ao ensino dos saberes tradicionais? Pode-se, na prática de sala de aula, haver pendências de materiais didáticos específicos da pedagogia indígena?
Eles são conhecedores da vida em seus diversos sentidos, alegria, realização, satisfação, paciência, coragem, sofrimento, dor, sacrifício, trabalhos, pescarias, caçarias, plantações, conhecimentos diversos, sabedoria de vida… Estes são os conteúdos dos saberes, que são fontes de conhecimentos onde os jovens bebem de suas sabedorias (REZENDE, 2010, p. 19).
Cada vez mais os povos indígenas mostram sua articulação de saberes com o saber dos outros, o que é necessário para sua preservação como povo. Nessa dimensão política, é que neste trabalho entendemos o “saber”, para tal, Patricio acrescenta: “la cultura es possible porque existen seres concretos que la producen, que la generan, pues existe una realidad en tranformación permanente a la cual seres vitales deben estar articulados” (ARIAS, 1993, p.
16).
Nos sete saberes para a educação do futuro, Morin pondera que “o conhecimento do conhecimento deve aparecer como necessidade primeira, que serviria de preparação para enfrentar os riscos permanentes de erro e ilusão, que não cessam de parasitar a mente humana” (MORIN, 2011, p. 15). Logo, esse é o desafio a ser enfrentado e observado para uma investigação complexa como esta. Quem são os makuxi, onde estão, de onde eles vêm, para onde querem ir, o que anseiam saber mais, porque só assim se vê o outro como potencial, ao ser pensante identitário (GOMES, 2011, p. 37). A antropologia, através da metodologia da hiperdialética, permite uma nova visão do homem e da cultura, reconhece a lógica dialética, mas vai além dela para argumentar sobre a compreensão do entendimento das similitudes e diferenças do homem. É o que pretendemos, ao analisar do que ouvimos e vimos.
Na observação em sala de aula pude verificar como acontece e se acontecem os saberes indígenas obtidos através da roda de conversa, ao ouvir os anciãos, pais, mães, avós, pajés, tuxauas e lideranças Makuxi. As identidades e especificidades socioculturais e linguísticas (PNE, 2014) expressadas pelos participantes da roda de conversa, nesta abordagem qualitativa em educação deverá estar em consonância com as demandas dos Makuxi:
Desta maneira, elegemos a técnica de grupos focais, considerando que seu prestígio e utilização têm crescido bastante no âmbito da pesquisa social, o que requer esforços analíticos que a (re)interpretem e trabalhem em consonância com as demandas dos cidadãos, colocando-a em posição de destaque no campo metodológico (NETO, 2002).
Na Maloca do Barro os anciãos, pais, mães, avós, pajés, tuxauas e lideranças gostam de se reunir na varanda da casa central da comunidade, que é onde acontecem as demais reuniões da comunidade. A casa tem uma sala que serve de depósito de material didático e das cadeiras de plástico. Também se reúnem no prédio da igreja local, após o culto católico,
pela facilidade de usar os bancos. Nessa reunião, participa somente a gestora escolar, no papel de líder. Os professores e pessoal de apoio da Escola Estadual Indígena Tuxaua Silvestre se reúnem na escola.
Distribuí os conteúdos das falas Makuxi em categorias, da seguinte maneira: línguas indígenas (Apêndice G, Quadro 6), tradições e costumes (Apêndice H, Quadro 7), alimentação indígena (Apêndice I, Quadro 8), autossustentabilidade (Apêndice J, Quadro 9), medicina indígena (Apêndice K, Quadro 10), língua portuguesa (Apêndice L, Quadro 11), educação indígena (Apêndice M, Quadro 12) e educação escolar indígena (Apêndice N, Quadro 13). O critério usado foi de agregar os temas mais repetidos entre os participantes, pais, mães, anciãos, lideranças, avós, seguindo a ênfase. Nas falas, os Makuxi demonstraram o que na antropologia atual se conceitua de etnoexocentrismo. Ao mesmo tempo que procuram manter os saberes tradicionais, interessam-se por outras culturas e conhecimentos.
A dificuldade está em harmonizar todos os conhecimentos. O que poderia ser resolvido por um currículo construído por eles mesmos.
O aprendizado da língua está muito ligado ao ensino pelas mães e avós. Assim comentou a Voz 12 (Mãe e avó): “Estamos falando sobre a nossa língua, a nossa cultura”. E a maioria iniciava a fala no grupo comentando sobre se sabia ou não falar a língua materna.
Assim, a Voz 6 Mãe, diz: “...mas se eu vivesse sempre ao lado da minha avó, eu falava (Língua Makuxi) - Eu não sou falante também não, nem minha mãe, nem meu pai”. Aos filhos e netos fica a tarefa de, segundo a Voz 11, Mãe/Avó: “Só tenho netos. Vocês vão aprender falar makusi. Eu falo pra eles, os netos, um casal que tem lá em casa. Eu falo”.
A Constituição Federal de 1988, no Artigo 231, reconhece aos indígenas suas línguas, costumes, organização, crenças, terras e tradições. No entanto, é possível constatar que a educação indígena sofreu algumas interferências, após o contato dos Makuxi com outras culturas, quanto ao aprendizado da Língua Materna Makuxi. Os pais e mães com filhos na educação básica lamentam por não haver aprendido a língua materna Makuxi. Alguns tinham vergonha e culpam os “brancos” que os obrigavam a falar somente a língua portuguesa, como cita a Voz 1 Mãe/Avó, dirigindo-se à pesquisadora: “Eu quero que os filhos aprendam a língua. A minha mãe era falante mas eu não aprendi. Mas eu tô falando hoje eu já falei makusi naquela hora. Hoje eu digo. Primeiro eu tinha medo dos brancos, primeiro eu tinha medo dos brancos se branco chega perto de mim como que eu vou responder aquele branco.
Como que vou receber aquele branco. Eu tinha medo, mas hoje não, hoje eles estão me ensinando. Hoje o branco está me ensinando. Se eles querem me esculhambar, mas eles não me esculhambam não, vou responder em makuxi. Você sabe o que estou falando em makuxi?
A tradição, em todos os aspectos, dos saberes indígenas, é determinante na promoção educativa. Saberes e experiências que passam dos mais velhos para os mais novos, que representam para os Makuxi a virtude, o areté de povo guerreiro. Vejamos nas falas. Na Voz 2 “ ...não quero que esqueçam da nossa tradição; dizem - ...como nós somos avós, mãe, também ensinar eles fazerem o que que a gente sabe”. Há uma certa nostalgia ao falar da tradição, o que manifesta o quanto é importante. Na Voz 12 “Quando ele (avô) quis ensinar a gente, ele faleceu. Mas eu espero que nunca termine essa nossa tradição, nunca acaba nossa cultura. No tempo do meu padrinho Silvério a mesma coisa. Todas as coisas que faziam era dividido”. Falam da alimentação indígena quanto às receitas tradicionais, como narra a Voz 12: “Eu lembro do meu pai quando ele era tuxaua todo mundo iam pra lá, tomava café, comia damorida, almoçar, ele chamava o povo dele; Mas nós tinha o papai e meu padrinho Silvério... fazia o mesmo processo que o papai fazia. Convidava o pessoal todo mundo ia trabalhar, tinha caxiri, damorida.
A autossustentabilidade tradicional é um tema que chama atenção, como nas falas que seguem. Voz 5: “Porque do que eu aprendi mesmo assim não estou repassando pra ele o que aprendi. Tenho filho rapaz que não sabe pescar, eu tenho filho que não sabe tirar o leite porque não estou ensinando”. Na Maloca do Barro eles convivem com a roça, o plantio, as famílias têm pequenos plantios na serra ou no quintal de casa. A Voz 3 diz: “Eu digo assim: a gente vive aqui na nossa tradição trabalhando na roça e algum trabalho de artesanato”. Já a Voz 13: “No momento em que você manda o seu filho na escola eu acredito que todos os pais estão conscientes do que eles vão estudar. Mas precisa o reforço, não só da escrita na parte oral, na vivência de cada dia. E preciso cada pai, chegar meu filho vamos fazer isso, isso, não só direcionar os trabalhos da escola, mas os trabalhos de casa também, como é o caso da criação, da plantação”.
Citam a escola com projetos de autossustentação ainda não suficientes, como na Voz 13: “O colégio tem o projeto de autossustentação ainda não é suficiente, é preciso uma complementação. Então, esses saberes são saberes que é muito importante, mas que a gente, infelizmente, com a sociedade envolvente, as coisas levam o tempo a enfraquecer a nossa própria cultura”.
Quanto à medicina indígena, a tradição traz à tona a figura dos pajés, os rezadores, assim como narra a Voz 5: “A gente vê hoje a questão dos pajés está sumindo, não está tendo mais pajé, quem é que está se preocupando pra curar, pra não depender do posto de saúde, o pajé também curou muita gente, benzedor, benzedor também ajuda muito. Minha esposa ela sabe alguma doença combater como ela sabe, ela é uma benzedora ela não é pajé”. E outra,
a Voz 8: “Lembro quando meu avô falava assim: tem que aprender as orações que é para curar as pessoas, que com diarreia, vômito, susto. Ele falava assim, quando eu morrer quem que vai rezar para os filhos de vocês vão ter os netos. Porque quem rezava assim, maioria eram esses velhos”. A medicina alopata deixa a desejar quanto à cura, segundo a Voz 8:
“Porque tem remédio, que vamos dizer para o susto, se a criança estiver assustada, a pessoa leva no posto pra tomar remédio, não melhorar não, continua doente, mas se fizer aquela oração pra ela, a pessoa fica bonzinho”.
É na educação indígena que a tradição se garante, com os ensinamentos dos pais e avós. São esses que, na educação indígena, desde o nascimento ensinam a língua e com ela todos os valores culturais. Sobre os saberes da cultura, ao se referirem à língua falada, citaram na roda de conversa, dando ênfase ao ato da fala makuxi: o fato de saber falar ou não a língua indígena.
Das sete docentes em sala de aula, somente duas falam a língua makuxi, e os anciãos, na roda de conversa, insistem na importância da língua indígena na escola. A Voz 11, Mãe- Avó: “Mas eu não fui criada com minha mãe, fui criada com os outros, com os brancos. Por isso que eu não sei; minha mãe sabia falar, mas nunca morei com ela, ela me deu para os brancos. Só tenho netos. Vocês vão aprender falar makusi, digo”.
A mãe, Voz 15, queria participar do estudo, mas não quis gravação da voz, preferiu escrever um bilhete e entregar à pesquisadora, com os seguintes dizeres: “SABERES, eu gostaria que o nosso saberes, e o conhecimento sejam valorizado pelas nossas crianças e alunos. Portanto, temos também nossas línguas que devemos valorizar, é cultura”.
A língua portuguesa, na comunidade indígena, tem sido um instrumento indispensável de relacionamento com as demais culturas. Sobretudo para comunidades que passaram por um contato conflitivo com os invasores de terra, como é o caso dos Makuxi da Maloca do Barro. Vimos no capítulo I sobre a conquista da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Essa realidade está expressa nas falas dos 15 participantes da roda de conversa, que achei importante apresentar aqui. No passado, a pressão para deixar a língua materna indígena era muito forte, e adquirir a língua que chamam de emprestada. Hoje, estão quase sem a língua materna indígena e quase sem saber falar a língua portuguesa, como se as mães fossem responsáveis por essa realidade. Na fala de uma mãe que não fala a língua makuxi, Voz 4: “Aí eu disse pra ela: isso é culpa da senhora minha mãe por isso que eu não sei. - Então eu não sei, aprendi só falar português, hoje em dia não sei falar bem makusi, só um pouco. - Ela (a mãe) diz que eu estava aprendendo, aí disse que ela ficou com vergonha dos brancos. Disse que ela ficou com vergonha e deixou (a língua makuxi). -Por isso é que não sei. Até
engraçado, porque a mãe dela disse eu nunca tive avó para mim morar com minha avó pra me ensinar também”. Conforme já abordado acima, nos Apêndices se encontram os quadros, conforme os Saberes, nos quais encontramos a transcrição de todos os saberes e de todas as falas, ou seja, de todas as vozes.
No contexto até aqui percorrido identificamos os saberes Makuxi nos aspectos línguas indígenas, tradições e costumes, alimentação indígena, autossustentabilidade, medicina indígena e língua portuguesa, cujas concepções são indispensáveis para uma educação diferenciada. O impasse é quando dificilmente se consideram as especificidades culturais, tachando os indígenas com a categoria de “aculturados”, sem ter sequer o reconhecimento da diferença e nem atitudes de respeito e consideração pelo modo de vida e pelos saberes próprios das famílias (SILVA, 2001), como se eles tivessem se adaptado a uma outra cultura.
Ao falar sobre o futuro dos filhos e o que para eles desejam, depositam esperança, como a fala da Voz 8 (Mãe, Avó): “Então, a gente espera deles (dos filhos) um estudo mais aprofundado.
Porque a gente, no meu tempo teve escola mas era muito difícil. Agora tem escola fácil. A gente quer também, quer que eles não desistam de aprender a nossa cultura”. A cultura é saber desejado.
Em sequência, analisei refletir sobre as duas últimas categorias, educação indígena e educação escolar indígena, das quais os anciãos, pais, mães, avós, pajés, tuxauas e lideranças Makuxi falam como anseios coletivos. Ambas são inevitáveis e buscam um ponto de equilíbrio, por não serem capazes de dar tudo o que esperam de resiliência cultural.
A educação indígena é aquela que forma o Makuxi, o bom Makuxi, diferente da educação “nacional”. É educação chamada “do berço”, ou seja, educação da maloca, da comunidade, com os pais e os mais velhos. A fala da Voz 7 Mãe diz: “A minha mãe ela é falante, mas nunca ensinou; Educar elas (filhas) que por onde elas chegarem ter educação com os mais velhos”; ou a Voz 3 Mãe: “Nós também somos mãe, pena que eu teve um, não teve muito filho Mas o que desejo pra ele o futuro pra comunidade, ajudar aqui. Vemos, ainda, acerca da educação realizada pela oralidade, na Voz 13 Pai/Avô: “Então esse ensinamento já existia, embora não na escrita, mas na parte oral”. Mesmo que não consigam escapar da educação formal, ela subsiste pelos princípios humanos de relação parental, de processo integrado na formação de crianças e jovens. Segundo Gauthier (2013, p. 339), o saber é antes resultado de uma produção social e, enquanto tal, está sujeito às revisões e às reavaliações que podem mesmo ir até a refutação completa. Assim é a troca de saberes de avós, pais aos filhos, em processo de reavaliação contínua.
Com o passar dos anos ainda permanece a cobrança de troca com os não indígenas, que levam os conhecimentos e nada retornam. A Voz 1, Mãe e Avó, uma das mais idosas da comunidade, falou na língua Makuxi e depois traduziu. Na minha experiência, entendi que ela cobrava um retorno da gravação (estudos) que estava sendo realizada, “pra quê ... leva minha voz longe? E se eu morrer, minha voz vai ficar longe. Vocês vão ganhar dinheiro de vocês, só com a voz dos parentes (referindo aos Makuxi reunidos). Nós como indígenas, vocês estão ganhando, não estão dando dinheiro pra nós”. Se dissesse está aqui o pagamento da senhora, ela diria: tudo bem, eu aceito. Tanto que no final da primeira reunião da roda de conversa comuniquei que este trabalho de pesquisa retornaria na forma de assessoria mais efetiva à comunidade/escola.
Como declara a Voz 8, que é Mãe/Avó: “A gente espera sim que eles (os filhos, netos) possam aprender, se formar, porque já tem escola”. E a Voz 12: “Hoje já tem professor pra ensinar, professora, então eles deveriam se esforçar pra aprender”. É na escola que os Makuxi parecem colocar a esperança da articulação dos saberes tradicionais com os saberes que vêm de fora. Para ter uma profissão que sirva às necessidades da comunidade, seja na saúde, autossustenção agrícola ou educação, contam com a escola. A escola que nos tempos dos avós era uma dominação, como diz a Voz 13, o Pai/Avô há esperança de ser renovada como cita a Voz 9, que é uma Mãe. E a Voz 14, que é um professor, falou sobre o experimento que fez em adequar o currículo ao jeito da comunidade. A Voz 13, Pai/Avô, critica os livros didáticos com conteúdos fora da realidade: “A escola era vista como uma penitenciária como um presidio ou uma casa de correção. Isso aí mexeu muito com a nossa cultura, principalmente dos mais idosos, então, perdeu-se esse campo. Então muitos ensinamentos nossos eu acredito que nós como pais temos que conversar que muitas vezes o que vem nos livros, o que é editado nos livros são fora da nossa realidade, são fora da nossa realidade. Porque analisando, porque ficar a cargo de alguns professores é difícil. Se todos chegassem num consenso, professores, pais, mães, aí sim, aí poderia ser que a gente chegasse em algum ponto”.
Com a escola fixada na comunidade há o estabelecimento da Educação Escolar Indígena, que configura dois perfis, do professor e do aluno, em constantes ajustes comunitários. Não há docência sem discência, as duas se explicam, e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Citando Freire, quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina ao aprender (FREIRE, 2002). Na sala de aula vi a transmissão dos saberes das disciplinas Língua Indígena Makuxi, Ciências,
Educação Física, Matemática, Língua Portuguesa, História, Prática de Projetos, Geografia, Artes no espaço e tempo de quatro paredes. E os alunos a cumprir as tarefas determinadas.
Os participantes da roda de conversa falam dos filhos como a principal preocupação pelo que eles representam para o futuro da comunidade. Ora se dirigem aos ensinamentos da sala de aula, ora falam dos alunos como aqueles que deveriam se esforçar para aprender.
Contudo, depositam confiança no docente indígena. Porque ser docente, professor, mestre ou educador, seja qual for o significado dado pela língua portuguesa, pelo leitor não indígena, será diferente daquele significado dado pela língua e experiência indígena. É um trabalho coletivo de educação, dentro e fora da escola. A Voz 13 diz: “No momento em que você manda o seu filho na escola eu acredito que todos os pais estão conscientes do que eles vão estudar. Mas precisa o reforço, não só da escrita na parte oral, na vivência de cada dia. E preciso cada pai, chegar meu filho vamos fazer isso, isso não só direcionar os trabalhos da escola, mas os trabalhos de casa também, como é o caso da criação, da plantação”.
De acordo com Paulo Freire, não é possível saber, sem uma certa forma de crescimento. Não é possível crescer, sem uma certa forma de sabedoria (FREIRE, 1997, p.
81). A educação é uma prática do saber, o que deveria ser para o indígena como na fala da Voz 9 (Mãe), referindo-se aos filhos, “e cada um deles tem que aprender, tem a escola aí, os professores então, agora tem que aprender nossa língua, tradição, nossa cultura, nossa crença, tem que aprender na nossa comunidade”. Portanto o ensino não é só prática de uma Matriz Curricular com disciplinas; e citando Sacristán (2000, p. 30), não existe ensino- aprendizagem sem conteúdos de cultura.
As falas dos Makuxi me fizeram ver a distância do currículo desejado ao currículo prescrito, na oficialidade, na Lei de Diretrizes e Bases 9.394/1996. As escolas indígenas funcionam submissas aos conselhos estaduais que prescrevem a matriz curricular, através do Art. 26. Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela (BRASIL, 2001, p. 23)30. Constatei que nas salas observadas as aulas seguem uma prática de ensino baseada na forma estabelecida por esse currículo.
Há dificuldades em se apoiar nas leis e realizar, de fato, a especificidade sociocultural, linguística, que faz a escola indígena ser diferente das escolas públicas comuns. Mesmo
30 As leis e a educação escolar indígena: Programa Parâmetros em Ação de Educação Escolar Indígena.
Organização Luís Donisete Benzi Grupioni. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Fundamental, 2001.
havendo leis, pareceres, diretrizes curriculares específicas da educação escolar indígena, como o Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas – RCNEI/1998, o Parecer 14/99 – CNE/CEB, sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Escolar Indígena, a Lei 10.172/2001, do Plano Nacional de Educação, que trata a modalidade Educação Indígena, a Resolução nº 03/99-CNE/CEB fixa Diretrizes Nacionais para o funcionamento das escolas indígenas (BRASIL, 2001, p. 37-69). Dificuldades essas que me levam a repetir a pergunta do texto: quem está envolvido nas tomadas de decisões, no que se refere ao processo de desenvolvimento do currículo? E constatar que, historicamente, essas decisões têm sido tomadas de cima para baixo; ou seja, a escola e os professores como meros executores daquilo que alguns “iluminados” decidiram de maneira dogmática, autoritária (RANGHETTI, 2011, p. 100).
É necessário estar atento à complexidade da elaboração de um currículo, entendendo a sua importância política nas definições de saberes apropriados à educação do futuro de uma comunidade indígena. Há diversas definições e formas de currículo, como se fosse dizer, há diversos caminhos para o plantio da roça do futuro. O currículo prescrito ou oficial (RANGHETTI, 2011) nem sempre é estudado, quase sempre é imposto. Segue o currículo real, da prática cotidiana da sala de aula em que o professor planeja. O currículo oculto, que não aparece no planejamento, mas acontece na troca de experiências e valores entre as pessoas. O currículo explícito, vazio, multicultural ou intercultural. E o currículo desejado cabe a cada comunidade estabelecer o conjunto de saberes específicos para o êxito de cada pessoa no âmbito do sistema próprio de educação, e elaborá-lo. De que forma?
No Quadro 7, da observação realizada em sala de aula, relacionei as disciplinas e conteúdos curriculares e as atividades realizadas pelos alunos de 5o ano. Trago aqui a amostra de três disciplinas: de Língua portuguesa, Língua Indígena Makuxi e Matemática, que comprovam as minhas reflexões. Ressalto que o quadro completo se encontra nos Apêndices do trabalho.
Quadro 7 - Disciplinas e conteúdos curriculares e as atividades realizadas pelos alunos do 5o ano do Ensino Fundamental
Disciplinas / Conteúdos Curriculares Atividades Realizadas pelos Alunos Língua Portuguesa
Leitura de Poemas; gramática; Palavras com encontro vocálico e consonantal;
Tempo: Início = 7h35 Fim = 8h30
Recortes de poemas dos livros; cópia no caderno do poema lido; exercícios no quadro;
Cada aluno levanta, lê o poema em voz alta. A maioria dos alunos é filho de professores; enquanto a professora dá atenção ao aluno que soletra, os demais escrevem, mudam de carteiras, conversam entre si.
Língua Indígena Makuxi Texto AVENTURAS; Alunos deitados no chão;