3 A TRISTEZA NO LEITO
Tédio
“Passo pálida e triste. Oiço dizer
‘Que branca que ela é! Parece morta!
E eu que vou sonhando, vaga, absorta, Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...
Que diga o mundo e a gente o que quiser!
– O que é que isso me faz?... O que me importa?...
O frio que trago dentro gela e corta Tudo que é sonho e graça na mulher!
O que é que isso me importa? Essa tristeza É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!
E é tudo sempre o mesmo, eternamente...
O mesmo lago plácido, dormente...
E os dias sempre os mesmos, a correr...
Florbela Espanca
(In: Poemas, São Paulo: Martins Fonte, 1996)
As doenças orgânicas de caráter crônico são aquelas evidenciadas pela persistência dos sintomas e nem sempre apresentam a cura. O seu diagnóstico é determinante de tratamento com terapêuticas invasivas no corpo do paciente.
Vejamos alguns exemplos: no câncer, a realização de quimioterapia; na insuficiência renal, as idas à hemodiálise; no diabetes melitus, a aplicação de insulina e no lúpus eritematoso sistêmico, a ingestão de corticóide – todas incluindo procedimentos que cumprem determinados protocolos com horas e datas marcadas. Na verdade, acabam por transformar-se em verdadeiros rituais para o paciente, seguidos de encontros com médicos e outros profissionais, bem como de internações freqüentes.
As inúmeras limitações apresentadas ao sujeito interferem nos seus hábitos alimentares, sociais, escolares, dentre outros. Ao exigir renúncia, a realidade constitui-se em sofrimento para o sujeito que adquiriu algo a sua revelia, da ordem de um mal introduzido no corpo e, conseqüentemente, na vida. Podemos dizer, em termos metafóricos, que esses males, com freqüência, se apresentam como “um espinho na carne”18: ao entranhar-se no corpo, fere, provoca dor e incomoda... para sempre. Verifica-se uma ruptura entre presente e futuro, provocando questionamentos: por que eu? Esta pergunta, diante da qual o paciente expressa sua divisão subjetiva, o remete à castração.
O sofrimento orgânico exige muito do sujeito em termos de libido – energia psíquica. Analisemos uma citação de Freud (1914) sobre a questão sugerida por Ferenczi:
“É do conhecimento de todos, e eu aceito como coisa natural, que uma pessoa atormentada por dor e mal-estar orgânico deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo, na medida em que não dizem respeito a seu sofrimento. Uma observação mais detida nos ensina que ela também retira o interesse libidinal de seus objetos amorosos: enquanto sofre, deixa de amar. A banalidade desse fato não justifica que deixemos de traduzi-lo em termos da teoria da libido. Devemos então dizer: o homem enfermo retira suas catexias libidinais de volta para seu próprio eu e as põe para fora novamente quando se recupera” (Freud, S., idem: 98).
18 Expressão bíblica pronunciada pelo apóstolo Paulo, para referir-se a um sofrimento que, provavelmente, seria uma doença dolorosa: “Mas para que eu não ficasse orgulhoso demais por causa das coisas que vi, foi-me dada uma doença dolorosa, como se fosse um espinho na carne”
(cf. II Coríntios, 12: 7).
Freud (idem) evidencia um consumo de energia em direção à doença, condição necessária para o investimento no tratamento e conseqüente recuperação do paciente. Parece-nos, também, que o autor considera a manifestação e o trabalho de elaboração do luto, por vezes vivenciado por alguns pacientes – fato comum observado na clínica: o aparecimento de uma doença implica perdas objetivas. Por outro lado, certos pacientes apresentam-se desistentes da relação com o mundo externo ao adoecerem, o que evoca uma posição subjetiva que pode falar sobre a depressão.
O leito de um hospital é lugar de muita utilidade para o exílio de doentes deprimidos. Diversas vezes, as impossibilidades reais de uma doença ou de um tratamento são confundidas com a impotência dos estados depressivos. Em geral, uma das primeiras condições observadas em doentes tristes é a inibição, expressa pelo enfraquecimento das forças, as quais impulsionam o paciente à ação. A inibição é um conceito psicanalítico importante para o estudo da depressão.
Freud, no texto “Inibições, sintomas e angústia” (1926) adaptou à sua teoria, conforme pesquisa de Roudinesco (1998), o conceito de inibição utilizado pela medicina (diminuição de uma função fisiológica19) e o definiu como conseqüência das restrições das funções do eu, relacionadas à diminuição de uma função. Além disso, comenta sobre cinco funções que podem apresentar inibição: função sexual, alimentação, locomoção, trabalho e certas funções específicas.
Para Freud (idem), a inibição sexual masculina expressa-se sob quatro maneiras: falta de prazer, falta de ereção, ejaculação precoce e falta de ejaculação.
A inibição sexual feminina assume a forma de repulsa do ato sexual, na histeria.
Quanto à inibição alimentar, o autor (idem) menciona a falta (anorexia) e o excesso (bulimia) de apetite, referidos, preferencialmente, à histeria. A recusa à ingestão de qualquer tipo de alimento viria relacionada, provavelmente, aos estados psicóticos.
Em estados neuróticos, a inibição da locomoção é expressa pela indisposição ou enfraquecimento para andar. É o que se confirma no caso de Fraülein Elisabeth von R, uma das primeiras pacientes analisadas por Freud, em 1892.
19 A inibição consiste numa “suspensão das funções de um órgão, consecutivamente à irritação de um ponto do organismo, mais ou menos afastado; a irritação é transmitida ao órgão, que pára de funcionar por intermédio do sistema nervoso” (Delamare, G., 1988: 607).
Ao inibir-se no trabalho, o sujeito, se histérico, poderá apresentar sintomas somáticos ou experimentar uma diminuição de prazer e da capacidade para realizar tarefas; se for obsessivo, poderá perder tempo com distrações ou repetições de algumas ações.
Na inibição, o eu se organiza fortemente para selecionar, previamente, os possíveis perigos advindos do isso, ditando o que o sujeito poderá ou não realizar.
Um estado de inibição afasta a formação do sintoma, uma das condições de revelação do desejo.
Configurando-se num processo de “extraterritoriedade” à organização do eu, o sintoma, ao contrário da inibição, representa um corpo estranho para o eu, sendo a expressão do recalcado; o eu já se encontra enfraquecido, mas continua a sua luta contra o que foge ao seu controle – causa de angústia. Freud (1926) não deixa de relacionar a inibição com a angústia; para ele, a inibição representa o abandono de uma função porque sua prática poderia ser fonte de angústia.
Um estado de inibição pode indicar manifestação de luto, depressão (inibição generalizada) ou, ainda, melancolia (condição de inibição mais grave).
Freud, em “Luto e melancolia” (1917), afirma ser o luto uma reação normal, desencadeada diante da perda de um objeto de amor: um ente querido, uma abstração ou um ideal. Essa expressão de dor psíquica não é inconsciente, uma vez que o enlutado sabe o que perdeu. A inibição e a falta de interesse, durante o processo de luto, são resultantes do trabalho de absorção da libido pelo eu ocupado na elaboração da perda.
O luto cumpre um tempo e é concluído, deixando, posteriormente, o sujeito livre para adotar novos objetos de amor. Freud (idem: 276-7) diz ser “fato que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade, quando um substituto já se lhes acena”. O eu no luto expressa a sua fortaleza, o que, segundo Alberti (1999: 153), “permitirá fazer a ponte entre o luto e a depressão como afeto”. A esse respeito, também Alberti, no texto “Depressão: o que o afeto tem a ver com isso?”, comentando Lacan, vem elucidar a importância do afeto:
“O afeto, para Lacan, é, portanto, uma questão de paixão, e a paixão, desde sempre, é para o homem uma questão de sofrimento. O afeto divide o
sujeito pelo lado da paixão. Vou ater-me a dois tipos de sofrimento que implicam diretamente o afeto: a já citada angústia e a depressão, ou, como diz Freud em “Inibições, sintomas e angústia (1926), os estados depressivos” (Alberti, S., 1989: 103).
Em Freud (1894), o afeto, quando referido ao estado melancólico, consiste no luto por perda da libido, numa tentativa de recuperação do que foi perdido, no campo pulsional. Portanto, o luto vem manifestar-se na afecção narcísica da melancolia como uma reação à separação entre o sujeito e o prazer da libido.
Conseqüentemente, o sujeito apresenta-se com grave inibição – afeto paralisante –, numa retração da libido. Freud (1894: 282) chegou mesmo a comparar tal estado a uma “ferida aberta”.
No Seminário, livro 10: a angústia, Lacan (1963) fundamenta seus conceitos sobre o afeto da angústia, revelando-o como decorrente de algo que não foi simbolizado pelo sujeito e, por isso, aparece sob a forma de dor, de desprazer.