Com certeza entre os principais princípios consagrados na Constituição da Republica Federativa do Brasil de 1988 é o da dignidade da pessoa humana, encontrado no art. 1º, III.
Conforme art. 1º a República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui- se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos em seu inciso III - a dignidade da pessoa humana.77
O principal direito do paciente é o direito à dignidade, a Constituição Federal, em seu art. 1º, proclama como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, qual o Estado Democrático de Direito, a
“dignidade da pessoa humana”. A dignidade representa não somente um direito, mas também um princípio na qual deve ser base para interpretação de toda Carta Magna. Todos os demais direitos fundamentais, como a vida, a honra e a liberdade, devem ser interpretados segundo princípio da dignidade da pessoa humana.78
Alexandre de Moraes define o principio da dignidade da pessoa humana como um valor espiritual e moral inerente à pessoa:
[...] a dignidade é um valor espiritual e moral inerente à pessoa, que se manifesta singularmente na autodeterminação consciente e responsável da própria vida
77 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil (1988), Senado Federal, Brasília, 2010.p. 8.
78 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue. São Paulo: Nelpa, 2009, p. 152.
e que traz consigo a pretensão ao respeito por parte das demais pessoas, constituindo-se em um mínimo invulnerável que todo o estatuto jurídico deve assegurar, de modo que, somente excepcionalmente, possam ser feitas limitações ao exercício dor direitos fundamentais, mas sempre sem menosprezar a necessária estima que merecem todas as pessoas enquanto seres humanos.79
No direito à dignidade, está, o direito ao reconhecimento, respeito, proteção e até mesmo promoção e desenvolvimento da dignidade, podendo inclusive falar-se de um direito a uma existência digna, sem prejuízo de outros sentidos que se possa atribuir aos direitos fundamentais relativos à dignidade da pessoa.80
O principio da dignidade da pessoa humana deve ser respeitado por todos, sendo também obrigação do Estado respeitá-lo e protegê-lo.
Flademir J. B. Martins conceitua:
[...] em síntese, concluímos que a dignidade efetivamente constitui qualidade inerente de cada pessoa humana que a faz destinatária do respeito e proteção tanto do Estado, quanto das demais pessoas, impedindo que ela seja alvo não só de quaisquer situações desumanas ou degradantes, como também lhe garantindo o direito de acesso a condições existenciais mínimas.81
A dignidade da pessoa humana, parte do pressuposto de que o homem em virtude de sua condição humana é titular de direitos que devem ser reconhecidos e respeitados por seus semelhantes e pelo Estado.82
André Ramos Tavares nos ensina que:
79 MORAES, Alexandre de. Direitos Humanos Fundamentais, 2005, p. 48.
80 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. 5. ed. rev. atual. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007, p.
72.
81 MARTINS, Flademir Jerônimo Belinati. Dignidade da pessoa humana: princípio constitucional fundamental. Curitiba: Juruá, 2009, p. 127.
82 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988, 2007, p. 39.
Dessa forma, a dignidade do Homem não abarcaria tão somente a questão de o Homem não poder ser um instrumento, mas também, em decorrência desse fato, de o Homem ser capaz de escolher seu próprio caminho, efetuar suas próprias decisões, sem que haja interferência direta de terceiros em seu pensar e decidir, como as conhecidas imposições de cunho político-eleitoral (voto de cabresto), ou as de conotação econômica (baseada na hipossuficiência do consumidor e das massas em geral), e sem que haja, até mesmo, interferências internas, decorrentes dos, infelizmente usuais, vícios.83
O princípio da dignidade da pessoa humana é direito do cidadão viver de acordo com que acredita implica no direito que todo ser humano possui de conduzir sua existência de acordo com seus próprios valores, desejos, crenças e aspirações, a fim de buscar sua autorrealização como pessoa que possui autonomia e merece ser tratado condignamente, de modo a se respeitar seu modo de vida enquanto pessoa humana, livre e consciente de seus direitos e obrigações.84
Obrigar alguém a receber tratamento é infringir na dignidade da pessoa humana, violar sua consciência e moral.
André Ramos Tavares dispõe que “logo, qualquer causa que venha a cercear sua capacidade de decidir, sua vontade racional, estará vilipendiando o homem e, por conseguinte, a sua dignidade”.85
Assim respeitar a decisão do paciente é respeitar sua dignidade e sua honra, sua autoestima, seu pudor, seus sentimentos de amor próprio, suas crenças e seus valores. A dignidade da pessoa humana que aparece já no primeiro artigo da Carta Magna, é um princípio que deve ser levado em consideração na interpretação de todos os dispositivos constitucionais. O
83 TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional, Saraiva, 2008, p. 541.
84 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p. 153.
85 TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional, 2008, p. 542.
respeito à dignidade do paciente, esta ligada à sua liberdade e autonomia, exige uma atitude tolerante frente a diversidade de opiniões, valores e crenças, e envolve a valorização do seu direito de escolher o tratamento médico que entender ser melhor para si mesmo, impedindo-se qualquer tratamento médico arbitrário que afronte sua condição de pessoa humana autônoma.86
Ingo Wolfgang Sarlet conclui:
[...] onde não houver respeito pela vida e pela integridade física e moral do ser humano, onde as condições mínimas para uma existência digna não forem asseguradas, onde não houver limitação do poder, enfim, onde a liberdade e a autonomia, a igualdade (em direitos e dignidade) e os direitos fundamentais não forem reconhecidos e minimamente assegurados, não haverá espaço para dignidade da pessoa humana e esta (a pessoa), por sua vez, poderá não passar de mero objeto de arbítrio e injustiças.87 Assim dignidade necessariamente é algo que pertence a cada um e que não pode ser perdido ou alienado, porquanto, deixado de existir, não haveria mais limite a ser respeitado.88