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Base teórico-metodológica

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 91-97)

3 METODOLOGIA

Toda pesquisa necessita seguir um percurso metodológico, contudo há muitos caminhos possíveis. Para a realização desta investigação, optaremos por construir um percurso metodológico que melhor atenda à natureza do nosso objeto de estudo. Dessa forma, projetaremos caminhos, mas pretendemos evitar conclusões a priori, extraídas de ideias elucidadas na introdução. Isso significa que respeitaremos o andamento da pesquisa de campo, reavaliaremos o caminho traçado, faremos modificações à medida que novos fatos forem encontrados e replanejaremos sempre que necessário. Tudo com vistas ao enriquecimento das observações realizadas e à confiabilidade da pesquisa, sem esquecer que estaremos num contexto educativo pré-escolar.

A produção de conhecimentos nessas duas categorias de profissionais também é distinta. Enquanto os matemáticos, de um lado, estão preocupados em produzir, por meio de processos hipotético-dedutivos, novos conhecimentos e ferramentas matemáticas que possibilitam o desenvolvimento da matemática pura e aplicada, os educadores matemáticos, de outro, realizam seus estudos utilizando métodos interpretativos e analíticos das ciências sociais e humanas, tendo como perspectiva o desenvolvimento de conhecimentos e práticas pedagógicas que contribuam para uma formação mais integral, humana e crítica do aluno e do professor (FIORENTINI E LORENZATO, 2012, p. 4, grifo do autor).

Diante do exposto acima, admite-se que há uma diferença entre os profissionais que atuam na área da matemática. Então, é necessário esclarecer que a educação matemática surgiu no Brasil há pouco mais de quarenta anos, a partir do Movimento da Matemática Moderna, no final da década de 1970 e durante a década de 1980. Neste mesmo período surgem a SBEM e os primeiros programas de pós-graduação em educação matemática.

Constata-se que muitas pesquisas vêm crescendo nesta área nos últimos anos. Contudo, não podemos ignorar que a matemática é uma ciência estruturada em bases sólidas bem definidas, enquanto a educação matemática é uma área de estudos nova, ainda estruturando sua metodologia de investigação (FIORENTINI; LORENZATO, 2012).

Definido que esta pesquisa se valerá das ciências sociais e humanas, é aceitável que optemos por uma abordagem qualitativa. Lüdke e André (1986) revelam que cresce cada vez mais o uso dessa abordagem por pesquisadores da área da educação. Entretanto, a questão da confiabilidade científica traz ainda muitos questionamentos quanto ao uso desta metodologia.

Segundo Bogdan e Biklen (1982 apud LÜDKE; ANDRÉ, 1986), as abordagens qualitativas apresentam cinco características básicas:

A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento. [...] Os dados coletados são predominantemente descritivos. [...] A preocupação com o processo é muito maior do que com o produto. [...] O “significado” que as pessoas dão às coisas e à sua vida são focos de atenção especial pelo pesquisador. [...] A análise dos dados tende a seguir um processo indutivo (LÜDKE; ANDRÉ, 1986, p. 11).

Essas características serão consideradas por esta pesquisa, que buscará uma descrição rigorosa da realidade presenciada, preocupando-se em evidenciar mais o processo que o resultado final, dentro de um contexto cultural amplo.

Assim, para atender aos objetivos deste estudo, utilizaremos a modalidade de investigação da pesquisa naturalista ou de campo, pois propõe construir os dados diretamente na sala de aula, no ambiente escolar.

Em consonância com a modalidade de pesquisa selecionada, consideramos apropriado utilizar um tipo especial de pesquisa de campo: a técnica da observação participante ou etnográfica, com intervenções sempre que se fizerem necessárias.

De acordo com Lüdke e André, a técnica etnográfica, que antes era muito usada por antropólogos e sociólogos, começou a ser mais efetivamente usada na área da educação na década de 1970. “[...] os pesquisadores da área de educação começaram também a fazer uso dessas técnicas, o que deu origem a uma nova linha de pesquisas, que tem recebido o nome de

‘antropológica’ ou ‘etnográfica’” (LÜDKE; ANDRÉ, 1986, p. 13).

Esse novo uso das técnicas etnográficas em abordagens qualitativas na educação requer, segundo os autores, alguns cuidados, em função das adaptações. Por isso, a presente pesquisa de dissertação se utilizará de alguns pressupostos desta técnica e terá cautela ao usar descrições oriundas da observação participante. Os relatos serão produzidos detalhadamente, com prudência, sem ignorar os significados culturais transmitidos pelo grupo observado.

Lüdke e André (1986) elucidam que, de posse dos dados, no transcorrer da pesquisa de campo, e não somente no final, há necessidade de explicar a realidade observada, confrontando-a com o estudo de forma mais ampla. Em outras palavras, é preciso realizar análises à luz do referencial teórico escolhido para fundamentar a pesquisa. A relação entre realidade e teoria permitirá encontrar evidências que oportunizarão a interpretação e a compreensão do fenômeno estudado. Essa elucidação poderá trazer evidências positivas ou negativas frente às teorias abordadas.

As características de um bom etnógrafo também são citadas por Lüdke e André (1986). Um bom pesquisador deverá ter competência teórica sobre o assunto estudado para selecionar os aspectos mais relevantes para sua pesquisa, utilizando os procedimentos metodológicos mais adequados para a realidade na qual estiver inserido.

Segundo Lüdke e André (1986), para que uma observação possa ser considerada método científico, é necessário que ela seja controlada e sistemática. Assim, será estabelecido um planejamento cuidadoso de todas as etapas para a realização da pesquisa de campo.

Segundo os autores, a observação nas abordagens qualitativas é

Usada como o principal método de investigação ou associada a outras técnicas de coleta, a observação possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado, o que apresenta uma série de vantagens. Em primeiro lugar, a experiência direta é sem dúvida o melhor teste de verificação da ocorrência de um determinado fenômeno. “Ver para crer”, diz o ditado popular (LÜDKE; ANDRÉ, 1986, p. 26).

Por isso, esta pesquisa pretende uma aproximação com os sujeitos da pesquisa e o acompanhamento passo a passo de como todo o processo acontece.

Os mesmos autores sugerem que o pesquisador esteja sempre o mais próximo possível do momento da observação e que registre o dia, a hora, o local e a duração da observação.

Eles também indicam que é importante destacar o registro das falas, as citações e as observações pessoais do pesquisador.

A observação participante ou etnográfica, segundo Fiorentini e Lorenzato,

É um tipo de estudo naturalista ou etnográfico em que o pesquisador frequenta os locais onde os fenômenos ocorrem naturalmente. A coleta de dados é realizada junto aos comportamentos naturais das pessoas quando essas estão conversando, ouvindo, trabalhando, estudando em classe, brincando, comendo... [...] O termo “participante”

aqui significa, principalmente, participação com registro de observações, [...]

(FIORENTINI; LORENZATO, 2012, p. 107).

Durante as observações, haverá o cuidado de, como orienta Fiorentini e Lorenzato (2012), concentrar-se, focar no que é essencial ao objeto de estudo e organizar as anotações, preocupações que ajudam a diminuir influências subjetivas nas observações. Por outro lado, a observação direta no campo de estudo contribui para a compreensão que os sujeitos dão aos acontecimentos relatados.

Segundo Castro, Ferreira e Gonzalez,

A observação participante é uma técnica de pesquisa que pressupõe a não neutralidade do pesquisador em relação ao objeto estudado. O pesquisador procura, através dessa influência, integrar-se ao grupo estudado, a fim de obter mais informações sobre os fenômenos, por estar vivenciando com os sujeitos pesquisados as situações do seu dia a dia (CASTRO; FERREIRA; GONZALEZ, 2013, p. 48, grifo das autoras).

Tomando as ideias das autoras, pretendemos realizar uma observação participante, com intervenções sempre que necessárias, a fim de colher dados mais específicos sobre o objeto de estudo.

Alves-Mazzotti (2000) informa que, nas abordagens qualitativas, é comum a utilização de instrumentos metodológicos diversos para construção dos dados, a fim de investigar um mesmo ponto. Esta variedade de metodologias é uma forma de triangulação. Segundo a autora, esse é um critério utilizado nas pesquisas qualitativas e se justifica por dar credibilidade ao estudo realizado. Corroborando o entendimento da autora e considerando que nossa abordagem é qualitativa, será apropriado planejar a utilização, quando possível, de mais de um instrumento metodológico para a execução desta pesquisa.

Fiorentini e Lorenzato (2012) também indicam que o pesquisador deve lançar mão de mais de uma metodologia para obter maior fidedignidade das informações coletadas.

A fim de alcançar maior produtividade na construção dos dados, tanto em quantidade quanto em qualidade, e com o intuito de suprimir algumas desvantagens que a técnica da observação participante apresenta, decidimos conjugar a utilização de instrumentos metodológicos que permitam capturar da forma mais fidedigna possível as vivências das crianças pesquisadas. São eles: diário de campo ou de bordo, registro dos alunos, transcrição das falas e fotografias.

O diário de campo ou de bordo é muito usado nas pesquisas qualitativas, pois permite descrever acontecimentos, dados observados, ideias expostas etc. Essa diversidade de anotações diárias durante a pesquisa de campo pode ser objeto de reflexão e servir de embasamento para a fase de análise da pesquisa.

Fiorentini e Lorenzato (2012, p. 118) consideram que “Um dos instrumentos mais ricos de coleta de informações durante o trabalho de campo é o diário de bordo”. Esse instrumento “[...] consiste no relato escrito daquilo que o investigador presencia, ouve, observa e pensa no decorrer do recolhimento dos dados.” (CASTRO; FERREIRA;

GONZALEZ, 2013, p. 49). Então, o pesquisador em campo precisa estar atento para registrar tudo que vê e tudo que acontece de forma precisa e detalhada, deixando para depois os dados de identificação e as observações genéricas.

Castro, Ferreira e Gonzalez apresentam algumas sugestões que pretendemos seguir.

Os diálogos devem ser reconstruídos. [...] Deve-se evitar a preocupação com a transcrição exata daquilo que se ouviu e obter o máximo de aproximação daquilo que foi dito. Quando as transcrições são literais, coloque aspas nas palavras. Quando tiver dúvidas, utilize frases como “João quis dizer algo para efeito de...”; Descreva o espaço físico, [...]. A imagem captada do local e sua respectiva realidade são observações úteis; Os relatos de acontecimentos particulares são importantes na medida em que estejam relacionados à natureza e ao objetivo da pesquisa; A descrição de atividades inclui registros detalhados de comportamentos, procurando reproduzir a sua sequência; assim como dos atos (CASTRO; FERREIRA;

GONZALEZ, 2013, p. 50).

Essas sugestões são muito importantes para o contexto da cena e fundamentais para perceber o grau de entendimento que a criança expressa numa determinada situação.

Fiorentini e Lorenzato elucidam dois tipos de perspectiva que podem ser usadas no diário de campo:

Os diários, portanto, podem conter uma dupla perspectiva: uma descritiva e outra interpretativa. A perspectiva descritiva atém-se à descrição de tarefas e atividades, de eventos, de diálogos, de gestos e atitudes, de procedimentos didáticos, do ambiente e da dinâmica da prática, do próprio comportamento do observador etc. A perspectiva interpretativa, por sua vez, tenta olhar para a escola e a sala de aula como espaços socioculturais produzidos por seres humanos concretos, isto é, por sujeitos que participam da trama social com seus sentimentos, ideias, sonhos, decepções, intuições, experiências, reflexões e relações inter-pessoais (FIORENTINI; LORENZATO, 2012, p. 119, grifo nosso).

Essas formas de descrição facilitarão muito o momento da análise dos dados.

Organizadas e classificadas, as descrições ajudarão nas reflexões sobre a relação entre teoria e prática, sem perder as evidências do contexto escolar.

Sempre que a pesquisa apontar essa necessidade, a abordagem qualitativa também pode contemplar uma observação mais direcionada, conjugada com outras técnicas.

Nesta pesquisa, será utilizada a técnica da observação participante. Esta, contudo, possui limitações, já que não consegue, em alguns casos, comprovar certos fenômenos necessários à pesquisa.

Castro, Ferreira e Gonzalez (2013, p. 48) explicam que “Isso ocorre em virtude da intensidade, da profundidade e do direcionamento da observação, que estão limitados pelas características peculiares do observador e do objeto observado”. Então, esta pesquisa também se valerá de um grupo por amostragem para sistematizar as observações e para produzir material escrito a fim de comprovar os fatos presenciados. Segundo Castro, Ferreira e Gonzalez (2013, p. 48), essa conjugação de técnicas possibilita aos pesquisadores classificar de forma mais concreta “os dados observados, compará-los e sistematizá-los”.

A inserção do grupo por amostragem na presente pesquisa se respalda em Alves- Mazzotti (2000), que relata ser possível focar num grupo de indivíduos, mesmo estando interessado em vários indivíduos. Ainda de acordo com ela, este recurso é comum e é utilizado quando a investigação sugere a análise de um aspecto específico dentro da pesquisa ou necessita de novas informações.

A definição desse grupo dentro da turma pesquisada surge da necessidade de acompanhar mais minuciosamente a evolução das crianças em relação aos registros apresentados, ou seja, da necessidade de aprofundar aspectos que pareceriam pouco claros se empregadas apenas as outras técnicas citadas anteriormente.

Já que buscamos um relacionamento ético com as crianças e porque as consideramos atores sociais, esta investigação terá uma concepção baseada no respeito e na liberdade de ação.

Sendo assim, definiremos critérios para selecionar seis crianças, que serão mais solicitadas no grupo, para acompanhamento e análise mais criteriosos e descreveremos o processo de análise dos seus registros frente à TRRS, como sugere esta pesquisa. Apesar da utilização da amostragem, não abriremos mão da participação do restante da turma como sujeitos ativos na pesquisa para assegurar maior confiabilidade a ela.

Durante a realização dos jogos, as crianças realizarão as propostas solicitadas e, como se trata de crianças de cinco anos, elas serão estimuladas nessas ações, com a finalidade de construir materiais para a análise dos dados.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 91-97)