3 CONTRIBUIÇÕES E COMPREENSÃO TEÓRICA
A formação de professores ainda tem a honra de ser, simultaneamente, o pior problema e a melhor solução em educação.
(Michael Fullan, 1993)
Muitas são as discussões que abrangem o desenvolvimento profissional dos professores, as quais não são recentes e continuam pertinentes atualmente. Elas abrangem desde a qualidade da formação até as condições do trabalho dos professores, em sua função docente, no contexto escolar. Acreditamos que refletir sobre o percurso formativo desde o início e seus caminhos históricos, considerando o contexto, pode dar indícios consideráveis para compreendermos todo o processo formativo, bem como os conflitos que vivemos atualmente na sociedade contemporânea.
Nesta pesquisa, fizemos um estudo sobre as narrativas como instrumento de formação e coleta de dados. Iniciamos com o conceito para termos clareza do objetivo delas e, em seguida, realizamos um esboço dos tipos de narrativas mais utilizadas e o seu papel no processo formativo. Este estudo foi feito considerando a escolha pela abordagem narrativa para realização deste trabalho e também pela crescente expansão das pesquisas narrativas no meio educacional, tendo como foco compreender o processo de composição no contexto social, a partir das relações que estabelecemos com os outros e com nós mesmos dentro do espaço escolar em tempos de pandemia.
(2005); Josso (2004; 2010); Larrosa (2001; 2002); Libâneo (2005; 2008); Marcelo (1999; 2009;
2010; 2011); Mizukami (2000; 2002; 2008); Moran (2014; 2020); Nóvoa (1988; 1992; 2001;
2002; 2016; 2020); Prado e Soligo (2005); Sacristán (1999); Sarmento et all (2013; 2015; 2017;
2021); Schön (1992); Tardif (2002), entre outros.
O percurso da formação de professores no Brasil deve ser pesquisado para compreendermos como este tema é tratado com base nas políticas públicas educacionais. Isso nos dá melhores condições de assimilar "alguns dos impasses que hoje encontramos nos cursos e propostas que se destinam à formação de professores para a educação básica, no confronto com aspectos societários emergentes, importantes de se considerar em relações educativas"
(GATTI et al, 2019, p. 15-6). Assim, uma reflexão sobre o processo formativo, desde os primórdios e seus caminhos históricos, faz-se necessário, isso considerando o contexto, o qual pode nos dar sinais importantes para compreendermos a formação, como: as propostas, as práticas, os conflitos que vivemos atualmente na sociedade contemporânea, no âmbito do caminho formativo, neste caso período de pandemia provocada pelo Novo Coronavírus.
A situação social, neste momento, precisa ser considerada quando se trata da educação como: "seus movimentos, diferenciações, conflitos, realizações, contradições, renovações/inovações" (GATTI et al, 2019, p. 16), pois a partir da consciência deste momento de mudanças constantes podem surgir alternativas de ações efetivas para o processo formativo.
As autoras ainda nos mostram que "problematizar a partir de pontos de referência é fundamental para compreender e agir conscientemente".
A formação de professores, não só, mas de todo ser humano, é algo que está em desenvolvimento constante, pois aprendemos o tempo todo, por menor que seja a aprendizagem. Isso ocorre em nosso cotidiano conforme o contexto histórico em que estamos inseridos. Na área educacional, para nós professores, esta é uma atividade contínua, desde a formação inicial, com a graduação, até os momentos de conversas informais dentro da escola, com relatos de situações vivenciadas entre os pares.
Assim, Marcelo9 (1999) nos traz que a formação de professores é vista como um contínuo, sendo um processo composto por várias fases, que abrangem desde o início da formação até o exercício da docência dia após dia. Seguindo neste pensamento, Nono (2005 p.
36-37), também diz que “a formação docente ocorre de maneira contínua, iniciando-se nos cursos de formação (ou ainda antes) e prosseguindo durante todo o exercício profissional”.
9 Neste trabalho, mencionaremos o autor (Carlos Marcelo Garcia) de Marcelo, uma vez que nas obras mais recentes ele é referenciado assim.
Concordamos com Imbernón (2005, p. 10), quem nos fala para considerar o contexto político e social em que os professores estão inseridos no processo formativo. "Não podemos separar a formação do contexto de trabalho ou nos enganaremos no discurso". O autor ainda destaca a "necessidade de estabelecer novos modelos relacionais e participativos na prática de formação. Isso nos conduz a analisar o que aprendemos e o que temos ainda para aprender" e, assim, mudar a perspectiva de professores com relação ao senso comum e incorporar em sua prática docente como um ser que tem "condições de confrontar-se com problemas complexos e variados, estando capacitado para construir soluções em sua ação, mobilizando seus recursos cognitivos e afetivos" (GATTI, 2010, p. 1360).
André (2016) pondera sobre a formação de professores e seus desdobramentos, afirmando que
Os professores estejam bem-preparados para propiciar as melhores condições de aprendizagem ao aluno, a fim de que esse aluno possa apropriar da cultura e dos conhecimentos necessários a uma inserção crítica e criativa na realidade que o circunda (ANDRÉ, 2016, p. 18).
Para estarmos bem preparados, nós professores passamos por diversas fases, cada uma com sua importância no processo formativo. O desenvolvimento profissional de professores compõe um processo em construção, por isso é importante estabelecer a escola como o espaço principal da formação, bem como valorizar os saberes, as experiências e, também, considerar as diferentes etapas do processo formativo do professor, etapas que podemos dividir em fases de aprendizagens.
Marcelo (1999) destaca a dimensão do processo formativo da seguinte forma: 1) Fase de pré-treino - experiências prévias vivenciadas como estudante; 2) Fase de formação inicial (graduação) - quando o futuro professor obtém os conhecimentos pedagógicos e de disciplinas acadêmicas; 3) Fase de início à docência - compreende aos primeiros anos do professor no exercício profissional; 4) Fase de formação permanente - corresponde todas as práticas desenvolvidas pelos professores de modo a permitir o desenvolvimento profissional e aperfeiçoamento de seu ensino. Convém destacar que Nóvoa (2001) nos apresenta que concluir a licenciatura ou o Magistério é meramente uma das etapas do longo processo de formação, o qual não pode ser interrompido.
A respeito destas fases, Marcelo (1999) distingue que há um período vital para a formação dos professores. Ele diz que a idade biológica e suas características pessoais correspondem à carreira dos professores, isso conforme o tempo de carreira e o que desejam
alcançar em cada período. O autor ainda esclarece que diferentes experiências, atitudes, percepções, expectativas, satisfações, frustrações, preocupações e outros relacionam-se com as etapas da vida pessoal e profissional do professor.
Na prática, diante de tantos desafios por conta das aulas remotas, observando as várias ações dos professores e cada um reagindo diferente, vemos todos assustados, mas alguns buscando alternativas nos recursos de tecnologia digital para ter melhores condições para oferecer suas aulas. Existem, ainda, aqueles que, a princípio, tentam se recusar às necessidades da mudança. Só que a situação não permite recusa, todos temos que incorporar os recursos tecnológicos em nossa prática docente para seguirmos em frente na profissão.
Ainda para Marcelo (1999), a pessoa tem a aprendizagem autônoma com iniciativas de planejar, desenvolver e avaliar a sua aprendizagem, mas para isso é preciso algumas capacidades, como aplicar o processo de planejar, executar e avaliar a aprendizagem; identificar seus objetivos; selecionar estratégias para planejar; fazer a gestão do seu próprio planejamento;
tomar decisões na gestão de prazos e tempo de atividades; adquirir conhecimentos e técnicas;
detectar e enfrentar os obstáculos que aparecem e renovar a motivação.
As inovações e melhorias nos processos de ensino aprendizagem que usamos em nossa prática docente são usadas a partir das necessidades do contexto em que vivemos. “Foi assim que, em função da pandemia, que os envolvidos na educação [...], tiveram que, pela necessidade, se apropriar muito rapidamente, de todo um conjunto tecnológico de modo a darem conta da grande responsabilidade de levar o conteúdo pedagógico aos estudantes”
(PALÚ; SCHÜTZ; MAYER, 2020, p. 18).
Por conta disso é que Marcelo (1999) fala do processo de aprendizagem da docência.
Ele apresenta alguns princípios, os quais devem estar constituídos ao processo formativo, firmados entre o conhecimento prático e o teórico adquirido no percurso. Esses princípios dizem respeito à complexidade da formação profissional e o de conceber a formação de professores como um processo longo e diferenciado, sendo imprescindível a necessidade de integrar a formação de professores em processos de mudança, inovação e desenvolvimento curricular.
Assim, percebemos que, para se tornar um profissional que atenda às demandas de uma sociedade em mudanças, os desafios são muitos e surgem a cada dia de forma diferente, perpassando por longos caminhos que vão desde o início da formação até o desenvolvimento profissional, sendo que o início da formação para a docência, de acordo com Sarmento e Rocha (2017, p. 01), “envolve processos complexos que partem da adaptação do licenciando às leituras partilhadas ao longo de sua trajetória de formação até às primeiras experiências de docência no estágio supervisionado”. Assim, espera-se dos cursos de licenciaturas subsídios teóricos e
práticos necessários para o exercício da função docente, isso conforme as diversas áreas de conhecimento.
A formação de professores vai além de apenas prepará-los com técnicas e metodologias para ensinar conteúdo das diversas áreas. Formar professores requer o desenvolvimento de reflexão, de práticas de análise e de compreensão do que é realmente agir dentro do contexto escolar dia após dia. Ela tem sido caracterizada como uma preparação complexa, que envolve a agregação do conhecimento recebido durante as aulas, com o conhecimento experimental durante os estágios, proporcionando uma reflexão a respeito desses dois conhecimentos.
Apenas a partir dessa agregação que será possível criar e recriar métodos e técnicas, além de desenvolver competências conforme a realidade que vivenciamos atualmente nas escolas.
Desse modo, perdura uma configuração que traz à tona a ideia de que “ensinar sempre foi difícil, mas nos dias de hoje passou a ser ainda mais difícil” (IMBERNÓN, 2005, p. 90), situação que repercute de forma direta nos cursos de formação inicial de professores, exigindo que sejam repensados e reformulados constantemente, com a intenção de atender às demandas emergentes (MIZUKAMI, 2008; IMBERNÓN, 2005).
As considerações sobre os desafios e demandas da formação inicial de professores no Brasil são abordadas por vários autores. A grande maioria destaca a importância de se ter uma compreensão acerca do papel dos professores neste contexto formativo. Sobre os desafios, Rinaldi e Cardoso (2012, p. 01) abordam o seguinte:
Pensar a formação inicial de professores na atualidade se configura um grande desafio que tem sido objeto de múltiplas análises que indicam as lacunas e severos problemas associados ao modo como essa formação é concretizada. Isso se dá não apenas por conta das diferentes propostas metodológicas que nos podem servir de referência, mas também devido ao modo como o conhecimento, seus conteúdos formativos e as estruturas curriculares dos cursos de Licenciatura e das escolas, de modo geral, são modificadas e, sobretudo, à velocidade com que tais mudanças muitas vezes ocorrem (RINALDI; CARDOSO, 2012, p. 01).
Muitos outros desafios são encontrados na formação inicial de professores, os quais despertam para estudos sobre o assunto nos últimos anos e para um repensar sobre o formato e qualidade desta formação. Esta questão tem despertado em vários estudiosos do assunto o interesse sobre quais conhecimentos, competências, habilidades e atitudes são necessários para que o professor exerça sua função docente com competência, bem como “a buscar estratégias formativas que promovam reflexão crítica e investigação sobre a prática, de modo a contribuir
com o desenvolvimento de profissionais comprometidos com o sucesso escolar e dispostos a atuar em prol de uma educação de qualidade para todos” (ANDRE et al, 2017).
Em todo o percurso da formação de professores, existem grandes desafios, mas, para Nóvoa (2001), “concluir a licenciatura é apenas uma das etapas do longo processo de capacitação, que não pode ser interrompido enquanto houver jovens querendo aprender”. A próxima etapa do processo é o início da docência, momento em que o professor enfrentará outros desafios, sendo isto decisivo para a profissão docente.
O início da docência é o período de tempo que, em média, abrange os 05 (cinco) primeiros anos da profissão. Podemos chamá-lo de período de transição entre ser aluno e ser professor. Segundo Marcelo (2010), “é um período de tensões e aprendizagens intensivas em contextos geralmente desconhecidos e durante o qual os professores iniciantes devem adquirir conhecimento profissional além de conseguirem manter certo equilíbrio pessoal”.
Conhecimentos são construídos dia após dia em um processo de aprender e ensinar.
Este período requer um acompanhamento pontual por parte da coordenação pedagógica, auxiliando, orientado e dando o apoio de que os professores precisam. É este período que define, de forma positiva ou negativa, boa parte da carreira dos professores. O apoio aos professores iniciantes é fundamental. Estes precisam encontrar no seu espaço de trabalho oportunidades para realizar ações pedagógicas com outros professores, precisam ter uma aceitação por parte dos colegas e reconhecimento de suas fraquezas devido à pouca experiência.
A orientação da coordenação pedagógico torna-se essencial para o bom desempenho do iniciante na sala de aula, mas nem sempre esse suporte é real, o que pode intensificar o sentimento de solidão. Quem está começando a lecionar, precisa, mais do que ninguém, de suporte metodológico, científico e profissional, pelo fato de ter acabado de concluir a graduação. O iniciante na profissão docente, em muitos casos, é inserido no espaço escolar, alocado nas piores turmas e sem o apoio de que precisa para construir sua “profissionalidade”
docente.
Para esta construção, Marcelo (2010) nos apresenta as principais tarefas que os professores iniciantes devem enfrentar durante os primeiros anos de profissão: conhecer os estudantes, o currículo e o contexto escolar; planejar o que pretende ensinar; desenvolver ações que lhes permitam sobreviver como professores; criar uma comunidade de aprendizagem na sala de aula e desenvolver uma identidade profissional.
Convém lembrar que esta etapa é apenas o início de uma longa caminhada, sendo que enfrentar os desafios da prática docente tem sido uma tarefa muitas vezes solitária, o que pode provocar desânimo e insatisfação. Conforme Marcelo (2010, p. 5), “poucas profissões se
caracterizam por uma maior solidão e isolamento”. Assim, torna-se imprescindível que políticas públicas de desenvolvimento de programas de inserção à docência sejam criadas, que possam contemplar o maior número de interessados possível, bem como que os mais experientes dentro da escola possam apoiar, acompanhar e auxiliar, durante o processo de desenvolvimento, ações que podem amenizar o peso dessas tarefas. A partir disso, despertar nos iniciantes o interesse e a necessidade de se desenvolver profissionalmente constantemente.
Quando pensamos na quantidade de atribuições que um professor tem no seu dia a dia, muitas vezes há alguns questionamentos que nos inquietam, tais como: como os professores conseguem lidar com tanta demanda? Como o professor iniciante, frente a tantas tarefas, consegue exercer sua função, uma vez que está aprendendo a ser professor? Vaillant e Marcelo (2012, p. 123) nos mostram que estes “experimentam os problemas com maiores doses de incerteza e estresse, devido ao fato de que eles têm menores referências e mecanismos para enfrentar essas situações”. A fase de início à docência pode ser resumida em “sobrevivência” e
“descoberta”. Segundo Huberman (1995), o aspecto da
“sobrevivência” traduz o que se chama vulgarmente o “choque do real”, a confrontação inicial com a complexidade da situação profissional: o tactear constante, a preocupação consigo próprio (“Estou-me a aguentar?”), a distância entre os ideais e as realidades quotidianas da sala de aula, a fragmentação do trabalho, a dificuldade em fazer face, simultaneamente, à relação pedagógica e à transmissão de conhecimentos, a oscilação entre relações demasiado íntimas e demasiado distantes, dificuldades com alunos que criam problemas, com material didático inadequado, etc.
Em contrapartida, o aspecto da “descoberta” traduz o entusiasmo inicial, a experimentação, a exaltação por estar, finalmente, em situação de responsabilidade (ter a sua sala de aula, os seus alunos, o seu programa), por se sentir colega num determinado corpo profissional (HUBERMAN, 1995, p. 39).
Com isso, percebemos que o início da carreira docente tem vários problemas, como angústias, medos, instabilidades, incertezas, dificuldades de relacionar a teoria e a prática, o que pode levar o professor iniciante a imitar outros profissionais. "E o modo de aprender a profissão, conforme a perspectiva da imitação, será a partir da observação, imitação, reprodução e, às vezes, da reelaboração dos modelos existentes na prática, consagrados como bons"
(PIMENTA; LIMA, 2006, p. 03).
Além dos problemas citados, ainda ocorrem outras dificuldades que os professores iniciantes enfrentam em sua prática docente, tais como: domínio de conhecimentos específicos;
relação entre professor/alunos e com os pares; escassez de material; falta de apoio; processo de ensino aprendizagem e outros. Percebe-se que tais dificuldades dificultam ainda mais a realização do trabalho pelo professor.
Contudo, devemos reconhecer que a fase inicial da docência é, também, um período de grandes aprendizagens, descobertas e, sobretudo, um espaço aberto para a construção de novos saberes. Ao mesmo tempo, é um período carregado de conflitos que se não forem bem administrados podem levar o professor iniciante à desistência da carreira. Nóvoa (2001), em uma entrevista dada à Nova Escola já apontava que o professor que acaba de se formar não pode ficar com as turmas mais difíceis nem ser alocado nas unidades com mais problemas, sem acompanhamento.
Assim, percebemos o quanto o apoio dos mais experientes pode contribuir para a formação de quem acaba de assumir a função docente. Marcelo (1999) nos apresenta que a fase inicial da docência pode levar vários anos, até que o iniciante se sinta mais seguro, sendo um período de construções, em que o “aprender a ensinar” vai se desenvolvendo e aos poucos o professor constrói sua identidade profissional.
O perfil ou identidade profissional é um processo de construção do sujeito enquanto pessoa e profissional. Ele define-se a partir de como se reconhece quando está desempenhando seu papel de cidadão e professor, assim também como é reconhecido pelos outros sujeitos na sociedade. É um processo de si como profissional, que evolui a cada dia e que pode ser influenciado pelo espaço de trabalho, pelo contexto em que se vive, o qual “inclui o compromisso pessoal, a disposição para aprender a ensinar, as crenças, os valores, o conhecimento sobre a matéria que ensinam, assim como sobre o ensino, as experiências passadas, assim como a vulnerabilidade profissional” (LASKY, 2005, apud MARCELO.
2009).
Sobre a identidade do professor, Nóvoa (1992) traz que
A identidade não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um produto. A identidade é um lugar de lutas e conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão. Por isso, é mais adequado falar em processo identitário, realçando a mescla dinâmica que caracteriza a maneira como cada um se sente e se diz professor (NÓVOA, 1992, p. 16).
A constituição da identidade profissional do professor está ligada às experiências vividas em todo o processo de formação, o que ocorre ao longo da carreira. Para isso, há a necessidade de estar disposto para vivenciar essas experiências, pois a docência é uma aprendizagem que ocorre dia após dia. Assim, é preciso que o professor seja um “experto adaptativo” para enfrentar os desafios encontrados ao longo da carreira docente (MARCELO, 2009).
Nóvoa (2020) aponta em live10sobre Formação Continuada Territorial a Distância, pela Secretaria da Educação do Estado da Bahia, por meio do Instituto Anísio Teixeira, oferecida para professores de todo o estado, que se existe um momento em que “a formação continuada dos educadores se faz essencial, este momento é agora. Precisamos discutir e compartilhar uns com os outros e reconstruir nossas aprendizagens”. Este é um destaque sobre a importância da formação de forma contínua, principalmente em tempos de crise, como os que estamos vivendo atualmente. Esta formação recebe muitas nomeações, tais como: formação permanente, formação em serviço, desenvolvimento de recursos humanos, aprendizagem ao longo da vida, cursos de reciclagem ou capacitação; nós optamos por mencioná-la “desenvolvimento profissional”, expressão apresentada por Marcelo (2009).
O conceito de desenvolvimento profissional do professor é uma forma de ir mais a fundo na formação que se tem. Marcelo (2009, p.7) nos explica que o conceito de formação sofreu mudanças nos últimos anos por conta da evolução do entendimento de como ocorrem o aprender e o ensinar. Assim, o desenvolvimento profissional passa a ser considerado como “um processo a longo prazo, no qual se integram diferentes tipos de oportunidades e experiências planificadas sistematicamente para promover o crescimento e o desenvolvimento profissional”.
O autor nos lembra que nesse processo deve-se dar grande atenção às representações, crenças, preconceitos dos docentes, pois estes vão interferir em sua aprendizagem da docência e possibilitar ou dificultar as mudanças. Torna-se necessário trazer à tona essas representações e analisá-las com os professores de forma crítica, para poder encontrar formas de transformá-las no que se deseja.
Vários pesquisadores, entre eles Gatti, Nóvoa, Marcelo e outros, têm tentado entender como se dá este processo de mudanças, ou melhor, como se constroem as aprendizagens. As crenças dos professores são destaques, pois estes as trazem quando iniciam o seu percurso profissional - entende-se por crenças, as convicções do que é certo e verdadeiro.
De acordo com Marcelo (2009, p. 15), “as crenças, ao contrário do conhecimento proposicional, não necessitam da condição de verdade refutável e cumprem duas funções no processo de aprender a ensinar”. Para ele, as crenças influenciam como os professores aprendem e, também, influenciam os processos de mudança que estes possam iniciar. Para o autor, as pesquisas a respeito das crenças têm sido de grande relevância, pois têm explicado os motivos de muitas ações de desenvolvimento profissional não terem um impacto real nas mudanças das práticas docentes e, muito menos, na construção do conhecimento dos alunos.
10 https://www.youtube.com/watch?v=7kSPWa5Nieo Acesso em 15/08/2020.