de escolher aquilo que lhe pareça ser o melhor, sem que isso fira seus outros direitos.
Com relação a um possível conflito de direito entre a vida e a liberdade assevera Manoel Gonçalves Ferreira Filho:
Num conflito, por exemplo, entre o direito à vida e o direito à liberdade, o titular de ambos é que há de escolher o que há de prevalecer. E este registro não teoriza senão o que na história é freqüente: para manter a liberdade o indivíduo corre o risco inexorável de morrer. Não renegue isto quem não estiver disposto a, para ser coerente, lutar para que se retirem das ruas as estátuas de incontáveis heróis, dos altares da Igreja Católica numerosos santos. Nem se alegue que este argumento levaria à admissão do suicídio. Não, porque não há o direito à morte, embora haja o de preferir, por paradoxal que seja para alguns, a morte à perda da liberdade.104
Conforme Wilson Ricardo Ligiera compete ao paciente conduzir sua vida da maneira que lhe pareça mais digna, sem que nada interfira em sua liberdade individual:
A recusa a determinado procedimento médico constitui, destarte, direito fundamental do paciente, que pode ser exercido contra quem quer que seja, inclusive o Poder Judiciário, no sentido de que não existe lei que obrigue uma pessoa a se submeter a determinado tratamento médico. O ser humano é, outrossim, se não o dono, pelo menos o diretor de sua vida. A ele compete conduzi-la de modo a poder alcançar sua realização pessoal e seu direito à dignidade, afastando quaisquer intromissões atentatórias à sua liberdade individual.105
104 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Questões constitucionais e legais referentes a tratamento médico sem transfusão de sangue: parecer. Cesário Lange, São Paulo:
Sociedade Torre de Vigia, 1994, p.21.
105 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p.252.
Diante do exposto, percebe-se que não poderia o Estado intervir nos direitos individuais do cidadão, pois respeitar e proteger esses direitos é também uma obrigação dele.
O Estado deve respeitar os direitos fundamentais do paciente.
2.3.1 Direito a Liberdade Religiosa
O art. 5º, inciso VIII da Constituição da República Federativa de Brasil de 1988 dispõem que, “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa fixada em lei”.106
Acerca do assunto Celso Ribeiro Bastos leciona:
Cuida a Constituição, neste passo, da chamada escusa de consciência. É o direito reconhecido ao objetor de não ser compelido a abandonar suas crenças religiosas por imposição estatal. Isto equivaleria, em última instância, a atribuir ao Poder Público o direito de inviabilizar determinada crença religiosa, minando seus fundamentos e impossibilitando seu culto.107
O direito a liberdade religiosa é o direito ao pensamento e manifestação religiosa, devendo esses direitos ser protegidos e respeitados, não podendo a pessoa ser privada de nenhum direito por sua religião.
Conforme doutrina de Jayme Weingartner Neto,
“compreende a liberdade de cada um ter sua religião e as suas convicções e a
106 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil (1988), Senado Federal, Brasília, 2010, p. 8.
107 BASTOS, Celso Ribeiro. Parecer Penal: direito de recusa de pacientes submetidos a tratamento terapêutico às transfusões de sangue, por razões científicas e convicções religiosas. Revista dos Tribunais. São Paulo, ano 90, v. 787, p. 493 – 507, maio 2001, p. 499.
liberdade de, em conjunto com os que professem a mesma religião ou a mesma confissão, ter a correspondente vida comunitária”.108
Jayme Weingartner Neto leciona que:
Trata-se a religião de um fenômeno de massa, de notável capacidade mobilizadora e de grande força aglutinadora.
Mais de três quartas partes da população mundial está ligada a algum movimento religioso: cerca de 800 milhões ao hinduísmo; um bilhão e 200 milhões ao Islã; mais ou menos dois bilhões ao cristianismo; em torno de 350 milhões ao budismo; 200 milhões seguem outras religiões asiáticas;
mais 200 milhões praticam religiões tradicionais; 16 milhões professam o judaísmo. Aproximadamente um quarto dos Estados do mundo mantém vínculos formais com alguma religião.109
O direito a liberdade religiosa é o direito de a pessoa viver de acordo com o que acredita, tendo o direito assim de manifestar a sua fé, e tomar as sua decisões de acordo com suas crenças, e segundo as regras de sua comunidade religiosa. Incluindo a escolha de seu tratamento médico para não ferir seus princípios religiosos.
Assim afirma Wilson Ricardo Ligiera:
O direito a prática da religião professada envolve, indubitavelmente, o direito de viver de acordo com seus preceitos. Diante disso, por mais que não concordemos com a crença de uma pessoa, temos que respeitar as suas decisões embasadas na fé. Isso também se aplica nos casos de escolha de tratamento médico.110
108 WEINGARTNER Neto, Jayme. Liberdade religiosa na Constituição: fundamentalismo, pluralismo, crenças, cultos. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2007, p. 71.
109 WEINGARTNER Neto, Jayme. Liberdade religiosa na Constituição, 2007, p. 39.
110 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p.168.
Segundo doutrina de Jayme Weingartner Neto, “o direito à liberdade religiosa visa a proteger o fórum internum, de modo a impedir qualquer pressão, direta ou indireta, explícita ou implícita, às opções de fé”.111
Nota-se assim que as Testemunhas de Jeová tem seu direito à liberdade religiosa protegidos, não podendo assim sofrer qualquer tipo de discriminação por sua opção de fé. Devendo assim suas decisões baseadas na religião ser respeitadas, isso inclui aceitar ou não determinado tratamento médico.
2.3.2 Liberdade de Consciência e de Crença
A liberdade de crença é a liberdade do ser humano de escolher determinada religião ou não, mudar de religião, ou até mesmo não adotar nenhuma religião.
Nesse sentido leciona Wilson Ricardo Ligiera:
A liberdade de crença compreende a liberdade de escolha de religião, de aderir ou não a uma fé religiosa, de mudar de religião, e até a liberdade de não adotar religião alguma.
Está ligada à liberdade de pensamento. Trata-se da liberdade que cada ser humano possui de acreditar ou não em uma divindade.112
Ainda nesse sentido segundo Jayme Weingartner Neto, “a liberdade de religião, no acréscimo, refere não só a liberdade de escolha da crença, mas, também, seu livre exercício e manifestação, o que inclui o direito de mudar de religião e de manifestação por meio do ensino”.113
111 WEINGARTNER Neto, Jayme. Liberdade religiosa na Constituição, 2007, p. 113.
112 LIGIERA, Wilson Ricardo. Responsabilidade Médica: diante da recusa de transfusão de sangue, 2009, p.166.
113 WEINGARTNER Neto, Jayme. Liberdade religiosa na Constituição, 2007, p. 56.
Cabe assim ao estado respeitar e proteger a liberdade de consciência e crença, juntamente com todas as religiões existentes no Brasil, e ainda assegurar o direito da manifestação religiosa.
Conforme Art. 5º, VI da Constituição do Brasil de 1988: “VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”.114
Dispõem Wilson Ricardo Ligiera com relação à liberdade de consciência: “além da liberdade de possuir ou não uma crença, a Constituição confere ao indivíduo o direito de ter seus próprios valores e sentimentos não religiosos, protegidos pelo direito a liberdade de consciência”.115
A liberdade de consciência se relaciona com as convicções intimas de cada um, que podem ou não vincular-se ao aspecto religioso (e até negá-lo – ateísmo), ao passo que a liberdade de crença “diz respeito ao aspecto religioso” (à escolha de determina religião ou crença que se coadune com os anseios espirituais de cada pessoa).116
Assim as Testemunhas de Jeová ao recusarem receber transfusão de sangue estão apenas querendo que sua fé e sua liberdade de consciência sejam respeitadas.