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DADOS DA OBSERVAÇÃO

No documento maria eDNA de brito - Univali (páginas 100-103)

mas eu me preocupo mais. Com os saberes também, que os nossos anciãos, nossos velhinhos, a maioria, vocês sabem que o ciclo do brasileiro é setenta anos, no máximo, e aí? E depois?

A coca-cola está aí pra trazer diabete. São coisas que agente preocupa muito. Essas crianças, esses nossos jovens, pra onde vão?”

público dependente, cuja atuação está administrativamente controlada, alguém que cumpre uma tarefa estabelecida de fora; o que é uma configuração política de seu papel profissional (SACRISTÁN, 2000, p. 168). O que resta indagar como sugestão para uma próxima pesquisa, como na prática são elaborados os saberes docentes indígenas? Podem ser pelos currículos disciplinares prescritos, ou da experiência profissional. Dessa forma, os alunos estarão em condição de meros receptores de conhecimentos.

De outra forma, equivale à escola indígena o que Gesser (2011, p. 75) afirma, de Paulo Freire, que é intolerável aceitar a educação bancária, na qual a possibilidade de ação oferecida aos alunos é a de receptores, ou de depositários. Os alunos realizam atividades de leituras de textos, leituras nos livros didáticos, escritas no quadro (os mais frequentes), cópias do quadro ou dos livros no caderno, provas escritas, correção de atividades com notas, alguns trabalhos em grupos, ouvir a explicação do professor.

Os alunos realizam as seguintes atividades correspondentes às disciplinas apresentadas no quadro. Eles respondem uma palavra ou outra na aula de língua materna makuxi, copiam as frases do quadro no caderno, trabalham em dupla, fazendo tarefas, leem e copiam os textos, elaboram exercícios de matemática, em casa ou na sala, participam de jogos na educação física, cantam o hino nacional e estadual, realizam provas de recuperação. O trabalho da sala de aula não pode descartar as necessidades da comunidade educativa para que as atividades não fiquem sendo mero saber-fazer mecânico. As exigências de um currículo prescrito cumprido pelos docentes indígenas responde aos alunos indígenas quanto aos ensinos dos saberes tradicionais?

O Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas – RCNEIndígenas traz orientações pertinentes para que se possa aproximar um pouco mais de um currículo desejado, porém, coloca a tarefa nas mãos do docente indígena:

Ao desenvolver seu trabalho nas escolas indígenas os professores têm que, diariamente, fazer escolhas e tomar decisões que exigem ações de planejamento, registro e avaliação. Que assunto vou trabalhar hoje com meus alunos? Os alunos vão estudar em grupos ou individualmente? Que tempo vou dedicar ao assunto escolhido? Vamos fazer pesquisa na aldeia ou a aula vai ser apenas dentro da sala de aula? Como vou avaliar o que os alunos aprenderam com essa atividade? Todas essas decisões acabam por desenhar um determinado currículo, ou seja, acabam por organizar e dar uma direção à experiência educativa vivida pelos alunos e pelos professores, em sua escola, num período de tempo, e essas decisões vão sofrendo mudanças, de acordo com as necessidades diversas que vão surgindo na comunidade educativa (BRASIL, 1998, p. 57).

Os recursos utilizados na prática docente têm a ver com os saberes que serão ensinados. Constatei que os recursos utilizados na sala de aula eram os comuns e simples,

como escritas e leituras no quadro. Escreviam ora os docentes e ora os discentes. Os professores D1, D2, D4 e D7 fizeram explicações individuais aos alunos. Para explicação dos conteúdos, usaram recortes de livros ou revistas, livros didáticos. Os alunos fizeram desenhos em cartolinas, atividades em grupos.

Na disciplina Prática de Projeto, a limpeza do terreno e o plantio de mudas foram realizados com algumas ferramentas fornecidas pela escola. Os horários cumpridos na sala de aula variaram de 15min a 50min. Quando havia mudança de professor de uma disciplina para outra, como programação escolar havia um tempo no espaço da sala em que os alunos brincavam. O que constatamos é que recursos, espaços e tempos são cumpridos rigorosamente, mas não estimulam muito a aprendizagem. Era tudo muito acelerado. Alguns materiais adquiridos pelos docentes. Com os recursos do ensino é que se faz acontecer a troca entre mestres e alunos, busca-se instrução e educação. Pode, na prática de sala de aula, haver pendências de materiais didáticos específicos da pedagogia indígena?

A nosso ver, significa que é o cumprimento de um currículo prescrito pela ordem estabelecida pela programação oficial. Cumprimento de 200 dias letivos anuais, sendo 24 horas semanais de aulas para que o aluno tenha cumprido, do 1o ao 5o ano, a carga horária de 4.800 horas, prescrita na Matriz Curricular do Ensino Fundamental de 9 anos para as escolas indígenas de 1o ao 5o ano (2013).

O Projeto Político Pedagógico (PPP) da Escola Estadual Indígena Tuxaua Silvestre Messias, da Maloca do Barro, está elaborado desde 2011, em processo de atualização, e aguarda reconhecimento do Conselho Estadual de Educação de Roraima. Como dizem os professores indígenas, “o PPP vai e volta é não é reconhecido, faz tempo”. Conforme Gesser (2011, p. 29), o Projeto Político Pedagógico é o principal instrumento teórico e metodológico de uma instituição educacional capaz de propor intervenções e mudanças. Os professores entram na sala, cumprem o horário e se retiram apressadamente, ocupados com outros afazeres, ou outras aulas. Longe de constatar que os indígenas não têm currículos, planejamentos, o que constatamos é que ele é diferente, tem tempos, espaços e processos próprios, e que esses estudos são necessários.

É compreensível que este trabalho dará conta de alguns aspectos da problemática entre o currículo prescrito ao desejado. Outros aspectos estão no entorno desse tema, reconhecendo que há diferentes perspectivas de abordagem. Durante as minhas reflexões, novas questões surgiram, e que registro neste espaço porque necessitam ser discutidas em outros estudos:

como, na prática, são elaborados os saberes docentes indígenas? As exigências de um currículo prescrito cumprido pelos docentes indígenas responde aos alunos indígenas quanto

ao ensino dos saberes tradicionais? Pode-se, na prática de sala de aula, haver pendências de materiais didáticos específicos da pedagogia indígena?

No documento maria eDNA de brito - Univali (páginas 100-103)

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