – de modo que todo cidadão possa viver a igualdade de oportunidades em relação aos demais
2. ensino obrigatório – como única forma de extirpar o analfabetismo e a ignorância que não podiam coexistir com a evolução industrial
3. ensino gratuito – conseqüentemente, pois, resultaria injusto obrigar sem oferecer os meios; afinal, a educação tinha de ser efetivamente vista como um direito;
4. técnicas didáticas modernas – interessadas em uma aprendizagem participada (não passiva) e em uma quebra do distanciamento autoritário entre o professor e o aluno;
5. ensino laico – pois que o saber não devia estar envolto em sectarismos, distanciando-se das disputas de credo;
6. ensino misto – desde cedo socializando sem estabelecer barreiras entre as realidades masculina e feminina, apresentando vantagens financeiras e maior adequação aos tempos atuais;
7. ensino de prática profissionalizante – na tentativa de se superar uma formação ornamental e romântica, cria- dora de desajustados sociais;
8. ensino comunitário – enfatizando o trabalho em grupo, socializado e solidário, visando ao partejar de uma consciência de cooperação social.
Pelo papel que vem ocupando no contexto brasileiro, o SESC é chamado a participar de diversas inicia- tivas, tanto dos poderes públicos, quanto das entidades não governamentais.
Essa sintonia com a realidade explica as transformações na atuação do SESC, que costumo resumir em 4 etapas:
• Primeira – Assistencial (ações de atendimento nutricional, médico, odontológico, orientação puerinatal e ações de lazer/higiene mental para o trabalhador);
• Segunda – Orientação Social e Comunitária (trabalho de ação em comunidades nas cidades do interior, sem unidades do SESC);
• Terceira – etapa de expansão física das unidades e ênfase no lazer do trabalhador;
• Quarta – Política de ação sociocultural /educativa , que se mantêm até a atualidade.
Educação comunitária e educação permanente – por uma sociedade educativa inspirada pela Pai- déia ateniense
O SESC passa a desenvolver seu atendimento em educação comunitária, também inspirado pela efer- vescência social e cultural e pela renovação que marcam as propostas do início dos anos 1960.
É também desse período uma das importantes experiências de educação popular, desencadeada pela Ação Católica, que foi o Movimento de Educação de Base. Transformador e original por ter instalado um ideal educativo voltado às bases sociais, tão relegadas pela nossa história.
Nesse contexto também, a educação comunitária passa a ser empregada pelo SESC para alcançar grupos em cidades diversas, particularmente sem unidades. Implementar programas culturais, recreativos, de educação para saúde era a meta de nossos agentes denominados orientadores sociais.
Essa foi uma etapa importante pois nos permitiu desenvolver uma ação socioeducativa própria e adquirir uma tecnologia social de acordo com nossas características e demandas locais.
A maneira encontrada para articular educação e cultura foi estabelecermos os princípios do que seria o desenvolvimento das potencialidades de todo e cidadão em suas diversas idades. Dessa forma, fortalecemos no SESC a ética educativa, não formal e voltada à cidadania e democracia.
Como uma agência educativa não formal, pudemos criar e re-criar estratégias, adotar conceitos, de modo a atender as transformações culturais e sociais, as quais me referi.
Nosso objetivo nunca foi o de criar pessoas brilhantes, segundo um ideal estético elitista, para despontar no cenário cultural, mas, de provocar e estimular um processo de auto-formação permanente, segundo a idéia do “aprender a aprender”.
Por esses objetivos que queríamos alcançar, a “educação permanente” foi tão bem assimilada pelo SESC.
E, para os que não se recordam....
A “educação permanente” desponta no final dos anos 1960, por meio do filósofo e pedagogo suiço Pierre Furter e outros pesquisadores, como o Italiano Ettore Gelpi. No Brasil teve boa repercussão até que o período autoritário tivesse desestimulado e até suprimido ações e propostas alternativas de educação (Centros de cultura, propostas de Paulo Freire...)
Inspirado pelo fato de que as pessoas precisam de formação contínua ao longo de suas vidas, o SESC apostou na adoção dessas bases para “legitimar” seus processos educativos, que para alguns pareciam sem sentido nem poder de transformação.
Em Atenas, a educação constituía o próprio objetivo da sociedade. Não era uma atividade isolada, reali- zada em locais específicos e durante uma época restrita da vida. O ateniense formava-se pela PAIDÉIA – o que podemos traduzir como o esforço educativo continuado, durante praticamente toda a vida.
A possibilidade de uma sociedade educativa experimentada pelos gregos inspira, enquanto estratégia, a ação geral e convergente dos diversos agentes sociais que compõem a proposta da comunidade educativa.
Agentes como a escola, os centros culturais e desportivos, os Institutos de atendimento e serviço público, entre outros, cabendo a cada um deles atenção educativa para com seus usuários e contribuintes segundo a ética da formação integral cidadã.
A incorporação dos princípios da Educação Permanente pelo SESC conviveu e convive com os princí- pios da educação pelo lazer e de animação cultural. São referências que não se excluem, somam-se.
Vejamos alguns:
- Com o propósito da continuidade, a educação tende a fazer do indivíduo o senhor de seu próprio progresso cultural;
- A perspectiva da educação permanente procura valorizar o assunto e o interesse por este, sem os crité- rios de seleção e as hierarquias que marcam outros grupos de formação;
- Estimular nos indivíduos atitudes criadoras em determinadas situações, para que novos valores sejam suscitados;
- Proporcionar a cada cidadão referências socioculturais que lhe aumentem a capacidade analítica de sua realidade.
A atualidade da ação cultural como estratégia socioeducativa.
Com outro alcance da ação comunitária ou popular, que vigorou até o início dos anos 1970 e que tinha a mobilização popular como princípio, a ação sociocultural em sua proposta de democratizar a cultura, privile- giou os centros culturais/desportivos como locais de ação socioeducativa.
A proposta de ação sociocultural procura abranger o maior número possível de possibilidades, em sua perspectiva democrática de cultura. A começar pela arquitetura dos espaços.
Oficinas, espetáculos, cursos, seminários, entre outros, são formatos muito empregados nessa interven- ção localizada nos Centros, que transformam a qualidade de vida das pessoas.
As vias para essa ação cultural são múltiplas: por meio de difusão, criação e animação, as práticas corpo- rais se unem à cultura enquanto um conjunto de atividades ofertadas em nossas unidades.
A ação sociocultural no Brasil, que pretenda ser abrangente, encontra facilidades pela enorme riqueza de elementos do movimento, dos ritmos musicais e expressões visuais, componentes de nossas manifestações culturais tradicionais e populares.
O objetivo da ação cultural não é construir um tipo de sociedade, mas provocar as consciências para que criem suas próprias condições na prática social e cultural.
O que é vital na intervenção educativa da ação cultural é o tipo de operação e de prática, que consiste em aproveitar, para o processo, tudo o que interessar. Seguindo alguns princípios, mas sem as justificativas que legitimam a educação formal.
E é por isso que em nossas unidades podemos encontrar a convivência de tantas áreas: cultura, artes, esporte e atividade física, educação ambiental, debates sobre cultura e sociedade, etc...
Nessa proposta incentivada pela criatividade e com um pensamento organizado pela possibilidade do vir-a-ser, a sensibilização estética, artística, intelectual e corporal são oferecidas enquanto condições cidadãs para o despertar da autonomia cultural.
Nós sabemos que, a obrigação de todos nós profissionais que lidamos com questões públicas, é também buscar instrumentos mais adequados para o cumprimento de nossos objetivos. No caso da missão educativa do SESC é permitir que os cidadãos sejam capazes de ampliar sua compreensão sobre as coisas do mundo e da cultura, tornando-se agente e criador de novas possibilidades culturais, que o retirem de uma possível postura de consumidor passivo.
Muito obrigado.