O Ministro do Mar destacou a importância da sustentabi- lidade na aquacultura, relembrando os efeitos nefastos que esta atividade causou no passado, como a destruição de muitos sapais para a instalação de sistemas de produção de proteínas, enfatizando assim as oportunidades no desenvolvi- mento tecnológico. A título de exemplo, a aquacultura offshore, que tem vindo a ganhar relevância, tem impactos substancial- mente menores, muito graças à engenharia. Foram ainda des- tacadas como áreas promissoras a produção de algas, assim como de invertebrados filtradores que trazem benefícios para o ambiente.
Todavia, e independentemente da aposta na aquacultu- ra, as pescas deverão manter o seu lugar na economia e no fornecimento de alimentos pelo Oceano. Importa, sim, que a atividade piscatória seja desenvolvida de modo sustentável (à semelhança do exemplo norueguês supramencionado), já que a ausência de sistemas de gestão adequados, aliada à ganân- cia e à tecnologia, levou à sobre-exploração de muitos stocks, provando errada a ideia de que o Oceano seria inesgotável — tese defendida por alguns cientistas até aos anos 50 do século passado. Como sublinhado por Naoko Ishii, os tempos em que se acreditava que o Oceano seria demasiado vasto para que fosse possível ter algum impacto sobre ele chegaram ao fim.
Existe uma responsabilidade em cuidar e gerir o Oceano e, por esta razão, surgiu também a necessidade de criar organizações internacionais direcionadas à abordagem destes desafios.
Partindo do conceito de Tragédia dos Comuns, introduzido no debate por Naoko Ishii, e no qual se enquadra a crise do Oceano, torna-se possível perceber a importância que a go- vernança global e a cooperação terão para a necessária mu- dança de paradigma.
A este respeito poderá tomar-se como exemplo a gestão coletiva de recursos enraizada na cultura japonesa, que, com
//A governança global como resposta à
uma visão não romântica do Oceano, reconhece o impacto já causado pela sobre-exploração dos recursos marinhos, ba- seando-se no conhecimento para a gestão dos bens comuns locais. O desafio residirá na transposição deste conhecimento local para uma escala global, possibilitando a partilha destas práticas culturais de gestão sustentável dos recursos.
Adicionalmente, e como referido por Ricardo Serrão San- tos, a abordagem dos impactos na componente marinha não é consonante com as fronteiras políticas, particularmente tendo em consideração as porções do Oceano para lá das jurisdi- ções nacionais. Qualquer resposta, seja em águas territoriais ou em mar alto, deverá ser liderada por ideias comuns, sendo a governação e o conhecimento partilhado as pedras angula- res de um futuro sustentável.
Eventos como a Cimeira do Clima em Glasgow, em 2021, ou a Conferência dos Oceanos da ONU, a realizar-se em Lis- boa em 2022, serão determinantes para este progresso de re- soluções conjuntas. Sendo que, segundo António Costa Silva, a medida decisiva a tomar seria o estabelecimento do preço do carbono em 100 dólares por tonelada.
Não obstante, a perceção da economia oceânica tem vin- do a ser transformada por iniciativas internacionais como o Painel de Alto Nível para uma Economia Sustentável do Ocea- no, destacando o potencial de criação de valor da produção económica assente na proteção do Oceano, ou o Pacto Eco- lógico Europeu, com a premissa de tornar a economia mais sustentável, atribuindo um papel de relevo à Economia Azul.
Ao longo das últimas décadas, através de programas de larga escala aplicados a nível local, nacional, regional e inter- nacional, foram feitos progressos em pontos críticos como o incremento das áreas marinhas protegidas, a melhoria das tendências populacionais de algumas espécies marinhas, in- cluindo, por exemplo, os cetáceos, a recuperação de derra- mes de crude no mar através da OMI (Organização Marítima Internacional) e a imposição de novas regras, a melhoria da qualidade das águas costeiras, a redução dos poluentes orgâ- nicos persistentes ou, ainda, a diminuição de grandes amea- ças como a extinção da maioria das espécies.
have a romantic view of the Ocean and recognizes the impact of over-exploitation of marine resources and relies on knowl- edge for the management of local commons. The challenge lies in replicating the local knowledge at the global scale and sharing such cultural practices of sustainable resource management.
Furthermore, Ricardo Serrão Santos reminds us that the approach to impacts on the marine component is not con- sonant with political boundaries, particularly considering the parts of the Ocean that are not under national jurisdiction. Any response in territorial waters or on the open sea must be guid- ed by common ideas, and shared governance and knowledge are the cornerstone of a sustainable future.
The Glasgow Climate Change Conference in 2021, or the UN Ocean Conference that will take place in Lisbon in 2022, among other events, will be crucial to making progress in joint resolutions. António Costa Silva adds that the best decision would be to set the price of carbon at 100 dollars per ton.
Nevertheless, the idea of the Ocean economy has been transformed by international initiatives such as the High Level Panel for a Sustainable Ocean Economy, which highlights the value creation potential of economic production based on the protection of the Ocean, or the European Green Deal, aimed at making the economy more sustainable and devotes special attention to the Blue Economy.
Over the past decades, large-scale programs implement- ed at the local, national, regional, and international levels have fostered progress on critical issues, such as the expanding of marine protected areas, improving population trends of some marine species including, for example, cetaceans, recovering from offshore oil spills through the IMO (International Maritime Organization) and enforcing new rules, improving the quality of coastal waters, reducing persistent organic pollutants, or reducing major threats such as the extinction of most species.
Projections for the Ocean economy are changing. OECD reports indicate that by 2030 many Ocean-based industries
As projeções para a economia do Oceano estão a mudar.
Relatórios da OCDE apontam para que, em 2030, muitas in- dústrias baseadas no Oceano continuem a manter o potencial de dar resposta ao crescimento da economia global, ocorren- do uma aposta mais acentuada em atividades renovadas do tipo produtivo ao invés do tipo extrativo. Neste sentido, pre- vê-se que o crescimento mais acelerado do emprego ocorra nos setores da energia offshore, aquacultura marinha, proces- samento de pescado e atividades portuárias.
A relevância da cooperação internacional pode também ser verificada através de iniciativas lideradas por jovens, como é o caso do Conselho Consultivo dos Jovens da SOA — organi- zação integrada por Marina Porto — em que a economia azul é um dos tópicos centrais. A SOA levou a cabo um levantamen- to internacional sobre as áreas da economia azul priorizadas pelos jovens, sendo estas: a importância de áreas marinhas protegidas; cadeias de valor de pescas sustentáveis; a aposta nas energias renováveis e de baixa intensidade de carbono; e a maior participação de stakeholders (por exemplo, nas áreas do turismo, investigação e educação). Partindo da informação reunida, a organização pretende agora elaborar o que poderia ser um Blue New Deal, com o objetivo último de integrar estes aspetos no processo de definição de políticas, trazendo para a mesa a voz dos jovens, aqueles que serão os mais afetados no futuro.
O Ministro do Mar salientou igualmente o empenho e a participação da juventude como sendo vitais para mudanças de comportamento a longo prazo, inclusive no que concer- ne aos mercados, desenvolvimento económico, projeção da tecnologia e, em última instância, à formação de uma nova sociedade. Por essa razão, a educação e a literacia são duas dimensões fundamentais da estratégia nacional portugue- sa para o Mar — questão também levantada por parte da audiência.
O potencial transformativo da intervenção jovem tem já vindo a ser ilustrado pelo combate à crise climática, com Greta Thunberg como rosto de um movimento que se tem posicio- nado afincadamente na agenda política internacional, refle-
will maintain the potential for responding to global economy growth, with a greater focus on renewed productive activities rather than extractive activities. In this regard, employment is expected to grow faster in the offshore energy, marine aqua- culture, fish processing and port activities sectors.
Initiatives led by young people also clearly illustrate the importance of international cooperation, such as the SOA’s Youth Advisory Council – an organisation of which Marina Por- to is member – where the blue economy is one of the central topics. The SOA conducted an international survey on the ar- eas of the blue economy that young people prioritise, these being: the importance of marine protected areas; sustainable fishing value chains; a focus on renewable and low-carbon en- ergy; and enhanced stakeholder participation (for example, in the areas of tourism, research, and education). Based on the information gathered, the organisation now intends to write up a Blue New Deal, with the ultimate goal of integrating these aspects in the policymaking process, bringing to the negotiat- ing table the voice of young people, who will be most affected in the future.
The Sea Minister further highlighted the commitment and involvement of young people, who are vital for changing be- haviour in the long term, concerning the markets, economic development, the dissemination of technology, and ultimately for shaping a new society. Therefore, education and literacy are two fundamental dimensions of the national strategy of Portugal for the Sea — which the audience also asked about.
The action taken to counter climate change is an illustra- tion of the transformative power of the intervention of young people, with Greta Thunberg as the face of a movement that has established itself on the international political agenda. This points to informed youth who are determined to change the paradigm.
tindo assim a existência de uma juventude informada e que almeja a mudança de paradigma.
O caminho para uma relação mais sustentável com o Oceano deverá também afigurar-se como mais benéfico em termos económicos e sociais, recorrendo à renaturalização dos sistemas produtivos e à aposta na gestão de resíduos, na economia circular, nas bioenergias e nas bioindústrias. Muitos dos problemas que afetam o Oceano deverão ser resolvidos também com as reformas das cidades, dos sistemas de trans- porte e a utilização de energias limpas. A governança global direcionada à gestão deste bem comum, a promoção do conhecimento científico partilhado e o empenho dos vários stakeholders (cada vez com maior expressividade por parte da juventude), revelar-se-ão determinantes para que o Oceano continue a desempenhar papéis vitais, especialmente a sus- tentabilidade e o equilíbrio do sistema climático.
The path to a more sustainable relationship with the Ocean should also be regarded as beneficial in economic and social terms, which will include the renaturalisation of production systems and focus on waste management, circular economy, bioenergy, and bioindustries. Many of the problems that the Ocean faces can also be solved with reforms, notably of the cities, transport systems and the use of clean energy. Global governance directed to the management of such global com- mons, promoting shared scientific knowledge, and stakehold- er commitment (including the growing engagement of young people), are decisive for guaranteeing the continued vital role of the Ocean, especially the sustainability and balance of the climate system.