As preocupações em relação ao baixo padrão jornalístico desses jornais normalmente não encontram base na realidade. Essas preocupações normalmente possuem raízes nas normas e padrões do jornalismo de referência, voltado para as elites. A crítica da grande imprensa:
tende a ser direcionada às bandeiras tradicionais da autoridade jornalística, especialmente a prestigiada imprensa de caráter nacional e certos periódicos [...] Os críticos fazem pouca esforço de levar em conta o volume total e a diversidade de fontes de informações políticas agora disponíveis. É possível que a crítica reflita mais o que Manheim (2007) chama de mitologia, e não a realidade do jornalismo. É evidente que há espaço considerável para normas alternativas de adequação e é claro que a qualidade da democracia depende da contribuição de vários parceiros diferentes além da mídia - cidadãos, empresas, políticos e atores governamentais em geral22. (CHRISTIANS et al.,2009:225)
público, a autora propõe uma teoria em que este espaço continua a ser o lugar da classe dominante e, para os excluídos, criam-se instâncias de contraposição ao público e em relação de subalternidade. A autora defende que, entre explorados e exploradores, não há bem comum compartilhado e, por isso, não há sentido em ocupar o espaço público, levando a proposta dos contrapúblicos subalternos. Assim, Fraser (1992) defende que haja construção, debate e luta sobre determinadas questões dentro dos contrapúblicos subalternos para, posteriormente, pleitear-se que esses assuntos se tornem de interesse público. Uma constatação empírica, no caso da luta feminista em relação à violência doméstica, se tornou uma defesa normativa.
Defendemos que, conceitual e teoricamente, o público deve ser alargado por novas concepções, perspectivas e presenças e não que sejam criados, conceitual e teoricamente, contrapúblicos em relação de subalternidade com o público masculino e branco centrado. Esta ênfase no que é conceitual e teórico é devida ao fato de que queremos deixar bem clara a diferenciação entre a criação de entendimento conceitual e teórico (que é o que é feito por Fraser) e a criação de realidades políticas (que é o que é feito pelos movimentos sociais e políticos. Por vezes, a linguagem da teoria crítica, que é a forma de teoria praticada por Fraser, confunde os dois planos.
A inclusão de grupos fora do perfil tradicional23 na esfera pública agrega novas perspectivas sociais ao debate. Segundo Young, perspectivas sociais são “o ponto de vista que membros de um grupo têm sobre processos sociais por causa de sua posição neles24” (YOUNG, 2000, p. 137). Ou seja, seu pertencimento a determinado grupo social, as relações que este grupo mantém com outros, os processos a que está submetido, todas essas dinâmicas conferem a certos indivíduos visões permeadas desta posição social em que está inserido. Não só os indivíduos “subalternos”, mas também a classe dominante possui determinadas perspectivas sociais, que não coincidem com a totalidade dos indivíduos, ou com um “público” universal.
A inclusão de novas perspectivas sociais se dá de diferentes formas. Young (2000) dá o exemplo do jornal Pittsburgh Courier, que existiu por mais de cinquenta anos e que se dedicava a publicar a perspectiva dos afro-americanos. O jornal trazia em suas páginas notícias e opiniões que expressavam uma pluralidade de interesses, nem todos compatíveis, que os negros de Pittsburgh e de outras partes dos EUA possuíam:
23 O perfil tratado nas teorias como a de Habermas.
24 Original: “Social perspective is the point of view group members have on social processes because of their position in them.”
Apesar desta variedade de interesses e opiniões, não é difícil identificar como o Pittsburgh Courier, no entanto, fala uma perspectiva afro-americana. A maioria dos eventos discutidos envolve os afro-americanos como os principais atores e ocorre em locais e instituições que são majoritariamente afro-americanas ou de alguma outra forma especificamente associadas a afro-americanos. Quando o documento discute eventos locais ou nacionais não identificados especificamente com afro-americanos, as histórias costumam fazer perguntas ou enfatizar que são particularmente informadas por questões e experiências mais específicas para afro-americanos.
(YOUNG, 2000:138)
Podemos, com isso, retomar alguns entendimentos mal posicionados em relação ao jornalismo e ao que é de interesse público. Assim como o Pittsburgh Courier possuía em suas páginas a perspectiva afro-americana, os jornais ditos de referência, a grande imprensa, os jornais de grande circulação, não deixam de expressar perspectivas sociais do grupo dominante.
Um exemplo empírico que ilustra este entendimento são as matérias que descrevem a prisão de jovens com certas porções de drogas ilícitas. Na medida em que esse indivíduo possui um perfil mais próximo daquele a que os jornais se referenciam, ele é tratado como o “jovem”, o
“estudante”, o “usuário” ou outra designação que o descreva de forma apartada da droga ilícita com ele apreendida (ROCHA, 2016). Na outra ponta, o indivíduo negro, de periferia, ou seja, pertencente a outra posição social, será caracterizado como o “traficante”.
A inclusão de novas perspectivas sociais no debate público contribui para que os fatos narrados pela imprensa, os debates que ocorrem nos espaços públicos sejam mais plurais e reflitam de maneira mais justa as diferentes identidades e grupos sociais:
Contrariamente àqueles que consideram que políticas de diferenciação de grupos apenas criam divisões e conflitos, argumento que a diferenciação de grupos propicia recursos para um público democrático comunicativo que visa estabelecer a justiça, uma vez que pessoas diferentemente posicionadas têm diferentes experiências, histórias e compreensões sociais, derivadas daquele posicionamento. (YOUNG, 2006:161-162)
Essas perspectivas sociais se apresentam no debate público por meio da presença de novos atores. Phillips (1995) defende que a “política da presença” em relação a representação política é superior a denominada “política de ideias”. Segundo a autora, a ausência de grupos politicamente minoritários na esfera política acaba por reafirmar esses espaços como masculinos, brancos etc. Pessoas brancas, por exemplo, reunidas para discutir igualdade racial podem substituir pessoas negras ou indígenas, mas esse grupo pode se dizer representativo quando exclui a heterogeneidade racial existente?
Questões de presença política são em grande medida deixadas de lado, pois quando a diferença é considerada em termos de diversidade intelectual, não importa muito quem representa a classe de ideias. Uma pessoa pode facilmente substituir outra; não há o requisito adicional de que os representantes devam “espelhar” as características da pessoa ou pessoas representadas (PHILLIPS, 1995:6)
Phillips (1995) se refere à representação política, mas a política da presença pode ser extrapolada para a esfera pública. É apenas com a inclusão de pessoas excluídas do debate público que a esfera pública se torna mais diversa em termos de perspectivas sociais presentes na sociedade e, com isso, mais próxima do ideal normativo de universalidade.
A internet permitiu que, hoje, a presença de grupos antes excluídos, seja uma realidade incontornável, o que promoveu diversas mudanças no debate público, na imprensa de referência, na política e em muitas outras áreas. Na medida em que os limites para expressão daqueles grupos que não possuíam veículos de imprensa ou representação política se desfazem, a ideia do que é de interesse público se modifica, não só em temas como também em enquadramentos.