Os gritos emitidos por Ricardo revelam-se como o aspecto de maior importância quanto à expressão de demanda: embora também emitam os sintomas da eritromelalgia, estão para além de representarem apenas uma dor esquêmica.
O grito é a maneira mais primitiva e imediata de um sujeito dirigir uma demanda a outrem. É pelo grito que se entra no universo simbólico, apelando-se ao Outro para além do outro. O ser humano faz anunciar-se para constituir-se enquanto sujeito, soltando gritos.
A criança, ao nascer, por estar assujeitada à prematuridade neurofisiológica, depende de alguém para atender suas necessidades vitais: a satisfação da fome e da sede, e o alívio de alguma dor. Nesse momento, um grito poderá dar provas de que há acúmulo de uma tensão intolerável no organismo.
Freud, no texto “Projeto para neurólogos” (1895), compara o grito a uma descarga motora que escoa a tensão interna do organismo, mas não a extingue.
Temos, então, o grito como sinalizador de desprazer, pelo desequilíbrio da homeostase orgânica, numa exigência de interpretação.
A mãe, como primeiro Outro do lactente, deverá cumprir o papel fundamental de decifrar necessidades. Os gritos inarticulados chamam pela presença desse Outro absoluto que sabe sobre a criança. Ao escutar o ímpeto de energia que jorra da boca, a mãe poderá ou não responder aos apelos do pequeno vivente. Porém, ao pronunciar-se como intérprete, possibilitará que a simples descarga motora se transforme em ação específica, com o objetivo de modificar o meio.
Alberti (1999: 53) destaca o termo Aktion, para situá-lo como caráter de ação específica que funciona pelo escoamento de energia acumulada enquanto excesso.
Essa etapa corresponde ao estado de completo desamparo do lactente que, para obter a satisfação de suas necessidades imperiosas, terá de fazer a diferença entre meio externo e meio interno. Assim, é acionado o que Freud (1920) designa por princípio de realidade em prol do princípio do prazer, na relação que o bebê pode estabelecer com o outro, o mundo externo. Este, ao se apresentar à criança como alguém que sabe sobre ela, deixa de ser anônimo e passa a ser o grande Outro, representado pela figura materna.
Destacamos a constituição do eu através da imagem do outro. Lacan (1949) formula essa construção como “estádio do espelho” ou “fase do espelho”, em que o vivente experimenta, antes mesmo de sua maturidade neurofisiológica, o eu como uma configuração corporal, atribuída pelo semelhante. Lacan (idem) menciona o caráter imaginário da unidade do eu, onde a identificação com o outro é especular. A essa “fase do espelho” Freud, em 1914, denomina “narcisismo primário”.
A mãe, como primeiro Outro do sujeito, é chamada a exercer uma dupla função: suprir as carências essenciais e possibilitar a constituição do eu do pequeno vivente; ela é, simultaneamente, um outro e um Outro. Porém, o Outro, que se apresenta como semelhante na “fase do espelho”, poderá desvelar também uma face estranha para o sujeito: é o que Freud (1895) designa como o “complexo perceptivo do próximo”.
Segundo a Gestaltheorie (teoria da percepção), um objeto é percebido a partir das “leis da organização”, isto é, da proximidade e da semelhança que dirigem nossa percepção para a forma e a totalidade do objeto. Dessa maneira, uma
percepção sempre estará relacionada a uma Gestalt, “cujas partes, se consideradas separadamente, não apresentam as mesmas características” (Abbagnano, N., 2000:
755). A psicanálise, com Freud (idem), menciona “os complexos perceptivos” para nomear-se a maneira pela qual um sujeito percebe um outro ser humano, através dos processos de memória e juízo. Essa percepção vai apontar para duas características do objeto percebido: a de semelhança e a de desconhecimento do objeto. Para Freud (1895), o próximo, o Nebenmensch, não é percebido como uma Gestalt, e sim de maneira distinta, o que divide “o complexo perceptivo do próximo”
em dois:
“Os complexos perceptivos emanados desses seus semelhantes serão, então, em parte novos e incomparáveis - como por exemplo, seus traços, na esfera visual; nas outras percepções visuais – o movimento das mãos, por exemplo – coincidindo no sujeito com a lembrança de impressões visuais muito semelhantes, emanados do seu próprio corpo, lembranças que estão associadas à lembranças de movimento experimentados por ele mesmo.
Outras percepções do objeto, também – se, por exemplo, ele der um grito – evocarão a lembrança do próprio grito [do sujeito] e, com isso, de suas próprias experiências de dor. Desse modo, o complexo perceptivo do ser humano semelhante se divide em duas partes, das quais uma dá impressão de ser uma estrutura que persiste coerente como uma coisa, enquanto que a outra pode ser compreendida por meio da atividade da memória – isto é, pode ser reduzida a uma informação sobre o próprio corpo [do sujeito]”
(Freud, S., idem: 433).
De acordo com o texto supracitado, Freud (idem) indica as duas “porções díspares” de um “complexo perceptivo”, isto é, de semelhança e dessemelhança. A mãe, ou quem quer que exerça a função materna como primeiro Outro do sujeito, se oferece a essa percepção paradoxal de familiaridade e estranheza.
Das explicações freudianas, Lacan (1949) formula, como vimos anteriormente, sua construção de “estádio do espelho como formador da função do eu”. Na primeira etapa desse estádio, o eu é moldado pela imagem que o vivente apreende do outro como sendo a sua própria imagem. Na segunda fase, algo escapa a essa configuração harmoniosa e totalizante, e a imagem que o sujeito recebe do outro apresenta um aspecto de estranheza, que não permite o fechamento de uma Gestalt, fazendo aparecer o “duplo”, fenômeno estudado por Freud, em 1919.
O duplo tem origem no narcisismo primário e suas vertentes revelam proteção contra a destruição do eu e, posteriormente, rivalidade em relação ao mesmo. A dupla apreensão da imagem, cujo caráter de repetição comporta uma estranheza do que é familiar, desencadeia, no sujeito, a angústia. Em casos mais extremos de tensão, temos a paranóia, em que o duplo é implacável ao perseguir o sujeito.
A psicanálise revela que, ao significantizar os gritos do lactente, a mãe incorpora uma face assimilável e acessível a ele, na “fase do espelho”. Mas a imagem, conforme dissemos, também comporta um fragmento diferenciado, refletindo a face imutável e desconhecida do Outro. Ao desconhecido que se manifesta como hostil e traz uma face oculta do objeto, Freud (1895) nomeia-o de feindliche Objekt. O grito localiza-se no “complexo perceptivo do próximo”, enquanto este se encontra entre a percepção do Outro como semelhante e como das Ding, a Coisa anunciada por Freud, no “Projeto” (idem), e retomada por Lacan (1960), no Seminário, livro 7: a ética da psicanálise, sob o nome “Coisa materna”.
Um grito poderá chamar pelo Outro, ao mesmo tempo em que revelará a impenetrabilidade do Outro, desvelando o que ficou de fora na “fase do espelho” e que não pôde ser assimilado no processo identificatório. O grito, como fragmento de real, traz à cena o outro, bem como o Outro enquanto leitor.
Sabemos que Ricardo37 carecia dos cuidados maternos, que podiam aliviar- lhe o mal-estar, segundo a lei do prazer. Mas sua dor demandava para além do princípio do prazer: interrogava o sujeito frente à inconsistência do Outro. Talvez, revelasse questões pertinentes ao gozo que, ao fixar-se no corpo, saiu através dos gritos de dor do sujeito.
Lacan (1966) relaciona o gozo experimentado no corpo como algo da ordem da tensão, verificado no surgimento da dor. Lembramos que a eritromelalgia é uma doença caracterizada por fortes dores em queimação. Concluindo, não podemos deixar de ressaltar os gritos de Ricardo pela mãe como um chamado ao pai, cuja insuficiência para cumprir sua função simbólica fica evidente na pessoa do pai adormecido.
37 O caso de Ricardo é abordado neste capítulo do período de dezembro de 2000 a maio de 2001.
Ele teve, no total, três internações na Enfermaria de Adolescentes. Em novembro de 2001, foi ao óbito.
Ao estudarmos um caso clínico em que o grito foi destacado para análise, fomos instigados à introdução em outro campo de investigação: o da pintura como forma de ilustração. Encontramos, na arte de Francis Bacon, uma indicação de pintura sobre o grito que faz lembrar o estado depressivo de Ricardo, por ocasião da sua segunda internação. Trata-se da tela intitulada Head VI, referida por Nasio (1997), na “Lição III: A dor e o grito”, de sua obra O livro da dor e do amor.
Ficamos surpresos ao deparar com um registro de Nasio (idem) sobre uma de suas pacientes que emitia gritos que desapareceram após uma gravidez. Sob o impacto do seu caso clínico, o autor, segundo suas palavras, “visualiza o fenômeno do grito”, na tela Head VI.
Após pesquisarmos a contribuição de Nasio, uma articulação com o caso clínico de Ricardo mostra-se possível; dentre tantos gritos emitidos, um, em especial: “um grito aspirado”.
A tela Head VI é comentada no livro intitulado Entrevistas com Francis Bacon, do jornalista David Sylvester (1995), que teve a oportunidade de entrevistar o pintor.
Um recorte sobre a vida do artista vem aqui com o objetivo de demonstrar o porquê de seu interesse em pintar o grito.
Francis Bacon nasceu em Dublin, na Irlanda, em 1909. No entanto, é considerado um pintor inglês, por ser esta a ascendência de sua família. Seu pai treinava cavalos na Irlanda e, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, participou do Conselho de Guerra, transferindo-se para Londres com sua família. Até o ano de 1925, Bacon mudou-se para várias capitais, fato prejudicial à sua escolaridade e à sua saúde, já que era portador de asma – doença crônica das vias respiratórias.
Nesse mesmo ano, após ficar independente de sua família, realizou estágio em Berlim e, posteriormente, mudou-se para a França.
Bacon confidencia a Silvester (idem) o seu interesse, desde muito jovem, pelo tema do grito. Considera um livro que comprou num sebo em Paris como o fato mais marcante que influenciou sua pintura: nas ilustrações de doenças, gostava de admirar o movimento da boca e sua forma.
Morou alguns meses perto de Chantilly, onde teve a oportunidade de freqüentar o Musée de Condé, vindo a conhecer e a apreciar famoso quadro O massacre dos inocentes, de Poussin, o qual considerou como “o mais belo grito
figurado” na pintura. Impressionou-se ao ver na tela o grito da mãe, quando lhe retiram o filho dos braços. Deixou-se influenciar também pela fotografia do filme O encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein. Nele, havia o registro de uma babá gritando.
Em 1927, desde que foi a uma exposição de Picasso, na Galeria Paul Rosenberg, em Paris, Bacon decidiu iniciar-se na arte da pintura. O mestre Picasso indicou-lhe o lado não explorado da pintura: o das “formas orgânicas de figura humana”.
Bacon sempre foi fascinado pelo quadro do Papa Inocêncio X, de Velásquez (1650). Reproduziu várias vezes essa obra em sua arte, mas, segundo disse a Sylvester (1995), fora incapaz de pintar a boca do Papa sorrindo. Diante da dificuldade, pintou uma “boca disforme”, emitindo um grito, expresso na tela Head VI.
É interessante como Nasio (1997: 155) relaciona o grito pintado na tela Head VI aos enunciados de sua paciente a respeito do significado dos seus gritos: “Cada vez que eu gritava, sentia o grito subir para a cabeça e encher um vazio, como se eu gritasse com a cabeça toda, ou, por assim dizer, como se toda a minha cabeça fosse uma boca”. Para Nasio, o grito de sua paciente não tinha sonoridade, pois aspirava o ar, assim como o grito do Papa Inocêncio X.
Nesse ponto, ousaríamos inferir que nosso paciente também emitiu “um grito aspirado” durante a segunda internação na Enfermaria de Adolescentes: a quietude irrompida em Ricardo vinha em substituição aos gritos emitidos na primeira internação. Alguns interpretaram-na como “uma certa tristeza”, outros verbalizaram ter “ele se cansado de lutar contra a doença”. Analisamos que o menino estava cansado de gritar para chamar o Outro, inconsistente e hostil diante dos apelos. Era como se o paciente, naquele momento, tivesse dado conta da “maldade do próximo”; daí, o surgimento de um estado depressivo como resposta ao seu sofrimento.
Lembramos que o sujeito expressou um pesar, “um grito para dentro”, ao produzir a fala “Na Páscoa ... dói”, ao mesmo tempo em que apontou para uma dor no coração, como sinal de sua angústia. Se a paciente de Nasio “gritou com a cabeça”, podemos metaforizar que Ricardo “gritou com o coração”. Dessa forma,
seria ousadia fazermos uma analogia entre “o grito aspirado” desse sujeito com a eritromelalgia?
Uma das conseqüências da eritromelalgia é a hipóxia, isto é, a diminuição da oxigenação nos tecidos perfundidos pelos vasos sangüíneos. O paciente foi internado, pela primeira vez, no CTI por um episódio de depressão respiratória. Em verdade, Ricardo, analogamente ao mecanismo pulmonar de expiração e aspiração, emitiu o seu grito de dor na forma de “aspiração do ar”.
Como pôde a tela Head VI contribuir para nossas pesquisas acerca do fenômeno do grito? Francis Bacon era asmático; experimentou uma doença crônica que dificulta o mecanismo de entrada e saída de ar nos pulmões. Teria sua
“inspiração” artística para pintar gritos figurados partido de uma identificação com a doença?
CONCLUSÃO
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
No texto “Uma breve descrição da psicanálise” (1924), Freud faz uma projeção da expansão da teoria psicanalítica e é otimista quanto sua participação futura no combate aos males que afligem a humanidade. Por outro lado, chama a atenção de que “sozinha a psicanálise não pode oferecer um quadro completo do mundo” (Freud, S., idem: 259). Esse alerta do autor deixa pistas para pensarmos a psicanálise em conexão com outros saberes, como por exemplo a medicina.
Várias são as possíveis interlocuções que a psicanálise pode manter: onde o sofrimento do humano se expressar, ela poderá propor a sua escuta, desde que haja o analista. As palavras de Elia (2000) vêm ao encontro de nossa proposta de levar a pesquisa psicanalítica para o hospital:
“Toda pesquisa em psicanálise é clínica porque, radical e estruturalmente, implica que o pesquisador-analista empreenda sua pesquisa a partir do lugar definido no dispositivo analítico como sendo o lugar do analista, lugar de escuta e sobretudo de causa para o sujeito, o que pressupõe o ato analítico e o desejo do analista” (Elia, L., 2000: 23).
No hospital, ou em outros lugares, o analista, em ato, sustenta o que lhe permite afirmar o seu lugar de pesquisador: o seu desejo. É possível, assim, a construção de um trabalho mesmo numa clínica como a do cuidar.
Na Enfermaria de Adolescentes, centro de referência nacional para o paciente portador de doença orgânica crônica, a psicanálise participa com sua intervenção há uma década. Encontra barreiras, mas também adesões dos profissionais que, com sua obstinação terapêutica, cuidam de doentes jovens. Esse quadro geral permitiu, inclusive, a realização desta dissertação como parte integrante do eixo assistência- ensino-pesquisa, no hospital universitário.
É preciso saber reconhecer como o cotidiano hospitalar exige investimento que a dor física e psíquica requer dos que ali participam, sejam agentes, pacientes ou os que estão ao redor. Ousaríamos, a seguir, registrar com um gráfico como os
personagens de um triste romance tentam imprimir uma função específica ao seu papel. A psicanálise, como veremos, ocupa função tanto dentro quanto fora da narrativa:
O esquema permite a visualização da estrutura da Enfermaria: a psicanálise ali se insere quer como participante da equipe multidisciplinar, quer como “marginal”, por inserir-se num território alheio ao seu campo de saber. É, portanto, comum que resistências se manifestem. Cabe ao analista manejá-las: elas fazem parte de seu
ofício. As forças de tensão são permanentes num espaço que acolhe os impulsos de vida e morte.
Sabemos, desde Freud (1930), como o sofrimento físico é causa de turbulência para o homem. Canonn (1932) corrobora essa idéia uma vez que considera o corpo como “expressão de fragilidade”. Essa característica aponta para uma outra: uma vez frágil, o corpo é afetado pelos males físicos e orgânicos e, portanto, necessita de cuidados.
É na clínica do cuidar que a psicanálise encontra campo de atuação: o sofrimento de adolescentes internados exige uma escuta, que ancore a angústia do sujeito – fonte de desprazer –, através dos significantes por ele emitidos.
Verificamos como o “mandamento do amor ao próximo” é expressão daqueles que trabalham com a clínica do cuidar. Este é um recurso de que se valem os profissionais na instituição hospitalar para suportar a dificuldade de lidar com a doença em pacientes tão jovens. Diante da eminência da morte, eles experimentam a queda do ideal de profissional, o que lhes acarreta um efeito de quebra do narcisismo, pela impotência frente a questões irremediáveis. É um jogo de mão dupla: dar e receber amor, como se fosse possível apreender a ilusão de se completar no Outro pela semelhança da imagem.
Ao destacarmos o caso Fábio, a intervenção psicanalítica quis evidenciar a armadilha do amor especular, que não leva em consideração a face oculta do próximo, isto é, sua hostilidade. Casos como o dele são constantemente discutidos e mobilizam a atenção da equipe de saúde. Essa mesma postura nem sempre é averiguada com aqueles nos quais a irrupção da doença orgânica traduz estados de inibição que podem ser confundidos com as impossibilidades reais de funcionamento do corpo. O caso de Camila vem aqui como exemplo da tristeza no leito na forma clínica da depressão.
Hoje (novembro de 2001), Camila, aos vinte e um anos, continua internada na Enfermaria de Adolescentes, mas de forma diferente: voltou a exibir-se com os lábios e unhas pintados de vermelho, está estudando e aceita os cuidados necessários a algum restabelecimento; verbaliza o afeto de raiva pela mãe e já considera o fato de ir para uma instituição, como uma casa de saúde. Registramos essas mudanças como resultantes, inclusive, da insistência da psicanálise em
escutá-la. A princípio, se seu caso era considerado “perdido”, atualmente reconhecemos nela a decisão de reencontrar seus significantes primordiais e, em conseqüência, de ultrapassar sua condição física de ser identificada a um paciente crônico.
A psicanálise testemunha naquele espaço que outros pacientes, por mais desejantes, não conseguem romper a barreira da dor: sua doença é de tal forma devastadora que os leva à morte. Alice vem ratificar essa constatação e sinalizar para as confusões da abordagem psicossomática: ela não fez um câncer; seu estado subjetivo, porém, chegou a alterar seu prognóstico, estendendo seus dias de vida.
Lembramos nossa hipótese de que dor física acompanha dor psíquica. O contrário também pode ser verdadeiro, em se tratando de uma dor conversiva, como no caso de Elizabeth. Suas dores na perna cessaram após a análise com Freud (1895), pois se relacionavam a lembranças traumáticas de sua existência.
Uma vez confirmada a doença orgânica, é fato que a conturbação do estado subjetivo do paciente poderá até levá-lo ao óbito. Isso certamente aconteceu com Ricardo – fruto da falta de investimento das figuras parentais. Durante os onze meses que permaneceu internado, sofrendo as dores de queimação da eritromelalgia, gritava pela mãe para que seus gritos “acordassem” o pai, que, contudo, continuou adormecido enquanto sujeito, apesar de fisicamente presente.
Sua estadia no hospital durou o tempo de um pesadelo.
Sua segunda alta, em outubro, trazia consigo os dias contados para a volta:
sua terceira internação aconteceu apenas alguns dias depois, numa prova de abandono, mais uma vez confirmada pela equipe multidisciplinar. Em sua entrada, as pernas, a olhos vistos, estavam infectadas pela imersão no balde com água gelada – procedimento não mais indicado para o menino. Apresentava-se muito triste, com quadro depressivo, que se expressava na recusa de todo e qualquer cuidado. A preocupação dos profissionais da equipe técnica foi intensa: ele não queria comer, tomar banho, falar, ingerir os remédios. É como se tivesse, mais uma vez – e de forma irremediável –, defrontado-se com o vazio da não tradução de seu chamado pelos gritos.
A última intervenção da psicanálise com Ricardo foi no sentido de reanimá-lo;
depois de muita insistência, conseguimos fazê-lo comer e tomar banho, com a ajuda de duas auxiliares de enfermagem. Era uma tentativa – em vão – de restituir-lhe os significantes básicos: cuidar do corpo como equivalente à possibilidade de aquele ser, ainda vivente, passar de um estado de necessidade a outro de demanda (ele já não gritava mais). Além disso, mantivemos contato com a mãe, o pai, o irmão e a irmã para chamá-los à Enfermaria de Adolescentes. O cuidar do menino era imprescindível! Não tivemos resposta.
Na clínica do cuidar, a aposta da psicanálise é sempre escutar o sujeito quaisquer que sejam as circunstâncias; não deixa de intervir mesmo quando se defronta com os mais variados limites: em 22 de novembro de 2001, Ricardo veio a falecer.