• Nenhum resultado encontrado

Uma atuação implicada (implicante?)

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 80-83)

O tema das implicações é aquele que definitivamente coloca em questão os

“ideais” da objetividade, da neutralidade e da imparcialidade do conhecimento e do pesquisador e que define a direção clínico-política do trabalho (KASTRUP, 2009).

Assumir como projeto ético-epistemológico e teórico-metodológico (estético e político) que o pesquisador é parte indissociável do processo pesquisante, afetando e sendo afetado de múltiplas maneiras, é condição essencial para o projeto de pesquisa aqui avançado. A Análise Institucional francesa, principalmente através de figuras como Lourau e Lapassade, forjaram o conceito de implicação (LAPASSADE; LOURAU, 1972; LOURAU, 1975), “escândalo da Análise Institucional”, a partir daquele de contratransferência, oriundo da Psicanálise.

Entende-se aqui o conceito de implicação (ou implicações, como nos parece mais coerente) e sua(s) análise(s), como fundamental em nossa proposta de pesquisa, pois legitimador do próprio projeto de cientificidade da pesquisa↔intervenção (LOURAU, 1993; RODRIGUES, 1987; 2013; BAREMBLITT, 2002; PAULON, 2005; ROCHA; DEUSDARÁ, 2010).

Em oposição ao intelectual crente na linha positivista, pretensamente neutro, aquele que opera com a abordagem da Análise Institucional irá propor o intelectual implicado71, definido como aquele que analisa as implicações de suas pertenças e referências institucionais, analisando, também, o lugar que ocupa na divisão social do trabalho, da qual é legitimador/partícipe (LOURAU, 1972). Portanto, analisa-se o lugar que se ocupa nas relações sociais em geral e não apenas no âmbito da intervenção

71 Gramsci (2002) põe em análise a questão do intelectual, em especial do chamado “orgânico”).

que está sendo realizada; e ainda os diferentes lugares que se ocupa no cotidiano e em outros locais da vida profissional; em suma, na história.. Logo, não se trata aqui de preferências ou gostos, não é uma atividade confessional.

Aqui não se crê na ilusão positivista do cientista pairando fora (e acima) dos fenômenos pesquisados (em posição de exterritorialidade, diria Schwartz, 2004). Se esta ilusão (e tecnologia de saber-poder, de produção de subjetividade no campo social) produziu e produz muitas informações, conhecimento e tecnologia, nem por isto deixa de ser uma ilusão (o sol percorre o céu?). E se é possível sustentá-la e mantê-la ao estudar as características físico-químicas, ou de condutibilidade e a datação por carbono 14 de determinada pedra encontrada onde quer que seja, quando humanos estudam e intervêm sobre condutas humanas, a situação se complexifica em uma magnitude que tal postura necessariamente implica um reducionismo atroz (MORIN, 2015). Ainda, especificamente no trabalho (na pesquisa) com outros atores, isto traz também implicações outras. A própria presença e as ações do profissional-pesquisador interferem no campo e o campo interfere no pesquisador.

Não é possível realizar o tipo de distinção clássica entre sujeito e objeto de pesquisa, pois se os demais participantes (que não são pesquisadores profissionais) são co- laboradores72 ativos da pesquisa, são também, por óbvio, sujeitos da pesquisa; e se os pesquisadores também se transformam no processo pesquisante (e isto deverá ser incorporado aos materiais de análise) são também seu objeto. Os termos que aí estão se relacionam de maneira mais complexa do que esta distinção pode dar conta. Os papéis são diferentes, claro. Desta forma,

A análise aqui se faz sem distanciamento, já que está mergulhada na experiência coletiva em que tudo e todos estão implicados. (...) Todo conhecimento se produz em um campo de implicações cruzadas, estando necessariamente determinado nesse jogo de forças: valores, interesses, expectativas, compromissos, desejos, crenças etc. (PASSOS; KASTRUP;

ESCOSSIA, 2009, p. 17)

Certamente é ponto relevante a ser problematizado o fato de a Equipe de pesquisa (os trabalhadores da Gerência de Relacionamento) fazer parte, como trabalhadores assalariados, da mesma empresa que as equipes clientes-usuárias dos serviços de intervenção↔pesquisa, ainda que de setores diferentes; outro ponto

72 “Colaboradores”: não se trata aqui do vocábulo como recentemente capturado pela indústria do eufemismo empresarial, em parte reconhecendo que se trata sim de colaboração, por outra parte incorporando-o ao discurso de forma manipulativa.

significativo é o fato de os serviços que estão no foco da pesquisa serem prestados sob o enquadre organizacional. Isto por vários motivos que têm a ver com os limites e potencialidades dos próprios serviços, bem como com as condições de possibilidade de sua efetivação. Serão aqui tratados alguns.

Em primeiro lugar, os trabalhadores da Unidade prestadora do serviço (a Gerência de Relacionamento) e das várias Unidades clientes-usuárias (como será visto nos próximos capítulos) eram colegas de trabalho na empresa, suas relações tinham implicações que são de ordem diferente daquela instituída no trabalho de intervenção, possuindo, inclusive, outra temporalidade. Todos estavam sob contrato empregatício com a empresa antes, durante e depois das intervenções. As hierarquias não se anulavam ao longo do processo de intervenção, embora este fosse o prescrito (com trabalhadores da Equipe de pesquisa em nível hierárquico da empresa mais baixo do que os executivos das equipes clientes-usuárias). Neste sentido, observa-se que as relações sempre possuem certo tensionamento que em alguma medida desconforta a todos, ainda que em nível de traço.73 Alguns dos trabalhadores participantes já se conheciam antes do serviço de pesquisa↔intervenção, chegando a ter relações pessoais para além do estritamente profissional. Ao longo dos processos, ocorreram entre os trabalhadores outras situações de interação profissional, para assuntos diferentes que também faziam parte da “carteira de serviços” da Gerência de Relacionamento74. A Equipe responsável pelos processos de pesquisa↔intervenção prestava serviços às Unidades clientes-usuárias, sendo cada trabalho realizado uma oportunidade de melhor transformar↔compreender a situação da Unidade cliente-usuária para uma relação que é anterior e persistirá após o término da intervenção.

Estamos falando de relações concretas entre pessoas reais, com sua polifonia e cacofonia característicos.

73 Como algo que nem se nota, ou quase. Algo do campo das sensações, das intensidades, dos afetos. Mas está sempre lá.

74 Desde demandas individuais (como por exemplo, a de transferência para outro setor da empresa ou para a realização de cursos) a organizacionais (apresentação para os Executivos-chefes e assessores da área sobre o processo anual de promoção coordenado pelo Setor de RH).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 80-83)