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2.4 MARCO METODOLÓGICO

2.4.2 Coleta de dados

Após a primeira etapa do delineamento da pesquisa, naquela em que a condição de subalternidade foi gestada como objeto de estudo, nós desenvolvemos muitas leituras e muitas conversas com profissionais que atuam na rede municipal de ensino, colegas nutricionistas, professores e familiares. Muitos não entendiam bem o que estávamos buscando. Outros pareciam apontar para um caráter um tanto abstrato da condição de subalternidade e preferiram não se manifestar. Mesmo assim, nos mantivemos firmes em busca de literatura para compor o projeto de pesquisa, posteriormente aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Univali no dia 25 de junho de 2019, sob o parecer número 3.412.679 e CAAE número 14229419.8.0000.0120.

Após a aprovação pelo CEP, o primeiro passo foi procurar a Secretaria de Assistência Social do município de estudo. Estávamos em busca de mulheres vulneradas e partíamos do pressuposto de que mulheres nessa condição são assistidas pelo PBF. Logo, decidimos por utilizar esse programa como um recurso metodológico para encontrá-las.

Uma vez contatada a Secretaria, apresentamos a pesquisa para a assistente social responsável pelo PBF, quando aproveitamos o momento para solicitar a sua anuência e a seleção das mulheres cadastradas no CadÚnico, subdivididas em dois grupos: mulheres nativas da cidade de Navegantes e migrantes do Nordeste brasileiro. A primeira dificuldade que encontramos foi no âmbito do formato desse cadastro: o CadÚnico não tinha a opção de separar as pessoas cadastradas por tipo de benefício ou gênero.

Logo, houve a geração de uma lista geral dos beneficiários, contendo o Número de Identificação Social (NIS). De posse dessa relação, foi acessado o cadastro por meio do NIS de mulheres, manualmente, uma a uma, para garimpar o estado de origem dessas mulheres, bem como o estado civil. Nessa primeira coleta da pesquisa, selecionamos 77 (setenta e sete)

cadastros para obter o contato de dez mulheres registradas como naturais do município e de dez migrantes do Nordeste, independentemente do estado. A coleta dos 77 (setenta e sete) cadastros requereu aproximadamente 03 (três) horas de trabalho, uma vez que foi efetuada manualmente, no tempo disponibilizado pela Secretaria de Assistência Social e em horário de atendimento ao público.

De posse das informações das possíveis candidatas, realizamos os primeiros contatos com as possíveis participantes, a fim de agendar um encontro para convidá-las para participar da pesquisa. Nesse momento, verificamos que das 10 (dez) migrantes escolhidas na listagem, 03 (três) não tinham celular atualizado e o endereço não correspondia ao cadastro; 02 (duas) não quiseram agendar um encontro; 04 (quatro) tinham companheiros que não estavam no cadastro e possuíam renda; e 01 (uma), quando convidada para participar da entrevista piloto, aceitou prontamente. Das 10 (dez) participantes naturais, 04 (quatro) não tinham celular atualizado e o endereço não correspondia ao cadastro, e as 06 (seis) restantes tinham companheiros que não estavam no cadastro e possuíam renda. O primeiro contato com as mulheres, gerador das informações aqui mencionadas, se deu por telefone ou, na ausência deste, pessoalmente.

Decidimos, na sequência, realizar a entrevista piloto. Marcamos um encontro com a participante que se havia prontificado para nos conceder essa primeira entrevista, que se deu na residência dela. Mediante a concordância com o Termo de Consentimento e a disposição para participar, a entrevista foi realizada, gravada em áudio, posteriormente transcrita e analisada, em termos de representatividade de conteúdo, visando a eventuais readequações no instrumento. Os procedimentos utilizados no piloto foram replicados na coleta de dados, descrita na sequência. Vale ressaltar que as falas, após transcritas, passaram por um procedimento para limpar os vícios de linguagem, de modo a propiciar uma leitura fluente e dinâmica, resultando em melhor compreensão ao leitor.

Observada a dificuldade em encontrar mulheres por meio do CadÚnico, visto que as informações não estão 100% atualizadas com a realidade encontrada como endereço, telefone ou estado civil, recorreu-se a um dos nichos envolvidos no PBF: a escola. Como os filhos das beneficiárias têm de frequentar a escola regularmente como uma das condicionalidades do programa, viu-se aí uma possibilidade de se conseguir o contato de mães que pudessem participar do estudo.

Umas das primeiras reflexões que surgiram nesse processo de garimpo das possíveis candidatas foi justamente a dificuldade de encontrar e chegar até as mulheres do PBF. O cadastro dos beneficiários deve ser atualizado a cada dois anos, segundo as normativas do

programa (BRASIL, 2020). Então por que os dados encontrados nos cadastros não refletem a realidade? O que leva a essa disparidade de dados do mundo virtual e do mundo real?

Voltando-nos para os espaços educacionais, contatamos diretores de unidades escolares municipais dos bairros São Paulo e Meia Praia. Também foi utilizado o Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) do bairro Nossa Senhora das Graças como via de acesso a essas mulheres. Esses três bairros, historicamente, são os que mais contêm beneficiários do PBF. Nessa segunda etapa da busca pelas participantes do estudo, conseguimos os dados de várias mulheres elegíveis, isto é, em conformidade com os critérios de inclusão.

No entanto, outra dificuldade nos foi apresentada no processo: encontrar mulheres beneficiárias nativas do município. Encontramos muitas mulheres que moram há anos no município e nele tiveram seus filhos, mas não naturais de lá. Dentre mais de 200 (duzentos) cadastros investigados, apenas duas mulheres eram nativas de Navegantes. Muitas eram oriundas do oeste catarinense e outras do estado do Paraná, além dos estados do Nordeste.

Relendo a Resolução n. 510, de 7 de abril de 2016, que dispõe sobre as normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais cujos procedimentos metodológicos envolvam a utilização de dados diretamente obtidos com os participantes ou de informações identificáveis ou que possam acarretar riscos maiores do que os existentes na vida cotidiana, observamos que poderíamos fazer uma alteração nos critérios de inclusão dispostos no projeto de pesquisa aprovado pelo CEP/Univali. De acordo com o artigo 28, inciso V, dessa resolução, poderíamos fazer mudança, cabendo ao pesquisador responsável a apresentação

“no relatório final que o projeto foi desenvolvido conforme delineado, justificando, quando ocorrida, a sua mudança” (BRASIL, 2016).

Com base nessa disposição, somamos ao critério “Ser nativa da cidade de Navegantes ou migrante do Nordeste brasileiro”, estabelecido no projeto aprovado, o critério “ou ter filhos nascidos em Navegantes”, destacado a seguir em itálico.

Critérios de inclusão:

 Ser mulher;

 Maior de 18 anos;

 Estar cadastrada regulamente no PBF;

 Ter filhos;

 Ser a chefe da família, ou seja, provedora financeira principal da família; e

 Ser nativa da cidade de Navegantes ou ter filho(s) nascido(s) em Navegantes ou migrante do Nordeste brasileiro; e

 Concordar em assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Para critérios de exclusão, havíamos estabelecido o seguinte:

 Não estar dentro dos critérios elegíveis para participar da pesquisa;

 Não concordar com a anuência do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; e

 Não ser nativa ou não ter filho(s) nascido(s) em Navegantes ou não ser oriunda do Nordeste brasileiro.

Entrevistamos 15 (quinze) mulheres, selecionadas por sorteio dentro das possibilidades das mulheres eleitas para participar da pesquisa. Entre as selecionadas, 06 (seis) eram migrantes do Nordeste brasileiro.

Após o contato com cada uma das possíveis candidatas via telefone ou pessoalmente, foram agendadas as entrevistas individuais, no horário e no local que melhor atendiam às necessidades de cada uma. Apenas 02 (duas) mulheres optaram por realizar no espaço da escola que seus filhos frequentavam, entrevistas essas que foram feitas em uma sala garantindo o anonimato e o conforto das participantes. As demais participantes optaram por realizar as entrevistas em suas casas nos mais diversos horários.

As mulheres que optaram por realizar as entrevistas em seus lares manifestaram as mais diversas reações ao nos receberem em suas casas. Algumas eram mais espontâneas, falantes, outras mais receosas e tímidas. Algumas acharam que fazíamos parte da Assistência Social e que estávamos ali para verificar se o cadastro delas era fidedigno. Outras queriam somente uma boa conversa.

Foram diversos olhares, diversos gestos, diversas formas de expor aquilo que queriam dizer. Muitas falavam mais com a linguagem corporal do que com palavras. Algumas tinham certa dificuldade em relembrar o passado, contar sua história, verbalizar os sentimentos.

Muitas vezes, as lágrimas e os sorrisos expressavam muito mais do que elas gostariam de transparecer.

Suas casas situam-se em terrenos invadidos, alimentadas por energia elétrica puxada por “gatos”. Casas alugadas, casas próprias. Casas de madeira, casa feita de material encontrado na rua, casa lotada, casa. Simplesmente casas no meio físico, mas para elas eram seus lares. Lares nos quais elas depositam suas esperanças, seus medos e principalmente seus sonhos. Lares que, na breve conversa para conseguir entender um pouco mais da vida de cada uma, nos possibilitaram compreender como a vida delas é tão particular e íntima para cada

uma, mesmo vivendo em situações semelhantes. Estar com essas mulheres possibilitou-nos de alguma forma entender um pouco mais do universo no qual elas estão inseridas.

Inicialmente, após finalizada a etapa de coleta de dados por meio da entrevista semiestruturada, tínhamos o objetivo de realizar uma entrevista coletiva do tipo grupo focal com as participantes, para possibilitar a expressão dos pensamentos de modo integrado.

Porém, observamos nos encontros individuais que muitas são encolhidas em seu mundo, retraídas; outras têm em seu jeito de ser a característica de expor seus sentimentos de forma crua e muito particular. Realizar uma entrevista coletiva com elas não se mostrou, para nós, um procedimento adequado; poderíamos incorrer em um risco maior de exposições constrangedoras, em relação aos riscos que havíamos assumido no projeto. Esse desenvolvimento do real – de mudança de rota no interior do próprio movimento – reforçou a nossa compreensão de que “uma das características do setting natural de pesquisas qualitativas é a possibilidade de emergência de conteúdos não previstos pelo estudo” (LIMA;

GRIPA; BATISTA, 2019, p. 263).

No documento Fernanda Souza Tomé da Silva.pdf - Univali (páginas 72-76)