2.4 MARCO METODOLÓGICO
2.4.3 Instrumentos
uma, mesmo vivendo em situações semelhantes. Estar com essas mulheres possibilitou-nos de alguma forma entender um pouco mais do universo no qual elas estão inseridas.
Inicialmente, após finalizada a etapa de coleta de dados por meio da entrevista semiestruturada, tínhamos o objetivo de realizar uma entrevista coletiva do tipo grupo focal com as participantes, para possibilitar a expressão dos pensamentos de modo integrado.
Porém, observamos nos encontros individuais que muitas são encolhidas em seu mundo, retraídas; outras têm em seu jeito de ser a característica de expor seus sentimentos de forma crua e muito particular. Realizar uma entrevista coletiva com elas não se mostrou, para nós, um procedimento adequado; poderíamos incorrer em um risco maior de exposições constrangedoras, em relação aos riscos que havíamos assumido no projeto. Esse desenvolvimento do real – de mudança de rota no interior do próprio movimento – reforçou a nossa compreensão de que “uma das características do setting natural de pesquisas qualitativas é a possibilidade de emergência de conteúdos não previstos pelo estudo” (LIMA;
GRIPA; BATISTA, 2019, p. 263).
destacados em cada dimensão (Tabela 2). Deve-se observar que cada dimensão está ligada a outra de forma indissolúvel, gerando um efeito cascata na vida dessas mulheres.
Tabela 2 – Dimensões constitutivas da subalternidade
Dimensão Ético-política Política Epistemológica Cultural Socioeconômica Conceito Reflexão sobre
os valores realizados diante das inúmeras realidades que afetam
terceiros e que exigem
tomada de decisão.
Reflexão sobre o modo de viver no Brasil organizado politicamente pelo
federalismo cooperativo.
Reflexão sobre o saber popular.
Sistema de crenças da sociedade em
que cada
indivíduo vive, perpetuando ensinamentos, valores e ditando o modo de vida.
Talhada pela desigualdade social e a falta de acesso a meios que propiciem saúde e qualidade de vida.
Autor (es) Berlinguer, 1993;
Aristóteles, 2007.
Lima, 2017;
Arretche, 2012.
Tesser, 1994;
Guareschi, 2003.
Helman, 2009. Helman, 2009.
Fonte: Elaborado pela autora.
A entrevista semiestruturada, como o próprio atributo expressa, é semiestruturada, isto é, deve ser guiada por um roteiro de temas (MINAYO, 2014), em tese, em função do caráter flexível deste. Ou seja, não parece adequado construir um instrumento semiestruturado com questões prontas. No entanto, como se trata da primeira experiência com estudo stricto sensu de pós-graduação somado à presença de objetivos específicos desdobrados em dimensões, a pesquisadora e a orientadora decidiram compor o instrumento não por meio de roteiro, mas de perguntas capazes de expandir o horizonte indagativo no encontro com as entrevistadas.
Após a breve explanação sobre os objetivos da entrevista individual, pedida a permissão para gravação em áudio e esclarecidas as eventuais dúvidas (BRASIL, 2012), foi solicitado que as participantes assinassem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (APÊNDICE A). Uma vez assinados, as entrevistas foram realizadas, gravadas e posteriormente transcritas. Também foi utilizado um diário de campo para anotar as particularidades observadas durante a entrevista, sobretudo as comunicações não verbais.
Uma observação importante no quesito TCLE é que as mulheres, quase que na sua totalidade, olharam o termo com medo. No momento em que solicitávamos as assinaturas, com cuidado no trato para com elas, parecia-nos que o termo representava mais um instrumento de tortura medieval do que um instrumento de salvaguarda, de proteção ética.
Embora ele tenha sido concebido por meio de uma linguagem o mais acessível possível em conformidade com os óculos do CEP, nós tivemos que dedicar um bom tempo à explicação do que viria a ser a necessidade de assinatura daquele papel, reforçando para elas que ele servia para a proteção delas, da identidade delas, e que não recairiam em nenhum tipo de problema.
A entrevista semiestruturada é um importante instrumento da pesquisa qualitativa e o procedimento mais usual no trabalho de campo. Por meio dela, o pesquisador tem a possibilidade de construir um tecido narrativo polifônico, no qual ele está incluído, a partir de enunciados que se soltam, que exalam dos sujeitos que falam por meio das vozes (SANTOS, 2017). A entrevista semiestruturada não significa uma conversa despretensiosa e neutra, uma vez que se insere como meio de coleta dos fatos relatados pelos participantes, como sujeitos- objeto da pesquisa, que vivenciam uma determinada realidade que está sendo focalizada (Tabela 3) (MINAYO, 2014).
O diário de campo, por seu turno, se constitui como uma peça curinga no momento da realização das entrevistas. Ele possibilita registrar os eventos que seguem concomitantemente à entrevista, possíveis reações por parte dos entrevistados, o que ocorre ao redor do ambiente da entrevista. Por meio dele também é possível compreender o objeto de estudo em suas múltiplas dimensões (MINAYO, 2014).
Tabela 3 – Roteiro para entrevista individual com beneficiárias do PBF sobre subalternidade Bloco I
Idade:
Ocupação:
Integrantes da família:
Tempo de recebimento do benefício:
Codinome:
Bloco II
1) Como vai a sua vida?
2) Qual é o seu maior sonho?
3) O que mudou na sua vida após conseguir o PBF?
4) Quais são as maiores dificuldades que você enfrenta no dia a dia?
5) Como você se sente sobre isso?
6) O que você sente por ser mãe e pai ao mesmo tempo?
7) Você já passou por situações de aperto?
8) Quando você ou alguém da família fica doente você lembra e usa algum ensinamento dos antigos?
9) Você acha a nossa sociedade machista? Poderia me dar um exemplo?
10) Olhando no dia a dia, de que maneira você vê o valor do homem e da mulher na sociedade?
11) Você tem amiga/amigas que também têm o BF em Navegantes? Se sim, caso uma amiga comentasse com você que gostaria de não precisar do Programa, o que você
diria a ela?
12) Você já ouvir falar no SUS? Se sim, poderia me dizer, com suas palavras, o que é SUS?
13) O que você acha que é preciso pra gente fazer um mundo melhor?
14) Se um dia o PBF acabar, como você pensa em seguir a vida?
15) Na sua opinião, qual seria uma forma das mulheres se unirem e se ajudarem para ter uma vida melhor?
Fonte: Elaborado pela autora.