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COMPORTAMENTO DOS ESTUDANTES DE BAIXA RENDA

demais dimensões demonstraram baixos valores: Atração por Produtos como Sinal de Status (63%); Compra por Emoção / Excitação (49%). Como esperado, a dimensão que tratava de Autocontrole Financeiro obteve um baixo valor de explicação do construto (32%), pois indicou a dificuldade dos consumidores excessivos em poupar dinheiro.

O terceiro construto estudado – Propensão ao Endividamento – é melhor representada pela dimensão Preferência no Tempo (79%), ou seja, não há problemas em ter dívidas se houver condições de pagá-las. No entanto, o Autocontrole Financeiro (77%) marcou alto índice no construto. Esse valor confirma que os jovens com maior propensão ao endividamento possuem maior dificuldade no controle de seus rendimentos. Vale destacar que no modelo não ocorreu nenhuma relação bidirecional (relação mútua e recíproca entre as dimensões), ou seja, as variáveis latentes não possuíram nenhuma covariância entre elas.

Por fim, diante dos dados, pode-se entender que o construto de materialismo possui relação com o Consumo Excessivo, justificado pela representação de 61%.

Esse resultado não pode ser aplicado ao construto de Propensão ao Endividamento, uma vez que a relação com o Consumo Excessivo representou apenas 37% na pesquisa aplicada.

Tabela 49 – Características sociodemográficas dos pesquisados de baixa renda

Variáveis Alternativas Frequência Percentual (%)

Idade Até 20 completos 45 45,45

21 a 30 anos completos 54 54,55

Total 99 100

Gênero Masculino 71 71,72

Feminino 28 28,28

Total 99 100

Estado Civil Solteiro (a) / Separado (a) Viúvo (a) 79 79,80

Casado (a) / Mora Junto (a) 20 20,20

Total 99 100

Ocupação Profissional

Não Trabalho / Desempregado (a) 28 28,28

Conta Própria / Autônomo (a) 6 6,06

Empresário (a) 2 2,02

Estagiário (a) 21 21,21

Empregado (a) Assalariado (a) 41 41,41

Funcionário (a) Público (a) 1 1,01

Total 99 100

Moradia Moro Sozinho (a) 24 24,24

Moro com Familiares, Companheiros (a) e/ou Amigos.

75 75,76

Total 99 100

Ajuda Financeira

Não recebe ajuda financeira 52 52,53

Ajuda governamental (bolsa família, bolsa para estudos)

23 23,23

Ajuda dos pais 14 14,14

Ajuda de amigos 5 5,05

Ajuda de parentes 2 2,02

Ajuda dos avós 3 3,03

Total 99 100

A amostra de estudantes da baixa renda possuía a idade média de 22,24 anos, distribuída entre as faixas etárias até 20 anos (45,54%) e de 21 a 30 anos (54,55%), com predominância do gênero masculino (71,72%), solteiro, separado ou viúvo (79,80%), que trabalhava (71,71%). Percebeu-se que a amostra selecionada ainda depende da moradia de seus pais ou de outros indivíduos que possam ajudar financeiramente as suas despesas, pois se gerou o índice de 75,76%.

Esse estudo ainda buscou identificar se estudantes de baixa renda dependiam ou não financeiramente de outras pessoas. Cerca de 52,53% dos alunos afirmaram não receber ajuda financeira. No entanto, a ajuda governamental foi um importante fator desta pesquisa, pois identificou as pessoas que recebiam bolsas de estudos, que atingiu 23,23%. As demais ajudas, somadas, representam 24,24% dos alunos e são: ajuda dos pais, amigos, parentes.

Com base nos três métodos utilizados para avaliar as atitudes de consumo dos estudantes, são expostos as médias e desvio padrão nos três construtos utilizados neste estudo: materialismo, consumo excessivo e propensão ao

endividamento. Os construtos seguiram os mesmos critérios estabelecidos no tópico 4.3 deste capítulo. A Tabela 50 indica os valores e, posteriormente, são inseridos os comentários das sessões focais para sustentar os resultados.

Tabela 50 – Materialismo, consumo excessivo e propensão ao endividamento da BR

Dimensões Afirmações Média Desvio

Padrão Materialismo

Centralidade (média 3,943)

Geralmente, compro apenas aquilo que preciso. 4,020 1,597 Tento manter a minha vida simples no que diz respeito aos

meus bens materiais.

3,646 1,637 Gosto de gastar dinheiro em coisas que não são

necessárias.

4,939 2,009

Comprar coisas dá-me imenso prazer. 2,949 1,746

Gosto de muito luxo na minha vida. 4,162 1,952

Felicidade (média 3,778)

Tenho todas as coisas de que preciso para ser feliz. 3,222 1,706 A minha vida seria melhor se possuísse coisas que não

tenho.

3,455 2,111 Seria mais feliz se tivesse dinheiro para comprar mais

coisas.

3,869 2,013 Às vezes, entristece-me um pouco que não possa comprar

todas as coisas que quero.

4,566 1,949 Sucesso

(média 3,416)

Admiro pessoas que possuem carros, casas e roupas caras. 4,323 1,795 Alguns dos feitos mais importantes na vida incluem adquirir

bens materiais.

2,889 1,795 As coisas que tenho dizem muito sobre o sucesso que tenho

tido na vida.

2,859 1,629 Gosto de ter coisas para impressionar as pessoas. 3,596 1,873 Total Média Geral do Construto Materialismo 3,621 1,099 Consumo Excessivo

Compra por status (média 2,228)

Eu gosto de muito luxo na minha vida, embora possa não ter dinheiro suficiente para pagar todas as minhas contas.

2,242 1,591 Eu compro os objetos materiais, como sinal de sucesso,

embora as compras possam me colocar em dificuldades financeiras.

1,919 1,167

Eu tenho muito prazer em comprar coisas agradáveis, embora eu tenha dificuldade financeira.

2,525 1,593 Prazer em

comprar (média 2,131)

Comprar é uma forma de me sentir melhor, mesmo que depois eu possa enfrentar dificuldades financeiras.

2,182 1,424 Quando estou com um baixo emocional, gasto mais do que

eu deveria com base na minha condição financeira.

2,030 1,548 Para mim, fazer compras é uma maneira de aliviar o

estresse, embora eu talvez tenha que enfrentar dificuldades financeiras.

2,182 1,567

Compra inconsequente

(média 2,448)

Muitas das vezes eu compro algo que realmente quero, sem pensar muito, embora eu não deveria comprá-lo, com base nas minhas condições financeiras.

3,182 1,854

É típico que eu passe por imprudente por não ter dinheiro suficiente para pagar todas as minhas compras.

1,667 1,195 Durante as compras, muitas vezes, eu gasto mais do que eu

deveria (com base nas minhas condições financeiras) sem que eu perceba isso.

2,495 1,567

Compra por emoção (média 1,976)

Eu gasto muito quando estou de bom humor, embora as compras possam me colocar em dificuldades financeiras.

2,051 1,380 Quando eu estou bem emocionalmente, compro um monte 1,859 1,254

de coisas, embora eu não tenha dinheiro suficiente para pagar todas as minhas compras.

Eu gosto de fazer compras quando estou de bom humor, embora compre coisas que eu não deveria, se pensar na minha situação financeira.

2,020 1,253

Autocontrole financeiro (média 2,926)

Eu acompanho bem as minhas despesas, para fins de orçamento.

3,091 1,773 Eu realmente posso impedir-me de comprar coisas que eu

não deveria, se eu pensar na minha situação financeira.

2,798 1,738 Eu examino e avalio o meu comportamento de compra, com

a finalidade de cuidar do meu orçamento.

2,889 1,743 Média Geral do Construto Consumo Excessivo 2,182 1,508 Propensão ao Endividamento

Impacto Moral Não é certo gastar mais do que ganho. 1,263 0,803 Preferência do

Tempo

Prefiro comprar parcelado a esperar ter dinheiro para comprar à vista.

2,677 2,411 Prefiro pagar parcelado mesmo que no total seja mais caro. 2,667 2,157 Autocontrole

Financeiro

Eu sei exatamente quanto devo em lojas, cartão de crédito ou banco.

2,253 1,945 Média Geral do Construto Propensão ao Endividamento 2,460 2,051

Com a Tabela 50, é possível compreender que os jovens de baixa renda possuem valores medianos nas dimensões do construto de materialismo, pois Centralidade (3,943), Felicidade (3,778) e Sucesso (3,416). Esses índices indicam que o consumo passa a orientar boa parte das atitudes no cotidiano dessas pessoas, ou seja, elas acreditam que a posse de bens pode trazer felicidade e bem- estar, dados os valores altos nas afirmações “Gosto de gastar dinheiro em coisas que não são necessárias” (4,939), “Às vezes, entristece-me um pouco que não possa comprar todas as coisas que quero” (4,566) e “Admiro pessoas que possuem carros, casas e roupas caras” (4,323).

O consumo excessivo se manteve estável, porém com baixas médias no construto. As 15 variáveis de análise se demonstraram: Compra por status (2,228);

Prazer em comprar (2,131); Compra inconsequente (2,448); Compra por emoção (1,976) e Autocontrole financeiro (2,926). Nenhum dos construtos ultrapassou 3 pontos na escala que variava entre 1 a 7 pontos. No entanto, uma afirmação pode indicar que esses indivíduos consomem excessivamente, sem pensar nas suas condições financeiras, pois “Muitas vezes eu compro algo que realmente quero, sem pensar muito, embora eu não deveria comprá-lo, com base nas minhas condições financeiras” e obteve a maior média do construto (3,182).

A propensão ao endividamento pode explicar os comportamentos de compra do jovens universitários. Dentre o número total de indivíduos de baixa renda, 57,5%

no total da amostra afirmaram possuir débito financeiro. A Tabela 51 compara o número de endividados e as variáveis sociodemográficas.

Tabela 51 – Endividados e não endividados da baixa renda

Variáveis Alternativas Amostra Endividados

(%)

Não Endividados (%)

Idade Até 20 completos 45 66,7 33,3

21 a 30 anos completos 54 53,7 46,3

Gênero Masculino 71 42,9 57,1

Feminino 28 70,4 29,6

Estado Civil Solteiro (a) / Separado (a) Viúvo (a)

79 78,5 21,5

Casado (a) / Mora Junto (a) 20 85,0 15,0

Moradia Moro Sozinho (a) 24 91,7 8,3

Moro com Familiares e/ou Amigos.

75 57,3 42,7

Indivíduos com até 20 anos (66,7%) possuíam mais dívidas que estudantes entre 21 e 30 anos de idade (53,7%). O gênero feminino (70,4%) assumiu maior endividamento que o masculino (42,9%). Esse resultado demonstra que os homens são mais conscientes nas atitudes de compra do que as mulheres. Dos estudantes que estavam solteiros durante a aplicação da pesquisa, cerca de 78,5% possuíam dívidas, contra 85,0% dos alunos casados ou que moravam juntos.

Além desses dados quantitativos do levantamento survey – como descrito no capítulo 3 deste trabalho – sessões de grupos focais foram realizadas com estudantes. Essas aplicações visavam a compreender o perfil de compra dos jovens, além do auxílio na confecção do questionário survey. Como descrito anteriormente, as duas reuniões aconteceram no mês de junho de 2011 com jovens entre 18 e 30 anos, de ambos os sexos, em um total de 22 participantes que se enquadravam nas classes de baixa renda.

Esses índices encontrados no levantamento quantitativo são justificados em comentários realizados nas sessões de grupos focais, pois quando questionados sobre a economia financeira, salientaram:

[...] Ah, eu não consigo guardar dinheiro, é [...] não [...] sempre acontece alguma coisa, até o começo do mês vai, mas depois rola uma viagem, sei lá, alguma coisa acontece. Não vou deixar de fazer alguma coisa que eu quero porque eu não tenho dinheiro. Vai no caixa eletrônico [...] (risos) tem empréstimo na telinha.. quando abre a tua conta, de cara aparece, você tem x disponível, e eu sempre pego (risos). ( Mulher 23 anos).

[...] Eu vou na psicóloga, é bem difícil. Pra ter uma noção, esse ano eu comprei três notebooks e um Ipad. Besteira, besteira [...] sem falar em roupa. Nossa, isso mesmo [...] sou doente. Já tentei de tudo, mas que vejo alguém com alguma coisa legal [...] eu também quero.

Se ela tem, também posso ter, financiamento, aí vou eu. (risos). Tem dia que a minha psicóloga quase me mata. Mas tenho desejo de comprar [...] se eu não posso, dou um jeitinho. (Mulher 26 anos).

É possível identificar as inconsequências das compras dos jovens pesquisados. Esses dados qualitativos explicam os resultados dos questionários aplicados. Importante relatar que, por vezes, esse perfil de compra é ligado ao sucesso pessoal, assim como a descrição no construto de materialismo. Além disso, a compra excessiva e a atitude positiva ao materialismo podem ser explicadas pela representação de felicidade em comprar. Para isso, é relevante o comentário de uma acadêmica de 19 anos:

[...] Pra mim, é balada. Se eu parasse de sair, iria reduzir um monte.

Porque é roupa, bebida. Não fico em casa. Já devo pro meu namorado. Ele briga muito por tudo isso, mas sei lá [...] não sei..

gosto de gastar, me sinto feliz [...] quem não se sente feliz comprando, fala a verdade [...] fala a verdade. Eu tô pra conhecer alguém.

Para verificar as atitudes de compra e de economia financeira desses jovens, dois outros questionamentos foram inseridos no levantamento survey: nível de consumo do salário e os produtos mais consumidos no dia a dia desses estudantes.

O primeiro foi avaliado pela escala 1 a 7 pontos, na qual: 1 – Gasto menos do que ganho; 3 – Gasto igual ao que ganho e 7 – Gasto mais do que ganho. Os resultados encontrados são descritos na Tabela 52.

Tabela 52 – Níveis de gastos dos jovens de baixa renda

Escala Likert – 1 a 7 Frequência Porcentagem

1 Gasto menos que ganho

16 16,1

2

3 Gasto igual ao que

ganho 72 72,7

4 5

6 Gasto mais do que

ganho 11 11,1

7

Com os dados da Tabela 52, é possível relatar o baixo número de alunos que gastam menos do que ganham. Esse resultado indica a baixa capacidade de gestão

e o ato de poupar dinheiro dos alunos, dados os valores: gasto menos do que ganho (16,1%), gasto igual ao que ganho (72,7%) e gasto mais do que ganho (11,1%).

Essa relação pode ser respondida com os comentários dos grupos focais, pois quando se falava sobre o endividamento, foram obtidos os seguintes comentários:

Acho que toda mulher tem sua dívida, não me preocupo muito não, deito e durmo. Acho que o dia que eu não dormir mais, vou me sentir endividada. (Mulher 22 anos).

Eu sou endividado. Posso me definir? [...] Sempre vou comprar já sabendo que eu não posso pagar. Meu cartão de crédito (risos) vive estourado. Isso é ser uma pessoa endividada? (Homem 21 anos).

No meu caso, minha faculdade é novecentos reais, então por isso que eu me amarrei. Mas também foi um pouco de irresponsabilidade minha, porque eu sabia que [...] eu sozinha não ia dar conta e que eu dependia do meu pai, então eu arrisquei [...] e isso eu não faria de novo, arriscar. Eu só faria se eu tivesse condições, por isso eu troquei de curso. (Mulher 21 anos).

Percebe-se baixa responsabilidade na gestão financeira dessas pessoas.

Poucos comentários puderam ser extraídos dos alunos que estão em dia com suas despesas, uma vez que, nas sessões, um número elevado de alunos estava em débito financeiro. Essa representação do comportamento de compra dos estudantes pode ser reflexo da busca pela felicidade e o sucesso pelas compras, ou seja, o dinheiro, para esses jovens, pode indicar a sensação de bem-estar emocional.

Com o intuito de identificar os produtos e serviços mais consumidos pelos indivíduos da baixa renda, foram dispostos 16 variáveis, as quais os estudantes deveriam assinalar na escala que variava entre 1 e 7. Tais valores são expostos na Tabela 53.

Tabela 53 – Tipos de gastos dos jovens de baixa renda

Produtos Média Desvio Padrão

Alimentos em Geral (Supermercados, Açougue). 4,250 1,704

Móveis em Geral (Cama, Estante, Colchão). 1,990 1,266

Utensílios Domésticos (Decoração, Acessórios de Cozinha). 2,120 1,327

Vestuário em Geral (Roupas, Acessórios). 4,540 1,662

Calçados em Geral. 4,070 1,649

Materiais de Construção. 1,600 1,285

Automóvel ou Moto. 2,270 1,749

Eletrodomésticos, Eletroeletrônicos. 2,390 1,511

Presentes. 3,370 1,620

CDs, DVDs (Discos, Música). 2,230 1,743

Celular ou Telefonia. 3,340 1,756

Medicamentos, Perfumaria, Cosméticos. 3,960 1,823

Lazer (Restaurantes, Cinemas, Teatros, Shows, Festas). 4,330 1,801

Pagamento de Contas (Quitação de Dívidas). 4,300 2,007

Médicos, Hospitais e Exames. 2,210 1,466

Escolas, Graduação, Cursos em Geral. 5,010 1,741

Como é de se esperar, os maiores gastos dos estudantes da classe econômica de baixa renda foram com a educação, uma vez que indicaram gastar mais com escolas, graduação e cursos em geral (5,010). Os gastos com vestuário atingiram a média de 4,54, seguidos de lazer (4,330) e pagamento de dívida (4,300), que ficaram acima de alimentação (4,250).

Nesta amostra de alunos, diversos foram os produtos financeiros que representavam a dívida, assim como as justificativas de tal débito financeiro. O cartão de crédito ainda era o produto mais utilizado por esses jovens de BR que, nesta pesquisa, atingiu 41,4%. Os outros produtos, somados, marcaram 47,4%, dentre: carnês de lojas, crédito consignado, financiamento de casa e carro, crédito pessoal, cheque e crediários.

Quanto às justificativas do endividamento, os 99 estudantes da classe econômica de baixa renda relataram acontecer pelas seguintes razões: 59,8% pela falta de planejamento e 12,3% por má gestão dos rendimentos. Outros fatores somam 27,9%, e são: desemprego ou queda na renda, problemas de saúde e acesso ao crédito. Com os comentários do grupo focal, ressalta-se:

[...] O que acontece, eu vejo da seguinte forma, a gente tenta fugir do endividamento fazendo um maior ainda, que é empréstimo. Dessa forma, o governo, os bancos ficam amarrando as pessoas pra sempre estar se endividando, pedindo empréstimo, cada vez gerando mais juros, cada vez [...] um saindo ganhando e quem perde é a gente, é isso o que eu penso. (Homem 24 anos).

[...] Sim, deixei de pagar a XXX (universidade), me sinto endividada, mas não me sinto preocupada, [...] não mesmo. (Mulher 26 anos).

[...] Ah [...] eu costumo torrar todo o meu salário. [...] Aí recorro ao meu pai (risos) paitrocínio. (Homem 24 anos).

[...] Eu não gosto de ficar devendo[...] a pessoa tem que se programar, eu queria trocar de moto, mas como eu já devo (risos)

tenho que esperar um pouquinho [...] Tem dia que eu penso, vai que eu morro, e não morro com a moto que eu queria.. amanhã vou lá comprar (risos). A gente tem que se apertar pra poder comprar o que a gente sonha. Se não for assim, na nossa idade [...] é bem difícil [...]

ah [...] Claro que eu queria ter tudo o que eu sonho [...] mas é uma dívida a cada mês [...] faço tudo a prestação. (Homem 27 anos).

De cinco mil pra cima, eu me preocupo. Tem vezes que eu [...] me esquento [...] tenho dívida de dois mil, é bem ruim, SPC, Serasa [...]

to lá. Pode me procurar. (Homem 22 anos).

Os comentários extraídos dos grupos focais representam uma juventude despreparada para a gestão do dinheiro. Essa informação também é relatada pelo levantamento survey desta pesquisa, pois indicou 57,5% dos estudantes de baixa renda em débito financeiro. A causa desse débito, reflexo do consumo excessivo e das atitudes positivas ao materialismo, foi discutida por estudos aplicados no Brasil, como os de Neri (2008), Lamounier e Souza (2010) e Prahalad (2010).

De fato, o crescimento da classe de baixa renda no Brasil possui uma representação significativa na economia nacional. Mas destaca-se que esse consumo e a baixa percepção do risco do endividamento pode causar diversos problemas sociais e psicológicos nesses estudantes, como relatado na fundamentação deste estudo. Embora haja perspectiva de crescimento da renda no país, é importante que se dê um destaque maior a esses indivíduos, principalmente aos resultados que apresentados nesta pesquisa.

Deve-se reconhecer que grande parte das pessoas que representam a baixa renda são enquadradas em alguns pontos relevantes às discussões deste trabalho.

Lamounier e Souza (2010) apontam que esses indivíduos passaram a ter acesso ao ensino superior, pois a educação é vista como um dos principais fatores de ascensão social e sucesso para alcançar os objetivos da vida. Nesta pesquisa, um número expressivo de alunos (23,23%) recebeu algum tipo de bolsa educacional.

Essas dificuldades encontradas na gestão dos rendimentos, discutidas nos dados quantitativos e com os comentários das reuniões de grupos focais, podem estabelecer sentido aos comentários encontrados na teoria da classe de baixa renda. Lamounier e Souza (2010) citam que apesar do aumento de indivíduos escolarizados, a baixa qualidade do ensino e a equidade na distribuição de oportunidades educacionais podem resultar em diversos problemas, pois não existe a educação financeira, resultando na baixa consciência de consumo para esses indivíduos.

Outra dificuldade encontrada para a gestão financeira dessas pessoas pode ser explicada por dois motivos: a ascensão recente ao consumo e a rápida mobilidade da classe econômica. Citam Lamounier e Souza (2010) que ambas aconteceram a partir de 2008 e contribuíram para que os indivíduos aumentassem o seu poder de consumo. No entanto, a baixa consciência do valor do dinheiro e novos hábitos de compra não permitiram que essas pessoas escapassem do endividamento financeiro.

Mesmo que os estudantes tenham demonstrado ter seus maiores gastos com estudos, é importante que se tenha educação financeira. Os níveis dos três construtos desta pesquisa, aplicada à classe econômica de baixa renda, foram relevantes. Por relatos das duas sessões de grupos focais, pode-se perceber que não existe preocupação com o fator endividamento, o que pode trazer problemas sociais para essas pessoas.

5 CONCLUSÕES, LIMITAÇÕES E SUGESTÕES

Este capítulo é dividido em três partes. Na primeira, apresentam-se as principais conclusões do estudo. Em seguida, levantam-se as limitações, sugerem- se temas para novas pesquisas e finaliza-se com as contribuições teórico-empíricas para o avanço do conhecimento sobre o comportamento de compra do consumidor.