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Redes sociais e comunidades virtuais

No documento NA INTERNET REDES SOCIAIS - LabCom (páginas 98-107)

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tamentais porque não é necessário que exista sempre uma representação visual, sendo possível que a identidade do utilizador se resuma a um userna- me. Indiscutivelmente, o ciberespaço permite acima de tudo uma extensão da nossa identidade. O Eu passa a ser fragmentado ou, na perspectiva pós- -moderna (Turkle, Poster, Stone), múltiplo.

Pierre Lévy (2001) desmistificou a teoria dos opostos: o real e o virtual não são antagónicos e influenciam-se mutuamente. Assim, a construção da identidade online sofre influências de elementos de exterioridade ao virtual, importados do offline. Por outro lado, as experiências do utilizador com o espaço de determinada rede social interferem directamente na construção do Eu. As experiências imersivas em ambientes virtuais permitem a inte- gração do utilizador num espaço e na rede, enquanto esfera social, de forma activa, proporcionando novas relações e práticas sociais partindo da premis- sa de elemento integrado na comunidade.

A identidade online é um elemento de grande destaque em qualquer tipo de Comunicação Mediada por Computador mas, no caso da Sociedade 2.0, assume com particular relevância, atendendo a que «new and reproduced patterns of social relations are evident in cyberspace as the desire to con- trol virtual space results in the formation of so-called “cybercommunities”»

(Fernback, 1997: 37). O virtual, sendo real, é uma extensão do mundo offline.

Daqui se infere que as comunidades virtuais e as redes sociais desmate- rializam as relações sociais convencionais, na medida em que potenciam a criação de construção social partilhada que se concretiza em identidades colectivas, que simulam a presença através da interface e contextualizam a criação de laços sociais que efectivam sentimentos de pertença aos grupos.

premissas que assumimos é a de que a relação entre a tecnologia e a dimen- são social da sua utilização remete directamente para um novo ecossistema de comunicação, que reflecte a fusão destas duas esferas. A este propósito, atente-se nas palavras de Jouët:

«Communication practices are often analysed as being the product of changes in communication systems and equipment, which are though to define de facto the way in which individuals use them. Such technical determinism, however, should be avoided. The same can be said of the limiting model of social determinism which ignores the role of technical objects and rather sees social change as the principal factor determining usage» (2009: 215, 216).

Procurando superar as limitações tanto do determinismo tecnológico e como do social, tentamos nesta secção analisar os grupos formados atra- vés da interacção mediada digitalmente. Neste sentido, consideramos que as Comunicações Mediadas por Computador potenciam a comunicação entre indivíduos dispersos geograficamente, mas também geram coope- ração mediada digitalmente e são potenciais instrumentos de mobilização das sociedades info-incluídas (Rheingold, 2002). As dinâmicas sociais que ocorrem no ciberespaço remetem para interacções que se desenvolvem via CMC, geram fluxos de trocas e sustentam estruturas sociais (Recuero, 2009). A representação colectiva centra-se agora nos novos padrões de inte- racção social que decorrem da utilização individual e conjunta da tecnologia (Castells, 2003). Recuero argumenta que «o início da aldeia global é também o início da desterritorialização dos laços sociais» (2009: 135).

Recuero apresentou comunidade virtual como a definição para «os agru- pamentos humanos que surgem no ciberespaço, através da comunicação mediada por computador» (2003a: s/p). A questão geográfica esbate-se e a construção social partilhada torna-se um elemento de destaque. Serão então as comunidades virtuais sinónimo de redes sociais na Internet? Adoptando a perspectiva de Recuero (2006), e de acordo com o que referimos ante- riormente, consideramos que as comunidades virtuais são antes tipos de

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redes sociais. Mas antes de conceptualizar redes sociais na Internet, impor- ta contextualizar a temática e operacionalizar a distinção entre comunidade e rede social.

Wellman e Gulia (1999) defendem que as redes são sistemas de relações centrados nos indivíduos e não nos grupos, o que remete para o conceito de «individualismo em rede» (Castells, 2003; Recuero, 2009). Os autores diferenciam rede social e comunidade com base na ideia de que a última se sustenta em laços fortes de interacção social, identificação e interesse comum. Daqui decorre que o conceito de rede remete para a definição de grupos com laços menos fortes e sem localização geográfica, permitindo a associação de indivíduos dispersos no espaço. Wellman e Gulia consideram que a agregação de indivíduos em grupos evidencia sempre graus de densi- dade superiores aos das redes sociais, sendo que assumem as comunidades como propriedades destas. Na mesma linha de raciocínio, Recuero conside- ra que

«a comunidade virtual é um conjunto de atores e suas relações que, através da interação social em um determinado espaço constitui laços e capital social em uma estrutura de cluster, através do tempo, associado a um tipo de pertencimento. Assim, a diferença entre a comunidade e o restante da estrutura da rede social não está nos atores, que são sempre os mesmos, mas sim nos elementos de conexão, nas propriedades das redes» (2009: 144, 145).

Na perspectiva da autora, deve limitar-se «a noção de comunidade ao núcleo da maioria dos grupos sociais» (2009: 146). Com base neste argu- mento, a investigadora propõe uma tipologia das comunidades virtuais que é, em simultâneo, o desenho da sua topologia: comunidades emergentes (baseiam-se em interacções recíprocas e assumem um núcleo com laços for- tes e periferia com nós mais fracos); comunidades de associação ou afiliação (resultam de interacção social reactiva e resumem vários clusters – grupos –

conectados entre si); e comunidades híbridas (compreendem comunidades emergentes e de associação, assumindo diferentes formas simultâneas de construção do grupo social).

«A cooperação é o processo formador das estruturas sociais», defende Recuero (2006: s/p). Decorrendo desta premissa, compreendemos redes sociais como redes de comunicação que interligam indivíduos com laços co- muns e potenciam uma estrutura dinâmica de relações interpessoais, sem que todos os indivíduos estejam directamente ligados mas antes associados em rede. Nesta perspectiva, «a organização de uma rede social compreen- deria a totalidade de relações de determinado grupo» (Recuero, 2005a: s/p).

Logo, as redes sociais nascem directamente de interacções sociais entre membros do mesmo grupo ou de grupos diferentes. É neste sentido que entendemos a diferença entre rede social e comunidades.

No pensamento de Castells, rede pode ser definida como «um conjunto de nós interligados» (2003: 606). O autor argumenta que a topologia «definida por redes determina a distância (ou intensidade e frequência da interacção) entre dois pontos (ou posições sociais) é menor (ou mais frequente ou mais intensa) se ambos os pontos forem nós de uma rede do que se não lhe per- tencerem» (2003: 606). Castells considera que «uma estrutura social, com base em redes, é um sistema altamente dinâmico, aberto, susceptível de inovação e isento de ameaças ao seu equilíbrio» (2003: 607).

Para Garton, Haythornthwaite e Wellman (1997), o estudo das redes sociais foca principalmente as relações entre pessoas e os padrões dessas relações.

As ligações entre dois actores de uma rede social traduzem-se nos laços sociais: «a estrutura de uma rede social compreende aquilo que ela possui de mais permanente, ou ainda, o resultado de interacções repetidas. Trata- -se de uma sedimentação dessas trocas que pode ser observada através dos laços sociais e do capital social» (Recuero, 2005a: s/p). Compreende-se as- sim que as comunidades são grupos (clusters) dentro das redes, revelando núcleos com laços mais estreitos do que a rede geral e, neste sentido, mo- bilizando um capital social distinto da estrutura em que estão inseridos. A

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representação espacial existe mas não numa dimensão territorial, permi- tindo a tecnologia que as redes e as comunidades se centrem na ideia do

«individualismo em rede» (Wellman e Gulia, 1999; Castells, 2003; Recuero, 2009). Nesta perspectiva, podemos afirmar que o que constitui as comuni- dades é a interacção social mútua e os vínculos de relação e não o território.

Demartis define mesmo comunidade como «as colectividades em que se en- contra um elevado grau de coesão baseado em valores, interesses, normas e costumes mais ou menos conscientemente partilhados pelos membros»

(2006: 257).

A reinvenção do conceito de comunidade surge com a Internet. Rheingold (1996) considera que o aparecimento das comunidades virtuais se deve ao facto das novas tecnologias se terem implementado na sociedade e à dimi- nuição dos espaços públicos “reais”. Na sua obra, a comunidade virtual é apresentada como algo parecido com um ecossistema de subculturas e gru- pos espontaneamente constituídos. Efectivamente, as comunidades virtuais são agregados sociais que surgem na rede, com base em interesses comuns e com sentimento de pertença. Perde-se aqui a noção de comunidade com base no determinismo territorial. A rede é um espaço de espaços (Castells, 1996), que promove lugares e não-lugares (Augé, 1994; Silva, 1999).

A conceptualização de comunidade, seja tradicional ou virtual, implica três conceitos: identidade, sociabilidade e a noção de consciência colecti- va – desenvolvida por diversos autores em épocas diferentes, como Émile Durkheim (1964) e Pierre Lévy (2004). Mas a ausência de território e as (novas) formas de agregação de indivíduos na Internet alteram os pilares da comunidade tradicional, como tivemos a oportunidade de referir anterior- mente. Ora, o conceito de Web 2.0 introduz uma imagem de “amplificador social”, o que nos remete para uma abordagem de cultura participativa e, portanto, diferente da primeira ideia de comunidade virtual. E é precisa- mente neste contexto de novas sociabilidades que se opera uma alteração no conceito.

Lee e Vogel (2003) trabalharam uma definição de comunidade virtual a partir desta ideia, apresentando o conceito como um espaço electrónico suportado por informação tecnológica, que se centra na comunicação e in- teracção dos elementos participantes para gerar conteúdos, resultando em ligações entre os utilizadores. Nasce a Comunidade 2.0, que remete para três princípios: participação, mobilidade e poder. Daqui decorrem noções como democracia, acesso, equidade, diversidade e independência.

Numa abordagem da Internet como uma esfera tecnosocial, Cavanagh (2007) apresentou o conceito de comunidade na era digital como estando po- sicionado num ponto de intersecção entre geografia, comunicação e cultura.

Do ponto de vista sociológico, a autora considera que existem duas questões em debate: a relação entre a Internet com a vida e as comunidades offline;

e a intersecção entre o físico e o espaço electrónico. Cavanagh afirma que o novo cenário digital enuncia duas perspectivas de estudo: a natureza das comunidades online e como é que estas podem representar o mesmo papel integrativo/integrante das comunidades tradicionais; a representação dos lugares físicos (onde vivemos) e a análise de como é que os conceitos de flu- xos e de espaços, que Castells (2003) postulou, se (inter) relacionam.

A evolução dos estudos sobre redes sociais está directamente relacionada com a progressão tecnológica. Recuero afirma que «a novidade das novas abordagens sobre redes e sua possível contribuição para o estudo das redes sociais está no facto de perceber não como determinada e determinante, mas como mutante no tempo e no espaço» (2005a: s/p). A Internet assume- -se actualmente como um novo espaço de sociabilização. Daqui se infere que as redes sociais na Web nascem da interacção mediada por computador e a nova sociabilidade compreende-se na medida em que através de ambientes espácio-temporais distintos, é possível gerar laços sociais. No entanto, as re- lações que se geram entre os actores sociais são claramente diferenciadas, na medida em que o espaço da nova sociabilidade, das interacções mediadas por computador, é o «território virtual» (Recuero, 2008a: 66). E a técnica é determinante para a definição das ligações.

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Gabriela Zago (2008a) considera que no contexto da Web, a importância do capital social se desenha com base numa estrutura tripla: construção da reputação online, difusão de informações e criação e manutenção de laços sociais. A questão da visibilidade social online está directamente associada a uma ideia de status/reputação, que se centra na partilha e nas ligações com o outro. Neste contexto, Recuero propõe um estudo que passe «pela análise dos laços sociais construídos entre os atores sociais da rede, pelas interacções que constituem esses laços e pelo capital social produto do mes- mo» (2008a: 66).

Como sublinhámos anteriormente, as ferramentas de interacção digital sus- tentam a conectividade social. A inteligência colectiva na Internet traduz então os processos de comunicação, cooperação e conflito que se verificam entre e em diferentes grupos (Tapscott e Williams, 2006), que se materiali- zam em redes sociais e comunidades virtuais.

REDES SOCIAIS

No âmbito das Ciências Sociais, o indivíduo é visto como um conjunto de atributos que causa comportamentos.

Avaliam-se os atributos individuais e correlacionam-se entre si. Já na Análise de Redes Sociais (ARS), estudam- -se as relações entre um conjunto de actores com vista a detectar modelos de interacção social. O objectivo des- ta metodologia é explicar o comportamento dos actores através das redes em que estes se inserem – a questão da estrutura social.

A Análise de Redes Sociais é um campo multidisciplinar que resume um conjunto de métodos relacionais para a compreensão e identificação sistemática das conexões entre actores de uma estrutura social. Trata-se de uma metodologia que estuda as relações entre entidades e objectos de qualquer natureza. Em última instância, a ARS é a metodologia aplicada ao estudos das relações entre actores sociais.

Inicialmente, a Análise de Redes centrava-se no estudo de sistemas de transportes, sistemas geográficos, sis- temas de telecomunicações, sistemas informáticos e sistemas electromagnéticos. Quando foi utilizada para a observação das relações sociais, esta metodologia revelou-se crucial para a análise de problemas com- plexos que traduzem as interacções entre estruturas sociais e acções individuais (Scott, 2000). Molina subli- nha que «las expresiones “ciencia de las redes”, “análisis de redes sociales”, “teoría y análisis de redes sociales”

reflejan esta pluralidad de enfoques y objetos de investi-

Capítulo 4

gación» (2009: 236). Na perspectiva do investigador, «las redes representan la complejidad. La representación visual no es opcional sino que es constitu- tiva de la aproximación» (2009: 236).

A ARS estuda as relações entre um conjunto de actores, procurando de- tectar padrões de interacção e explicar porque ocorrem e quais as suas consequências. Esta técnica analisa o comportamento dos actores através das redes em que estes se inserem. Neste sentido, as estruturas sociais são definidas por um padrão persistente de relações entre actores que podem assumir diferentes posições sociais. Daqui decorre que explicar a estrutura- ção das redes, a partir da análise das interacções entre indivíduos, implica compreender que o padrão de relações que constrange o indivíduo é, simul- taneamente, resultado da sua acção. Ou seja, a estrutura social resulta de um processo dinâmico (Giddens, 1987).

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