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How to take advantage of the Ocean for the economy?

No documento Clube de Lisboa (páginas 94-100)

As Naoko Ishii argues, it is imperative to address change to the economic systems by putting the Ocean at the heart of key areas, such as energy, the circular economy and the food system. It must be an integrated approach, which will entail changing the social system and mobilising stakeholders, e.g.

industry, decision-makers, citizens, consumers and investors.

Starting with the energy system, António Costa Silva em- phasises that “the sea is a hidden energy-producing factory”, as we can see from the energy of the waves, the tidal range,

Abordando, em primeiro lugar, o sistema energético, An- tónio Costa Silva salienta que “o mar é uma fábrica escondida de energia”, como é possível constatar pela energia das ondas, amplitudes de maré, diferenças de salinidade ou pelos gra- dientes geotérmicos. A quantidade estimada potencial desta energia a nível global varia entre 20 a 80 mil terawatts/hora, quatro vezes o consumo total de eletricidade do planeta atual- mente (20 mil terawatts/hora). Todavia, esta energia deverá funcionar na base da naturalização dos sistemas de produção.

Ainda a este respeito, a audiência questionou o painel so- bre o contributo das empresas de gás natural e petróleo para a mudança do paradigma da exploração de recursos marinhos.

Para António Costa Silva, a indústria do petróleo e gás forne- cerá uma base importante para atividades como a produção de energia eólica offshore, contribuindo com a sua experiência e tecnologia de informação. Estas indústrias deverão estar na linha da frente na luta contra a ameaça climática, sofrendo re- conversões e diversificando o seu portefólio, não apostando nos ativos de maior intensidade carbónica, mas maioritaria- mente no gás e em energias renováveis. De referir ainda que estas indústrias poderão também estar aptas para desenvol- ver toda a fileira do hidrogénio que, se produzido a partir de fontes de energia renovável (hidrogénio verde), poderá ser uma promissora solução para o futuro. Sendo sustentável e versátil, o hidrogénio poderá servir de backup às energias re- nováveis e competir na mobilidade, já que, segundo António Costa Silva, a descarbonização da economia poderá não pas- sar apenas pela eletrificação.

Adicionalmente, e como consequência da crise da CO- VID-19, em 2020 foi registado um colapso do consumo mun- dial de petróleo e de gás, ocorrendo uma desvalorização des- tes ativos, e registando-se, por outro lado, uma valorização das empresas com portefólios alargados ao setor das energias renováveis.

Por sua vez, e partindo de uma visão económica da ques- tão, Marina Porto identificou os problemas do Oceano que resultam da ação humana — como a poluição gerada pelo consumo excessivo, a acidificação ou a mineração do mar

differences in salinity or geothermal gradients. It is estimat- ed that such energy potentially exists worldwide in amounts ranging between 20 to 80 thousand terawatts/hour, i.e. four times the total amount of electrical power the planet currently consumes (20 thousand terawatts/hour). However, this energy should work on the basis of naturalising production systems.

In that respect as well, the audience asked the speakers how natural gas and oil companies could contribute to chang- ing the paradigm of marine resource exploitation. António Cos- ta Silva says the oil and gas industry will provide an important basis for the production of offshore wind energy, by providing expertise and information technology. These industries should be in the forefront of the fight against the climate threat, by re- converting themselves and diversifying their portfolio, relaxing the focus on carbon-intensive assets, and concentrating most- ly on gas and renewable energies. And it should be remem- bered that these industries may also be suited for developing the hydrogen industry which, if produced by renewable energy sources (green hydrogen), may be a promising solution for the future. Sustainable and versatile, hydrogen may function as a backup to renewable energy and compete in mobility, consid- ering that, according to António Costa Silva, the decarbonisa- tion of the economy may require more than just electrification.

Additionally, and as a consequence of the COVID-19 cri- sis, in 2020 global oil and gas consumption collapsed, which caused these assets to depreciate, while the value of compa- nies whose portfolios extend to the renewable energy sector increased.

Addressing the topic from an economic perspective, Mari- na Porto, in turn, underlined the Ocean’s problems that result from human action – such as pollution caused by over-con- sumption, acidification, or deep-sea mining – as negative ex- ternalities, or problems arising from market failures. Conse-

profundo — como externalidades negativas, ou problemas de falhas de mercado. Neste sentido, a economia circular visa criar um sistema económico alternativo para esses desafios, repensando negócios e reduzindo as referidas externalidades.

Ao passo que, num sistema económico linear, recursos novos são usados na produção de produtos novos, que uma vez con- sumidos se transformam em lixo, a economia circular propõe, ao invés de descartar esses materiais, a sua reutilização ou reciclagem, trazendo a matéria final de volta ao sistema como matéria-prima e fechando assim o ciclo.

Adicionalmente, e além de poder contribuir para repen- sar a gestão de resíduos, a economia circular poderá também ter um impacto substancial no desenvolvimento de materiais menos nocivos para o meio ambiente, como é o caso dos bio- plásticos, capazes de se biodegradarem mais rapidamente ou de serem compostados, reduzindo a quantidade de lixo mari- nho. A bioeconomia azul poderá assim desempenhar um pa- pel central na naturalização dos sistemas de produção com a referida substituição de plásticos por produtos biológicos. De referir que Portugal, contando já com um cluster deste tipo de indústria, se encontra especialmente dotado para esta apos- ta, tendo em conta que as suas águas são indicadas para a produção de algas e outros produtos de agricultura marinha.

A redução na extração de recursos, a diminuição na produ- ção de lixo e a utilização de processos menos intensivos em energia são algumas das consequências da adoção do mode- lo de economia circular.

Tome-se ainda como exemplo a forma como este modelo económico pode ser determinante no que concerne à minera- ção do mar profundo: os aparelhos eletrónicos possuem uma série de metais preciosos na sua composição muito difíceis de recuperar. Sendo escassos na terra, ou de difícil acesso para alguns países, a procura por estes materiais poderá promover a mineração do fundo marinho, onde as suas reservas podem ser substancialmente superiores. A mesma lógica poderá ser aplicada à eletrificação da frota automóvel que, por sua vez, implica a utilização de cobalto e lítio. Porém, uma alteração no sistema económico (de linear para circular) que facilite a recu-

quently, the circular economy seeks to create an alternative economic system for these challenges, by rethinking busi- nesses and reducing such externalities. Whereas, in a linear economic system, the new resources are used to produce new products, which become waste after they are consumed, the circular economy seeks to reuse or recycle such products, in- stead of discarding them, channelling the end material back into the system as raw material and closing the circle.

In addition to helping to rethink waste management, the circular economy could also substantially impact the devel- opment of materials that are less harmful to the environment, such as bioplastics, which are readily biodegradable or can be composted, thus reducing the amount of marine waste. The blue bioeconomy can thus play a central role in the naturalisa- tion of production systems by replacing plastics with biological products. It should be noted that Portugal already has a cluster of companies in the industry and is thus equipped for such an investment, considering that its waters are suitable for the pro- duction of algae and other marine agricultural products.

Extracting fewer resources, producing less waste and us- ing fewer energy-intensive processes are some of the conse- quences of adopting the circular economy model.

Another example is how this economic model can be a determining factor when it comes to deep-sea mining: elec- tronic devices are made of precious metals that are very hard to recover. Once the availability of such resources on land is scarce, or some countries cannot access them, demand for these materials may foster deep-sea mining, in places where reserves possibly exist in greater abundance. The same logic may be applied to the electrification of the car fleet which, in turn, implies using cobalt and lithium. However, a change in the economic system (from linear to circular) that facilitates the recovery of these materials, enabling them to be recycled

peração destes materiais, possibilitando a sua reciclagem e re- introdução no sistema, reduziria a necessidade de extração à partida, incluindo aquela realizada por via da mineração do mar profundo.

De salientar que, tal como referido por António Costa Silva e por Ricardo Serrão Santos, não existe ainda mineração do mar profundo em termos comerciais. Após o abandono do projeto SOLWARA na Papua Nova Guiné, existe atualmente um projeto- -piloto na zona de Clarion Clipperton, no Oceano Pacífico, sob jurisdição da autoridade marítima internacional, que pretende aferir as condições de sustentabilidade da atividade. Apesar do consenso quanto à preferência por não avançar com este tipo de mineração, caso esta passe a ser uma realidade, deverão ser garantidas condições de conhecimento e tecnologia que asse- gurem a estabilidade, sustentabilidade e proteção da biodiver- sidade e das demais atividades como as pescas ou o turismo.

Atualmente, várias entidades internacionais — entre as quais a Sustainable Ocean Alliance (SOA) — apelam a uma moratória sobre a mineração do mar profundo até que seja possível aferir os potenciais impactos, procurando simultaneamente explorar alternativas no domínio da economia circular.

A este respeito, António Costa Silva salientou ainda que a transição energética, bem como outras questões fulcrais à sobrevivência no planeta, poderão exigir o desenvolvimento e estudo de todos estes cenários.

O sistema alimentar, questão também levantada pela au- diência, foi igualmente objeto de atenção, dado o impacto so- cial que as transformações de uma atividade de subsistência poderá comportar.

Como referido por Marina Porto, a aquacultura oferece uma alternativa promissora à pesca predatória, sendo uma área atualmente em desenvolvimento, contando com o in- vestimento de muitas startups. Se for objeto de maiores in- centivos, esta poderá revelar-se uma área determinante.

Tendo em conta o elevado número de águas internacionais, a implementação de mais regulamentação sobre quotas de pesca e áreas marinhas protegidas foi considerada impera- tiva. Com a evolução deste processo prevê-se um ajuste nos preços, tornando a aquacultura mais viável e mais competi- tiva no mercado, fator também central, já que os custos de desenvolvimento da aquacultura são superiores àqueles da pesca não regulada.

and reintroduced into the system, would reduce the need for extraction in the first place, including deep-sea mining.

António Costa Silva and Ricardo Serrão Santos note that there is no deep-sea mining taking place on a commercial basis. After the SOLWARA project in Papua New Guinea was abandoned, there is currently a pilot-project being developed in the Clarion Clipperton region, in the Pacific Ocean, under the mandate of the international maritime authority, which is trying to assess the activity’s sustainability conditions. In spite of the broad consensus to not proceed with this kind of mining, should it start, the knowledge and technological conditions ensuring the stability, sustainability and protection of the bio- diversity and of the other activities, e.g. fishing or tourism, must be guaranteed. Currently, several international entities — the Sustainable Ocean Alliance (SOA) inter alia — are calling for a moratorium on deep-sea mining until the potential impacts have been assessed and the alternatives in the area of circular economy have been explored.

In this regard, António Costa Silva highlighted that the en- ergy transition, and other central issues of the survival of the planet, may require further development and investigation into all of these scenarios.

The audience also raised some questions about the food system, considering the social impact that the transformation of a subsistence activity can entail.

As Marina Porto stated, aquaculture can offer a promis- ing alternative to predatory fishing, since it is growing and has many startups investing in it. If it is targeted by larger invest- ments, it will become a crucial area. The implementation of stricter regulations on fishing quotas and protected marine areas was considered a requirement, considering the vast expanses of international waters. As the process evolves, an adjustment in prices is expected, which will make aquaculture more viable and more competitive in the market. This is key, since the development costs of aquaculture are higher than those of unregulated fishing.

O Ministro do Mar destacou a importância da sustentabi- lidade na aquacultura, relembrando os efeitos nefastos que esta atividade causou no passado, como a destruição de muitos sapais para a instalação de sistemas de produção de proteínas, enfatizando assim as oportunidades no desenvolvi- mento tecnológico. A título de exemplo, a aquacultura offshore, que tem vindo a ganhar relevância, tem impactos substancial- mente menores, muito graças à engenharia. Foram ainda des- tacadas como áreas promissoras a produção de algas, assim como de invertebrados filtradores que trazem benefícios para o ambiente.

Todavia, e independentemente da aposta na aquacultu- ra, as pescas deverão manter o seu lugar na economia e no fornecimento de alimentos pelo Oceano. Importa, sim, que a atividade piscatória seja desenvolvida de modo sustentável (à semelhança do exemplo norueguês supramencionado), já que a ausência de sistemas de gestão adequados, aliada à ganân- cia e à tecnologia, levou à sobre-exploração de muitos stocks, provando errada a ideia de que o Oceano seria inesgotável — tese defendida por alguns cientistas até aos anos 50 do século passado. Como sublinhado por Naoko Ishii, os tempos em que se acreditava que o Oceano seria demasiado vasto para que fosse possível ter algum impacto sobre ele chegaram ao fim.

Existe uma responsabilidade em cuidar e gerir o Oceano e, por esta razão, surgiu também a necessidade de criar organizações internacionais direcionadas à abordagem destes desafios.

Partindo do conceito de Tragédia dos Comuns, introduzido no debate por Naoko Ishii, e no qual se enquadra a crise do Oceano, torna-se possível perceber a importância que a go- vernança global e a cooperação terão para a necessária mu- dança de paradigma.

A este respeito poderá tomar-se como exemplo a gestão coletiva de recursos enraizada na cultura japonesa, que, com

//A governança global como resposta à

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