conseqüências da invasão tão imperativa da dor. Para melhor elucidarmos a questão, ilustramos, com dois casos clínicos, a experiência da dor, quer física, quer psíquica.
hipocondríaca e orgânica, como demonstra o quadro a seguir, elaborado de acordo com nossas pesquisas:
A FENOMENOLOGIA DA DOR
Histeria Hipocondria Doença Orgânica
Descrição: Forma indefinida;
intensidade variada;
desenvolvimento gradativo.
Parece estar desempenhando tarefa superior às suas forças;
jamais se cansa de acrescentar novos detalhes. Parece estar empenhado numa difícil tarefa intelectual; as feições contraem-se,
como se estivessem sob a influência de uma emoção aflitiva;
empenha-se em encontrar um meio de expressão; rejeita qualquer descrição das dores, sugerida pelo
médico.
Forma definida; ocorre em certos intervalos de
tempo, que se estendem desse para
aquele lugar.
Parece ser provocada por uma coisa ou
outra; dores lancinantes.
Sensibilidade quanto ao
exame:
Indiferente; a expressão do rosto não se ajusta à
dor (prazer).
Esquiva-se, retrai-se e resiste; a expressão do rosto é de mal-estar.
Esquiva-se, retrai-se e resiste; a expressão do rosto é de mal-estar.
Por um lado, se o psicanalista não deve deixar de reconhecer a fenomenologia, por outro não se quer dizer que seja essa a direção a ser seguida em sua prática clínica: sua escuta diz respeito às formações do inconsciente – ato falho, chiste, sonho e sintoma.
Elisabeth tinha vinte e quatro anos quando foi encaminhada por um médico a Freud. Queixava-se de “grande dor no andar e de cansar rapidamente, tanto ao andar como ao ficar de pé”. Freud (1895) localiza, na região da dor na coxa direita, uma grande área da superfície anterior a sinalizar o foco que se irradiava. Aquela hiperalgia manifestava-se também na outra perna; ambas apresentavam grande sensibilidade à dor, nos músculos e na pele.
Segundo avaliação do exame físico, a força motora das pernas não era pequena e os reflexos apresentavam força média. Os sintomas álgicos desenvolveram-se durante os dois anos anteriores à procura da paciente por Freud
e, para ele, não podia levantar-se nenhuma hipótese de “qualquer afecção orgânica grave”.
Freud (1895) concorda com o diagnóstico de histeria suspeitado pelo médico que lhe indicara a paciente. Sua conclusão deve-se, principalmente, pelo ar de prazer expresso no rosto da moça, no momento do exame; não é comum um paciente, com dor de origem orgânica ou um hipocondríaco, expressar-se daquela forma ao estímulo da região sensível à dor. Isso possibilita a Freud destacar o caráter de erogeneização da área afetada no corpo, no sintoma da dor, que anunciava “pensamentos ocultos” em Elisabeth.
Ao seguir, em sua investigação clínica, levanta uma outra hipótese, que não contradiz a primeira de histeria: os músculos que eram mais sensíveis à dor, e que estavam endurecidos, puderam indicar que Elisabeth sofria de reumatismo muscular crônico comum. Provavelmente, a neurose da paciente ligava-se demasiadamente à dor, exacerbando-a. Dessa maneira, Freud (idem) sinaliza as primeiras evidências do inconsciente na participação do sintoma.
O quadro álgico foi considerado de origem mista; prescreveu-se, para a paciente, um tratamento das pernas com correntes elétricas de alta tensão, acompanhado de massagem e faradização dos músculos sensíveis. Elizabeth apresentou alguma melhora e pareceu ter gostado dos choques.
Após quatro semanas, Freud propõe-lhe seguir uma outra etapa: começar o tratamento psíquico, ao qual a moça não resistiu. Inicia-se o tratamento catártico, o que implica perguntar se a paciente tinha consciência da “origem e da causa precipitante da doença”. Ele não revela o que a jovem respondeu, porém, sua hipótese é a de que ela sabia o que lhe estava causando a perturbação expressa em seu quadro álgico. Naquele momento, não foi preciso o recurso da hipnose, embora Freud tenha utilizado o processo de “desembaraçar camada por camada”24 do material patogênico, como se estivesse participando das escavações de Pompéia.
Posteriormente, a hipnose foi necessária ou técnica semelhante, como deitar a paciente de olhos fechados.
Elisabeth era a mais nova de três irmãs. Seu pai, “homem das rodas mundanas”, mantinha uma forte ligação afetiva com a filha. Ele dizia que a moça
24 Freud (1895: 188) compara a técnica à de “escavar uma cidade soterrada”.
estava no “lugar de um filho e de um amigo” com quem poderia conversar. Ela conservava orgulho pelo pai, que a chamava de “atrevida e convencida”. Frau von R., a mãe, sofria de doença nos olhos e era “mulher perturbada pelos estados de nervos”, fato que mantinha Elizabeth longe da mãe e ainda mais ligada ao pai.
A família, ao mudar-se para a capital da Hungria, viu-se frente ao primeiro abalo, razão de muito sofrimento: o pai fora acometido de um edema pulmonar agudo, em decorrência de uma afecção cardíaca crônica. Ficou dezoito meses no leito de dor, quando Elisabeth ocupou o lugar de enfermeira junto à figura paterna, que veio a falecer. O reumatismo muscular crônico foi adquirido nessa época.
Com a morte do pai, a paciente enfrentou um forte estado de luto; após conseguir elaborá-lo, ela passou a procurar razões para “substituir a felicidade perdida”, como também dispensou mais atenção à sua mãe.
Sua irmã mais velha casou-se com um homem que não demonstrava afeto pela mãe de Elisabeth – fato que a jovem não podia suportar. O casamento da segunda irmã parecia ser mais ameno para a moça: o cunhado era afetivo com a sogra doente, que teve de submeter-se a uma cirurgia na vista. Elisabeth voltou, nesse período, a exercer junto à mãe seus cuidados de enfermagem durante várias semanas. Posteriormente, ao encontrar-se reunida com toda a família em férias, queixou-se de dores e fraqueza locomotora, sendo aconselhada pelo médico a um tratamento hidropático nos Alpes austríacos.
A viagem para a Áustria foi causa de angústia para Elisabeth, pois sua irmã mais nova ficara doente. Ao passar quinze dias na cidade de Gastein, teve de regressar com sua mãe após receberem a notícia de que a irmã se encontrava em estado gravíssimo de saúde.
A irmã, muito amada por Elisabeth, sofreu, no início da adolescência, de coréia (provocada por febre reumática), que foi seguida por doença cardíaca branda.
A segunda gravidez acentuou a doença e a jovem veio a falecer. Mais uma vez Elisabeth experimentou um luto e ficou em reclusão social, cuidando de suas
“próprias dores”, como também das de sua mãe.
Com o início do tratamento, Freud (1895) constata que as dores histéricas de Elisabeth foram reproduzidas a partir de uma dor de origem orgânica: reumatismo muscular crônico na perna direita. Nas palavras freudianas, aquele ponto doloroso
tornou-se uma “zona histerogênica atípica”: era naquele lugar que o pai enfermo descansava uma de suas pernas todas as manhãs, enquanto a filha trocava as ataduras. Elisabeth procedeu assim “umas cem vezes”, o que causou um enrijecimento dos músculos de sua perna direita e, conseqüentemente, uma lesão.
A partir de então, a dor – de origem orgânica – possibilitou o aparecimento das trilhas facilitadoras, que permitiram, através dos restos de lembranças do freqüente estímulo hostil, a formação das dores conversivas. Freud (idem) diagnostica um sintoma físico ligado a um complexo minêmico da mente: cada lembrança que evocava para a paciente um fato traumático correspondia uma sensação de dor. Assim, “as pernas começaram a conversação durante a análise25”, deixando evidente o fato mais significativo do quadro clínico da paciente: dor física e dor psíquica se fundiam e pareciam apenas uma.
Freud (idem), no decorrer da análise, a partir do discurso da moça, observa que as dores da perna direita lembravam-na os cuidados ao pai doente e também os sentimentos afetuosos despertados por um certo amigo. Numa ocasião, Elisabeth saiu com esse rapaz e, ao regressar à residência, encontrou o pai pior de saúde.
Seu interesse pelo jovem entrou, naquele instante, em conflito com os cuidados que deixou de dispensar ao pai enfermo no decorrer do dia. Duas reações opostas emergiram: a alegria experimentada pelo encontro amoroso e o estado de tristeza pelo agravamento da doença do pai.
Chamamos atenção de que, para Freud, “a idéia erótica foi recalcada da associação e a emoção ligada àquela idéia foi utilizada para intensificar ou reviver uma dor física que se achava presente simultaneamente, ou pouco depois” (Freud, S., 1895: 196). As dores conversivas tiveram a sua origem nesse período e estavam ligadas a lembranças tristes, com sentimento de luto, e a conflitos.
Ao dar seqüência ao tratamento, Freud identifica que as dores da perna esquerda evocavam lembranças à Elisabeth de sua irmã morta, que fora tão amada.
A primeira vez que irromperam as dores na paciente foi após um passeio com a família, quando, em momento íntimo, trocou idéias com a irmã sobre o casamento feliz desta, o que lhe despertou anseios por um marido igual ao seu cunhado e desejos eróticos com ele. Elisabeth apresentou fraqueza locomotora e, desde então,
25 Expressão de Freud (idem: 197).
foi vista como a “inválida da família”, sendo aconselhada a tratamento nos Alpes austríacos.
Durante a viagem, sentiu “dores lancinantes”, as quais puderam ser interpretadas como uma preocupação com a irmã doente. Ao regressar, em caráter de urgência pelo agravamento do quadro clínico da irmã, chegou tarde demais. Em pé, ao lado do leito de morte, uma idéia incompatível atravessou-lhe a mente:
“Agora, ele está livre novamente e eu posso ser sua esposa”. Freud destaca um aspecto importante: o “ficar de pé” invocava outra situação: a cena do ataque cardíaco do pai, quando também Elizabeth ficara de pé ao lado de uma porta.
Elisabeth sofria de um complexo denominado astasia-abasia, que tornara o seu “caminhar doloroso”, causando-lhe dificuldades para ficar de pé, assim como para deitar. Freud lembra que essas são “funções e estados das partes do corpo”
(Freud, S., idem: 200). A astasia corresponde à privação da posição ereta; a abasia, à privação da marcha.
A paciente sofria da falta do movimento, expressa, simultaneamente, em seu caminhar físico e psíquico, que se tornaram dolorosos. Havia experimentado uma série de estados de luto pelas perdas de objetos de amor – o pai e a irmã –, que ocuparam lugar de ideal. Por outro lado, vivenciara sentimentos contrários pelas mesmas figuras que tanto amava. Só lhe restava, então, o sofrimento manifesto nas dores, pela “conversão bem sucedida”.
A associação freudiana entre dor e movimento desperta-nos uma outra: o conceito de inibição como fundamental para a seguinte questão: não há dor física sem dor psíquica; ambas estão relacionadas ao movimento.
Nossas enunciações vão ao encontro das de Lacan, no Seminário, livro 10: a angústia (1963), quando, ao associar inibição e movimento, deixa claro que o conceito a que se refere não se restringe apenas à função da locomoção, mas, sobretudo, àquela de paralisação de qualquer movimento: “ele existe pelo menos metaforicamente” (Lacan, J., idem: 18). Para melhor elucidar esse ponto de vista, distingue dois eixos de coordenadas: o vertical, relacionado ao movimento; o horizontal, à dificuldade.
Lacan reforça o fato de que a angústia como expressão da rede movimento/dificuldade deve estar presente no grafo, juntamente com os conceitos
de inibição e sintoma – elaborados por Freud (1926). Contudo, para que faça série, deve ser representada em diagonal, a fim de que os espaços que sejam preenchidos:
Dificuldade
Movimento
Inibição X X
X Sintoma
X
X X Angústia
(Lacan, J., 1963: 17)
As etapas de preenchimento do gráfico são explicadas, de acordo com as ações com que o sujeito depara. Nem todos os espaços vêm preenchidos.
Sintoma
Dificuldade
Sujeito
Movimento
Inibição Emoção Perturbação (Esmagamento)
Impedimento Sintoma
X
Embaraço X Angústia
(Lacan, J., idem: 19)
Na coordenada da dificuldade, aparece a palavra “impedimento”: “estar impedido é um sintoma; e inibido é um sintoma posto no museu” (Lacan, J., 1963:
19), o que não deixa de suscitar a angústia.
Posteriormente, acrescenta o termo “embaraço” vinculado à noção de obstáculo, sugerindo o sujeito barrado. O eixo da dificuldade desemboca no embaraço como forma leve da angústia.
Quanto à outra dimensão, Lacan sugere que o primeiro termo seja a
“emoção”, por representar, etimologicamente, o movimento que se desagrega e por permitir ampliar o conceito para “lançar fora da linha de movimento”. Partindo do termo emoção, o autor faz uma série de associações lingüísticas que lhe vão indicar uma outra palavra: perturbação, cuja raiz se liga, entre outras significações, a esmagamento – perda da força, da potência. A partir dessa possibilidade de ampliação do campo semântico, propomos a palavra “petrificação” como parte da seqüência da coordenada do movimento; na verdade, o “ato da petrificação” sugere mudança de estado: a transformação em pedra produz uma contração total dos movimentos.
Em nossas pesquisas, a importância do gráfico sugerido por Lacan deve-se, sobretudo, para explicarmos nossa hipótese de que não há dor física sem dor psíquica, já que a inibição está presente em ambas, como parte da coordenada dificuldade/movimento.
O caso clínico Elizabeth ganha, assim, novos contornos: suas sensações físicas dolorosas correspondiam ao pesar de “ficar sozinha” e equivaliam a não caminhar. Freud pôde constatar que cada lembrança com força psíquica foi deixando suas marcas no corpo e inibindo seus movimentos de locomoção e, metaforicamente, de contato com o mundo externo, pela reclusão social.
Pelo gráfico a seguir, podemos verificar que Elizabeth, mesmo apresentando- se inibida, caminhou para o embaraço, mas não chegou à emoção, como desagregadora do movimento.
Sintoma
Dificuldade
Sujeito
Movimento
Inibição Emoção Perturbação (Esmagamento)
Petrificação (Contração Total)
Impedimento Sintoma
X
Embaraço X Angústia
Elisabeth conseguiu abreagir seu amor! Reconhecer o amor pelo cunhado teve “efeito esmagador sobre a pobre moça”, conforme Freud (1895). Nas dores, a jovem vivenciara a impossibilidade de uma paixão.
Mãe e filha viajaram e a análise foi interrompida, com o final do verão. Ao voltarem para Viena, Freud teve notícias de que a paciente estava bem e havia casado. Apenas ocasionalmente sentia dores leves. Freud não perdeu a oportunidade de assistir sua ex-paciente girando num baile de Viena, numa demonstração de graça de movimento.