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Ergonomia da Atividade

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 54-59)

O que vai ser denominado Ergonomia emerge durante a 2ª Guerra Mundial (envolvendo o processo cognitivo no trabalho dos pilotos de caça, por exemplo) e se consolida como paradigma de intervenção↔pesquisa no imediato pós-guerra (reconstrução das nações europeias- especialmente Japão e Alemanha –, plano Marshall, difusão do fordismo como modo de produzir54 hegemônico), aproveitando o tour de force tecnológico promovido pela própria guerra, pretendendo gradativamente constituir-se como a ciência do trabalho55. Reunia conhecimentos e métodos da Psicologia, Fisiologia, Engenharias, Antroplogia, entre outras disciplinas que pudessem auxiliar na consecução do projeto de contribuir para o aumento da produtividade articulado às garantias de saúde e segurança. Em outras palavras, a melhoria do desempenho global dos sistemas de trabalho tendo aquele que trabalha

53 “Epistemologia tolerante,

54 Fordismo não só enquanto “paradigma industrial” (ou princípio geral de organização do trabalho), como também “regime de acumulação capitalista” (ou estrutura macroeconômica) e enfim, “modo de regulação social (ou sistema de regras do jogo), conforme Athayde (2011).

55 Contrariamente a tal projeto, Wisner, um dos construtores da linhagem ergonômica francófona, afirmava que esta constituía-se antes de mais nada, em uma técnica e arte, do mesmo modo como a Medicina (só posteriormente se alçando à pretensão de “Ciências Médicas”) e as Engenharias (“Ciências da Engenharia”) , inicialmente (WISNER, 2003).

como referencial, o que traz para primeiro plano as questões da saúde e da segurança. É possível encontrar tanto na história como nos conceitos e práticas, duas

“escolas” ergonômicas, complementares em alguns aspectos, divergentes em outros.

Primeira, a Ergonomia dos human factors, hegemônica e de domínio anglo- saxão e estadunidense, preocupa-se com as funções humanas no trabalho (motoras, fisiológicas, cognitivas etc.) em uma perspectiva positivista de generalização e quantificação em que abstraem-se as diferenças individuais em busca do “humano médio”56 (MONTMOLLIN, 1998). Este deve adotar a postura a, trabalhar uma quantidade b de horas, sob uma luminosidade entre c e d lux, sob um nível de ruído entre e e f decibéis a uma temperatura que não ultrapasse os limites entre g e h graus, utilizando os equipamentos de proteção individual i e j da maneira determinada nos manuais, processando uma quantidade k de informações visuais e auditivas adotando o procedimento l de forma a produzir m unidades do produto n em uma hora. Isto está previamente concebido para o José e a Maria (quem são? Não importa). Estudos experimentais em laboratório (a única forma de garantir o controle de variáveis necessário ao projeto desta corrente da ergonomia) permitiram a construção de toda uma série de medidas e protocolos elaborados de forma a ajustar os diversos fatores de produção (e também produtos industrializados) ao componente humano, em praticamente todos os ramos da atividade humana, do joystick do videogame à capsula espacial soyuz, passando pelos sistemas industriais, militares, administrativos etc. Como nos coloca Laville (2007, p. 26)

Essa corrente dos human factors identifica questões colocadas pelos meios materiais de trabalho, estuda-as em laboratório, área por área, e reenvia-as para a concepção das interfaces homem-máquina sob a forma de recomendações precisas, e de normas. Procura-se assim otimizar o desempenho dos operadores humanos em termos de percepção, de decisão e de ação motora em comandos. A antropometria e a biomecânica virão progressivamente completar essas normas para concepção dos espaços de trabalho.

Os feitos da Ergonomia dos human factors são impressionantes, principalmente se for destacado que este esforço de elaboração de padrões é relativamente recente.

Além disto, como nos aponta Wisner (2003, p. 90), “a grande vantagem dessa abordagem, ainda dominante, é que corresponde à demanda da indústria, que quer fatos, conselhos precisos, resultados claramente demonstráveis, e, tudo isso sem

56 Não surpreendentemente ele irá se parecer muito com um homem caucasiano jovem.

atrapalhar o trabalho industrial”. Agradecemos pela segurança e conforto, mas em Psicologia do Trabalho & Organizacional e na atuação como psicólogo, o “humano médio” é uma abstração inexistente, infecunda. O que leva à segunda corrente, a que interessa à tese.

Desde o início da história da Ergonomia, fruto da configuração e do desenvolvimento das ciências, das lutas sociais e das forças produtivas na França e Bélgica (posteriormente no Canadá), uma corrente procura constituir-se de maneira autônoma ao projeto veiculado pela Ergonomia dos human factors. Influenciada em seu início principalmente pela Fisiologia e pela Psicologia (LAVILLE, 2007;

LACOMBLEZ et al., 2014), esta Ergonomia irá privilegiar os trabalhos de campo ao invés daqueles de laboratório e adotar uma perspectiva de análise que busca integrar as diversas funções humanas em uma abordagem sistêmica e dinâmica57. Assim, para analisar o trabalho revela-se preciso sair do laboratório, aproximando-se do local em que o trabalho acontece, em uma postura clínica. E, se a análise do trabalho é necessária há algo a aprender (e não só a ensinar e preconizar) com o próprio trabalho e, em última análise, com o protagonista do trabalho. Desta forma.

“A ergonomia francófona construiu progressivamente sua especificidade em relação à ergonomia anglo-saxã: tornou-se uma ergonomia particularmente centrada na análise da atividade estudada em situação de trabalho, ou seja a atividade situada em seu contexto técnico e organizacional e nas relações entre os constrangimentos de produção” (LAVILLE, 2007, p. 28)

Ao voltar-se para a situação de trabalho e observar mais de perto o que liga as condições materiais e organizacionais de trabalho reais aos seus resultados, esta Ergonomia irá construir a elaboração teórica que abrirá novos horizontes nos estudos e intervenções sobre o trabalho (não apenas para a própria Ergonomia), conceituando a distância inescapável entre o chamado trabalho prescrito e trabalho real, ou melhor, entre tarefa prescrita e atividade (BRITO, 2006).

Esta descoberta teórica é tão fundamental que a própria Ergonomia francófona é também conhecida como Ergonomia da Atividade. Pode-se imaginar a princípio que a conceituação dessa defasagem é bastante singela e alguns podem dizer, até, óbvia.

Sim, mas esse hiato entre o antecipadamente planejado e o feito nunca havia antes

57 A Ergonomia francófona tem como marco a obra de Faverge e Ombredane “A análise do trabalho:

fator de economia humana e produtividade”, lançada na França em 1955. Seu título já aponta para a diferença no projeto desta Ergonomia.

ganhado estatuto científico; ao contrário, estava relegado ao estigma de “erro humano” ou, eventualmente, a uma falha no funcionamento da realidade frente ao deterministicamente já determinado. Qualquer um, sem exceção, sabe por experiência própria que no campo do fazer, da atividade humana (e não só do trabalhar) nunca acontece tudo (tudo mesmo, inclusive nós) como planejado. Não se fala aqui dos resultados do trabalho ou de outra atividade humana qualquer, mas sim do que se faz e do como se faz quando se está fazendo alguma coisa que se havia planejado (ou haviam planejado para quem faz) fazer de uma determinada maneira.

No entanto, temos toda uma linhagem filosófico-científica baseada nesta ideia da possibilidade da previsibilidade absoluta, inclusive do ser-fazer humano. A Física quântica, a Teoria do caos e a Filosofia da diferença aí estão para afirmar o acaso (os devires) como a fissura nesta muralha, como aquilo que se desvia do mesmo e produz o diferente, o impensado, o nunca visto. Assim nas pequenas partículas-onda subatômicas e seus comportamentos de natureza probabilística e não determinística, assim nos sistemas complexos não-lineares e sua imprevisibilidade intrínseca, assim nos devires dos seres e seus encontros produtores de multiplicidades nunca totalmente apreensíveis. Assim na atividade humana.

Ao longo do último pouco mais de meio século, a Ergonomia da Atividade foi construindo seu principal método, a Análise Ergonômica do Trabalho – AET (WISNER, 2003; GUERIN et al., 2001). Talvez seja mais preciso falar em metodologias, como propõe Wisner, destinadas a examinar a complexidade, sem colocar em prova um modelo escolhido a priori. Propõe o autor que a AET seja considerada como um método geral das ciências humanas, um método ascendente ou bottom up, utilizado para responder a questões precisas e orientado para a proposição de soluções operatórias. Métodos de análise e intervenção nas situações de trabalho (FALZON, 2007). Isto sem perder de vista seu duplo objetivo: centrado nas organizações e seu desempenho (eficiência, produtividade, confiabilidade, qualidade etc.); centrado nas pessoas (saúde, segurança, conforto, prazer, satisfação, desenvolvimento etc.). Mas nem sempre é fácil (ou possível) servir a dois senhores... Como não é mesmo fácil, é preciso a formação de profissionais competentes, experientes, implicados na afirmação da vida e ousados neste mister.

Em termos metodológicos a Ergonomia caracteriza-se então por constituir-se na perspectiva do “cada caso é um caso”58, no foco da singularidade de cada caso concreto. Todavia, pode-se afirmar com segurança que há um prescrito. Este método de base é o que dá o enquadramento e distingue a AET de outras abordagens. A intervenção ergonômica acontece em etapas relativamente bem caracterizadas (WISNER, 2003; GUÉRIN et al., 2001; ST-VINCENT et al., 2011) que, no entanto, não compõem uma receita (“de bolo”), já que, como deixa claro Schön (1982 apud FALZON; 2007, p. 16), “na prática real, os problemas não se apresentam ao profissional como dados, eles devem ser construídos a partir dos elementos das situações problemáticas que são intrigantes, preocupantes, incertos.”

Em uma perspectiva relativamente linear e teleológica, ter-se-ia, grosso modo, durante a AET os seguintes passos, nunca inteiramente em sucessão linear:

 Análise da demanda

 Análise global da organização (ambiente técnico, econômico e social, características da população de trabalhadores etc.)

 Escolha das situações de análise

 Análise das atividades e das situações de trabalho

 Elaboração de um pré-diagnóstico

 Restituição e Validação

 Diagnóstico local e global

 Recomendações de mudanças a imprimir (ou Caderno de Encargos) A ação ergonômica pode ter continuidade caso os clientes-demandantes acolham as propostas de mudança. Neste caso far-se-á novo contrato, envolvendo a coordenação da sua implementação ou apenas seu acompanhamento. Registre-se que, ainda mais quando desse momento da ação ergonômica, os diferentes atores da produção tornam-se, de fato, os protagonistas. São eles que garantem ou não qualquer sucesso nas mudanças buscadas. Daí a construção do “paradigma da formação para e pela ação”, do “formar(-se) para transformar o trabalho” (TEIGER;

LACOMBLEZ, 2013).

58 Pode ser um clichê, mas pode ser também uma boa definição de imanência (TADEU et al., 2004)

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 54-59)