gación» (2009: 236). Na perspectiva do investigador, «las redes representan la complejidad. La representación visual no es opcional sino que es constitu- tiva de la aproximación» (2009: 236).
A ARS estuda as relações entre um conjunto de actores, procurando de- tectar padrões de interacção e explicar porque ocorrem e quais as suas consequências. Esta técnica analisa o comportamento dos actores através das redes em que estes se inserem. Neste sentido, as estruturas sociais são definidas por um padrão persistente de relações entre actores que podem assumir diferentes posições sociais. Daqui decorre que explicar a estrutura- ção das redes, a partir da análise das interacções entre indivíduos, implica compreender que o padrão de relações que constrange o indivíduo é, simul- taneamente, resultado da sua acção. Ou seja, a estrutura social resulta de um processo dinâmico (Giddens, 1987).
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diferentes dos atributos e, por isso, é imperativo o estudo das propriedades emergentes do sistema que existem ao nível micro (resultando das relações entre actores) e ao nível macro (revelando redes de redes).
Um dos aspectos mais relevantes da ARS é a detecção das consequências das estruturas sociais sobre indivíduos e grupos. O padrão de interacções sociais dos actores tem consequências directas sobre estes, tal como o mo- delo de relações de um colectivo tem efeitos directos sobre a dinâmica desse grupo. Um actor, enquanto entidade social, pode classificar-se em diferen- tes tipos e permite diversas formas de agregação. Esta definição potencia uma adequação a vários problemas de pesquisa e permite estudar diferen- tes relações dentro de um mesmo grupo, sendo possível analisar diversas estruturas sociais reveladas por ligações distintas entre o mesmo grupo de actores.
Os comportamentos dos agentes dependem em larga escala da forma como estão interligados. Da mesma maneira que potenciam a teorização sobre fenómenos de estruturas sociais, as redes providenciam igualmente meios flexíveis de organização social. Existem diferentes forças que condicionam a estruturação de uma rede: proximidade geográfica, homofilia (a tendência para nos relacionarmos com os parecidos), contágio/influência, reciprocida- de e transitividade («os amigos dos meus amigos, meus amigos são»). Estes processos sociais podem explicar a correlação entre comportamentos ou atributos de actores adjacentes numa rede social. A qualidade das relações pode ser estudada pelas propriedades anteriormente elencadas mas tam- bém quanto à intensidade e durabilidade.
A estrutura em rede origina um espaço que não se limita às características dos actores (atributos), mas ao sistema social. A metodologia da ARS assume como premissa a complexidade do mundo relacional: este é composto por redes e não por pequenos grupos com ligações entre si (Scott, 2000; Garton, Haythornthwaite e Wellman, 1997; Wasserman e Faust, 1994). Kossinets e
Watts afirmam mesmo que «social networks evolve over time, driven by the shared activities and affiliations of their members, by similarity of indi- viduals’ attributes, and by the closure of short network cycles» (2006: 88).
A ARS parte do pressuposto de que a informação flui através da interac- ção de contactos entre actores. Neste sentido, os laços entre os indivíduos são canais através dos quais circulam determinados recursos. Assim sen- do, os actores e acções são interpretados como interdependentes. Os dados em análise nesta metodologia são de ordem relacional (ligações entre os agentes) mas, com frequência, são combinados com elementos de ordem atributiva (propriedades dos agentes, individuais ou colectivas). Num pri- meiro momento, importa compreender quais as variáveis a estudar e as suas relações, com vista a revelar a estrutura do grupo e a analisar a sua dinâmica. O tipo de ligação a estudar depende do contexto. Significa isto que é necessário isolar as relações que melhor podem ajudar a compreender um determinado sistema social. Um aspecto muito interessante da metodologia de ARS é o de todas as interpretações se centrarem na relação que está a ser estudada. Neste sentido, a unidade de análise mínima é a díade (um par de actores) e a sua relação pode ser visualizada em grafos ou matrizes.
Marin e Wellman (2011) sublinham que é frequente que os laços relacio- nais sejam analisados no contexto de outras relações. Atendendo a que a estrutura social é o centro da análise, as relações entre actores existem den- tro de um tecido relacional. Borgatti et al. (2009) identificam quatro tipo de relações: similaridades, relações sociais, interacções e fluxos. A primeira categoria está directamente relacionada com a partilha de atributos; as rela- ções sociais remetem para laços afectivos, papéis sociais e/ou conhecimento;
as interacções referem-se a laços criados com base no comportamento dos actores; e os fluxos são relações que se estabelecem através de trocas de informação e/ou recursos entre os nós.
A teoria dos grafos e de matrizes é a fundação matemática de muitos concei- tos e medidas da ARS, porque permite medir propriedades estruturais para realizar operações matemáticas e também fazer deduções sociológicas pas-
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síveis de serem testadas. Um grafo é a representação gráfica de um padrão de relações e é utilizado para revelar redes e quantificar propriedades estru- turais importantes. Efectivamente, os grafos permitem identificar padrões estruturais que não podem ser detectados de outra forma. A representação de uma rede social num grafo consiste num conjunto de nodos (vértices) que estão ligados por linhas (que podem ser arestas ou arcos, consoante o tipo de relação a estudar). As matrizes são uma alternativa para representar e resumir os dados das redes, contendo exactamente a mesma informação que um grafo mas numa tabela matemática. A ARS baseia-se na análise sistemática de dados empíricos e permite, de forma relativamente precisa, operacionalizar conceitos sociais que podem ser visualizados em grafos e/ou matrizes. Esta técnica permite a aplicação empírica dos conceitos sociológi- cos de coesão, poder e reciprocidade e, atendendo a que têm propriedades emergentes de estrutura e composição, permitem operacionalizar a noção de capital social.
Wasserman e Faust (1994) isolam quatro princípios que fundamentam a teoria da Análise de Redes Sociais: 1). os actores e as suas acções são in- terdependentes, pelo que a unidade de análise não é o indivíduo mas uma entidade que é constituída por um colectivo de agentes e as relações en- tre estes; 2). a ARS baseia-se na importância dos laços relacionais entre as unidades de interacção, assumindo os vínculos entre os actores sociais como canais onde circulam fluxos de recursos; 3). as estruturas de relações permitem construir modelos de redes que revelam oportunidades ou cons- trangimentos à acção individual; 4). a estrutura social revela padrões de relações entre actores e permite conceptualizar modelos de redes. Dentro deste contexto, Portugal argumenta que:
«Os contributos da network analysis inscrevem-se em dois debates fun- damentais da tradição sociológica: o primeiro tem a ver com o estatuto das análises micro na construção da macro-sociologia, o segundo com a relação entre a estrutura social e a acção individual» (2007: s/p).
Borgatti et al. (2009) registam várias críticas que são indigitadas à ARS:
excesso de descrição, teoria meramente metodológica, negligência da sub- jectividade e intencionalidade humanas, falta de atenção à evolução das redes e à cognição dos nós. A ARS tem também algumas limitações a nível técnico, nomeadamente no que concerne ao facto de muitas das medidas de propriedades e dos instrumentos gráficos só operarem ao nível binário. A solução será dicotomizar. No entanto, nem sempre é possível analisar todas as relações dos sistemas com base no sistema binário.
No campo das Ciências Sociais, a ARS resulta «da procura de soluções para problemas teóricos e empíricos que os investigadores não conseguiam resolver à luz dos quadros conceptuais dominantes nas suas disciplinas»
(Portugal, 2007). Na Sociologia e na Antropologia Social, o conceito de rede social apareceu nos anos 30 do século passado mas situava-se num campo metafórico, na medida em que não eram estabelecidas «relações entre as re- des e o comportamento dos indivíduos que as constituem» (Portugal, 2007:
s/p). Como afirma a autora,
«durante a segunda metade do século XX, o conceito de rede social tornou-se central na teoria sociológica e deu azo a inúmeras discussões sobre a existência de um novo paradigma nas ciências sociais. No de- correr das últimas décadas, a sociologia das redes sociais constituiu-se como um domínio específico do conhecimento e institucionalizou-se progressivamente» (2007: s/p).
A primazia das relações é explicada no trabalho de Simmel (1955), que é frequentemente apontado como o antecedente teórico da Análise de Redes (Marin e Wellman, 2011). Simmel (1955) sustentava que o mundo social resultava das interacções e não da agregação de indivíduos. O autor ar- gumentava que a sociedade não era mais do que uma rede de relações e considerava a intersecção destas como o suporte que permitia definir as características das estruturas sociais e das unidades individuais.
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No século XVIII, o matemático suíço Euler desenvolveu as bases fun- dadoras da teoria dos grafos (Portugal, 2007). Esta terá sido a primeira contribuição para a metodologia da ARS. Euler resolveu o problema das pontes de Königsberg através da modelação de um grafo que transformava os caminhos em rectas e as suas intersecções em pontos (Portugal, 2007;
Marin e Wellman, 2011). Considera-se que este terá sido o primeiro grafo desenvolvido.
Enquanto base teórica, os estudos de Tönnies e Durkheim sobre sociedade e comunidades foram substancialmente importantes para a Análise de Redes Sociais. Na concepção de Tönnies, os grupos existem como laços sociais pessoais e directos através dos quais os indivíduos partilham valores e cren- ças. Durkheim sustentou uma interpretação não individualista dos factores sociais que derivam dos fenómenos de interacção de actores e criam uma realidade social que só pode ser compreendida à luz do colectivo. Em 1934, Jakob Moreno introduziu ideias e ferramentas de sociometria que visavam registar a observação e analisar a interacção social em pequenos grupos. Na década de 40, Claude Lévi-Strauss desenvolveu uma análise etnográfica das estruturas elementares de parentesco numa perspectiva próxima ao que viriam a ser os estudos futuros de análise de redes (Acioli, 2007).
Nos anos 50 do século XX, Barnes desenvolveu um estudo pioneiro nesta área e referiu, pela primeira vez, o termo «rede social». A investigação pro- curava estudar a importância das interacções individuais na definição da estrutura social de uma comunidade piscatória norueguesa. O autor isolou dois campos onde se estabeleciam relações entre os agentes e concluiu que a maioria das acções individuais não se efectivavam com base na pertença a esses domínios, defendendo um terceiro campo que seria formado por laços de parentesco, amizade e conhecimento. Barnes concebeu a estrutura baseada nessas interacções como uma rede de relações que permite com- preender os processos sociais fundamentais na formação e descrição das comunidades (Portugal, 2007; Marin e Wellman, 2011). O autor defendeu a
«necessidade de distinguir o uso metafórico do analítico no que se refere às redes» (Acioli, 2007: s/p).
Na sequência do trabalho de Barnes, Elizabeth Bott desenvolveu uma in- vestigação sobre a família e as redes de relações sociais. Portugal sublinha que este trabalho tem particular importância na medida em que reconhece
«a relação entre o carácter interno duma relação e a estrutura duma rede»
(2007: s/p). A investigadora explica que Bott considerava que a dinâmica da organização familiar dependia não só dos seus elementos mas também «das relações que estes estabelecem com outros, ou seja, de que a estrutura da rede de parentes, amigos, vizinhos e colegas tem uma influência directa na definição das relações familiares» (2007: s/p).
Milgram demonstrou, em 1967, a sua teoria dos mundos pequenos. O inves- tigador provou que era possível, em 5,2 graus, ligar pessoas desconhecidas.
A experiência, explica Molina,
«consistía en intentar hacer llegar una carta, a través de una cadena de contactos, a un destinatario del cual se disponían unas pocas informa- ciones. La media de pasos de las cadenas que lograron su objetivo (un 29
%) fue de 5,2 (sucesivos experimentos dieron el mismo resultado). De ahí la conocida expresión “seis grados de separación”. Esta característica de vivir en un mundo inabarcable pero muy próximo al mismo tiempo, no sólo es propia de las redes sociales sino que es un fenómeno ampliamen- te difundido» (2004: 39).
Como temos vindo a sustentar, e conforme explica Kozinets, o contexto teóri- co da ARS é multidisciplinar: «social network analysis has its foundations in sociology, sociometrics and graph theory, and in the structural-funcionalist line of Manchester antropologists» (2010: 50). Neves argumenta que «duas prioridades definem a análise de redes sociais: a inspiração na matemática e a análise sistemática do material empírico» (2003: s/p).
Desde o início que a ARS é guiada pela teoria formal, organizada em termos matemáticos. A investigação sobre redes sociais desenvolveu-se em duas tra- dições distintas: a dos antropólogos britânicos e a dos estudos americanos.
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Os antropólogos britânicos começam a utilizar o conceito de rede social de- vido à «rigidez das propostas teóricas dominantes» (Portugal, 2007: s/p) do clássico modelo estrutural-funcionalista, centrado essencialmente nos sis- temas culturais. A partir dos anos 50 e com os trabalhos de Barnes e Bott em destaque, os investigadores da Escola de Manchester, como foi entretan- to denominada, desviaram o foco «dos sistemas culturais para os sistemas de redes de relações sociais e desenvolveram o conceito de rede social de uma forma sistemática» (Portugal, 2007: s/p).
A tradição americana desenvolveu-se em duas abordagens diferentes, das quais derivam os actuais estudos de ARS: a linha formalista, herdeira dos estudos de Simmel (1955), que se centra na morfologia das redes e o seu impacto nos comportamentos dos indivíduos e dos grupos; e a abordagem estruturalista, que define a relação como a unidade básica da estrutura dos sistemas sociais e procura responder a problemas centrais da teoria socioló- gica, utilizando uma grande panóplia de conceitos e métodos de análise de redes (Portugal, 2007; Miller e Page, 2007; Marin e Wellman, 2011).
A ARS continua a ser um campo multidisciplinar e, nos últimos anos, tem conhecido um aumento substancialmente significativo no que concerne aos investigadores dedicados a esta área e ao número de trabalhos publicados.
Numa revisão do estado da arte da ARS, Watts argumenta que
«Spurred by the rapidly growing availability of cheap yet powerful computers and large-scale electronic datasets, researchers from the mathematical, biological, and social sciences have made substantial progress on a number of previously intractable problems, reformulating old ideas, introducing new techniques, and uncovering connections be- tween what had seemed to be quite different problems» (2004a: 243).
Erlich e Carboni notam que
«SNA became much more popular with researchers in the early 1970s when advances in computer technology made it possible to study large groups. Within the last ten years, SNA has risen to prominence in a number of fields, including organizational behavior, anthropology, so- ciology, and medicine» (2005: 2).
Duncan Watts (2004a) sublinha que muitos dos novos trabalhos se enqua- dram no âmbito das ciências da complexidade, numa área definida como
«new science of networks». Esta nova área científica emergente estuda redes complexas e assume uma visão relacional do mundo. Neste sentido, inter- preta a sociedade contemporânea como uma rede complexa. Assumindo como pressuposto os estudos de Stanley Milgram conhecidos como «small world studies», a «new science of networks» defende a complexidade relacio- nal do mundo e estuda redes complexas que estão interligadas. O subtítulo do livro Linked, de Albert-László Barabási (2003), elenca precisamente esta perspectiva: «how everything is connected to everything and what it means for business, science, and everyday life».
As duas abordagens clássicas da Análise de Redes têm sido o ponto de par- tida para inúmeros estudos e novas áreas de investigação, como a «new science of networks».