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2.3 MARCO TEÓRICO

2.3.1 Pobreza e fome

Recentemente, a fome vem ganhando destaque ao ao ser associada com questões de pobreza e desigualdades sociais. Todavia, entre os anos 1930 e 1950,

A miséria era compreendida com resultados da moral humana e não como resultado do acesso desigual de riqueza socialmente produzida; os auxílios sociais que contribuem para reduzir a miséria, eram vistos como desestímulos ao interesse pelo trabalho, gerando acomodações, causando risco à sociedade e ao mercado (SILVA; KERNKAMP; BENNEMANN, 2013, p. 38).

Um longo caminho teve que ser percorrido para a implantação de políticas sociais com alcance universal, resultantes das contribuições obrigatórias de todos os indivíduos, a partir do século XX e geridas pelo Estado. Para isso, os valores acerca da pobreza, suas causas e as alternativas para sua redução tiveram de mudar sensivelmente, para que se atingisse o nível de proteção social vigente em um grande número de países da atualidade (VISCARDI, 2011).

Estudos apontam que ainda hoje a concentração de pobreza e desigualdade social e financeira reinam nas regiões Norte e Nordeste, tendo Maranhão (52,4%), Amazonas (49,2%) e Alagoas (47,4%), respectivamente, as três posições no ranking com o número maior de pessoas que estão abaixo da linha de 5,5 dólares per capita. Esse recorte demonstra a falta de recursos que permitam acesso a bens e serviços que são barganhados por meio da compra (IBGE, 2017).

Talvez uma das maiores consequências da subalternidade seja a fome. Uma mãe que alimenta seu filho no seio materno, ou com outros alimentos, o dará em maior quantidade para meninos que para meninas – porque está embutido no seu subconsciente que os homens necessitam de mais força que as mulheres (SAFFIOTI, 2001). A restrição alimentar em relação à mulher ocorre em muitas partes do mundo. Na África Ocidental, as mulheres são proibidas de comerem ovos, alguns tipos de peixes, carne de carneiro, galinhas. Na Índia, as mulheres, enquanto amamentam, têm restrição em sua alimentação. As frutas doces, como melão, são proibidas para mulheres e adolescentes. Água deve ter seu consumo moderado, e o jejum é recomendado. As restrições pelas quais essas mulheres lactantes passam acabam acarretando doenças em seu sistema debilitado, fazendo com que haja um envelhecimento precoce (CHAVES, 2017).

Em estudo publicado em 1986, Berquó verificou que os meninos da região Nordeste do Brasil eram mais amamentados que as meninas. Observou também que entre as mães da zona rural, em comparação com as mães dos centros urbanos, havia uma diferença de 10% na frequência da amamentação materna para os meninos, ou seja, os meninos da zona rural eram

mais amamentados que os meninos das cidades. Em todos os comparativos, as mães multíparas de meninas eram as que menos amamentavam suas filhas.

Levando-se em comparação com as mães da Grande São Paulo, as mães nordestinas amamentavam por um tempo menor, principalmente as meninas. A taxa de escolaridade das mães também se mostrou um fator decisivo para adesão ao aleitamento materno, bem como para a sua duração. Havia também uma diferença de aproximadamente um mês para efetuar o registro em cartório do nascimento de meninas ante o nascimento de meninos (BERQUÓ, 1986).

Ao alimentar-se um escravo, deixando-o bem nutrido, não se garante o seu direito humano à alimentação, uma vez que ele ainda permanece em sua condição de escravo, violando seu direito à sua humanidade. Ao recorrer ao lixo, um adulto ou uma criança, por mais saudável que esteja, ainda não tem seu direito alimentar garantido, pois sua dignidade é violada. Ao estar enfermo e, por consequência, não conseguir fazer uso de sua autonomia para preparar o próprio alimento, o direito à alimentação também é violado, por não ter a oportunidade de transformar o alimento em saúde, vida e humanidade (VALENTE, 2003).

A triangulação má nutrição, fome e alimentação está para além do prisma econômico, alimentar ou biológico. A alimentação humana consiste na dinâmica entre o alimento (natureza) e o corpo (natureza humana), mas é efetivada integralmente quando os alimentos são transformados em gente, em cidadãos e cidadãs saudáveis. A socialização do ato de se alimentar e compartilhar alimentos entre familiares e amigos é uma atividade inerente aos humanos, sendo um reflexo da riqueza do processo histórico na formação das relações sociais, constituindo o que se denomina de humanidade, abrangendo toda a sua diversidade, e que está intrinsecamente ligado à identidade cultural de cada povo ou grupo social. A fome e a alimentação, no contexto de direitos humanos, se apresentam como um fenômeno muito mais amplo do que isso (VALENTE, 2002; 2003).

De acordo com Valente (2003, p. 56-57), a fome e a alimentação

Incorporam dimensões relacionadas a diferentes necessidades históricas, culturais, psicológicas e espirituais dos seres humanos, incluindo a questão básica da dignidade. O conceito de fome, no Brasil, utilizado por diferentes setores da população, abarca desde aquela sensação fisiológica ligada à vontade de comer, conhecida de todos nós, até as formas mais brutais de violentação do ser humano, ligadas à pobreza e à exclusão social. Ver os filhos passarem fome é passar fome. Comer lixo é passar fome. Comer o resto do prato dos outros é passar fome. Passar dias sem comer é passar fome. Comer uma vez por dia é passar fome. Ter que se humilhar para receber uma cesta básica é passar fome. Trocar a dignidade por comida é passar fome. Ter medo de passar fome é estar cativo da fome. Estar

desnutrido também é passar fome, mesmo que a causa principal não seja falta de alimento.

Silva (2016, p. 152), analisando o contexto em que Josué de Castro discorria sobre a fome nas camadas operárias, entre as décadas de 1930 e 1940, relata:

A fome era o carro-chefe desta gente abandonada à própria sorte. A alimentação dessa população que se tornara operária era exclusivamente composta pela dieta de farinha com feijão e charque, café e açúcar, o que caracterizava falta de variedade de alimentos, baixíssimas taxas de consumo de calorias diárias, ausências de carboidratos, proteínas, cálcio e ferro. Para Castro, a fome do trabalhador gerava o ciclo vicioso da fome. “A máquina mal alimentada” produziria menos, ganharia menos, o que contribuiria para o processo de urbanização desordenado que aprofundava a crise alimentar e que agiria sobre a evolução social, impedindo o progresso do bem-estar da sociedade brasileira.

A fome é o escândalo do nosso século, dizimando milhões de homens, mulheres e crianças anualmente pelo mundo. A agricultura mundial poderia alimentar duas vezes a população terrestre, porém a cada cinco segundos morre uma criança com menos de dez anos.

“Uma criança que morre de fome é uma criança assassinada” (ZIEGLER, 2013, p. 21). A fome nos campos de concentração nazistas e na Segunda Guerra Mundial massacrou um terço dos civis e militares.

O modo de produção e especulação dos preços dos alimentos, somado às disparidades de distribuição de renda, leva a população mundial a esse quadro tenebroso de fome. Ainda que encarada até pouco tempo como um fenômeno natural, a fome estaria à mercê de um mercado que é autorregulado, ou seja, “a situação macroeconômica – ou dito de outro modo, o estado da economia mundial – sobredetermina a luta contra a fome” (ZIEGLER, 2013, p.

81).

A fome mata aos poucos, gera uma morte dolorosa e sofrida. A subnutrição produz letargia, priva o indivíduo de suas capacidades motoras e mentais. O resultado é a marginalização social e a perda de autonomia econômica, levando à incapacidade de trabalho e, consequentemente, ao desemprego. Esse ciclo termina, fatalmente, em morte (ZIEGLER, 2013). Na dimensão da privação econômica, uma criança vai se alimentar daquilo de que a família dispõe, por vezes insuficiente (BRASIL, 2010b).

A condenação da fome se perpetua biologicamente. Milhões de crianças ao redor do mundo já nascem condenadas por essa maldição, visto que são frutos de mães subnutridas:

Estas já são vítimas de carências antes mesmo de seu primeiro dia sobre a terra. Durante a gravidez, a mãe subalimentada transmite essa maldição à sua criança. A subalimentação fetal provoca invalidez definitiva, danos cerebrais e deficiências motoras (ZIEGLER, 2013, p. 34).

Em decorrência desses extermínios através por meio da fome, pesquisadores que já estudavam o fenômeno tiveram voz, como o brasileiro Josué de Castro, citado por Silva (2016). A Food and Agriculture Organization (FAO) e o Programa Alimentar Mundial (PAM) são legados desse ilustre brasileiro. A Organização das Nações Unidas (ONU) surgiu em virtude da necessidade de uma mobilização mundial para mudar o curso da história. Logo após a criação da ONU, houve a criação da FAO e do PAM (ZIEGLER, 2013). Em 1946, um ano depois de criada a ONU, sacramentou-se a primeira campanha mundial contra a fome.

Em 1948, a ONU adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que em seu artigo 25º estabelece o direito à alimentação (ZIEGLER, 2013).

Para que a FAO tenha parâmetro da fome nas Nações Unidas, ela realiza cálculos estatísticos complexos. De modo sintético, calcula-se a produção agrícola, a importação e a exportação de alimentos obtendo-se as calorias disponíveis para a população. Logo após, estima-se a quantidade de calorias necessárias para alimentar uma dada população. Assim, obtêm-se quantas pessoas estão desprovidas de calorias – com fome, que pode ainda ser dividida em fome estrutural e fome conjuntural:

A fome estrutural é própria das estruturas de produção insuficientemente desenvolvidas dos países do Sul. Ela é permanente, pouco espetacular e se reproduz biologicamente: a cada ano, milhões de mães subalimentadas dão à luz milhões de crianças deficientes. A fome estrutural significa destruição psíquica, aniquilação da dignidade, sofrimento sem fim. A fome conjuntural em troca é altamente visível. Irrompe periodicamente nas telas da televisão.

Ela se produz quando, repentinamente, uma catástrofe natural – gafanhotos, seca ou inundações – assolam uma região (ZIEGLER, 2013, p. 38).

Quando o Brasil saiu do mapa da fome, em 2014, não significou que sua população não vivesse mais em situação de insegurança alimentar, mas que menos de 5% dela se encontravam em tal situação, ou seja, uma parcela de brasileiros ainda estava sujeita à fome e à subnutrição. Nesse contexto, a fome deixou de ser vista como um fenômeno natural ou escassez de alimentos e, sim, como um problema a ser enfrentado por meio de políticas públicas. Esse caminho sinuoso que o Brasil está trilhando o levará novamente a aparecer no mapa da fome organizado pela FAO, conduzindo-o novamente ao posto que havia deixado em 2014. Estar incluído no mapa significa ter parte considerável da população em situação de

insegurança alimentar, ingerindo uma quantidade diária de calorias inferior ao recomendado (PERES, 2018).

Atualmente, a alimentação passa a ser vista por outras lentes, principalmente no que tange a questões de crise alimentar. Os sociólogos discutem com os colegas detentores do campo científico da alimentação, como nutricionistas, engenheiros de alimentos, economistas, enfim, que a alimentação saiu do campo da saúde e entrou no campo das questões sociais.

Dessa forma, ocupa na mídia um espaço de extremos, por meio de questões sociais ou de escândalos envolvendo os alimentos, como no caso de alimentos contaminados (POULAIN;

PROENÇA, 2003).

Para Poulain e Proença (2003), o ato de cozinhar é mais do que causar prazer e partilhar: envolve questões sociais e tem forte significado simbólico. De acordo com Carvalho, Luz e Prado (2011), o ser humano necessita comer – frisa-se "comer", porque não basta ter do que se alimentar ou nutrir; é necessário comer. Comida que se escolhe por gosto, por querer comer. Não alimento que se compra no mercado, próximo à validade, ou até mesmo vencido, porque está mais barato, para não morrer de fome.

Embora haja uma superprodução de alimentos, ainda há camadas da sociedade que não se beneficiam dela. Estudiosos buscam compreender como esse fenômeno de exclusão se forma, quais fases enfrenta e quais serão os desfechos possíveis. Não são apenas as pessoas em situação de rua que não têm acesso à alimentação em quantidade e qualidade como gostariam, os denominados excluídos visíveis. Dentro da sociedade estão os excluídos ocultos que também necessitam de atenção nesse quesito. Assim, apontam os autores que é necessária a aplicação de recursos em programas sociais (POULAIN, 2004).

Uma mãe desnutrida toma para si a responsabilidade de alimentar seu filho com seu leite materno, por meio de um corpo desesperado por nutrientes. É somente dela o peso da responsabilidade de fornecer a vida e a esperança para aquele ser indefeso e dependente, enquanto ela mesma não consegue se alimentar satisfatoriamente (VALENTE, 2003). Ziegler (2013, p. 59) questiona em sua obra:

Como uma mãe cujos filhos choram à noite de fome e que consegue milagrosamente um pouco de leite emprestado por uma vizinha poderá alimentá-los no dia seguinte? Como não se tornar louca? Qual pai incapaz de alimentar seus filhos não perde, a seus próprios olhos, toda dignidade?

A tríade fome, desnutrição e analfabetismo constitui um ciclo de vida miserável imposta a uma parcela significativa da massa populacional brasileira, por meio de um

processo histórico e constitutivo do Brasil, em que o período colonialista e imperialista formou uma pequena parcela dominante que explora os menos favorecidos e se beneficia deles (VALENTE, 2003).

Crianças desnutridas vêm de famílias com fome, incapazes de gerir a própria vida e sem escolaridade. Umas das consequências dessa desnutrição é a baixa estatura das crianças e de seus pais. Pode-se citar também o fracasso escolar dessas crianças, principalmente se a desnutrição as atinge nos primeiros dois anos de vida. Os mil primeiros dias são de fundamental importância para o desenvolvimento biológico e biopsicossocial de toda criança.

Se a nutrição é comprometida já no útero, essas sequelas serão carregadas pelo resto da vida (CUNHA; LEITE; ALMEIDA, 2015; VALENTE, 2003).

Ao se analisarem os movimentos em torno da causa alimentar, como a obesidade, a ligação dos alimentos com sentimentos, as transformações das práticas alimentares, vê-se que tanto a fome biológica quanto a expressão da fome estão socialmente conformadas. Quaisquer que sejam os ritos envolvidos com a alimentação, eles são socialmente determinados. Os hábitos alimentares são frutos da interação entre o espaço social e a necessidade biológica daquele grupo de pessoas vivendo em determinado momento histórico (POULAIN;

PROENÇA, 2003).

No documento Fernanda Souza Tomé da Silva.pdf - Univali (páginas 38-44)