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A premissa da “Internet of Things”, como potencial de inteligência colectiva, é explicada pelos autores:
«Many people now understand this idea in the sense of “crowdsourcing”, meaning that a large group of people can create a collective work whose value far exceeds that provided by any of the individual participants.
The Web as a whole is a marvel of crowdsourcing, as are marketpla- ces such as those on eBay and craigslist, mixed media collections such as YouTube and Flickr, and the vast personal lifestream collections on Twitter, MySpace, and Facebook. Many people also understand that applications can be constructed in such a way as to direct their users to perform specific tasks, like building an online encyclopedia (Wikipedia), annotating an online catalog (Amazon), adding data points onto a map (the many web mapping applications), or finding the most popular news stories (Digg, Twine)» (2009: 2).
O’Reilly e Battelle consideram que o processo de transformação em curso está a reformular a esfera social no seu todo (a sociedade mundial, online e offline) e terá grandes repercussões: «the new direction for the Web, its col- lision course with the physical world, opens enormous new possibilities for business, and enormous new possibilities to make a difference on the wor- ld’s most pressing problems» (2009: 10). Num primeiro momento parece evidente que a mudança ocorre em termos individuais, pelo que é impera- tivo compreender como é que o receptor foi convertido em utilizador activo no processo de comunicação.
nicas transformam o receptor num utilizador com capacidade para definir percursos, ritmos, estilos de navegação e interacção com o sistema e com outros utilizadores.
Enquanto novo espaço antropológico, o ciberespaço implica efectivamente uma alteração substancial em relação ao paradigma da comunicação de mas- sas: o receptor passa a ser utilizador. Neste sentido, as tecnologias vieram introduzir novas formas de discurso e de leitura. A narrativa clássica do mo- delo tradicional de comunicação «um-todos» dilui-se com as potencialidades da rede. A interactividade enquanto processo de interacção e comunicação que se efectiva em ambientes informáticos via interface ocorre a dois ní- veis: entre utilizadores e entre utilizadores e a aplicação, dependendo de cinco dimensões que se situam na intersecção dos ambientes da tarefa e da máquina: navegação – as possibilidades do utilizador percorrer a apli- cação; conteúdo – a estrutura e apresentação do conteúdo; adaptabilidade – relaciona-se directamente com a eficiência e a eficácia; controlo – possibi- lidade do utilizador controlar a sua navegação, seja no ritmo, na sequência e/ou ao nível dos conteúdos; e comunicação – ferramentas de comunicação que permitam o diálogo entre emissor e receptor (Amaral, 2010).
Os receptores foram efectivamente convertidos em utilizadores, conceito que congrega a lógica do «Emerec», definida por Jean Cloutier (1975), em que o receptor é simultaneamente emissor. Do ponto de vista do processo de comunicação, consideramos que o modelo se altera: passamos de uma comunicação unilateral e vertical dos meios de comunicação de massas para uma perspectiva individualizada (no sentido em que é o utilizador a fazer as suas escolhas e, consequentemente, a mediar a sua própria comu- nicação), personalizada (o receptor agora convertido em utilizador), bilateral (efectivam-se trocas para além do feedback indirecto) e horizontal (emissor e receptor estão no mesmo nível de acesso à comunicação).
O ciberespaço permite um dispositivo de comunicação «todos-todos», por oposição aos media tradicionais/clássicos – relação «um-todos». A comuni- cação recíproca é possível no telefone («relação um-um»), mas não permite a
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construção de um contexto comum, «nem uma visão global do que se passa no conjunto da rede» (Lévy, 2001: 109). O ciberespaço, onde o indivíduo é potencial receptor e emissor, permite a exploração de um espaço de comu- nicação que remete para uma rede de significações, que «está entregue à partilha e à reinterpretação dos participantes em dispositivos de “comuni- cação todos-todos”» (2001: 109).
O desenvolvimento do paradigma da individualização e, paradoxalmente, da cibersociedade (ou tribos cibernéticas) introduz os self media e os social media como uma extensão dos novos media e uma consequência da «Era de Emerec» (Cloutier, 1975). A Internet, enquanto nova esfera da opinião pública (à escala global), permite a democratização da difusão de comuni- cação. O fenómeno da auto-edição materializa-se nos referidos suportes de self media e social media. O receptor é agora simultaneamente emissor, as- sumindo um papel (pró) activo na comunicação e manipulando um novo elemento: a interface. O início da chamada Web 2.0, com todo o seu poten- cial de interacção e participação, potenciou o início deste novo paradigma sócio-comunicacional.
Assumindo a Comunicação como um processo de dimensão social e legiti- mação da opinião, os self media e os social media, enquanto dispositivos de publicação onde coexistem o profissional e o amador, introduziram mudan- ças na interacção via Web. O pleno da «Era de Emerec» de Jean Cloutier e a materialização da «aldeia global» de Marshall McLuhan acontecem com as plataformas de auto-edição, que criaram o utilizador activo. O receptor pode agora intervir directamente na comunicação e tem possibilidades técnicas antes inimagináveis: pode publicar à escala global. O conceito de utilizador materializa-se na lógica da comunicação virtual numa esfera pública sem fronteiras. Pierre Lévy (2001) entende que ciberespaço é mais do que a infra-estrutura da comunicação digital interactiva que tem lugar na rede, englobando todos os fenómenos e elementos que intervêm nos processos comunicativos que se desenvolvem neste espaço antropológico.
Ultrapassando o conceito de mera instância técnica, o ciberespaço mate- rializa as expressões da Internet como uma rede de redes ou um espaço de espaços, conforme postulou Castells (1996, 2000).
A introdução das novas tecnologias nas esferas pública e privada da socieda- de remete para o processo contemporâneo de desmaterialização do espaço e de instantaneidade temporal que está associado ao conceito de ciberespaço.
Lévy (2001) defende que com a virtualização surgem novas velocidades e es- paços mutantes. Neste sentido, o movimento da Cibercultura reinventa uma cultura nómada que se materializa num espaço que se confunde, per si, com a própria noção de esfera pública. Os utilizadores navegam em redes dentro de redes, ultrapassando as fronteiras espaciais e temporais e potenciando a criação de vários espaços públicos.