A pesquisa qualitativa no campo educacional, social favorece a análise crítico- dialética, fenomenológica, centrada na valorização dos sujeitos como participantes. Parti da premissa que “como seres humanos que pesquisam os significados das ações sociais de outros seres humanos, os pesquisadores são, ao mesmo tempo, sujeito e objeto de suas próprias pesquisas” (SANTOS FILHO, 2009, p. 31); em contraponto, conforme Santos Filho, à visão
dualista de sujeito-objeto da ciência social positivista. Nessa perspectiva, entendemos que é possível o “pesquisador ser capaz de conhecer as coisas como realmente são”, “os fatos são separados dos valores e o cientista tem um lado cognitivo que descobre os fatos, e um lado normativo, separado, que faz julgamentos avaliativos sobre tais descobertas” (SANTOS FILHO, 2009, p. 29-32).
Os Makuxi, da Maloca do Barro, Região Surumu, da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, serão os sujeitos participantes desta pesquisa. Identificados como agentes ativos e memória dos saberes indígenas da comunidade, essa é uma condição essencial para aproximar da resposta sobre quais são os saberes Makuxi necessários ao currículo específico. Delimitei o campo de pesquisa à Maloca do Barro, comunidade indígena, acessível por estrada, no interior do Estado de Roraima, um percurso de 180 km de Boa Vista, capital.
Os moradores da comunidade participaram no processo formativo/investigativo sobre a valorização do social quanto ao coletivo. Nós estabelecemos um diálogo, da pesquisadora com os componentes da roda de conversa, assim como com os profissionais da educação, no espaço escolar, em forma de convivência. Conversando nas ruas com as senhoras, com os professores nas horas livres, nos almoços, jantares e hora da merenda, e na troca de conhecimentos com o propósito de compreender a realidade dos professores e das comunidades indígenas em relação aos saberes docentes indígenas. Assim, repensando os saberes curriculares, seguimos a abordagem dedutiva e indutiva. Dedutiva ao buscar as definições da fundamentação teórica geral; e indutiva, ao partir dos dados que formulamos em quadros de síntese para análise. Assim, procedemos diante de que “não há dúvida de que a pesquisa qualitativa é fundamental para a educação. Ela apresenta um vínculo com as preocupações características do pensamento crítico, componente necessário às práticas emancipatórias (DEVECHI, 2010, p. 159).
Os anciãos, pais, mães, avós, tuxauas, lideranças, estudantes e professores indígenas têm saberes e experiências que no processo de investigação poderão produzir outros saberes (MEDEIROS, 2005, p. 4); com caráter de reformular e aperfeiçoar seus próprios saberes e fazeres, no aspecto de produzir subjetividade e identidade.
Em vista dessa realidade, utilizei a metodologia da roda de conversa, que tem sido cada vez mais utilizada, pela possibilidade de interação entre as pessoas, com falas de diferentes opiniões sobre algum tema.
A coleta de dados por meio da Roda de Conversa permite a interação entre o pesquisador e os participantes da pesquisa, por ser uma espécie de entrevista de grupo, como o próprio nome sugere. Isso não significa que se trata de um processo diretivo e fechado, em que se alternam perguntas e respostas, mas uma discussão focada em tópicos específicos, na qual os participantes são incentivados a emitirem
opiniões sobre o tema de interesse (IERVOLINO; PELICIONI, 2001). Entende-se que as informações produzidas nesse contexto são de caráter qualitativo, pois as opiniões expressas nessas Rodas de Conversa são ‛falas’ sobre determinados temas discutidos pelos participantes, sem a preocupação com o estabelecimento de um consenso, podendo as opiniões convergirem ou divergirem, provocando o debate e a polêmica (MELO, 2014, p. 32).
E realizei a observação em sala de aula, para conferir como o currículo estabelecido pelo Conselho Estadual de Educação de Roraima contempla e permite espaço para que os saberes indígenas desejados aconteçam. Para a execução de ambos, elaboramos roteiros, tanto para a roda de conversa como para a observação em sala de aula.
Após a pesquisa em campo, transcrevi e sistematizei as informações dos anciãos, pais, mães, avós, tuxauas e lideranças. Apreciei o “aperitivo” com os participantes, tendo o delicioso caxiri (bebida típica)27 do conhecimento. Como metáfora para contextualizar o nosso trabalho, cito o caxiri, a bebida confeccionada de macaxeira (mandioca) macerada com água, peneirada e fermentada, que os Makuxi tomam no início e durante trabalhos, reuniões, assembleias e momentos marcantes de sua história.
Primeiramente, realizamos um levantamento bibliográfico, permitindo um aprofundamento teórico-metodológico. Atribuímos a devida pertinência de livros, artigos, publicações digitais e analógicas disponíveis sobre saberes, saberes docentes e saberes docentes indígenas, currículos e planejamentos. Por se tratar de temática referente a povos indígenas, complementamos o corpus com textos de antropologia, filosofia, educação indígena, e sobre o movimento de encontros de professores indígenas. Para tanto, organizamos um levantamento de palavras, frases, cujos conceitos têm particularidades com a temática indígena, e saberes através dos referenciais conceituais.
Como professora formadora, desempenho uma função de troca de conhecimentos com os Makuxi, porque “o saber dos professores é o saber deles, e está relacionado com a pessoa e a identidade deles, com a sua experiência de vida e com a história profissional” (TARDIF, 2014, p. 11). Em busca de compreender a resposta desta pesquisa, considero importante destacar que os professores indígenas da Maloca do Barro são filhos educados pelos anciãos, pais, mães, avós, tuxauas e lideranças, e que os saberes indígenas tradicionais fazem parte de sua existência. Esse aspecto dá uma tonalidade diferente neste estudo, pelo que contempla a produção social do mundo em que vivem os Makuxi.
Ora, a pesquisadora mora e trabalha no setor de Educação Indígena da Secretaria de Educação em Boa Vista, Roraima. Para estabelecer o contato com a comunidade indígena
27 Caxiri, bebida tradicional do povo makuxi, confeccionada com mandioca. Prof. Elder Silva Marques.
Disponível em: ttp://valoreseidentidademacuxi.blogspot.com.br/. Acesso em: 13 fev. 2015.
Barro, realizamos as seguintes atividades ações: (1) houve a primeira visita à Maloca do Barro, Roraima, no início de 2014, de modo informal, para apresentar a proposta do projeto aos comunitários indígenas e receber a anuência, conforme pede a Constituição Federal; (2) participamos da primeira reunião com a presença de tuxauas, lideranças, pais, representantes de organizações indígenas, professores, gestores e pais de família. As lideranças e profissionais da educação manifestaram o interesse na participação da pesquisa, como momento de formação educacional, desde que haja retorno, insistiram em dizer várias vezes;
(3) Prosseguimos com a elaboração dos documentos ao tuxaua (chefe) da Maloca do Barro, lideranças e gestor escolar. A comunidade fornece autorização após obter os pareceres das organizações maiores, como o Conselho Indígena de Roraima – CIR, a Organização dos Professores Indígenas de Roraima – OPIRR e a Organização das Mulheres Indígenas de Roraima – OMIRR. Isso pronto; (4) encaminha-se à Fundação Nacional do Índio – FUNAI, que só autoriza com o parecer do Conselho de Ética, ambos em Brasília. É um processo dispendioso e custoso, devido aos prazos das atividades de pesquisa; porém, é o que garante a confiabilidade científica do trabalho.
Em seguida, (5) com a realização da análise do material coletado e leitura da bibliografia, partimos para a realização do texto, que aqui apresento.
Ponderamos que o resultado da roda de conversa, que foi transcrita da gravação em que constam as falas dos Makuxi, estão sem a ordem pretendida e objetivada no roteiro.
Contudo, eles falaram dos itens principais, às vezes na língua makuxi, sem intervenção da moderadora. Reorganizei o conteúdo das falas em oito categorias.
No roteiro para a observação, elencamos aspectos a serem observados sobre a escola, os discentes, os docentes, a prática do currículo e o planejamento, e o espaço de aprendizagem.
É significativo à política da educação o ponto de vista do qual se realiza uma pesquisa.
Gauthier usa a sentença “conhece-te a ti mesmo”, do oráculo de Delfos, referindo-se ao ensino que pouco se conhece de si mesmo. Mas é o “outro” que dá a definição, que descreve o que aspira e traça parâmetros do que deve ser (GAUTHIER, 2013, p. 18). As pessoas da comunidade indígena são “os outros”, sujeitos essenciais para levar em conta as dificuldades da prática dos saberes docentes, para avaliar e compreender os detalhes que implicam à criação de práticas que consolidam as especificidades socioculturais, linguísticas indígenas. A valorização da opinião dos “outros” é, aqui, mais do nunca, um ato político libertador.
Surgiram alguns impasses que fizeram adiar a pesquisa em campo, mas serviram para analisar sobre o valor de um planejamento, que não depende somente da escola na
comunidade; porém, intervém no planejamento escolar, como o início das aulas, a partir da segunda quinzena de março/2015. Houve atraso do calendário da Secretaria Estadual de Educação, devido ao lançamento de edital do Processo Seletivo Indígena para contratação de professores indígenas ao quadro temporário. Noutros anos, as aulas começam em fevereiro.
Por causa dessas mudanças, acarretou falta de merenda, material didático e falta de professores, atingindo os alunos, a parte mais vulnerável desta situação. O que nos leva a pensar na ética profissional. Segundo Gesser (2011), o planejamento ou o ato de planejar o ensino, pelo professor e por outros profissionais da educação, passa por uma conduta ética.
Por isso, cabe nos perguntar: qual ética? A ética de quem e para quem? A ética que atinge os mais frágeis do bem comum (GESSER, 2011, p. 99).