A cultura participativa e colectiva da Internet, como defendemos anterior- mente nesta secção, é baseada na agregação de indivíduos. Neste sentido, a construção da identidade individual e a criação de sentimentos de pertença e presença nos ambientes sociais são elementos centrais na abordagem das comunidades virtuais e redes sociais na Internet como veículos potenciado- res de sociabilidade e conhecimento.
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Um aspecto de grande relevância é o de que o Eu, no cenário digital, é cons- truído pela linguagem (independentemente do suporte) e pelas interacções.
As construções narrativas de identidade no ciberespaço estão também as- sociadas à questão da visualização: os interfaces gráficos materializam o espaço dos lugares, o que permite simular a presença. A pertença está di- rectamente associada aos outros dois conceitos e efectiva-se na construção social partilhada que resulta da interacção social. O sentimento de presença acontece via interface (através da sincronização de conteúdos e da simula- ção de espaço) e está associado à noção de identidade individual e colectiva que cada utilizador tem, bem como aos elementos que permitem a criação de laços sociais e, consequentemente, a sensação de pertença à comunidade.
Numa abordagem da Internet enquanto espaço de cultura participativa e colectiva, Cavanagh defende que «the theme of hyper-identity comes to the fore in so far as it is inherently tied to the Internet’s functionality as a “so- cial network”» (2007: 121). O argumento da rede social remete para a ideia de uma sociedade ligada em rede, construída com base numa identidade colectiva fragmentada: «cyberspace is a repository for collective cultural memory – it is popular culture, it is narratives created by its inhabitants that remind us who we are, it is life as lived and reproduced in pixels and virtual texts» (Fernback, 1997: 37).
A imagem, materializada via interface, é um elemento que pode condicio- nar a mutação da identidade na rede. Turkle (1995) associa a construção de personas online com manifestações de personalidade, defendendo que as identidades virtuais são objectos que potenciam o pensamento. Neste sen- tido, o «online self» é múltiplo, transitório, está em permanente processo de (re)desenvolvimento num contexto social porque não é passível de ser observado da mesma forma que o «offline self». A autora sublinha que
«na história da construção da identidade na cultura da simulação, as experiências na Internet ocupam lugar de destaque, mas essas expe- riências só podem ser entendidas como parte de um contexto cultural mais vasto. Esse contexto é a história da erosão das fronteiras entre o
real e o virtual, o animado e o inanimado, o eu unitário e o eu múltiplo, que está a ocorrer tanto nos domínios da investigação científica de ponta como nos padrões de vida quotidiana» (1995: 13).
Turkle argumenta que a virtualidade se concretiza «enquanto espaço de afir- mação social» (1995: 355). Nesta perspectiva, a autora considera que «novas imagens de multiplicidade, heterogeneidade, flexibilidade e fragmentação dominam o pensamento actual sobre a identidade humana» (1995: 263).
Segundo Turkle, «a Internet converteu-se num laboratório social significa- tivo para a realização de experiências com as construções e reconstruções do eu que caracterizam a vida pós-moderna. Na sua realidade virtual, moldamo-nos e criamo-nos a nós mesmos» (1995: 265).
Na mesma linha de raciocínio, Silva defende que «a cibercultura tem pos- sibilitado mudanças nas relações do homem com a tecnologia e entre si, gerando novas formas de sociabilidade. Estas novas formas de sociabilidade estão condicionadas pelo aparecimento de novas identidades sociais» (2004:
s/p). Efectivamente, «o assumir de outras identidades no ciberespaço, é um acto inevitável e inconsciente ao qual os utilizadores não podem escapar»
(Júlio, 2005: s/p). No entanto, a diferença assume-se agora nos traços de mutação: «quando atravessamos o ecrã para penetrarmos em comunida- des virtuais, reconstruímos a nossa identidade do outro lado do espelho»
(Turkle, 1995: 261). Daqui decorre que «as identidades múltiplas perderam grande parte do seu carácter marginal. Muitas pessoas apreendem a iden- tidade como um conjunto de papéis que podem ser misturados e acoplados, cujo leque variado de exigências precisam de ser harmonizadas» (Turkle, 1995: 265).
O anonimato da rede, as suas especificidades de interacção e comunicação, assim como a selecção de integração social por interesses e a ausência (pelo menos notória) de hierarquização, permitem compreender que a construção do Eu ultrapassa os elementos de aparência que são foco central no mundo offline. O facto de não existir presença física permite aos utilizadores da rede construir uma persona baseada nas questões emocionais e compor-
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tamentais porque não é necessário que exista sempre uma representação visual, sendo possível que a identidade do utilizador se resuma a um userna- me. Indiscutivelmente, o ciberespaço permite acima de tudo uma extensão da nossa identidade. O Eu passa a ser fragmentado ou, na perspectiva pós- -moderna (Turkle, Poster, Stone), múltiplo.
Pierre Lévy (2001) desmistificou a teoria dos opostos: o real e o virtual não são antagónicos e influenciam-se mutuamente. Assim, a construção da identidade online sofre influências de elementos de exterioridade ao virtual, importados do offline. Por outro lado, as experiências do utilizador com o espaço de determinada rede social interferem directamente na construção do Eu. As experiências imersivas em ambientes virtuais permitem a inte- gração do utilizador num espaço e na rede, enquanto esfera social, de forma activa, proporcionando novas relações e práticas sociais partindo da premis- sa de elemento integrado na comunidade.
A identidade online é um elemento de grande destaque em qualquer tipo de Comunicação Mediada por Computador mas, no caso da Sociedade 2.0, assume com particular relevância, atendendo a que «new and reproduced patterns of social relations are evident in cyberspace as the desire to con- trol virtual space results in the formation of so-called “cybercommunities”»
(Fernback, 1997: 37). O virtual, sendo real, é uma extensão do mundo offline.
Daqui se infere que as comunidades virtuais e as redes sociais desmate- rializam as relações sociais convencionais, na medida em que potenciam a criação de construção social partilhada que se concretiza em identidades colectivas, que simulam a presença através da interface e contextualizam a criação de laços sociais que efectivam sentimentos de pertença aos grupos.