2.5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
2.5.5 Construindo caminhos
Encerrando este ciclo de pesquisa e descobertas, gostaríamos de deixar duas singelas contribuições sobre questões que emergiram durante o curso desta dissertação. A primeira refere-se à dificuldade de encontrar as participantes deste estudo; a outra se refere especificamente a elas.
Como já mencionado oportunamente, o caminho para chegar até as mulheres que compuseram o estudo foi um tanto trabalhoso, visto que as bases de dados são limitadas nos parâmetros de buscas e também não são integradas com outros sistemas de informação, como o que é utilizado pela Secretaria de Educação, por exemplo, do município do estudo.
Quando estávamos vivendo o processo de mergulho na análise, bem como na construção de uma tecnologia que poderia melhorar os serviços públicos oferecidos para a população, explodiu a pandemia da COVID-19 no Brasil. Os primeiros momentos que assolaram todo o país, com incertezas e insegurança acerca dessa nova doença, deixaram todos apreensivos e sem saber como seriam os próximos dias e meses. As aulas foram suspensas. Os serviços não essenciais foram suspensos. Tudo se tornou incerto.
Uma questão que surgiu de maneira forte, tanto nos agentes públicos quanto nas redes sociais, foi o que seria feito com a alimentação escolar que estava nas escolas. Afinal, a suspensão das aulas por tempo indeterminado acabaria acumulando muitos alimentos nos ambientes escolares. Após debates e aprovação no Senado, foram montados kits de alimentação escolar para os alunos em situação de vulnerabilidade. O parâmetro decidido em conjunto com o Conselho de Alimentação Escolar (CAE) foi: contemplar primeiramente os alunos que provinham de famílias cadastradas no PBF ou no BPC. Assim, recomeçamos nossa saga em achar as famílias de alunos cadastradas no PBF do município.
O sistema da Secretaria de Educação recebe os dados, que são inseridos manualmente pelos secretários escolares, mas quando há alteração do benefício, o sistema não é alimentado de forma automática. Se uma família perde o benefício e não avisa a escola, prática recorrente segundo os diretores escolares, o sistema da Secretaria da Educação acusa que a família é beneficiária. No entanto, no sistema da Assistência Social (CadÚnico) a família não é mais beneficiária. Ou seja, os sistemas não conversam e divergem nas informações.
Para encontrar essas famílias, foram impressas as relações de todos os beneficiários do PBF pela Assistência Social e bateu-se de porta em porta para saber se aquele beneficiário tinha filhos matriculados na rede municipal de ensino. Tal situação gerou alguns constrangimentos, pois havia famílias que necessitavam de um kit de alimentação por serem autônomas e não estavam no CadÚnico ou eram beneficiárias do PBF, mas não tinham filhos
na rede municipal. Dessa forma, não poderiam receber o kit que era destinado exclusivamente a famílias de alunos do PBF, por se tratar de alimentação escolar.
Uma sugestão para aprimoramento dessa conversa entre sistemas seria criar um software que comungasse das informações do CadÚnico e do sistema da Secretaria de Educação para que, quando houvesse matrícula nas unidades escolares municipais, esse responsável já fosse mapeado dentro do CadÚnico e assim ficasse com as mesmas informações do CadÚnico. Quaisquer alterações dentro do CadÚnico seriam apontadas para a Secretaria de Educação. Essa conversa entre as informações de forma precisa e atualizada é extremamente necessária quando se pensa de forma macro e em como as políticas públicas precisam ser direcionadas, muitas vezes, por nichos e estratos de população.
Nesse momento ímpar na história recente da humanidade, foi possível perceber que os sistemas de informações ganham cada vez mais lugar e importância na maneira como é conduzida a vida das pessoas. Uma pessoa fora do sistema praticamente não existe. Hoje, para se ter direito a quaisquer programas sociais, trabalhistas, o CPF (Cadastro de Pessoa Física) tem que existir para o governo. Uma pessoa sem CPF não existe para o mundo governamental. Uma pessoa com o CPF irregular não tem acesso a nenhum direito social.
O que mais foi divulgado nas mídias tanto televisivas quanto sociais ou via rádio eram filas enormes de pessoas que estavam com CPF irregular, tentando buscar sua regularização junto à Receita Federal. Mesmo em tempos de pandemia, as pessoas estavam preocupadas em regularizar-se para poder acessar o benefício emergencial de R$ 600 pagos por três meses para várias categorias de trabalhadores, que foi sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro.
Benefício esse que, diga-se de passagem, a priori seria de R$ 200, mas que sofreu intervenção por deputados de base contrária, solicitando que fosse pago um montante “maior” para suprir a necessidade das pessoas que estavam sem poder trabalhar, devido ao isolamento social.
Esse cenário demonstra também a fragilidade dos governos em se organizar em situações emergenciais. A própria população, que deveria ser a primeira a se manter regularizada sempre junto aos órgãos competentes – frisamos, aqui, o CPF –, parece que não tem muita noção da importância desse ato. Da mesma forma, indaga-se por que o governo federal não se atenta em localizar essas pessoas que possuem CPF irregular e deixá-las a par das consequências da falta de acesso a programas sociais em caso de irregularidades em cadastros governamentais. Então o dueto de dúvidas desse cenário é: que razões justificam o fato de as pessoas não terem o cuidado de regularizar a situação delas com o governo? Que razões justificam o fato de o governo não buscar regularizar as pessoas em seus cadastros? O mapeamento dos dados da população, em referência a dados epidemiológicos ou dados
sociais, norteia as políticas públicas, e quanto mais alinhados esses dados estiverem, melhor será o mapeamento daquela comunidade e mais clareza nas tomadas de decisões será possível.
Outra consideração a ser feita faz jus a uma das perguntas contempladas no roteiro que mencionava à união das mulheres para tornar o mundo um lugar melhor. De todas as entrevistas, apenas uma citou bens materiais, por meio de uma cooperativa para que as mulheres se ajudassem e tivessem sua própria renda. Todas as demais citaram valores imateriais: respeito, união, amor, solidariedade.
Em uma sociedade neoliberal, marcada pelo forte consumo de bens materiais, em que cada vez mais as diferenças sociais ganham vulto, ouvir dessas mulheres que valores imateriais são o que faltam na vida delas nos faz refletir para onde estamos caminhando como sociedade e como seres humanos. É notório que o PBF visa ao suprimento das necessidades materiais, que implicam, por exemplo, falta de alimentos, vestuário. A longo prazo, espera-se diminuir a evasão escolar e a falta de acesso à saúde.
Mulheres, histórias, vontades, esperanças, lutas. Em contrapartida, discriminação, marginalização, isolamento, descrença. Que caminhos poderíamos trilhar para repensarmos a sociedade que somos? Pensando na emancipação das mulheres em condição de subalternidade, questionamos como elas poderiam se unir para fazer o mundo um lugar melhor. A resposta, a priori, seria sobre emancipação financeira e como poder-se-ia mobilizá- las para despertar um intelectual orgânico entre elas e, assim, haver o movimento de luta para que financeiramente pudessem se emancipar do PBF. No entanto, não foi isso que elas socializaram nas entrevistas. Para elas, exceto uma, o que faltava para a construção de um mundo melhor eram bens imateriais. Que determinações explicariam a consideração de bens imateriais, em detrimento de bens materiais, por parte de mulheres que passam por dificuldades estruturais de existência? A que direção essa indagação nos leva?
Pretensiosamente, miramos no bolso e acabamos acertando no coração. Apenas uma das entrevistadas mencionou um trabalho coletivo remunerado como forma de cooperação entre as mulheres. Em que pese a atribuição de igual valor para uma pessoa entrevistada ou um grupo de pessoas, em pesquisa qualitativa, vale registrar que as demais falaram em valores imensuráveis e impagáveis. Amor, solidariedade, união, respeito, afeto. Quase como se fossem desejos natalinos de crianças inocentes, essas mulheres voltaram no tempo e refletiram sobre bens não materiais. O que nos revelaram?
Embora os Centros de Referência em Assistência Social (CRAS) promovam capacitações para geração de renda com famílias cadastradas no CadÚnico, não há mudança significativa na política enquanto o despertar não vier da própria categoria, em nossa
perspectiva. Enquanto não houver o reconhecimento do coletivo subalterno de que a manutenção em condição de escravidão moral fere o seu direito inegociável de andar na vida com dignidade, toda ajuda externa será em vão. Enquanto o educando não educar o educador, não haverá aprendizados, como já ponderava Gramsci. A propósito, Gramsci nos convida a pensar esse real de um modo muito bonito:
[...] um erro muito difundido consiste do pensar que todo estrato social elabora a sua consciência, a sua cultura, do mesmo modo, com os mesmos métodos dos intelectuais de profissão. A elaboração unitária de uma consciência coletiva requer condições e múltiplas iniciativas. A difusão de um centro homogêneo de um modo de pensar e de um agir homogêneo é a condição principal, mas não deve ser e não pode ser a única (GRAMSCI, 2007a, p. 33).
Inseridas em um modelo econômico fortemente marcado pelo livre comércio e com o Estado cada vez menos presente nas ações públicas, em razão da força avassaladora do mercado sobre o Estado (neoliberal), essas mulheres parecem buscar bens imateriais por pautarem as suas ações em valores humanos. Em um tempo histórico marcado pelo isolamento social, pelos muros altos, pelas cercas elétricas, pelo individualismo e consumismo, tem-se perdido facilmente a cultura da ajuda, do bom vizinho, das brincadeiras nas ruas, das pipas voando e dos cavaleiros e donzelas brincando livremente. Sem preocupação com o dia de amanhã, sem a violência a espreitar ao lado.
Ao não respeitar cada indivíduo subalterno e suas histórias de vida, sua condição histórica e como ele se vê no mundo, tentando arrumar uma tábua de salvação para os grupos subalternos, cairemos na mesma história que é perpetuada há gerações: o grupo hegemônico dando as cartas de como os dominados devem existir e se comportar. Estaremos perpetuando a escravidão moral. As mudanças dos grupos deverão nascer das entranhas da categoria subalternos. Se não for dessa forma, muito provavelmente estaríamos forjando falsos intelectuais orgânicos. Não temos respostas concretas, somente reflexões sobre o real que a nós se apresenta por meio dos dados.
Quando Spivak (2014) questiona, no título de seu livro, Pode o subalterno falar?, ela argumenta que os subalternos não são ouvidos. São os falantes mudos ou mudos com voz. O subalterno é tolhido do seu direito de voz, de fala, de ser ouvido e ser respeitado. Ele sustenta uma máquina em que não é interessante que ele seja notado. Aqueles que têm bocão para serem ouvidos serão atendidos, mas aqueles que permanecem retraídos em sua concha, em sua timidez, permanecem no anonimato.
Seriam receptáculos desse imbróglio as nossas participantes? Receptáculos que as empurram para a condição subalterna em que vivem? Parece que sim. Receptáculos da vida que gera, que gesta, que cuida, que sacrifica, que mata seus sonhos e aniquila suas dores para trazer aos seus o mínimo de conforto material e sentimental. Receptáculos da política de assistência que caminha a passos lentos, como um pedido de desculpa pela iniquidade social que ainda persiste no país. Receptáculos da esperança de melhoria de vida, apostando nos políticos que pensam em fazer suas próprias leis. Receptáculos da marginalização e da periferização nas grandes cidades. Receptáculo do anonimato. Receptáculos ainda de forma desorganizada, sem se reconhecerem como parte fundamental da sociedade, como pilares fortes, como vida.
A todas as nossas Dandaras, só podemos dar uma salva de palmas por serem guerreiras, mães, mulheres, ainda que a sociedade tente ofuscar e abafar suas personalidades, suas particularidades. São cactos sobreviventes no vasto deserto da falta. Falta de respeito, falta de amor, falta de reconhecimento de serem tão brasileiras quanto qualquer um(a) de nós.
Dandara dos Palmares levou 395 anos após sua morte para ser reconhecida como Heroína da Pátria, fato que ocorreu em 2019, com a Lei n. 13.816, de 24 de abril de 2019, que inscreve os nomes de Dandara dos Palmares e de Luiza Mahin no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria (BRASIL, 2020).
Partindo das observações aqui comentadas, inicialmente, até como um meio de dar um retorno a cada participante do estudo, que aqui representam milhares de mulheres que vivem em condições semelhantes, buscávamos respostas concretas e palpáveis para que, por meio delas, pudéssemos sugerir uma “tecnologia de transformação social”. No final dessa odisseia, o que temos para oferecer são histórias e vários questionamentos para que se possa repensar os efeitos das políticas neoliberalistas sobre os mais variados grupos subalternos, por vários ângulos com a sociedade civil, no sentido de, a partir deles e com eles, localizar caminhos para provocar a condição de subalternidade que lhes é imputada pela classe dominante.
A primeira fronteira enfrentada para concluir esta pesquisa foi lidar com questionamentos.
Como poderíamos deflagrar uma formação cultural para essas mulheres, no sentido de ajudá-las “a elaborar criticamente o próprio pensamento e assim participar de uma comunidade ideológica e cultural”, partindo do próprio senso comum delas? Será que o grupo social mulheres vulneradas “[...] teria uma sua própria categoria de intelectuais orgânicos?”
Mas, se na linha gramsciana os intelectuais orgânicos são gestados em cada grupo social, “[...]
que nascendo sobre a base originária de uma função essencial no mundo da produção
econômica, cria junto, organicamente, uma classe ou várias classes de intelectuais orgânicos que lhe dão homogeneidade e a compreensão da própria função no campo econômico”, as mulheres vulneradas desta pesquisa teriam qual “função essencial no mundo da produção econômica”? (GRAMSCI, 2007a, v. 1, p. 474-475).
Se nos deslocamos para o Estado Antigo no qual “os grupos subalternos tinham uma vida própria, à parte, e instituições próprias, às vezes também com função estatal”, aprofundamos os questionamentos e permanecemos sem respostas. Pois o que esse movimento para fins de analogia nos apresenta é uma advertência vinda de Gramsci: atenção
“contra os perigos contidos no método da analogia histórica como critério da interpretação”, o que significa dizer que é muito diferente pensar grupos subalternos da Idade Antiga, da Idade Média e dos de nosso tempo. No entanto, parece haver um núcleo comum entre eles: “ao lhes faltar autonomia política, as iniciativas ‘defensivas’ deles são forçadas por leis do plano das necessidades [...] mais limitadas, e politicamente mais compreensivas que as leis de necessidades históricas que dirigem a iniciativa das classes dominantes” (GRAMSCI, 2007b, v. 3, p. 2.286-2.287).
A segunda fronteira foi insistirmos com questionamentos.
Os questionamentos prosseguem.
De que modo criar um trabalho que envolva os grupos subalternos de modo que eles se reconheçam como agentes que podem modificar a sua história e as suas condições de vida?
Sabemos que as condições de vida de uma sociedade dependem da sua política macroeconômica. Sabemos, ainda, que os arquitetos de políticas macroeconômicas são eleitos pela sociedade. Sabemos, também, que a escolha pelo voto requer formação de base, humanística, na concepção de Gramsci. O que pensar sobre isso, nesse momento histórico?
Inferimos que, se segregados, subalternos não encontram condições de possibilidades para mudar a vida. De que modo o enfrentamento à indiferença poderia ser forjado? Se sugerimos a utilização dos espaços dos CRAS para reuniões em grupos de apoio, buscando auxiliá-las nos encontros consigo mesmas, seria uma boa escolha? Se muitas delas não sabem por onde iniciar suas mudanças, suas revoluções, seria essa uma boa escolha? Mas, na verdade, o que lhes falta não é apoio. O que é? Como contribuir com essas vidas?
Uma vez que as próprias, durante o percurso das nossas entrevistas, relataram se sentir discriminadas, assediadas por preconceitos e muitas vezes julgadas pela aparência ou origem, essas mulheres demonstraram que a gênese do sofrimento que lhes acomete é multifatorial – fatores financeiros, sociais e psicológicos, para citar alguns.
De acordo com Sawaia (2006), a desigualdade social ou a pobreza não deve ser estudada somente no âmbito da falta de acesso a direitos e bens materiais, porque essa escolha desumaniza os sujeitos, uma vez que os sentimentos destes estão diretamente ligados ao lugar que eles ocupam no mundo:
Perguntar por sofrimento e por felicidade no estudo da exclusão é superar a concepção de que a preocupação do pobre é unicamente com a sobrevivência e que não tem justificativa trabalhar a emoção quando se passa fome.
Epistemologicamente, significa colocar no centro das reflexões sobre exclusão a ideia de humanidade e como temática o sujeito e a maneira como se relaciona com o social (família, trabalho, lazer e sociedade), de forma que, ao falar de exclusão, fala-se de desejo, temporalidade e de afetividade, ao mesmo tempo que de poder, de economia e de direitos sociais (SAWAIA, 2006, p. 98).
Dessa forma, compreendemos que não há como pensar em emancipação da subalternidade sem antes entender o contexto sócio-histórico dos sujeitos, bem como suas emoções, sabores e dores, em uma abordagem ético-política, uma vez que a sua condição de subalternidade provém, em nível macro, do modelo de Estado e sociedade; em nível micro, das condições de possibilidades que não encontraram, das escolhas que realizaram e da história pregressa de cada um. Se as relações que permeiam os sujeitos são sentidas como injustiça social, criadas pela opressão e pela desigualdade social, o caminho para a transformação e a emancipação não pode ser dissociado de uma práxis psicossocial (VELOSO; BUSARELLO, 2018).
Percebe-se que timidamente e de modo informal, as mulheres se unem e se apoiam nos seus cotidianos, como explicitado em algumas falas quando elas se ajudam com o pouco de alimento que têm, quando trocam receitas caseiras para curar doenças, quando dão abrigo a outras pessoas da família quando não tem onde morar. Elas também demonstram que nutrem um sentimento de pertencer a algum lugar. Estar no bairro, ser do bairro, se sentir parte de uma comunidade. Ser integrante ativo dessa comunidade seria uma forma rudimentar de despertar do seu papel como indivíduo, como um ser um intelectual orgânico.
Dandara serve como um exemplo para essas mulheres. Mostra a outra face da história que não é contada nos livros de história. Uma história diferente da qual temos formada em nosso imaginário; de que os negros e as mulheres não eram passivos à escravidão. Eram fortes e resistentes (ROCHA; ROCHA, 2019). Desvelar esse lado esquecido é importante para a produção de pensamento crítico, com vistas à consciência histórica de suas realidades, da realidade de nossas Dandaras em direção a um despertar orgânico.
3 CONCLUSÕES
Encerramos essa odisseia acadêmica e dela extraímos alguns pontos-chave que ficam para reflexões vindouras. A análise das dimensões constitutivas da condição de subalternidade de mulheres vulneradas, nativas e migrantes, beneficiárias do Programa Bolsa Família e residentes na cidade de Navegantes/SC, geraram algumas considerações, descritas a seguir.
A primeira delas diz respeito à verdade: não há verdade absoluta, assim como a verdade não é algo estagnado e permanente. A verdade depende de como cada um percebe e se reconhece no mundo. Somos seres sócio-históricos e, como tal, moldados por meio de comportamentos esperados, comportamentos aprendidos e pela sociedade que nos cerca.
Esses ingredientes são a base para a formação de cada um de nós, em nosso universo particular. A partir dele realizamos nossos exercícios diários micropolíticos, tomando decisões e refletindo, ou não, sobre suas consequências. O produto diário da ética reflexiva (porque de base filosófica) é a assunção de responsabilidade, com base nas escolhas que fazemos em realidades que envolvem terceiros. Ao longo dessa odisseia, tivemos a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre como cada uma das participantes exerce suas responsabilidades e seus exercícios diários de reflexão.
A segunda diz respeito às dimensões constitutivas da subalternidade: as dimensões constitutivas da subalternidade que atravessam a vida das mulheres entrevistadas, aliadas aos sentimentos revelados por nossas participantes, nos permitiram entender um pouco mais do emaranhado de ordem tanto material como imaterial. A princípio, como já discorrido, buscávamos entender e identificar como cada dimensão pesava na vida de cada uma dessas mulheres. O fruto dessa incursão foi a certeza de que as dimensões têm fronteiras borradas, não são delimitadas. Seriam como cercas de galhos finos. Elas anunciam que estão ali, mas ainda permitem que se atravesse de um lado para o outro. Não são fronteiras que separam países, não são fronteiras que segregam nações. Não são como um Muro de Berlim. As dimensões se confundem, se permeiam e se misturam como pequenos pontos de aquarela em uma folha branca.
A terceira é sobre a escravidão: nossas Dandaras nos esmurram com a dura realidade de que ainda hoje, após mais de um século da abolição no papel da escravatura, a escravidão moral dos subalternos ainda ocorre. Longe dos quilombos de resistência a esse movimento de escravidão, nossas Dandaras se mostram fortes para lutar diariamente para ofertar o melhor possível para seus familiares. Mas na contramão, se mostram frágeis em como iniciar sua