respeito à dignidade do paciente, esta ligada à sua liberdade e autonomia, exige uma atitude tolerante frente a diversidade de opiniões, valores e crenças, e envolve a valorização do seu direito de escolher o tratamento médico que entender ser melhor para si mesmo, impedindo-se qualquer tratamento médico arbitrário que afronte sua condição de pessoa humana autônoma.86
Ingo Wolfgang Sarlet conclui:
[...] onde não houver respeito pela vida e pela integridade física e moral do ser humano, onde as condições mínimas para uma existência digna não forem asseguradas, onde não houver limitação do poder, enfim, onde a liberdade e a autonomia, a igualdade (em direitos e dignidade) e os direitos fundamentais não forem reconhecidos e minimamente assegurados, não haverá espaço para dignidade da pessoa humana e esta (a pessoa), por sua vez, poderá não passar de mero objeto de arbítrio e injustiças.87 Assim dignidade necessariamente é algo que pertence a cada um e que não pode ser perdido ou alienado, porquanto, deixado de existir, não haveria mais limite a ser respeitado.88
A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 assegura o direito à vida, cabendo ao Estado assegurá-lo em sua dupla acepção, sendo a primeira relacionada ao direito de continuar vivo e a segunda de se ter vida digna quanto à subsistência.90
Conforme aduz José Afonso da Silva:
De nada adiantaria a Constituição assegurar outros direitos fundamentais, como a igualdade, a intimidade, a liberdade, o bem estar, se não erigisse a vida humana num desses direitos. No conteúdo de seu conceito se envolvem os direitos à dignidade da pessoa humana, à privacidade, à integridade físico-corporal, à integridade moral e, especificamente os direitos à existência.91
Em decorrência do direito à vida surgem ainda outros direitos, como integridade física e moral. 92
Conforme nos ensina Rodrigo César Rebello Pinho:
A pessoa humana deve ser protegida em seus múltiplos aspectos: vida, integridade física, honra e liberdade individual. Não basta garantir um simples direito à vida, mas assegurá-lo com o máximo de dignidade e qualidade na existência do ser humano. A integridade física deve ser entendida como absoluto respeito à integridade corporal e psíquica de todo e qualquer ser humano.93
O direito a vida não é só no sentido de continuar vivo, mais de também ter qualidade de vida, nesse sentido Paulo Afonso Linhares discorre:
Qualidade de vida é a faculdade que têm as pessoas de fazer escolhas, das quais resultam um conjunto de
90 MORAES, Alexandre de. Direitos Humanos Fundamentais, 2005, p. 76.
91 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1991, p. 177.
92 PINHO, Rodrigo César Rebello. Sinopse Jurídica, 2000, v. 17, p. 74.
93 PINHO, Rodrigo César Rebello. Sinopse Jurídica, 2000, v. 17, p. 75.
capacidades que, nos planos individual e coletivo, são realizados por cada uma dessas pessoas segundo aquilo que entendem ser a melhor forma do viver.94
O direito à vida assume duas vertentes, em primeiro lugar, no direito de permanecer existente, e, em segundo lugar, no direito a um adequado nível de vida. Assim, inicialmente, cumpre assegurar a todos o direito de simplesmente continuar vivo, permanecer existindo até a interrupção da vida por causas naturais.95
É preciso assegurar um nível mínimo de vida, compatível com a dignidade humana.96 Nos casos das Testemunhas de Jeová violar aquilo que acreditam seria estar violando a maneira com que elas entendem que seria a melhor formar de viver, ou seja, violar seu direito a dignidade, a liberdade de escolha a sua moral. Fazendo com que a vida não mais lhe seja agradável, e sim uma tortura, pois não mais poderá viver com dignidade.
Wilson Ricardo Ligiera indaga:
Nos casos que envolvem a recusa de sangue por motivos religiosos, normalmente há outros modos de se preservar a vida do paciente, que não a transfusão. Nas situações mais graves, em que a equipe médica afirma que não há mais nada a fazer para evitar a morte, tampouco o sangue tem tido êxito em recuperar a higidez do paciente. Se é assim há que se indagar: é lícito fazê-lo sofre ainda mais, violando seus mais profundos sentimentos e convicções nos últimos momentos de vida?97
Wilson Ricardo Ligiera conclui:
94 LINHARES, Paulo Afonso. Direitos fundamentais e qualidade de vida, 2002, p. 28.
95 TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional, 2008, p. 527.
96 TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional, 2008, p. 527.
97 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p.157.
De qualquer modo, o direito à vida não pode ser invocado para que se viole, legitimamente, a dignidade do ser humano. Não é esse o sentido da norma constitucional.
Em suma: a Constituição Federal assegura a inviolabilidade do direito à vida, do mesmo modo que garante a inviolabilidade do direito a liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (art. 5.º, caput). Trata-se de proteção conferida ao titular desses direitos, no sentido de poder afastar intromissões alheias em seu modo de vida e repelir qualquer ameaça de terceiros a seus direitos fundamentais.98
Wilson Ricardo Ligiera explica ainda que a Constituição refere-se a “inviolabilidade” do direito a vida, o que não é o mesmo que indisponibilidade, e que em nenhum lugar ela se refere a essa característica como se houvesse uma obrigação de viver.99
A inviolabilidade refere-se ao fato de que a vida pode ser defendida contra terceiros que pretendam ameaçá-la, é a proteção do titular do direito contra terceiros. Já a indisponibilidade significa que o seu próprio titular não pode dela dispor, é a imposição da proteção dela contra o próprio titular.100
Assim, fica claro o direito das Testemunhas de Jeová, de viverem da maneira com que acharem a melhor dentro de seus princípios, dentro de sua religião, pois quando rejeitam determinado tratamento, não estão desejando a morte, pelo contrário elas prezam muito pela vida, só estão escolhendo o que acreditam que seja a melhor forma de viver, sem que isso fira sua consciência.
98 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p.157.
99 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p.154.
100 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p.154.