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DIREITO À AUTONOMIA E O CONSENTIMENTO INFORMADO

Cabe assim ao estado respeitar e proteger a liberdade de consciência e crença, juntamente com todas as religiões existentes no Brasil, e ainda assegurar o direito da manifestação religiosa.

Conforme Art. 5º, VI da Constituição do Brasil de 1988: “VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”.114

Dispõem Wilson Ricardo Ligiera com relação à liberdade de consciência: “além da liberdade de possuir ou não uma crença, a Constituição confere ao indivíduo o direito de ter seus próprios valores e sentimentos não religiosos, protegidos pelo direito a liberdade de consciência”.115

A liberdade de consciência se relaciona com as convicções intimas de cada um, que podem ou não vincular-se ao aspecto religioso (e até negá-lo – ateísmo), ao passo que a liberdade de crença “diz respeito ao aspecto religioso” (à escolha de determina religião ou crença que se coadune com os anseios espirituais de cada pessoa).116

Assim as Testemunhas de Jeová ao recusarem receber transfusão de sangue estão apenas querendo que sua fé e sua liberdade de consciência sejam respeitadas.

alguma coisa senão em virtude de lei.” E é nesse artigo que se encontra o direito da autonomia.117

Andrietta Kretz esclarece:

[...] entendendo-se o princípio da autonomia da vontade como uma manifestação ou exercício do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, da livre iniciativa ou do direito fundamental da liberdade, estar-se-á diante de um verdadeiro direito fundamental [...].118

O direito a autonomia com relação a um paciente, nada mais é que o direito de saber quais os procedimentos que o médico pensa em tomar, e poder discutir sobre esses procedimentos.

Conforme leciona Wilson Ricardo Ligiera:

Percebe-se, destarte, que o pleno exercício da autonomia relaciona-se intrinsecamente com a doutrina do

“consentimento informado”. Afinal, para que o paciente possa exercer validamente seu direito de escolha de tratamento, antes deve ser suficientemente informado pelo médico a respeito das diversas propostas terapêuticas, juntamente com seus riscos e benefícios.119

O consentimento informado é um direito do paciente que deve ser respeitado, já não mais se admite uma postura autoritária do profissional de saúde. Qualquer intervenção só pode ser realizada após o consentimento do paciente, que deve sempre ser informado de todos os riscos e benefícios de determinado tratamento.120

117 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil (1988), Senado Federal, Brasília, 2010. p.8.

118 KRETZ, Andrietta. Autonomia de Vontade e Eficácia Horizontal dos Direitos Fundamentais, 2005, p. 112.

119 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p.158.

120 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p.159.

Segundo Wilson Ricardo Ligiera:

Quando médico e paciente estão conjuntamente empenhados em buscar a preservação da vida com dignidade, exercendo cada qual sua autonomia com respeito e cooperação, as chances de êxito do tratamento são muito melhores. Depreende-se, portanto, das considerações dos insignes autores, que a autonomia do paciente não deve ser encarada pelo médico como um aniquilamento da autonomia do profissional, que ainda terá sua liberdade de ação, de acordo com os ditames de sua consciência e os preceitos da medicina. O pleno exercício da autonomia pelo paciente, na verdade, pode contribuir para que o médico, ao tomar conhecimento dos desejos do enfermo, tenha condições de buscar aquilo que é melhor para ele, não apenas sob o ponto de vista científico, mas também de acordo com o que o próprio paciente entende ser bom para si mesmo.121

Andrietta Kretz em sua obra Autonomia da Vontade e Eficácia Horizontal dos Direitos Fundamentais esclarece acerca do princípio da autonomia de vontade como direito fundamental nas relações jurídicas entre particulares:

O dever de respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana e aos direitos fundamentais, por conseqüência, pressupõe e exige um dever das pessoas para além de seus semelhantes, para consigo mesmas. E isto faz com que, mesmo por vontade própria, os particulares não possam restringir de qualquer forma seus direitos fundamentais. O núcleo essencial é irrenunciável e, por isso, jamais poderá ser violado, mesmo que com a concordância do titular do direito fundamental.122

121 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p.160.

122 KRETZ, Andrietta. Autonomia de Vontade e Eficácia Horizontal dos Direitos Fundamentais, 2005, p. 113.

Silvio Romero Beltrão conclui que a autonomia do paciente deverá ser respeitada, mesmo que por razões religiosas, não podendo assim o médico ir contra a sua vontade:

O propósito da obrigação de prestar informações e esclarecer ao paciente é dotá-lo de autonomia para poder tomar decisões com relação aos assuntos de saúde e seu tratamento de forma consciente. Assim, para que o consentimento e a recusa sejam válidos, ele deve ser baseado na compreensão da situação que se apresenta e deve ser voluntário, pois este direito está baseado no princípio do respeito à autonomia.123

E ainda segundo o autor:

Diante do conflito entre a autonomia de vontade do paciente e o dever de beneficência do médico, chega-se à conclusão de que, mesmo por razões religiosas, deve-se respeitar a autonomia do paciente. Não cabe ao leigo, mesmo que ele seja profissional da área de saúde, desconsiderar ou minimizar os valores de ordem religiosa do paciente, diante dos mais elevados interesses profissionais.

A evolução da medicina deve, por sua vez, conhecendo a existência de tais conflitos, especializar os seus profissionais, a fim de prover aos seus pacientes um tratamento alternativo e eficaz que mantenha o respeito às crenças religiosas.124

Cabe ao médico por fim, buscar o bem do paciente respeitando sempre as suas decisões, sua dignidade, crenças, valores e sua autonomia.

123 BELTRÃO, Silvio Romero. Direitos da personalidade: de acordo com o novo código civil. São Paulo: Atlas, 2005, p. 115.

124 BELTRÃO, Silvio Romero. Direitos da personalidade: de acordo com o novo código civil, 2005, p. 115.

O paciente deve se sentir livre e seguro para poder tomar a decisão que achar mais consciente, aceitar ou não determinado tratamento. E é dever do médico respeitar e aceitar a decisão do paciente.